segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
domingo, 6 de dezembro de 2020
A contemporânea linguagem tóxica
A contemporânea
linguagem tóxica
Por Alessandra Leles
Rocha
Chamam-me de curiosa. Acho graça; mas, sou obrigada a
concordar que minhas “antenas” estão
sempre ligadas na observação do mundo e da vida. Sim, adoro me inteirar sobre
tudo o que possa ser útil, que possa ser um facilitador real dos caminhos;
afinal, saber o lugar exato onde colocar os pés pode evitar dissabores. Então,
parece-me impossível transitar de olhos fechados e mente dispersa diante do cotidiano;
sobretudo, agora, em tempos tão absurdamente controversos e desafiadores.
Em meio ao caos que flameja entre nós, algo começou a povoar
os meus sentidos e trazer uma reflexão bastante oportuna. Muito mais do que a
verborragia, por si só, está na toxicidade a grande ameaça das linguagens
contemporâneas. Palavras podem sim ser extremamente tóxicas e letais, porque
elas expressam o que há de mais profundo na subjetividade humana.
Assim como um vírus precisa dispor de um mecanismo de
acoplagem no seu hospedeiro para dar vazão à sua virulência, as palavras também
dispõem de seus mecanismos particulares de conexão. Não é só o grau de
entonação, ou a expressão corporal, ou a imagem visual que a acompanhe ou
transmita, ou o momento temporal do discurso. É fundamental que ela encontre um
receptor ideal para desencadear um processo nocivo de significação. A mente
humana é um mistério. O porquê, como e quando reagimos as palavras é, desse
modo, muito particular.
Enquanto o COVID-19 é uma ameaça real, embora invisível, o
sentimento de desconforto e temor por ele fomentado gera uma preocupação
perceptível que não encontra a mesma intensidade em relação as palavras,
discursos e narrativas que circulam entre nós. Sem nos darmos conta, a verdade
é que a humanidade está sendo minada em duas frentes distintas. Pessoas podem
adoecer e morrer pelo vírus; mas, também, pelas palavras.
Ora, palavras ferem... algumas vezes, tão profundamente que
podem matar. Quantos suicídios não decorrem de palavras? Já pensou sobre isso?
A questão da saúde mental, que tanto se discute mundialmente nas últimas
décadas, perpassa diretamente pela toxicidade ou não das linguagens do mundo
contemporâneo. Tendo em vista que a existência humana se baseia em um convívio
dialógico, é inevitável que as palavras exerçam impactos importantes no campo
do equilíbrio emocional, afetivo e comportamental, podendo inclusive
desencadear doenças.
Transtornos de ansiedade, Síndrome do Pânico, Depressão,
Bulimia, Anorexia, Dismorfia corporal, ... são alguns exemplos conhecidos e em
franca expansão na contemporaneidade. Isso significa que cada indivíduo
presente na sociedade precisa dar a devida atenção a esse assunto. É preciso
entender que nem sempre as pessoas têm uma consciência plena a respeito das
suas vulnerabilidades e do grau de acometimento em relação a elas.
Aliás, isso decorre em grande parte do próprio discurso
promovido pela sociedade que bane os considerados “frágeis”, “sensíveis”,
“arredios”, “esquisitos” etc. A partir dessa narrativa segregadora, a
toxicidade das palavras pode ser facilmente percebida. A questão, então, é
escolher permanecer ou continuar na mesma conduta; pois, se não dispõe de nada
edificante e produtivo a dizer, melhor silenciar.
E como dito desde o início, as pessoas ainda não se deram
conta da dimensão desse mal. Atribuem toda a sua verborragia Pós-Moderna ao
campo da brincadeira, da chacota, como algo sem importância, sem repercussão;
quando, na verdade, não foi, não é, e nunca será. Comportamento que não passa
de uma tentativa desastrada de se abster de uma responsabilidade ética e moral
dentro do conjunto da sociedade.
Independentemente se doentes ou não pela COVID-19, a
humanidade encontra-se, portanto, intoxicada por uma avalanche de palavras pesadas,
irrefletidas, despejadas sem o menor critério ou cuidado. A consequência é que
as repercussões vão retroalimentando um grande círculo e expandindo o alcance
daquilo que é tóxico, nocivo. As palavras ferinas, amargas, destrutivas chegam,
hoje, por fontes diversas e o tempo todo. Tudo é pretexto. Tudo é desforra.
Tudo é desaforo. ... Como se pudessem bombardear o mundo em uma guerra
imaginária, delirante.
Por isso, apesar de todos os pesares, adoro quando vejo gente aspergindo doçura, beleza e encantamento por aí, através das palavras. Estão semeando o bem em terreno minado, eu sei. Mas isso, ainda, me conforta e me traz alguma esperança. Sinto como se houvesse uma legião de lúcidos que se mantêm focados e obstinados em não se contaminar, em não beber da fonte da contemporânea linguagem tóxica. Afinal, compreendem que “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós. ” (Antoine Saint-Exupéry – O Pequeno Príncipe); o que significa que é oportuno que as palavras a serem ecoadas e perpetuadas no tempo e no espaço não sejam, então, ruins.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
Os novos discípulos de São Tomé
Os
novos discípulos de São Tomé 1
Por
Alessandra Leles Rocha
A ideia de que
a ignorância absolve, no que tange a falta de conhecimento sobre um determinado
assunto, não me parece disponível para aplacar a consciência de uns e outros
que caminham pela vida no modo “avestruz” de ser. Afinal, olhos são para enxergar. Cérebro para
pensar. Emoções e sentimentos para
sentir. Então... Em pleno século XXI, quando as informações ultrapassam as
cifras das milhares por segundo, mesmo que “en
passant”, algo deveria ficar retido na retina e na memória ainda que
superficialmente.
Isso evitaria constrangimentos
maiores nas rodas de conversa pública e/ou privada. Aliás, porque não bastasse
essa avalanche de notícias que são derramadas sobre nós, a escola desde a mais
precoce idade faz parte do nosso processo de aprendizagem e construção de
conhecimento. Certamente lá, entre doutos mestres e fabulosos livros, há de se
ter absorvido muito ao longo dos anos de frequência e expandido as fronteiras
do intelecto.
Então,
somando-se as lições da vida e da escola todo ser humano tende a sair com um lastro
razoável de conhecimento razão, pela qual, fica impedido de exibições gratuitas
de desinformação em nível de mais puro deboche e escárnio. Sobretudo, quando o
assunto em discussão perpassa as mazelas sociais brasileiras. Presentes há
séculos, elas não deveriam mais ser motivo de quaisquer manifestações no campo
do espanto ou estranhamento.
Haja vista a descrição
perfeita que Manuel Bandeira fez sobre a pobreza e a miséria humana, no seu
poema O Bicho, de 1947. Ele escreveu: “Vi
ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. / Quando
achava alguma coisa, / Não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. /
O bicho não era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato. / O bicho, meus
Deus, era um homem.”.
Ora, a ex-colônia
portuguesa nasceu e se criou nos braços das desigualdades. Portanto, a miséria
e a pobreza sempre tiveram espaço cativo entre nós. São conjuntamente a
emblemática linha divisória que demonstra a importância e a desimportância social
traduzida na construção das classes e subclasses no país. É daí que surge a
invisibilização segmentária, a qual não reflete apenas uma eventual impossibilidade
de enxergar visualmente determinados grupos; mas, em mantê-los obscuros na
conquista da sua dignidade, da sua cidadania. Porque ao se reconhecer uma
questão ela passa, obrigatoriamente, a demandar uma solução e isso, quase
sempre, no campo social se traduz em custos.
Desse modo o
país foi fazendo “vista grossa” para
legiões e legiões de pobres e miseráveis. Porque é importante explicar que a pobreza
e a miséria, por serem reflexos da condição social, expressam a diversidade
identitária no país. Elas não são as mesmas, portanto, em todas as regiões geográficas;
há especificidades importantes que as distinguem umas das outras, embora isso não
possibilite entendê-las em gradação do malefício que fomentam e/ou desenvolvam.
Quaisquer que sejam as definições a seu respeito, pobreza e miséria serão
sempre os patamares mais degradantes do processo de existência humana.
Sim. No mundo
das dicotomias se há alguém na pobreza ou na miséria certamente haverá alguém
na riqueza; o que significa que a distribuição da dignidade não foi, nem ao menos,
próximo da igualdade e da equidade. Alguém se beneficiou de regalias e privilégios
enquanto outros estiveram à mercê da piedade, dos restos alheios, inacessíveis aos
seus direitos básicos fundamentais. Nesse sentido é importantíssimo ressaltar que
a condição de pobreza e miséria, então, oportuniza a privação do próprio
reconhecimento social de muitos deles, ou seja, não dispõem de documentos que
reafirmem a sua existência cidadã.
Tudo isso
significa que essas pessoas foram transformadas em cidadãos de última classe
que vagam centenas de passos atrás do progresso e do desenvolvimento bradado
país afora. A sua história é sempre a mesma, na medida em que suas horas, seus
dias, seus lugares são sempre os mesmos. Como se estivessem fixados pelas teias
da imobilidade para serem consumidos lentamente pelas traças dos infortúnios
somatizados.
Entretanto, se
é possível discorrer tanto a seu respeito é porque esses seres humanos existem.
Mesmo que visíveis apenas no contorno desbotado de imagens em baixa definição, como
espectros fantasmagóricos de uma realidade macabra; eles existem. Nem precisa
ir tão longe para verificar sua presença. Estão nas esquinas. Nos cortiços. Nas
favelas. Nas palafitas. Nos lixões e vazadouros de todo o país, apesar da lei
que estabeleceu a Política Nacional de Resíduos Sólidos no Brasil (Lei n. º12.305,
de 02 de agosto de 2010). Coexistindo, circulando e transitando entre nós...
Não adianta
fechar os olhos. Não adianta se refugiar na sua bolha. Não adianta.... Como escreveu
o poeta e romancista alemão Henry Charles Bukowski, “Talvez a miséria tenha chegado. Não se pode viver da própria alma. Não
se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia. É o início
do Declínio e da Queda do Ocidente, como Spengler 2
dizia. Todo mundo é tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente
começou. Eles matam gente aos milhões nas guerras e dão medalhas por isso. Metade
das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado
vendo TV”.
Embora seu viés
de pensamento decorresse da Segunda Guerra Mundial, sua reflexão nos cabe
perfeitamente em tempos de guerra contra um diminuto inimigo viral. A Pandemia indiretamente
chegou sim, questionando as práticas político-econômicas vigentes e revelando
as dimensões da pobreza e da miséria existentes e a existir. Queiram ou não
aceitar paira sobre nós uma imposição no que diz respeito a definir novas rotas
de curso.
É preciso
mudar. Abandonar velhas práxis. Redesenhar a coexistência para garantir a sobrevivência.
Afinal de contas, se a base da pirâmide ruir, inevitavelmente, o topo não se
sustentará mais. Por isso, atentem-se as obviedades do mundo; pois, pior que a pobreza
e a miséria material é a pobreza e a miséria de espírito, a qual só faz demonstrar
a carência de ética e moral do ser humano.
1 Foi um dos doze apóstolos de Jesus
Cristo e seu nome está ligado à expressão “Ver para crer”; visto que, ele
desacreditou da ressurreição de Jesus porque não estava presente.
2 Oswald Arnold Gottfried Splenger. Historiador e Filósofo alemão. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Oswald_Spengler


