terça-feira, 23 de março de 2021

Bom senso é o que clama o Censo


Bom senso é o que clama o Censo

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Em um país onde a consciência cidadã ainda permanece incipiente, as opiniões acerca do Censo Demográfico tendem a estar comumente distantes das grandes preocupações nacionais. Mas, não deveria. Essa ferramenta estatística é fundamental para saber onde e como está o país e para qual direção ele pretende seguir. É, caro (a) leitor (a), políticas públicas dizem respeito a todos. Pobres. Ricos. Letrados. Não letrados. Enfim...

O último realizado no Brasil foi em 2010. Geralmente cada censo apresenta o panorama de uma década, por trazer um recorte temporal interessante às transformações sociais, as quais costumam demandar esse limite razoável para acontecer. De modo que o próximo Censo deveria ter ocorrido em 2020; mas, em razão da Pandemia, foi adiado para 2021.

Tomados pela hipotética ideia de que o Sars-COV-2 já teria ido embora e o país estaria respirando a plenos pulmões, eis que a realidade foi bem outra. Agora, o Censo está ameaçado de não acontecer, dadas as restrições orçamentárias severas que lhe foram impostas. E aí, como é que fica?

Uma enorme lacuna no perfil sócio-histórico do país. Situação que não só retira a fundamentação para a proposição de políticas de interesse nacional, como contribui para omitir as realidades inconvenientes que emergiram no período, como é o caso daquelas relacionadas à Saúde Pública. Não nos esqueçamos de que, nos últimos dias, se aventaram questionamentos sobre a fidedignidade estatística dos óbitos pela COVID-19. É por essas e por outras, que o Censo Demográfico precisa acontecer, para dirimir eventuais dúvidas, equívocos e contradições.

Seus dados são um documento público oficial, um registro de consulta para qualquer cidadão, pesquisador ou não, que queira se inteirar de informações tanto macro quanto micro do país. Sim, porque o Censo não traz só os dados gerais da União; mas, dos Estados, Municípios e Distrito Federal. São coletadas informações a respeito, por exemplo, das características dos domicílios, identificação étnico-racial, nupcialidade, núcleo familiar, fecundidade, religião ou culto, deficiência, migração interna ou internacional, educação, deslocamento para trabalho, mortalidade. Portanto, é uma forma particular de dissecar o país, a partir da exatidão numérica.

Tendo em vista a ruptura socioeconômica promovida pela Pandemia, mais do que nunca os dados do Censo tornam-se vitais para o planejamento estratégico das ações em curto, médio e longo prazo. São eles que irão delinear as perspectivas que melhor se adequam a realidade, abandonando os casuísmos e achismos que, frequentemente, expõem a riscos e prejuízos de grande repercussão social.

O Censo Demográfico é como um mapa a guiar a sociedade. Seus números dão voz as demandas e criam escalas de prioridades a serem supridas. É através do seu questionário que o Censo oportuniza a visibilidade aos cidadãos. Porque, embora se trate de uma amostragem estatística da população, ou seja, um percentual do contingente atual, dada a sua aleatoriedade é possível garantir a diversidade e a representatividade nas informações.

Como escreveu Émile Durkheim, sociólogo francês, “a construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios – sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento – que balizam a conduta do indivíduo num grupo. O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela”. Portanto, o Censo Demográfico é, independentemente de qualquer discussão, uma ferramenta imprescindível para esse processo.

Sendo assim, não se pode criar pretextos para desconsiderar sua realização e, nem tampouco, o resultado dos dados obtidos. Porque isso seria permitir à sociedade vagar às cegas, sob uma perspectiva limitada de interesses nada plurais, prejudicando o bem-estar e a sobrevivência da totalidade dos cidadãos; sobretudo, dos mais vulneráveis. Em suma, seria apenas mais um modo estranho de se lançar a história nacional ao insondável abismo do obscurantismo social.


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