sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Reflexões geradas por uma revolução atemporal


Reflexões geradas por uma revolução atemporal

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não dá para tratar certos assuntos sem olhar para a historicidade humana; sobretudo, recapitulando o evento mais importante de todos os tempos, a Revolução Francesa.

Ao derrubar o absolutismo e os privilégios feudais, ela remodelou a estrutura social, transformando os privilégios dos cidadãos e estabelecendo as bases dos direitos humanos universais, o processo histórico e gradual onde instituições, comportamentos e normas sociais perderam a influência religiosa, tornando-se mais racionais, seculares e laicas, e os ideais democráticos passaram a definir o mundo contemporâneo.

O referido levante popular francês, então, declarou a capacidade de mobilização das classes desfavorecidas, gerando pânico à aristocracia e desestabilizando a ordem social tradicional. Isso significa que estamos falando de um fator crucial de exigência de novas formas de entender a organização da sociedade, minando a base de regalias hereditárias.

De modo que apesar de todos os esforços das elites dominantes, ao longo dos séculos que sucederam à Revolução Francesa, a força da ação coletiva popular permaneceu reverberando.

Desde o século XVIII, o mundo assiste ao desconforto e ao temor das elites em razão de uma possível nova radicalização desses ideais, podendo ameaçar seus interesses, poderes, regalias e privilégios dentro da ordem capitalista e da propriedade privada vigente.

Acontece que focadas na manutenção da riqueza como seu objetivo principal, em detrimento do projeto de nação ou bem-estar coletivo, as elites dominantes também tiveram que utilizar mecanismos institucionais e ideológicos para conter as mudanças que pudessem ameaçar a hegemonia do seu status quo.

E esse é um dilema complexo. Pois, a ambição de poder supera a função social de liderança e, por consequência, passa a servir mais aos interesses econômicos das minorias do que às demandas da maioria, gerando descrédito e descontentamento em relação ao sistema democrático.

Ao priorizar o enriquecimento e a contenção social, a elite fragmenta o tecido social. Isso abre espaço para o surgimento do populismo, onde líderes prometem romper essa barreira entre o povo e a elite egoísta, degradando ainda mais as instituições políticas. Algo que se vê claramente nos períodos eleitorais.

A teoria das elites, em períodos eleitorais contemporâneos, manifesta-se através da disputa entre grupos organizados pela manutenção ou conquista do poder, evidenciando o modo como uma pequena elite se torna protagonista, possibilitando que os partidos e as lideranças se profissionalizem, criando uma classe dirigente que busca perpetuar o seu padrão social.

Daí o que se consegue extrair desse comportamento é bastante significativo. Afinal, essas elites contemporâneas tendem a se desconectar da realidade das camadas populares, focando na preservação de privilégios e na reprodução de seus próprios poderes. Sobretudo, porque elas interpretam os avanços populares como riscos diretos à manutenção do seu espaço de poder.

Por isso, elas frequentemente utilizam narrativas distorcidas e enviesadas para explicar porque devem permanecer onde estão, tentando convencer as camadas populares de que seus ideários são impraticáveis ​​e/ou extremamente perigosos.

A ideia dessas elites é reafirmar que elas sempre serão organizadas enquanto a massa popular será sempre desorganizada. Para tal, contam com as mídias sociais contemporâneas para consolidar a deslegitimação das camadas populares nos processos eleitorais.

As práxis utilizadas são muitas. Amplificam a desinformação por meio de fake News. Destroem reputações de possíveis adversários. Criam bolhas algorítmicas que limitam a exposição a propostas estruturais. Facilitam o uso de microtargeting, ou seja, a estratégia de personalizar anúncios para decisões de consumo e/ou políticas. Enfim...

Tudo com o propósito de propagar notícias falsas a fim de afligir a democracia; pois, ao perverter os fatos e não dar tempo para o contraditório, prejudicam os cidadãos com um menor acesso à educação política formal.

Algo que reforça crenças pré-existentes, isolando seus grupos sociais em bolhas capazes de impedir o acesso as informações diversificadas, fragilizando o consenso democrático.

Basta um pouco atenção para perceber como certos candidatos usam dados pessoais para segmentar mensagens personalizadas, muitas vezes direcionando conteúdos superficiais ou apelativos para camadas populares, em vez de discutir políticas públicas estruturais.

Sem contar, o uso de perfis falsos, os quais simulam apoio popular artificial a pautas extremistas, transparecendo a existência de uma voz popular que, na realidade, é manipulada para servir aos interesses de certas elites políticas.

Desse modo, essas dinâmicas tecnológicas contemporâneas, ao invés de democratizar, têm frequentemente submetido as camadas populares a um ambiente de pós-verdade.

Nesse contexto, a verdade factual se torna secundária ou irrelevante diante do que o indivíduo percebe como sendo verdade ou que o faz reforçar sua própria visão de mundo.

Em síntese, o debate de propostas acaba substituído por emoções acaloradas e insanas, nutridas de muitas desinformação e engano. Daí a necessidade de um exercício reflexivo, a partir dessas breves considerações.  

Ainda que seja penoso admitir, já que estamos em pleno século XXI, o ranço histórico advindo da Revolução Francesa permanece instrumentalizando as elites em sua busca por fechar as portas para novos grupos sociais, ou seja, evitar que as camadas populares ascendam e ameacem suas prerrogativas.

E para alcançar seus propósitos, a elite precisa de mecanismos de controle que vão além da força física. Assim, olhando para a contemporaneidade, a pós-verdade funciona como essa nova fórmula.

Afinal, se não há consenso sobre o que é verdade, as camadas populares não conseguem se unir em torno de uma pauta comum. Tornando-se fácil pautar o debate público com questões emocionais, morais e/ou conspiratórias, possibilitando às elites desviarem a atenção de temas estruturais como, por exemplo, a desigualdade de renda, as reformas institucionais – política, administrativa e tributária - e a concentração de terras.

Assim, ao colocar a massa popular ocupada combatendo pseudoinimigos invisíveis, criados por narrativas de pós-verdade, as regalias fiscais, os subsídios e o poder político das elites permanecem intocados e fora do radar do debate público sério e efetivamente cidadão.