Reflexões
geradas por uma revolução atemporal
Por Alessandra
Leles Rocha
Não, não dá para tratar certos assuntos
sem olhar para a historicidade humana; sobretudo, recapitulando o evento mais
importante de todos os tempos, a Revolução Francesa.
Ao derrubar o absolutismo e os
privilégios feudais, ela remodelou a estrutura social, transformando os
privilégios dos cidadãos e estabelecendo as bases dos direitos humanos
universais, o processo histórico e gradual onde instituições, comportamentos e
normas sociais perderam a influência religiosa, tornando-se mais racionais,
seculares e laicas, e os ideais democráticos passaram a definir o mundo
contemporâneo.
O referido levante popular francês,
então, declarou a capacidade de mobilização das classes desfavorecidas, gerando
pânico à aristocracia e desestabilizando a ordem social tradicional. Isso
significa que estamos falando de um fator crucial de exigência de novas formas
de entender a organização da sociedade, minando a base de regalias
hereditárias.
De modo que apesar de todos os
esforços das elites dominantes, ao longo dos séculos que sucederam à Revolução
Francesa, a força da ação coletiva popular permaneceu reverberando.
Desde o século XVIII, o mundo
assiste ao desconforto e ao temor das elites em razão de uma possível nova radicalização
desses ideais, podendo ameaçar seus interesses, poderes, regalias e privilégios
dentro da ordem capitalista e da propriedade privada vigente.
Acontece que focadas na manutenção
da riqueza como seu objetivo principal, em detrimento do projeto de nação ou
bem-estar coletivo, as elites dominantes também tiveram que utilizar mecanismos
institucionais e ideológicos para conter as mudanças que pudessem ameaçar a hegemonia
do seu status quo.
E esse é um dilema complexo. Pois,
a ambição de poder supera a função social de liderança e, por consequência, passa
a servir mais aos interesses econômicos das minorias do que às demandas da
maioria, gerando descrédito e descontentamento em relação ao sistema
democrático.
Ao priorizar o enriquecimento e a
contenção social, a elite fragmenta o tecido social. Isso abre espaço para o
surgimento do populismo, onde líderes prometem romper essa barreira entre o povo
e a elite egoísta, degradando ainda mais as instituições políticas. Algo que se
vê claramente nos períodos eleitorais.
A teoria das elites, em períodos
eleitorais contemporâneos, manifesta-se através da disputa entre grupos
organizados pela manutenção ou conquista do poder, evidenciando o modo como uma
pequena elite se torna protagonista, possibilitando que os partidos e as lideranças
se profissionalizem, criando uma classe dirigente que busca perpetuar o seu padrão
social.
Daí o que se consegue extrair
desse comportamento é bastante significativo. Afinal, essas elites
contemporâneas tendem a se desconectar da realidade das camadas populares,
focando na preservação de privilégios e na reprodução de seus próprios poderes.
Sobretudo, porque elas interpretam os avanços populares como riscos diretos à
manutenção do seu espaço de poder.
Por isso, elas frequentemente
utilizam narrativas distorcidas e enviesadas para explicar porque devem
permanecer onde estão, tentando convencer as camadas populares de que seus
ideários são impraticáveis e/ou extremamente
perigosos.
A ideia dessas elites é reafirmar
que elas sempre serão organizadas enquanto a massa popular será sempre desorganizada.
Para tal, contam com as mídias sociais contemporâneas para consolidar a
deslegitimação das camadas populares nos processos eleitorais.
As práxis utilizadas são muitas. Amplificam
a desinformação por meio de fake News. Destroem reputações de possíveis adversários.
Criam bolhas algorítmicas que limitam a exposição a propostas estruturais. Facilitam
o uso de microtargeting, ou seja, a estratégia de personalizar anúncios
para decisões de consumo e/ou políticas. Enfim...
Tudo com o propósito de propagar
notícias falsas a fim de afligir a democracia; pois, ao perverter os fatos e
não dar tempo para o contraditório, prejudicam os cidadãos com um menor acesso
à educação política formal.
Algo que reforça crenças
pré-existentes, isolando seus grupos sociais em bolhas capazes de impedir o
acesso as informações diversificadas, fragilizando o consenso democrático.
Basta um pouco atenção para perceber
como certos candidatos usam dados pessoais para segmentar mensagens
personalizadas, muitas vezes direcionando conteúdos superficiais ou apelativos
para camadas populares, em vez de discutir políticas públicas estruturais.
Sem contar, o uso de perfis
falsos, os quais simulam apoio popular artificial a pautas extremistas, transparecendo
a existência de uma voz popular que, na realidade, é manipulada para servir aos
interesses de certas elites políticas.
Desse modo, essas dinâmicas
tecnológicas contemporâneas, ao invés de democratizar, têm frequentemente
submetido as camadas populares a um ambiente de pós-verdade.
Nesse contexto, a verdade factual
se torna secundária ou irrelevante diante do que o indivíduo percebe como sendo
verdade ou que o faz reforçar sua própria visão de mundo.
Em síntese, o debate de propostas
acaba substituído por emoções acaloradas e insanas, nutridas de muitas desinformação
e engano. Daí a necessidade de um exercício reflexivo, a partir dessas breves
considerações.
Ainda que seja penoso admitir, já
que estamos em pleno século XXI, o ranço histórico advindo da Revolução
Francesa permanece instrumentalizando as elites em sua busca por fechar as
portas para novos grupos sociais, ou seja, evitar que as camadas populares
ascendam e ameacem suas prerrogativas.
E para alcançar seus propósitos, a
elite precisa de mecanismos de controle que vão além da força física. Assim,
olhando para a contemporaneidade, a pós-verdade funciona como essa nova fórmula.
Afinal, se não há consenso sobre
o que é verdade, as camadas populares não conseguem se unir em torno de uma
pauta comum. Tornando-se fácil pautar o debate público com questões emocionais,
morais e/ou conspiratórias, possibilitando às elites desviarem a atenção de
temas estruturais como, por exemplo, a desigualdade de renda, as reformas
institucionais – política, administrativa e tributária - e a concentração de
terras.
Assim, ao colocar a massa popular
ocupada combatendo pseudoinimigos invisíveis, criados por narrativas de
pós-verdade, as regalias fiscais, os subsídios e o poder político das elites
permanecem intocados e fora do radar do debate público sério e efetivamente
cidadão.
