segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A relação direta entre a economia brasileira e suas tragédias socioambientais

A relação direta entre a economia brasileira e suas tragédias socioambientais

 

Por Alessandra Leles Rocha   

 

Gostaria que fosse; mas, não é uma mera impressão, o fato de o Brasil do século XXI permanecer reproduzindo as mesmas bases econômicas que constituíram o seu período colonial (de 1530 a 1822). Uma colônia de exploração que se caracterizou pelo extrativismo mineral e vegetal, e pela produção de monocultura exportadora.

Desse modo, a estrutura econômica brasileira contemporânea permanece fortemente baseada no extrativismo mineral e nos grandes latifúndios do agronegócio, com suas monoculturas, perpetuando um modelo exportador de commodities. O que significa um padrão baseado na produção e venda em larga escala de matérias-primas, sejam elas agrícolas, minerais ou energéticas, com baixo valor agregado para o mercado internacional.

Algo que reflete na dependência externa, na concentração enviesada de terra e renda, gerando desigualdades sociais, impactos ambientais e subordinando o desenvolvimento nacional às oscilações de preços globais. Sem contar, que a transferência industrial se torna freada por uma estrutura que privilegia o setor primário em detrimento de uma indústria diversificada e tecnologicamente avançada.

Nesse cenário, então, a orientação de exportação centrada em produtos de baixo valor agregado, as chamadas commodities, limita a complexidade econômica, inibindo a difusão tecnológica e a inovação no tecido produtivo. Além de gerar menos empregos, de concentrar renda nas mãos de uma ínfima minoria do estrato social, a economia torna-se extremamente dependente de ciclos internacionais de preços, o que compromete o planejamento de longo prazo e a consolidação da estrutura industrial.

Mas, um aspecto que merece uma atenção especial diz respeito ao modelo de exportação de commodities minerais, um dos pilares da economia brasileira, representando um item essencial para o superávit comercial, tendo na mineração de ferro, ouro e cobre a sua liderança.

Afinal, ele oculta uma série de atrasos estruturais, tais como a dependência tecnológica internacional, a fiscalização ambiental insuficiente e ineficiente, a deficiência de infraestrutura e a reprimarização da pauta exportadora, ou seja, o aumento da participação de produtos básicos, commodities agrícolas e minerais, nas exportações em detrimento dos produtos manufaturados de alto valor agregado.

Portanto, esse modelo transforma o patrimônio natural brasileiro em riqueza específica para poucos, enquanto nacionaliza os prejuízos sociais e ambientais. Haja vista que, secularmente, ele tem gerado graves prejuízos socioambientais, destacando-se a contaminação hídrica e do solo por rejeitos e metais pesados, o desmatamento, a destruição de habitats de espécies da fauna e da flora, além de conflitos territoriais com povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Primeiramente, porque a dependência excessiva de commodities minerais torna a economia brasileira refém dos preços internacionais e da demanda, gerando instabilidade macroeconômica e dificultando o desenvolvimento socioeconômico sustentável. Segundo, porque a legislação brasileira sobre mineração é considerada defasada por perpetuar um modelo primário-exportador de baixo valor agregado, focando na extração bruta das commodities, gerando todo tipo de vulnerabilidade econômica e impactos socioambientais. Isso ocorre devido a legislação que, por vezes, facilita a exploração em áreas sensíveis, priorizando o patrimônio da União (art. 20 da CF/88) sobre as comunidades locais.

Fato que vulnerabiliza diversas regiões, a partir de impactos socioambientais negativos, tais como eventos antrópicos, capazes de causar danos significativos, incalculáveis ​​e de difícil reversão aos ecossistemas, à biodiversidade e às comunidades humanas, e o desenvolvimento desigual, onde a atividade mineradora produz um alto PIB (Produto interno Bruto), mas baixos índices de desenvolvimento humano (IDH).

De modo que a mineração cria territórios de conflito, pressão sobre locais e degradação de ecossistemas para atender as demandas internacionais, fazendo com que as falhas estruturais na fiscalização e na legislação, transformem crimes socioambientais em acidentes. O modelo consolida o lucro para poucos e o desastre ambiental para muitos, evidenciando uma flagrante inexistência de justiça ambiental, no Brasil.

Os desastres contemporâneos da mineração brasileira, como os rompimentos de barragens em Mariana/MG (2015) e Brumadinho/MG (2019), e a contaminação hídrica e por rejeitos de bauxita em Barcarena/PA (com destaque na série histórica entre 2003 e 2018), dão a dimensão real do que significa a perpetuação histórica desse modelo atrasado de extrativismo mineral.

Aliás, ontem, 25 de janeiro de 2026, quando a tragédia socioambiental ocorrida em Brumadinho completou 7 anos, após chuvas intensas atingirem a região de Congonhas/MG, houve o rompimento de um reservatório responsável por reter água com sedimentos de uma cava de mina, um tipo de cratera artificial aberta para extração de minérios, pertencente a uma grande mineradora1.

É preciso entender que a escolha do método de contenção de rejeitos e efluentes pela atividade mineradora reflete uma priorização de custos sobre a segurança. Bem como, áreas de mineração intensiva acabam por se tornar territórios de sacrifício, onde o risco é concentrado localmente para beneficiar o desenvolvimento econômico externo.

Acontece que a ideia de que o risco da atividade mineradora é concentrado localmente não é verdadeira. Apesar de se tentar reduzir a um ponto geográfico específico, os danos ambientais e os sociais, eles se propagam inevitavelmente por vastas regiões, ignorando as políticas de fronteiras. Por isso, uma falha local pode gerar crises de desabastecimento em setores industriais distantes, demonstrando que a instabilidade do setor minerador é um risco compartilhado globalmente. O preço socioambiental da mineração é, portanto, um ônus coletivo, mesmo que a operação seja pontual.

Daí a urgência de uma reflexão profunda sobre o modelo do extrativismo mineral no Brasil. Diante do recrudescimento das mudanças climáticas, através dos seus diferentes eventos extremos e distribuição planetária, como chuvas intensas e secas prolongadas, não há como negar a ocorrência de uma fragilização decorrente da deterioração dos sistemas de contenção, ou seja, as barragens e pilhas de rejeitos de mineração. Esses processos tendem a elevar o risco de colapsos, de desastres socioambientais, ameaçando comunidades, a biodiversidade e a segurança hídrica; bem como, gerando a desterritorialização e a injustiça ambiental.

Já não restam dúvidas, então, de que esses desastres são exemplos de incertezas fabricadas, onde o avanço tecnocientífico gera riscos incalculáveis ​​que o próprio sistema não consegue gerenciar agressivamente. A influência política das grandes corporações vem resultando em processos de licenciamento ambiental muitas vezes considerados frouxos ou pouco fiscalizados, o que permite a consolidação de um cenário de impunidade onde as anormalidades são trivializadas, banalizadas, como operações cotidianas. Portanto, estamos diante de um risco sistêmico produzido pela organização social e econômica do setor, no Brasil.



1 https://www.youtube.com/watch?v=K0fMM9RmFyc  (Prefeito de Congonhas: “Estimativa do vazamento é 220 mil m³ de água”).