A
influência da verticalização no adoecimento populacional contemporâneo
Por Alessandra
Leles Rocha
Sei que o assunto não é novidade
para ninguém. Acontece que o adoecimento populacional contemporâneo, apresenta
certos vieses que nem sempre são facilmente percebidos e/ou reconhecidos pelas
pessoas.
De fato, a contemporaneidade tem impactado
a população mundial em níveis de adoecimento físico e mental alarmantes. Em
razão de certos processos como a aceleração do ritmo de vida, a
hiperconectividade digital, a precarização das relações trabalhistas, as
mudanças abruptas nas relações sociais e as diferentes formas de poluição, milhões
de seres humanos estão vendo a sua saúde desaparecer muito rapidamente.
Mas, um aspecto que nem sempre se
mostra visibilizado nas discussões e reflexões sobre o tema é a influência da
nova organização social por conta do processo sistemático de verticalização
urbana. Sim, o processo de crescimento e adensamento urbano focado na
construção de edifícios altos ou de complexos condominiais edilícios tem a
capacidade de comprometer a saúde populacional.
Assim, pensando à luz da saúde
mental, por exemplo, a vida nesses espaços tem criado as chamadas bolhas
sociais, que não só reduzem o sentimento de pertencimento comunitário, como dificulta
a interação casual com a vizinhança. Também, é preciso destacar que o andar e o
design inovador influenciam o bem-estar, na medida em que os moradores de
andares mais baixos lidam frequentemente com maior poluição sonora, falta de
privacidade e a sensação de insegurança. Sem contar que a perda de contato
visual com o solo, a falta de áreas verdes e a poluição sonora crônica elevam
os níveis de estresse.
Já em relação à saúde física, a
construção de grandes torres pode causar sombreamento, bloqueando a luz solar
direta, o que é essencial para a síntese de vitamina D e a regulação do humor. Outro
aspecto importante é a dependência de elevadores, combinada com a falta de
espaços públicos abertos, praças e parques seguros nas proximidades, que reduz
significativamente as oportunidades para a prática de atividade física diária. Por
fim, a alta densidade construtiva e de tráfego, associada à redução da
ventilação natural, retém poluentes e material particulado no nível da rua,
agravando problemas respiratórios e cardiovasculares.
Contudo, a situação pode se
mostrar ainda mais crítica, quando se compreende a relação entre a saúde mental
e as doenças autoimunes. Viver em espaços com alta densidade populacional, sem
espaços de relaxamento mental e exposto a conflitos de convivência, pode manter
o corpo em estado de alerta. Esse cenário é sim capaz de ativar cronicamente o
eixo Hipotálamo-Pituitário-Adrenal (HPA), que é o principal sistema
neuroendócrino responsável por regular a resposta do corpo ao estresse e manter
o equilíbrio do organismo.
Assim, o estresse persistente
eleva os níveis de cortisol e atrapalha a regulação das citocinas, pequenas
proteínas sinalizadoras produzidas pelo sistema imunológico, gerando um quadro
de inflamação crônica no organismo. Em pessoas com predisposição genética, essa
inflamação contínua causa uma confusão no sistema imunológico, de modo que as
células de defesa passam a atacar tecidos sensíveis do próprio corpo, abrindo
caminho para o surgimento ou reativação de doenças autoimunes, tais como o lúpus,
a artrite reumatoide ou a tireoidite de Hashimoto.
Em certos casos, o estresse
contínuo desvia o fluxo sanguíneo do trato gastrointestinal e afeta a
microbiota, o que pode causar o intestino permeável, o que permite que as toxinas
e as bactérias caiam na corrente sanguínea, provocando reações imunológicas
cruzadas que culminam no desenvolvimento ou exacerbação de doenças.
Além disso, não se pode esquecer
que o estresse contínuo é um dos principais gatilhos para o desenvolvimento e
agravamento da fibromialgia. Embora ela não seja uma doença autoimune, algumas
dessas doenças pode sim amplificar a dor da fibromialgia, principalmente devido
à inflamação e ao estresse contínuo no corpo. Assim, quando se tem uma doença
autoimune, o estado inflamatório constante atua como potencializador para o
sistema nervoso já sensibilizado pela fibromialgia.
Portanto, é desse modo que o
estresse contínuo sobrecarrega o sistema nervoso, alterando a forma como o
cérebro processa a dor e criando um ciclo vicioso onde a exaustão emocional
piora os sintomas físicos. Uma condição crônica e altamente debilitante, cujas
dores intensas, fadiga extrema e distúrbios do sono podem, sim, levar à
incapacidade do trabalho e impactar severamente a rotina diária do indivíduo.
Ainda que o estresse não seja o
único causador de doenças autoimunes ou da fibromialgia, a desregulação do eixo
HPA atua como um potente gatilho, acelerando os episódios e aumentando os
níveis de dor e agravamento nos indivíduos predispostos.
Por isso, concentrações elevadas
de pessoas em um mesmo espaço geográfico tendem a causar microtensões cotidianas
que disparam o eixo HPA, de modo que elas passam a apresentar fadiga crônica, manifesta
por queda de energia e desregulação do ritmo circadiano, ou seja, com dificuldade
em manter o sono ou acordar descansado; bem como, maior vulnerabilidade ao
desenvolvimento de ansiedade, depressão e burnout.
Mas, também, há relatos de disfunções
metabólicas, manifestas pela facilidade para armazenamento de gordura visceral,
aumento da inflamação sistêmica e resistência à insulina. Afinal, o estresse
social não cria doenças autoimunes, mas atua como um poderoso gatilho.
É nesse ponto, então, que se deve
refletir a respeito da responsabilidade pelo cuidado e prevenção ao adoecimento
em espaços verticalizados, algo que deve incluir uma atuação conjunta entre a
gestão condominial, os moradores e o poder público, incluindo o Judiciário, focando
tanto na saúde física quanto na saúde mental.
Nesse sentido, é importante
destacar que tanto os (as) síndicos (as) quanto as administradoras são legalmente
responsáveis por manter esses ambientes seguros e salubres. De que forma? Exigindo
laudos técnicos periódicos de empresas especializadas para evitar acidentes e
intoxicações. Promovendo a limpeza rigorosa de caixas d'água, piscinas e áreas
de lazer, essencial para a prevenção de doenças infectocontagiosas. Garantindo
a circulação do ar em áreas fechadas, uso de materiais adequados e prevenção de
mofo/umidade. Mantendo rampas, pisos abertos e sinalização em dia para evitar
quedas, principal causa de acidentes domésticos, especialmente com idosos e
crianças.
Mas, principalmente, atuando na
redução do estresse coletivo. A gestão de espaços verticalizados deve mitigar o
estresse coletivo por meio de processos claros e responsáveis, da empatia ativa
e da democratização das decisões. Em ambientes densamente povoados, a
proximidade física exige que a administração atue não apenas como gestora de
infraestrutura, mas como facilitadora da convivência harmoniosa e do bem-estar
das pessoas. Posto que a falta de clareza gera embaraços, ansiedade e
desconfiança.
Para isso, deve-se utilizar
canais variados de comunicação, tais como aplicativos, murais, painéis, para
manter os usuários conscientes de manutenções, finanças e regras. Disponibilizar
relatórios contábeis claros, transparentes e fáceis de entender, por se tratar
da base da prestação de contas anual em assembleia. Avisar com antecedência
sobre obras e taxas extras, considerando que e choque financeiro é uma das
maiores causas de estresse coletivo. Manter a ética na gestão, o que significa
agir com autorização, através das deliberações em assembleias, tratando todos
com igualdade, respeitando os quóruns exigidos por lei e colocando o bem-estar
coletivo acima de preferências pessoais.
Especialmente, porque o regimento
interno e a convenção devem ser aplicados da mesma forma para todos,
independentemente de amizades ou posições de poder dentro do edifício. Daí a necessidade
de envolver a todos os moradores e condôminos nas cotações e decisões
importantes para garantir processos abertos e sem ocultações. Adotar a
comunicação não violenta e a escuta ativa para resolver eventuais conflitos é
sempre preferível à judicialização dos casos.
Lembre-se de que a ausência ou negligência, quando o assunto é a gestão de conflitos em espaços verticalizados, transforma a proximidade física em um gatilho para o adoecimento coletivo. Diálogos truncados, ruídos desnecessários, desinformação e disputas em grupos de mensagens geram um desgaste emocional profundo, afetando a qualidade de vida de toda a comunidade condominial.
