quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Tudo normal???


Tudo normal???

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A lógica é simples, antes de considerar “tudo normal” coloque-se dentro do contexto e sinta se você caberia nele ou não. É desse modo que as perspectivas vão se transformando e os seres humanos vão compreendendo a vida com mais clareza, mais objetividade, mais empatia. Afinal, há um relativismo imenso em pensar que isso ou aquilo só acontece com o outro, só pertence ao outro, como se você não pudesse também ser visto como outro. Não é à toa que as reflexões em torno dessa questão me parecem cada vez mais fundamentais.

Já faz algum tempo que a humanidade vem pisando fora dos limites, extrapolando as fronteiras e acirrando os ânimos de uma maneira bárbara e cruel, sem medir o peso das consequências. Tudo porque um movimento de trivialização, de banalização, de normalização, decidiu controlar a sociedade sob o pretexto infeliz de ser considerado um “denominador comum” para as diferenças.

Acontece que não houve discussão, não houve debate, não houve quaisquer trocas argumentativas, a esse respeito. De repente, alguém, que não se sabe quem, estabeleceu que seria assim e pronto. E o efeito manada da sociedade fez o resto. Cada desafio, ou obstáculo, ou tensão, que emergisse no ambiente era, logo, deslocado por ações que o fizesse ser incorporado ao cotidiano sem maiores distúrbios. Para muitos, uma economia de tempo, de energia, de linguagem, sem igual.

Mas, será? No fundo, esse “normalizar” tem um quê muito forte de homogeneização social, que naturalmente se desdobra em silenciamento, em alienação, em manipulação, em controle, em padronização; enfim, na deterioração da identidade individual. Sem se dar conta, as pessoas são levadas a pensar igual, a agir igual, a querer igual, a sonhar igual, a consumir igual, ... se tornam autômatas a partir de discursos e narrativas construídos para esse fim.

Então, lentamente, o ser humano vai perdendo a sua criticidade, a sua criatividade, a sua inventividade, por pura falta de espaço social para aplicá-la. A vida entra em um estado de total roteirização. Tudo é pré-definido, preestabelecido, basta seguir. Como se nenhuma mudança fosse necessária ou importante. Aliás, como se o mundo não tivesse sob constante imposição de transformação.

Nesse sentido, as próprias tecnologias mais high tech do momento não escapam de se tornar instrumentos hábeis para essa perda identitária. Aguçando os sentidos para uma idealização de tudo e de todos, a partir de parâmetros que beiram à perfeição, que limitam as possibilidades de erro, de incompatibilidade, de desajuste. Tornando as metamorfoses naturais da vida, um caráter quase vestigial e desnecessário.

A questão é que tudo isso não passa de ilusão. Não é possível, de fato, redefinir, reformular, a existência a esse nível. O que está em curso é uma flexibilização para alargar o ideário, o imaginário, o desejo que não cabe na estrutura da realidade. A “normalização” invisibiliza, esconde, mascara; mas, não o suficiente para apagar por completo as imperfeições. Hoje, mesmo, uma das manchetes do dia era sobre uma “doméstica resgatada em casa de pastor após 32 anos em situação análoga à escravidão” 1.

A sensação que eu tenho é que essa ideia de considerar “tudo normal” tem gerado, na verdade, um efeito contrário. As anomalias sociais parecem cada vez mais saltar aos olhos, não só por estamparem amiúde os veículos de informação e comunicação; mas, porque há um visível esgotamento e incapacidade de manter tudo distante da retina. Assim, o efeito cumulativo da “normalização” trouxe à tona toda a sua toxicidade, a sua repugnância, o seu desconforto, por meio de uma onda de indignação. Pena, que ainda bem menos barulhenta do que se gostaria de imaginar.

Embora, ainda não tenha atingido proporções suficientes para abarcar por completo o coletivo, ela não é menos significativa ou relevante. Muito pelo contrário, essa onda é sim, um sinal de que nem tudo está perdido, que o jogo não acabou. A vida em seu sentido pleno resiste pulsando por aí. Fazendo mover corações, almas e corpos a seu favor, por meio da consciência e do respeito às diferenças, as especificidades, as individualidades, aos direitos e aos deveres. Mas esse é um trabalho de formiguinha, lento, gradual.

Infelizmente, ainda há quem considere que seres humanos matem a fome com pés de galinha e ossos de boi, como algo normal. Ou que espanquem alguém até a morte. Ou que escravizem. Ou que ateiem fogo por aí. Ou que humilhem. Ou que se apropriem indevidamente de bens e riquezas alheios. ...

O bom é que em razão do recrudescimento dessas manifestações de inconsciência, de desumanidade normalizadora, a agitação tem feito a onda crescer. E nesse contínuo do tempo, das horas, que a contemporaneidade assiste perplexa, o mar vai ficando cada vez mais revolto, mais intenso, na expressão das suas ondas de transformação, de evolução. Como se os silêncios não coubessem mais dentro das pessoas. Como se a inação não pudesse mais existir. Simplesmente, porque de algum modo se descobriu que o “normal” é tudo aquilo que não se conhece em profundidade.