domingo, 6 de dezembro de 2020

A contemporânea linguagem tóxica


A contemporânea linguagem tóxica

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Chamam-me de curiosa. Acho graça; mas, sou obrigada a concordar que minhas “antenas” estão sempre ligadas na observação do mundo e da vida. Sim, adoro me inteirar sobre tudo o que possa ser útil, que possa ser um facilitador real dos caminhos; afinal, saber o lugar exato onde colocar os pés pode evitar dissabores. Então, parece-me impossível transitar de olhos fechados e mente dispersa diante do cotidiano; sobretudo, agora, em tempos tão absurdamente controversos e desafiadores.

Em meio ao caos que flameja entre nós, algo começou a povoar os meus sentidos e trazer uma reflexão bastante oportuna. Muito mais do que a verborragia, por si só, está na toxicidade a grande ameaça das linguagens contemporâneas. Palavras podem sim ser extremamente tóxicas e letais, porque elas expressam o que há de mais profundo na subjetividade humana.

Assim como um vírus precisa dispor de um mecanismo de acoplagem no seu hospedeiro para dar vazão à sua virulência, as palavras também dispõem de seus mecanismos particulares de conexão. Não é só o grau de entonação, ou a expressão corporal, ou a imagem visual que a acompanhe ou transmita, ou o momento temporal do discurso. É fundamental que ela encontre um receptor ideal para desencadear um processo nocivo de significação. A mente humana é um mistério. O porquê, como e quando reagimos as palavras é, desse modo, muito particular.

Enquanto o COVID-19 é uma ameaça real, embora invisível, o sentimento de desconforto e temor por ele fomentado gera uma preocupação perceptível que não encontra a mesma intensidade em relação as palavras, discursos e narrativas que circulam entre nós. Sem nos darmos conta, a verdade é que a humanidade está sendo minada em duas frentes distintas. Pessoas podem adoecer e morrer pelo vírus; mas, também, pelas palavras.

Ora, palavras ferem... algumas vezes, tão profundamente que podem matar. Quantos suicídios não decorrem de palavras? Já pensou sobre isso? A questão da saúde mental, que tanto se discute mundialmente nas últimas décadas, perpassa diretamente pela toxicidade ou não das linguagens do mundo contemporâneo. Tendo em vista que a existência humana se baseia em um convívio dialógico, é inevitável que as palavras exerçam impactos importantes no campo do equilíbrio emocional, afetivo e comportamental, podendo inclusive desencadear doenças.

Transtornos de ansiedade, Síndrome do Pânico, Depressão, Bulimia, Anorexia, Dismorfia corporal, ... são alguns exemplos conhecidos e em franca expansão na contemporaneidade. Isso significa que cada indivíduo presente na sociedade precisa dar a devida atenção a esse assunto. É preciso entender que nem sempre as pessoas têm uma consciência plena a respeito das suas vulnerabilidades e do grau de acometimento em relação a elas.

Aliás, isso decorre em grande parte do próprio discurso promovido pela sociedade que bane os considerados “frágeis”, “sensíveis”, “arredios”, “esquisitos” etc. A partir dessa narrativa segregadora, a toxicidade das palavras pode ser facilmente percebida. A questão, então, é escolher permanecer ou continuar na mesma conduta; pois, se não dispõe de nada edificante e produtivo a dizer, melhor silenciar.

E como dito desde o início, as pessoas ainda não se deram conta da dimensão desse mal. Atribuem toda a sua verborragia Pós-Moderna ao campo da brincadeira, da chacota, como algo sem importância, sem repercussão; quando, na verdade, não foi, não é, e nunca será. Comportamento que não passa de uma tentativa desastrada de se abster de uma responsabilidade ética e moral dentro do conjunto da sociedade.  

Independentemente se doentes ou não pela COVID-19, a humanidade encontra-se, portanto, intoxicada por uma avalanche de palavras pesadas, irrefletidas, despejadas sem o menor critério ou cuidado. A consequência é que as repercussões vão retroalimentando um grande círculo e expandindo o alcance daquilo que é tóxico, nocivo. As palavras ferinas, amargas, destrutivas chegam, hoje, por fontes diversas e o tempo todo. Tudo é pretexto. Tudo é desforra. Tudo é desaforo. ... Como se pudessem bombardear o mundo em uma guerra imaginária, delirante.

Por isso, apesar de todos os pesares, adoro quando vejo gente aspergindo doçura, beleza e encantamento por aí, através das palavras. Estão semeando o bem em terreno minado, eu sei. Mas isso, ainda, me conforta e me traz alguma esperança. Sinto como se houvesse uma legião de lúcidos que se mantêm focados e obstinados em não se contaminar, em não beber da fonte da contemporânea linguagem tóxica. Afinal, compreendem que “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós. ” (Antoine Saint-Exupéry – O Pequeno Príncipe); o que significa que é oportuno que as palavras a serem ecoadas e perpetuadas no tempo e no espaço não sejam, então, ruins.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Os novos discípulos de São Tomé


Os novos discípulos de São Tomé 1

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

 

A ideia de que a ignorância absolve, no que tange a falta de conhecimento sobre um determinado assunto, não me parece disponível para aplacar a consciência de uns e outros que caminham pela vida no modo “avestruz” de ser.  Afinal, olhos são para enxergar. Cérebro para pensar.  Emoções e sentimentos para sentir. Então... Em pleno século XXI, quando as informações ultrapassam as cifras das milhares por segundo, mesmo que “en passant”, algo deveria ficar retido na retina e na memória ainda que superficialmente.

Isso evitaria constrangimentos maiores nas rodas de conversa pública e/ou privada. Aliás, porque não bastasse essa avalanche de notícias que são derramadas sobre nós, a escola desde a mais precoce idade faz parte do nosso processo de aprendizagem e construção de conhecimento. Certamente lá, entre doutos mestres e fabulosos livros, há de se ter absorvido muito ao longo dos anos de frequência e expandido as fronteiras do intelecto.

Então, somando-se as lições da vida e da escola todo ser humano tende a sair com um lastro razoável de conhecimento razão, pela qual, fica impedido de exibições gratuitas de desinformação em nível de mais puro deboche e escárnio. Sobretudo, quando o assunto em discussão perpassa as mazelas sociais brasileiras. Presentes há séculos, elas não deveriam mais ser motivo de quaisquer manifestações no campo do espanto ou estranhamento.

Haja vista a descrição perfeita que Manuel Bandeira fez sobre a pobreza e a miséria humana, no seu poema O Bicho, de 1947. Ele escreveu: “Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / Não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato. / O bicho, meus Deus, era um homem.”.

Ora, a ex-colônia portuguesa nasceu e se criou nos braços das desigualdades. Portanto, a miséria e a pobreza sempre tiveram espaço cativo entre nós. São conjuntamente a emblemática linha divisória que demonstra a importância e a desimportância social traduzida na construção das classes e subclasses no país. É daí que surge a invisibilização segmentária, a qual não reflete apenas uma eventual impossibilidade de enxergar visualmente determinados grupos; mas, em mantê-los obscuros na conquista da sua dignidade, da sua cidadania. Porque ao se reconhecer uma questão ela passa, obrigatoriamente, a demandar uma solução e isso, quase sempre, no campo social se traduz em custos.

Desse modo o país foi fazendo “vista grossa” para legiões e legiões de pobres e miseráveis. Porque é importante explicar que a pobreza e a miséria, por serem reflexos da condição social, expressam a diversidade identitária no país. Elas não são as mesmas, portanto, em todas as regiões geográficas; há especificidades importantes que as distinguem umas das outras, embora isso não possibilite entendê-las em gradação do malefício que fomentam e/ou desenvolvam. Quaisquer que sejam as definições a seu respeito, pobreza e miséria serão sempre os patamares mais degradantes do processo de existência humana.

Sim. No mundo das dicotomias se há alguém na pobreza ou na miséria certamente haverá alguém na riqueza; o que significa que a distribuição da dignidade não foi, nem ao menos, próximo da igualdade e da equidade. Alguém se beneficiou de regalias e privilégios enquanto outros estiveram à mercê da piedade, dos restos alheios, inacessíveis aos seus direitos básicos fundamentais. Nesse sentido é importantíssimo ressaltar que a condição de pobreza e miséria, então, oportuniza a privação do próprio reconhecimento social de muitos deles, ou seja, não dispõem de documentos que reafirmem a sua existência cidadã.

Tudo isso significa que essas pessoas foram transformadas em cidadãos de última classe que vagam centenas de passos atrás do progresso e do desenvolvimento bradado país afora. A sua história é sempre a mesma, na medida em que suas horas, seus dias, seus lugares são sempre os mesmos. Como se estivessem fixados pelas teias da imobilidade para serem consumidos lentamente pelas traças dos infortúnios somatizados.

Entretanto, se é possível discorrer tanto a seu respeito é porque esses seres humanos existem. Mesmo que visíveis apenas no contorno desbotado de imagens em baixa definição, como espectros fantasmagóricos de uma realidade macabra; eles existem. Nem precisa ir tão longe para verificar sua presença. Estão nas esquinas. Nos cortiços. Nas favelas. Nas palafitas. Nos lixões e vazadouros de todo o país, apesar da lei que estabeleceu a Política Nacional de Resíduos Sólidos no Brasil (Lei n. º12.305, de 02 de agosto de 2010). Coexistindo, circulando e transitando entre nós...

Não adianta fechar os olhos. Não adianta se refugiar na sua bolha. Não adianta.... Como escreveu o poeta e romancista alemão Henry Charles Bukowski, “Talvez a miséria tenha chegado. Não se pode viver da própria alma. Não se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia. É o início do Declínio e da Queda do Ocidente, como Spengler 2 dizia. Todo mundo é tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente começou. Eles matam gente aos milhões nas guerras e dão medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado vendo TV”.

Embora seu viés de pensamento decorresse da Segunda Guerra Mundial, sua reflexão nos cabe perfeitamente em tempos de guerra contra um diminuto inimigo viral. A Pandemia indiretamente chegou sim, questionando as práticas político-econômicas vigentes e revelando as dimensões da pobreza e da miséria existentes e a existir. Queiram ou não aceitar paira sobre nós uma imposição no que diz respeito a definir novas rotas de curso.

É preciso mudar. Abandonar velhas práxis. Redesenhar a coexistência para garantir a sobrevivência. Afinal de contas, se a base da pirâmide ruir, inevitavelmente, o topo não se sustentará mais. Por isso, atentem-se as obviedades do mundo; pois, pior que a pobreza e a miséria material é a pobreza e a miséria de espírito, a qual só faz demonstrar a carência de ética e moral do ser humano.



1 Foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo e seu nome está ligado à expressão “Ver para crer”; visto que, ele desacreditou da ressurreição de Jesus porque não estava presente.

2 Oswald Arnold Gottfried Splenger. Historiador e Filósofo alemão. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Oswald_Spengler