segunda-feira, 6 de abril de 2026

Mais do mesmo... A fragmentação política por conveniência.


Mais do mesmo... A fragmentação política por conveniência.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sempre que preciso me referir ao espectro político de direita faço uma ressalva à existência de vieses mais ou menos radicais e extremistas dentro dele. Por quê? Para que fique bem claro que, apesar de eventuais diferenças entre os seus representantes, seguidores, simpatizantes e apoiadores, no fim das contas, existe uma linha discursiva comum que os agrega.

E acabo de comprovar que estava certa, na minha observação. A corrida eleitoral de 2026, no Brasil, nem começou efetivamente, e o referido espectro político já despontou com diferentes nomes para concorrer à Presidência da República. Alguns com mais e outros com menos possibilidade de êxito; mas, não deixa de chamar atenção.

No entanto, o que pretende esse movimento de múltiplos candidatos é tentar levar o pleito eleitoral para um segundo turno e depois promover uma agregação dos candidatos derrotados, desse espectro político, em torno daquele que se sagrou bem sucedido. O que deixa claro como os diferentes, nesse caso, são mais iguais do que se possa imaginar!

Caro (a) leitor (a), essa não é uma questão difícil de compreender! Veja, a direita brasileira, em todos os seus vieses, construiu-se historicamente sobre as raízes coloniais tradicionalistas e elitistas.

De modo que ela visa preservar a ordem social oligárquica e as disparidades socioeconômicas. E para tal ela criou uma cultura de hierarquia naturalizada, opondo-se a quaisquer projetos de transformação social.

Basta uma breve visita aos veículos de informação e comunicação para se deparar, então, com diversas notícias que retratam exatamente isso.

Ora, ao longo desses pouco mais de 500 anos de história, diferentes setores da elite oligárquica brasileira se organizam para limitar os direitos socioeconômicos e trabalhistas da grande massa da população.

Seja defendendo uma agenda de liberalismo econômico no plano nacional ou promovendo pautas de costumes tradicionais, suas ideias são sempre marcadas por um caráter autoritário, antidemocrático.

Por isso, quando se aproxima o período eleitoral, esses indivíduos correm para manter suas regalias e privilégios de poder. Afinal, formada no curso dos séculos, as classes historicamente dominantes não governam apenas pela força, mas pelo consenso hegemônico construído.  

Nesse sentido, é no período eleitoral que os diferentes vieses da direita buscam reafirmar as velhas práxis, as quais sempre impuseram seus valores como se fossem o interesse de toda a sociedade.

Viu só?! É nesse recorte temporal, então, que essas elites se organizam para garantir que, independentemente de quem vença o pleito eleitoral, o acesso aos recursos do Estado e aos mecanismos de decisão permaneçam em suas mãos.

As nuances e divisões internas da direita, portanto, se unem nesse momento para impedir a ascensão de grupos que representem uma ruptura real com o seu sistema de privilégios. Afinal de contas, o poder não é apenas dinheiro, mas também as redes de influência. Assim, a corrida para manter as regalias e os privilégios é, na verdade, um esforço para manter o controle sobre o aparelho estatal, o grande responsável por distribuir subsídios, definir isenções fiscais, ... enfim, ditar as regras do jogo político-econômico nacional.

Por isso, a união entre os diferentes vieses da direita, em épocas de eleição, funciona como um mecanismo de defesa do seu status quo fundamental.

Por mais que a direita se fragmente em rótulos como liberal, conservadora, libertária ou ultradireitista, a verdade é que só existe um único núcleo de valores que unifica o seu discurso. Especialmente em períodos eleitorais.

O que está posto, então, é uma narrativa que tende a institucionalizar ou manter estruturas sociais sem mudanças. Isso significa que ela é frequentemente ancorada na figura do inimigo interno ou de ameaças à estabilidade, transformando o Estado ou o pretenso líder como garantidores da ordem.

Além disso, a ideia de que uma sociedade é composta por indivíduos e famílias, e não por classes ou grupos identitários, esvazia as pautas coletivistas e foca a solução de problemas na responsabilidade individual e na liberdade de mercado.

Assim, embora existam rachas políticos, o núcleo ideológico da direita sempre permanecerá focado no conservadorismo e no neoliberalismo, mostrando que a demanda por essa agenda é maior do que quaisquer lideranças individuais. A fragmentação é somente uma estratégia de adaptação e de expansão da direita. Pura conveniência de quem almeja mais do mesmo. 

terça-feira, 31 de março de 2026

O boneco ventríloquo


O boneco ventríloquo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

As novas gerações, talvez, não conheçam o boneco ventríloquo. Embora suas origens remontem da Grécia e Roma Antiga, foi nos séculos XIX e XX, que esses bonecos, dotados de mecanismos complexos para movimentos com a cabeça, os olhos e a boca articulada, tornaram-se populares em shows de variedades e, posteriormente, na televisão. De modo que através da manipulação por um artista que fala sem mexer os lábios, tem-se a ilusão de que o boneco inanimado tem vida própria e voz independente.

Mas, por que escrever sobre tais bonecos? Simples. A construção da imagem auxilia na compreensão dos fatos sociais ao transformar conceitos abstratos em evidências visuais, mediando nossa percepção de realidade, história e relações de poder. Nesse sentido, as imagens não apenas refletem o mundo, mas através da sua identidade o constroem, moldando os estereótipos e as memórias coletivas.

Então, como estamos em ano eleitoral, não pude deixar de traçar um paralelo entre os bonecos ventríloquos e o movimento dos pretensos candidatos alinhados à Direita e seus matizes. Sim, porque a fragmentação dentro desse espectro político-partidário transforma alguns indivíduos em bonecos ventríloquos para auxiliar na construção de uma imagem, até certo ponto moderada, daquele que se destaca para o pleito.

Afinal, os bonecos ventríloquos são verborrágicos. Eles falam sem parar, atropelam a fala do outro e não têm filtros. Acontece que essa compulsão pela fala possui uma função social profunda, centrada para vencer o silêncio constrangedor das verdades reprimidas, ou seja, ele fala muito porque tem a urgência de dizer o que o humano não pode dizer. Então, ele despeja a realidade nua e crua.

Veja, o boneco pode ser racista, misógino, cruel, politicamente incorreto, ... Mas, se um ser humano fizesse as mesmas considerações ou críticas, ele seria sumariamente cancelado ou hostilizado pela plateia. Isso significa que a sociedade tende a aceitar a agressividade verbal e a torrente de palavras do boneco porque finge acreditar na ilusão de que ele possui uma consciência própria independente.

Só que não. O que acontece, de fato, é que o manipulador do boneco utiliza desse recurso para limpar sua própria imagem perante as normas sociais. Ele coloca palavras na boca do boneco para fazer valer os seus próprios argumentos. Essas são, na verdade, táticas de guerrilha da comunicação que permitem suspender temporariamente as regras sociais da etiqueta para dar vazão à verdade dos valores, crenças, princípios, que norteiam a vida do manipulador.

Alguém que, nesse caso, é o pretenso candidato alinhado à Direita e seus matizes com maior destaque para o pleito eleitoral, segundo certas pesquisas de opinião. Portanto, ele e qualquer outro boneco ventríloquo, que surja pelo caminho, pertencem ao mesmo espectro político-partidário, ou seja, comungam da mesma ideologia, valores, crenças e princípios.

Mas, como ele teme por uma rejeição, uma repulsa dos eleitores, ele utiliza desse artifício, ou seja, os porta-vozes ou as figuras controladas, como são os bonecos ventríloquos, para despejar discursos e moldar a opinião pública, sem necessariamente dar a cara a tapa.

Preste atenção, essas pessoas só aceitam esse papel coadjuvante, porque almejam, com todas as forças, se manter no poder.  Afinal, a direita no Brasil, com seus diferentes matizes, tradicionalistas, liberais, conservadores ou libertários, reflete uma estrutura histórica, baseada na manutenção de posições sociais e na resistência à participação popular.

Assim, esse pensamento incorpora valores herdados do período colonial, como o imobilismo social, a dificuldade de compatibilização entre a tradição e a modernidade, e a prevalência de regalias e de privilégios. Daí esse espectro político-partidário, apesar de tantas siglas, rostos e nomes, ser capaz de abranger desde a tradição conservadora até o liberalismo econômico, evoluindo de uma visão corporativista para coalizões que incluem o neoliberalismo e a direita ultranacionalista.

Viu só?! Essa é uma metáfora perfeita! No fundo, o boneco ventríloquo e o seu manipulador são exatamente a mesma coisa, divididos em dois corpos para criar uma ilusão. A fim de que o boneco sirva como um escudo social para as verdades ou sombras do próprio artista. 

domingo, 29 de março de 2026

Nos vagões da história ...


Nos vagões da história ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da dimensão que ganha o conflito entre os EUA/Israel e o Irã, de repente, não pude deixar de pensar nos tempos em que a vida transitava pelo fluxo das ferrovias.

Particularmente, eu não tive o privilégio de viajar de trem; mas, minha alma foi preenchida pelas histórias contadas pelos meus avós e minha mãe.

Lembranças que parecem embaladas pelo som do Trenzinho Caipira 1, o quarto movimento das Bachianas Brasileiras nº 2, de Heitor Villa-Lobos, que depois ganhou letra pelas mãos do poeta Ferreira Gullar, em 1978.

Contudo, escrever sobre os trens ajuda, de alguma forma, a desanuviar as preocupações atuais em relação ao petróleo. Afinal de contas, ao longo da história, as ferrovias experenciaram momentos distintos.

Começaram sua jornada com a utilização da lenha e do carvão mineral, nas máquinas a vapor, na Primeira Revolução Industrial. Depois veio o óleo diesel, que dominou a tração diesel-elétrica.

Atualmente, é na eletricidade que se concentra a principal fonte de energia para os trens de alta velocidade. Valendo destacar que as pesquisas em combustíveis renováveis para o setor já existem.

Em terras brasileiras, as ferrovias tiveram início com a Estrada de Ferro Mauá, em 1854, conectando o porto à serra de Petrópolis. A expansão foi impulsionada pela economia cafeeira, conectando áreas produtoras, especialmente São Paulo, aos portos. Transportavam-se viajantes e as cargas agrícolas.

No início do século XX, durante a República Velha, houve uma expansão acelerada, com a rede ferroviária superando 30.000 km, graças ao financiamento majoritário promovido por investimentos ingleses voltados para exportação.

Entretanto, por volta da segunda metade do século XX, o foco mudou para as rodovias, especialmente no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, levando ao abandono e à estatização de muitas linhas ferroviárias.

Por quê? Simples. O imperialismo dos EUA. Isso significa que eles influenciaram, de maneira decisiva, a substituição do transporte ferroviário pelo rodoviário no Brasil, impulsionando o modelo das rodovias a partir de meados do século XX.

Uma mudança alinhada à política de progresso e desenvolvimento industrial, cujo objetivo principal era promover a dependência do petróleo e dos combustíveis fósseis; bem como, fortalecer a indústria automobilística e petroleira norte-americana na América Latina.

Nessa geopolítica do petróleo, então, o tipo de desenvolvimento atrelado ao consumo de combustíveis fósseis, tornou a infraestrutura brasileira vulnerável aos interesses externos e às variações nos preços internacionais do barril.

Sem contar que essa estratégia limitou o desenvolvimento de alternativas mais eficientes de transporte, como as ferrovias e as hidrovias, no Brasil, focando na circulação de riquezas baseadas no diesel e na gasolina.

Foi assim, então, que a priorização das rodovias levou à negligência sistemática da malha ferroviária brasileira. Elas que integravam o país desde o século XIX foram deixadas de lado por não apresentarem o mesmo apelo de progresso rápido ou visibilidade política imediata que as estradas de asfalto.

Nesse cenário, a escolha pelo caminhão como principal meio de transporte de cargas tornou o abastecimento nacional refém das flutuações do preço do petróleo e de crises externas.

Além disso, a má conservação das pistas não só aumenta o gasto com combustível e manutenção, elevando o preço final dos produtos para o consumidor, como contribui para a alta emissão de CO2 e substâncias atmosféricas, causando problemas de proteção e acelerando as mudanças climáticas, por conta do uso massivo dos motores a diesel.

E nessa toada, a concentração do transporte em rodovias resulta em altos índices de acidentes, roubos de carga e desgaste físico exaustivo para os motoristas brasileiros. Uma história que contraria o modelo desenvolvido dentro dos EUA.

Pois é, por lá se manteve uma malha ferroviária extensa e padronizada para cargas e viajantes. Assim, o cidadão tem opção de escolha de transporte para os seus deslocamentos; enquanto, produtores e comerciantes conseguem reduzir significativamente o custo de transporte das cargas por tonelada.

Por isso, diante do cenário contemporâneo; sobretudo, no pós-pandemia, o Brasil passou a intensificar as discussões e os projetos para a retomada do transporte ferroviário de cargas.

A ideia atual baseia-se em parcerias com o setor privado, incluindo a compra de novas locomotivas e renovações antecipadas de contratos de concessão.

Esse movimento busca conectar novas áreas de produção ao porto de Santos, otimizando o transporte de cargas de alto volume. Por isso, ela é tão estratégica para o Brasil, considerando que um dos maiores gargalos do país é o custo logístico.

Um país de dimensões continentais, a dependência quase exclusiva do modelo rodoviário mostra a sua ineficiência e ônus. Assim, um único trem pode substituir centenas de caminhões e facilitar a chegada de soja, milho e minério de ferro aos portos, tornando o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional.

Na perspectiva das rodovias, tal iniciativa permite reduzir a sobrecarga de tráfego, evitando gastos públicos com reparos asfálticos e acidentes, por exemplo, a emissão muito menor de CO2 por tonelada transportada, e o menor consumo de combustível por tonelada útil.  

Portanto, a retomada da malha ferroviária no Brasil surge como uma reparação histórica, no sentido de corrigir um desequilíbrio gerado pelo foco exclusivo no rodoviarismo, permitindo aumentar a competitividade econômica, a partir da redução de custos de transporte e a otimização do escoamento de cargas.

terça-feira, 24 de março de 2026

Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.


Tudo começa pelo começo. Com a violência não é diferente.

 

Por Alessandra Leles Rocha  

 

De todos os lados nos chegam relatos de violência diariamente. Alguns falam em uma epidemia do ódio. Outros, de um retrocesso à incivilidade, à barbárie humana. Bem, adjetivos para tentar explicar tal fenômeno de nada adiantam. De modo que resolvi parar, pensar, a partir da construção de uma linha de acontecimentos, os quais me impactaram bastante.

A impressão que se tem é de que a vida humana perdeu seu valor. Mata-se qualquer um. Por qualquer motivo, sob qualquer justificativa, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, enfim. Então, de repente, essa brutalidade descompensada, apesar de toda a sua crueldade e perversidade, merece ser olhada nos detalhes.

Considerando que qualquer um, independente do gênero, da raça, da religião, da escolaridade, do status socioeconômico, pode ser a bola da vez, a análise deve partir do início.  Não há como discordar que a infância perdeu a sua aura de inocência, de alegria, de blindagem frente aos males do mundo. Ser criança está cada vez mais difícil e complexo.

Em 2016, o documentário O COMEÇO DA VIDA, apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e dirigido por Estela Renner, não só mostrava a importância fundamental dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil, como destacava que o afeto, as relações amorosas e os ambientes seguros moldam o cérebro e a personalidade da criança, sendo crucial para o seu futuro e o da sociedade.

Mas, o que parece, olhando a realidade contemporânea da infância, é que houve um desvirtuamento ético/moral, em relação a responsabilidade, ao comprometimento, a disponibilidade, que são os pilares a sustentar a maternidade e a paternidade, contrapondo-se totalmente ao que propõe o referido documentário.

Chegou-se ao ponto em que a violência contra a infância não exime nem os recém-nascidos! Sim, crianças, em diferentes faixas etárias, são expostas a uma realidade de negligências, de abandonos, de descuidos, que escalam rápida e vertiginosa para situações de humilhação, desvalorização da autoestima, ameaças, agressões, castigos físicos severos, queimaduras e violência sexual.

Acontece que a infância é o alicerce da vida humana. São as experiências nessa fase que determinam o que seremos como adultos. E na infância, a identidade não está pronta! Ela é refletida, então, pelo olhar dos “cuidadores”.

A criança começa a entender quem é a partir do afeto, da validação e das palavras de quem as cerca. Então, elas despertam a necessidade do pertencimento, em decorrência dos vínculos de apego construídos, muitas vezes, de maneira muito frágil.  

Nesse cenário, a formação psicoemocional aponta que se houver negligência, descuido, desatenção, a base pode ser de medo e instabilidade. Algo que se reflete através da capacidade de nomear e lidar com as emoções, seja frustração, raiva, tristeza.

Desse modo, o seu comportamento se torna, em grande parte, um reflexo de padrões aprendidos dentro do meio social em que estão inseridas e por mecanismos de defesa criados instintivamente. A criança, então, acaba por replicar dinâmicas de resolução de conflitos e hábitos sociais que experenciou.

Diante dessas considerações, o que é possível aferir é que as deformidades sociocomportamentais e psicoemocionais, as quais um indivíduo é exposto na sua infância, reverberam até consolidar um adulto repleto de insatisfações, traumas, bloqueios, neuroses e violências.

Em muitos casos, sem a oportunidade de assistência profissional, ainda na infância, o quadro só tende a se cronificar e se intensificar sem possibilidades de reabilitação.

Acontece que sem uma proposta de transformação para esses indivíduos, a sociedade, querendo ou não, terá que enfrentar os desajustes sociais carregados por eles.

Começando pela convivência com uma legião de pais e mães despidos de quaisquer competências, habilidades e talentos para a criação de um filho. Sim, porque tanto o maternar quanto o paternar vão muito além de condições materiais.

O essencial para o exercício desses atos reside no subjetivo, na capacidade de cuidar, de proteger e de educar; portanto, indo além do laço biológico para criar um vínculo afetivo.

E é aí que a situação complica, porque milhares de pessoas não trazem essa possibilidade de realização. Isso significa que a humanidade, que a sociedade brasileira, que todos nós, estamos diante de um desafio que demandará muito tempo para ser enfrentado.

Não, não é dá noite para o dia. Serão décadas e décadas debruçados sobre a necessidade urgente de reconstruir a realidade da infância.

Isso quer dizer tecer uma rede de proteção a elas contra as violências, os desastres, a pobreza e a exploração, porque investir na infância não é apenas uma questão social, mas também econômica, na medida em que traz retornos para a sociedade ao criar indivíduos mais saudáveis ​​e capacitados.

Mas, em paralelo a esse processo, é preciso resgatar a humanidade dentro de seres humanos que não conseguiram, até agora, saber quem são, como se sentem, porque agem dessa ou daquela forma.

As violências contemporâneas possuem sim, componentes profundos de insalubridade mental, ocorrendo tanto como causa quanto como consequência de transtornos psicológicos, muitas vezes, herdados em decorrência da própria infância.

Por isso, para falar, debater e resolver as violências contemporâneas não tem como fugir dessa linha sociotemporal, ou seja, da infância à fase adulta.

Lembre-se das palavras da escritora estadunidense, Veronica Shoffstall, “Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel”.

Porque elas, de alguma forma, podem resgatar em você a consciência de que toda criança tem direitos, segundo consta da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela Organização das nações Unidas (ONU), em 20 de novembro de 1959.

Talvez, assim, as crianças que vierem a nascer, de agora em diante, nascerão em um mundo mais belo, mais justo, mais humano. Aconchegadas pelo afeto, o carinho, os cuidados. Sem barulhos de explosões, de tiros, de bombas, de gritos. Protegidas em lares dignos. Distantes da insegurança alimentar, da pobreza e da insalubridade. Próximas do lazer, do esporte e da cultura.

Afinal, a grande verdade dessa vida é que “Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento” (Albert Camus - Prêmio Nobre de Literatura em 1957).

A vitimização como recurso


A vitimização como recurso

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O assunto da vez é: haverá ou não prisão domiciliar, em caráter humanitário, ao ex-Presidente da República brasileiro? Não sei, mas há muitas camadas a serem dissecadas e refletidas sobre essa questão.

Vejam que ele, até bem pouco tempo, era alguém que ostentava força física, porte atlético, quase um exemplo de imortalidade, de invencibilidade, e agora, tem sua banca de advogados defendendo a tese de prisão domiciliar, em caráter humanitário, dada a sua condição clínica.

Até agora, todas as patologias identificadas pelos médicos em razão das ocorrências que o levaram à hospitalização, em si não representam um fundamento consistente para a prisão domiciliar. São doenças de natureza crônica, que vez por outra se desequilibram e merecem atenção mais intensiva.

Algo que ele tem recebido sem restrições, contrapondo-se ao fato de que os cerca de 700 mil custodiados, que ocupam unidades físicas prisionais em regime fechado ou semiaberto, não desfrutam das mesmas regalias e privilégios; sobretudo, em relação à saúde.  

Vejam, ele não foi condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado à toa. Seus crimes, apontados na acusação que o levou à prisão em regime fechado, foram vastamente comprovados.

E se outras acusações fossem levadas a outros julgamentos é bem provável que novas penas de reclusão lhe seriam imputadas, dada a gravidade dos delitos cometidos durante o seu governo.

Haja vista os mais de 700 mil mortos de COVID-19, durante a Pandemia, em que pesquisas apontam que 400 mil poderiam ter sido evitadas pelo governo na época.

De modo que todo esse imbróglio, nos faz, ou pelo menos deveria fazer, pensar até que ponto pode ser considerada ética a influência política nas decisões do judiciário brasileiro.

Sim, porque esse é um caso em que não restam dúvidas da existência de um cálculo político pairando e contaminando os caminhos jurídicos, criando uma flagrante assimetria da isonomia no sistema penal brasileiro.  

Fato que reflete uma falha na aplicação igualitária da lei, onde fatores socioeconômicos e status social resultam em tratamentos diferenciados.

Sim, porque sua presença em recinto penitenciário não passa despercebida das observações do mundo. Há, inclusive, quem diga que a sua cela se transformou em escritório paralelo de discussão política, considerando o número de visitas solicitadas por correligionários, nos dias determinados pelo estabelecimento penal.

Elas vão muito além da já privilegiada assistência médico-hospitalar e familiar. De modo que em prisão domiciliar o ambiente seria mesmo de um espaço de campanha, em razão da candidatura do filho dele à Presidência da República.

Por isso, causa sim profundo estranhamento diante do pedido de prisão domiciliar, em caráter humanitário. Alguém em condições de saúde tão fragilizada e com algum risco de complicação, como dão conta os veículos de imprensa, precisa de acompanhamento médico constante, alimentação apropriada e descanso.

Nada de estresse, de burburinhos e agitações político-partidárias. Tudo isso deveria estar fora de cogitação para lhe garantir um restabelecimento adequado de suas condições clínicas, seja em que ambiente for. 

E como, nessa vida, não há acaso, os reiterados pedidos para prisão domiciliar, em caráter humanitário, parecem configurar um cenário de vitimização, semelhante ao que foi visto em outro momento da recente história brasileira.

Uma tecitura que se abstém de se concentrar nos fatos para se desviar entre teias milimetricamente calculadas pela política, contribuindo para consolidar uma persona, ou seja, uma variante muito diferente da verdadeira personalidade do indivíduo.

A grande questão é: se a vitimização se tornar instrumento de justificativa para pedidos de prisão domiciliar, em caráter humanitário, como se portará o Judiciário brasileiro para garantir constitucionalmente a isonomia no sistema penal?

Bem, a pergunta é pertinente, levando-se em conta o fato de que o sistema penal, nas condições em que se encontra no Brasil, acaba operando como uma máquina de produção de vítimas do próprio Estado, perpetuando ciclos de violência e desigualdade nas camadas mais frágeis e vulneráveis da população, por conta da seletividade de suas análises.

Não é sem motivo, então, que exista no campo político-partidário, quem ainda acredite que o crime compensa, considerando que a capacidade financeira permanece influenciando diretamente a qualidade da defesa técnica e fazendo gerar uma disparidade de armas no processo penal, como amiúde se revela nos veículos de comunicação e de informação nacionais e estrangeiros. 

sexta-feira, 20 de março de 2026

A marcha rumo à escassez hídrica global


A marcha rumo à escassez hídrica global

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Com uma população mundial estimada em aproximadamente 8,3 bilhões de pessoas, vivendo sob a dinâmica e as consequências do desenvolvimento urbanoindustrial, certas questões precisam ser pensadas e analisadas com bastante critério.

Então, diante da proximidade com o Dia Mundial da Água, a ser celebrado em 22 de março, decidi tomar essa questão como o ponto de partida para essa reflexão.

O desenvolvimento urbano e industrial tem levado ao esgotamento e à contaminação das reservas de água limpa por meio da superexploração de aquíferos, da impermeabilização do solo que impede a recarga natural, e do descarte de efluentes sem tratamento.

Esse cenário gera escassez hídrica ao inviabilizar o uso da água, afetando mais de 4 bilhões de pessoas ao redor do mundo.

Veja, a falta de água potável segura já afeta mais de 1,2 bilhão de pessoas, principalmente no Sul Asiático e na África Subsaariana.

Países como o Afeganistão, o Paquistão, o Irã, a Síria, o Iêmen, a Etiópia e a Somália, além de áreas na Índia, China e outras partes do Oriente Médio, enfrentam dificuldades extremas, diante das crises hídricas e/ou pela contaminação de diversas fontes, limitando o acesso a água limpa para seu público.

A contaminação da água no mundo, portanto, impacta a sobrevivência humana de forma crítica, direta e desigual, sendo um dos maiores desafios do século XXI.

O que significa que ela não é apenas um problema ambiental ou biológico, mas um reflexo da desigualdade social, da negligência institucional e da injustiça ambiental, onde as populações vulneráveis ​​pagam o preço mais alto.

Não é sem razão que milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças veiculadas pela água tais como a cólera, as diarreias, a hepatite A e a febre tifóide.

A contaminação por agrotóxicos e metais pesados ​​causa doenças crônicas como câncer, disfunções hormonais e problemas neurológicos.

Isso acontece devido ao fato de que os processos convencionais das Estações de Tratamento de Água (ETA) e Esgoto (ETE) foram projetados majoritariamente para remover matéria orgânica, sólidos suspensos e coliformes fecais (bactérias), não sendo eficazes para toxinas complexas ou contaminantes emergentes.

Desse modo, alguns patógenos são resistentes aos processos biológicos e à cloração convencional, podendo sobreviver ao tratamento e serem lançadas em corpos hídricos.

Em relação aos agrotóxicos, pesticidas e/ou herbicidas, dada a sua composição complexa, eles passam direto pelos tratamentos biológicos e físicos de decantação e filtração convencionais.

Mas, talvez, o pior seja em relação aos metais pesados, tais como Chumbo, Cádmio, Mercúrio, que não são biodegradáveis.

Eles se acumulam no lodo da ETE ou passam pela ETA. A remoção exige processos físico-químicos específicos como a precipitação e a troca iônica, que nem todas as estações possuem.

Além disso, não se pode esquecer que além dos itens já apontados, os processos se mostram falhos em relação aos resíduos de medicamentos, ou seja, antibióticos, antidepressivos, anticoncepcionais, lançados inadvertidamente na rede pluvial e de esgoto, e os produtos de higiene pessoal como microplásticos e os filtros solares.

Portanto, apenas o tratamento primário, que é físico, e o secundário, que é biológico, não basta. É necessário investir em filtração por membranas, ou seja, ultrafiltração, osmose reversa, ozonização e/ou Processos Oxidativos Avançados (POAs) para degradar agrotóxicos e eliminar os vírus.

Mas não bastasse esse cenário, a oferta de água limpa no planeta está ameaçada também pela captação intensiva de água subterrânea para abastecer indústrias e populações urbanas, causando o rebaixamento do lençol freático e fazendo com que os poços sequem e os reservatórios naturais demorem séculos para se recuperar.

Ao se considerar que a industrialização na perspectiva do avanço tecnológico e da inteligência artificial (IA) afeta radicalmente a já precarizada oferta de água limpa no mundo contemporâneo, tem-se um catalisador imediato para a consolidação da crise de escassez hídrica ainda no século XXI.

Talvez, muitos não saibam, mas a IA facilita a transformação da água em um ativo financeiro ultra precioso.

Softwares de monitoramento permitem que empresas privatizem a gestão hídrica com precisão matemática, transformando o que deveria ser um direito humano em uma mercadoria algorítmica.

Isso retira o controle da gestão da água da esfera pública e entrega a algoritmos focados em lucro.

E a razão disso está no fato de que a IA exige uma infraestrutura física massiva, com grandes Data Centers, os quais consomem milhões de litros de água potável diariamente para resfriar os servidores.

Estima-se que os grandes centros podem consumir até 5 milhões de galões, cerca de 19 milhões de litros/dia, o equivalente ao uso de uma cidade de 10.000 a 50.000 pessoas, porque a água é essencial para o resfriamento evaporativo, sendo o método mais barato do que o uso de eletricidade para dissipar o calor gerado pelos servidores.

Isso cria um conflito distributivo, a água que abastece as comunidades locais é desviada para manter a nuvem cibernética.

De modo que tudo isso representa, então, a priorização do capital digital sobre as necessidades biológicas básicas, ou seja, um fator de transformação nas relações de poder e cidadania.

A instalação de data centers em regiões de escassez hídrica gera uma competição direta com o abastecimento público e a agricultura.

Assim, o esgotamento de fontes locais aumenta o risco de doenças em comunidades com acesso já precário à água.

Dizia o médico e escritor João Guimarães Rosa, “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba”.

Então, se quiser ter uma dimensão do que pode acontecer à humanidade por conta desse movimento de escassez hídrica em curso, basta disposição para parar, pensar e refletir.

Se precisar de auxílio, assista aos seguintes filmes: Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que mostra um futuro pós-apocalíptico onde a água é controlada por tiranos, Wall-E (2008), uma animação que retrata uma terra coberta de lixo e sem recursos naturais, incluindo água, 007 - Quantum of Solace (2008), que aborda a privatização e o controle da água como tema central de um golpe político, e Waterworld - O Segredo das Águas (1995), que retrata a escassez de água doce potável,  A Lei da Água (2015), documentário que foca no Código Florestal Brasileiro e sua relação direta com a crise hídrica no Brasil, O Futuro das Águas: Desafio do Século (2022), documentário que trata da competição global pela água potável e os riscos de conflitos.

quarta-feira, 18 de março de 2026

O petróleo ... Sempre o petróleo


O petróleo ... Sempre o petróleo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Segundo o dito popular, “Recordar é viver”! Então, mãos à obra.

A relação entre a humanidade e o petróleo se inicia entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, com a Segunda Revolução Industrial. A princípio o papel dele era produzir querosene em substituição ao óleo de baleia e o carvão para iluminação. Somente a partir da invenção do motor a combustão interna e o desenvolvimento da indústria automobilística é que o petróleo passou a ser refinado para obter gasolina e diesel, tornando-se a principal fonte de energia para transportes.

Então, a partir do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo se tornou a principal fonte de energia e matéria-prima do mundo. O que significa que a economia mundial passa a ser refém do preço do barril de petróleo. Por consequência, a cada alta dos preços dos barris há um arrepio global pelo risco do descontrole da inflação; posto que, aumentam o custo de produção e transporte de quase tudo. Além disso, a disputa pelo controle das reservas de petróleo molda os humores da geopolítica do planeta.

Aí, na década de 1970, o mundo assiste estarrecido à grande crise do petróleo. Na verdade, dois grandes eventos, um em 1973 e outro em 1979, colocaram fim à era de crescimento acelerado do pós-guerra no Ocidente.

Em outubro de 1973, Egito e Síria atacaram Israel, fato que levou os países árabes membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a impor um embargo de petróleo aos EUA, Holanda e outros aliados de Israel. Tal atitude da OPEP afetou drástica e intencionalmente a produção, resultando em escassez global e quadruplicando o preço do barril, naquela ocasião.

Depois, em 1979, com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão do aiatolá Khomeini, no Irã, um dos maiores produtores globais de petróleo, houve pânico no mercado e uma nova paralisação na produção. Mas, não bastasse isso, em 1980, a guerra entre o Irã e o Iraque manteve a oferta baixa e os preços altos durante o início daquela década.

De modo que foi dessa maneira que o planeta descobriu a face difícil do petróleo. A combinação inédita de alta inflação, devido ao aumento de preços, e a estagnação econômica com recessão e desemprego, atingiu os países. Tudo muito bem acompanhado por longas filas em postos de combustível, devido ao racionamento e ao aumento vertiginoso do preço da gasolina.

Era o ponto de mutação para a indústria automobilística, com o fim da era dos carros grandes e gastadores, produzidos pelos americanos. A indústria passou a fabricar carros menores, mais leves e econômicos, popularizando os motores de 4 cilindros.

Mas, certamente, o grande impacto decorrente dessa grande crise foi a busca por alternativas energéticas. Sim, diante da fragilidade exposta pela dependência de uma única fonte, houve um grande incentivo ao uso de energia nuclear, hidrelétrica e pesquisas em fontes renováveis como a solar e a eólica.

Fato que, no Brasil, resultou no surgimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, incentivando carros movidos a etanol para reduzir a dependência da gasolina. Sobretudo, porque os países em desenvolvimento, no qual se enquadra o Brasil, viram sua dívida externa disparar. Afinal, eles pagaram mais caro pelo petróleo e o capital ficou mais caro internacionalmente, gerando uma década perdida, marcada pela estagnação econômica, a hiperinflação e a crise da dívida externa.

Contudo, o mundo parece não ter aprendido com a história. A recente escalada militar entre EUA e Israel contra o Irã, com bombardeios e ameaças de bloqueio no Estreito de Ormuz pelos iranianos, considerando que esse é o local por onde passa 20% do petróleo mundial, está gerando uma nova crise energética severa. A disparada nos preços dos barris já está em curso. A alta no petróleo ameaça frear a economia mundial, com forte pressão inflacionária nos EUA e outros países, incluindo o Brasil.

O choque no preço da energia encarece os combustíveis, o transporte e os produtos fabricados. Isso pressiona, então, os bancos centrais a manterem as taxas de juros elevadas por mais tempo para fortalecer a inflação, prejudicando o crescimento econômico e aumentando o risco de estagflação, ou seja, estagnação econômica, com baixo ou nulo crescimento do PIB e alto desemprego, com inflação elevada.

Sem contar que a instabilidade geopolítica gera uma fuga de recursos de mercados emergentes para ativos seguros. Então, no Brasil, ocorre a valorização do dólar, encarecendo importações e repassando o aumento do petróleo para o preço final dos combustíveis na bomba. Além disso, apesar de o Brasil ser exportador líquido de petróleo, o impacto negativo é sentido nos custos da cadeia produtiva a partir do frete, dos insumos, dos fertilizantes.

Portanto, qualquer crise relativa ao petróleo é uma crise global. O mundo sofre as consequências. O que significa que vivemos em uma sociedade de risco. A economia mundial é um sistema integrado e, diante do fato de que o petróleo é a base da matriz energética e do transporte, uma crise na sua oferta não é um evento isolado, mas um efeito dominó que afeta desde o preço da comida até a estabilidade política de nações distantes.

Sim, vivemos em uma era onde os riscos econômicos, ambientais e energéticos não respeitam fronteiras. Uma decisão ou conflito em um ponto do globo gera consequências inevitáveis ​​e incontroláveis ​​para todos, evidenciando a dimensão dos impactos sobre as instituições nacionais frente aos fluxos globais.

Por isso, é preciso equilíbrio e discernimento para transpor qualquer crise relativa ao petróleo. Em momentos de instabilidade no setor petrolífero, o equilíbrio emocional e técnico é o que separa uma gestão de danos eficiente de um desequilíbrio generalizado. É dessa forma que o discernimento entra para filtrar o que é oscilação real de mercado do que é meramente especulação financeira ou alarmismo midiático. Veja, sem essa clareza, o pânico se torna um combustível muito mais perigoso do que a própria falta de óleo, gerando corridas aos postos, inflação preventiva e paralisia econômica.

Daí a importância fundamental da comunicação transparente e proativa pelas autoridades para conter especulações e o pânico socioeconômico durante crises no setor de petróleo. A transparência não significa esconder ou minimizar a realidade, mas sim mostrar que as autoridades estão agindo com fatos, competência e planejamento para proteger o consumidor final. Não se pode esquecer de que a confiança do cidadão é o ativo mais importante em qualquer crise.

terça-feira, 17 de março de 2026

Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos


Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Há alguns dias eu escrevi um texto falando sobre a territorialidade de risco; mas, a fim de não o tornar muito extenso, optei por desmembrar uma parte muito importante, a qual diz respeito à prática do aterramento de áreas de fundo de vale ou de erosão com resíduos sólidos, presentes em zonas urbanas ou não.

Bem, até o início do século XX, essa era uma prática esporádica, que acontecia em pequenas erosões rurais ou periurbanas. No entanto, entre as décadas de 1950 e 1970, com o crescimento da urbanização no Brasil, a falta de saneamento básico e a precariedade da gestão de lixo, as voçorocas urbanas foram usadas como lixões ou aterros informais para lixo doméstico e entulho.

Acontece que essa dinâmica persistiu e, apesar da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) tê-la tornado ilegal, infelizmente, ela ainda ocorre, especialmente em áreas periféricas, devido ao fato de muitos gestores públicos acreditarem que o baixo custo dessa prática é mais vantajoso, do ponto de vista orçamentário, do que a realização do tratamento da erosão pela engenharia geotécnica.

Só que não. Primeiro, porque esse tipo de preenchimento representa uma intervenção profunda na geografia e na geologia do local. Veja, as voçorocas ou áreas de erosão são formadas por água subterrânea e superficial, ou seja, pelo lençol freático exposto, decorrente da perda da cobertura vegetal, principalmente, por desmatamento e queimadas. Desse modo, os resíduos preenchem o espaço; mas, são incapazes de conter a água. Como resultado tem-se o entupimento do fluxo natural, criando uma represa subsuperficial assustadora.

Segundo, porque o uso de entulho de construção civil, de resíduos industriais ou do próprio lixo doméstico para o preenchimento traz riscos seríssimos. Começando pelos metais pesados, tintas e solventes que se infiltram diretamente no lençol freático, já que a voçoroca é uma exposição profunda do solo. Depois, a presença de materiais orgânicos que leva a um processo de decomposição desses, gerando vazios internos, os quais podem causar a desestabilização do terreno aterrado. Por fim, esse descarte inadequado impede uma drenagem correta da água, criando outras frentes de erosão nas bordas do aterro.

Isso significa que esse tipo de material comumente usado não possui coesão. Então, sendo exposto ao peso de eventuais edificações, o solo cede, causando rachaduras e colapsos. Assim, ao ignorar a dinâmica hídrica e geológica, o que deveria ser uma solução urbanística se transforma em uma área de risco iminente.

Um episódio clássico foi o conjunto habitacional Cingapura Zaki Narchi, na Zona Norte de São Paulo, construído na década de 1990, com o propósito de substituir as habitações precárias por edifícios verticalizados, atendendo cerca de 700 famílias. Porém, não se levou em conta que ele foi construído em área de antigo lixão, gerando a percolação do metano pelo solo até a superfície e, portanto, os riscos de explosão devido ao acúmulo de gás no subsolo.

A concentração de metano no subsolo dos 140 apartamentos térreos atingiu níveis extremamente perigosos, incluindo explosão, de modo que a Prefeitura de SP instalou 20 drenos para aliviar a pressão do gás e evitar uma evacuação dos moradores, afirmando ter resolvido o problema em novembro de 2011. No entanto, embora tenha sido relatado a mitigação do risco imediato com os drenos, a situação no local permanece sob observação devido à natureza do subsolo.

E esse não é o único caso, embora não exista um levantamento nacional estatístico exato para contabilizar o número de ocorrências de instabilidade em áreas urbanas, decorrentes do aterramento de voçorocas com resíduos sólidos no Brasil. Além disso, é preciso lembrar de que a situação é muitas vezes agravada pela combinação de terrenos acidentados, alta intensidade de chuvas e o lançamento irregular de diferentes resíduos, comprometendo a estabilidade das áreas aterradas.

Haja vista a situação das áreas aterradas com resíduos sólidos e entulho na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), as quais apresentam riscos geológicos elevados, especialmente durante o período chuvoso. A combinação de solo instável, acúmulo de lixo e infraestrutura de drenagem insuficiente causa desmoronamentos e erosões graves que ameaçam a segurança da população.

Seja como for, o fato é que essas áreas quando ocupadas ou urbanizadas tornam-se, portanto, zonas de alto risco de acidentes e contaminação. Porque além da instabilidade física do terreno, esse aterramento causa poluição hídrica e do solo, gerando sérios riscos à saúde pública. Não só pelo acúmulo de lixo atrai animais como ratos, baratas, escorpiões e mosquitos, elevando casos de dengue e outras zoonoses; mas, pelo fato de que a decomposição de certos resíduos, nesses locais, pode liberar gases e partículas tóxicas, causadoras de doenças graves.

Daí a importância da discussão crítico-reflexiva sobre esse assunto, pela população brasileira, na medida em que sob a ótica da territorialidade de risco, essa prática consolida vulnerabilidades diversas. Portanto, essa prática transforma áreas erosivas em territórios de risco habitacional e sanitário, onde uma população local, muitas vezes de baixa renda, vive em ambiente degradado e insalubre, intensificando a desigualdade socioambiental no país.

É fundamental ter em mente que a insalubridade de uma área de risco, seja ela urbana ou não, compromete a salubridade de toda a região afetada. Porque o ambiente daquele espaço geográfico funciona como um sistema interconectado, onde problemas localizados em regiões vulneráveis geram impactos que se propagam por todo o território através de vetores biológicos, ambientais e sociais. 

O Oscar não nos define!


O Oscar não nos define!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É isso mesmo! Por quê precisamos da legitimação internacional para celebrar a nossa cultura?! Essa é a pergunta que temos que fazer hoje, amanhã, depois, sempre. Porque romper as bolhas, expandir as fronteiras, intercambiar pontos de vista, é nisso que reside a força sociocultural brasileira.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, não podemos fingir que o mundo não vive sob a influência imperialista, monopolista, egocentrista, ... porque essa é uma verdade fática. E o cinema faz parte do mundo, por isso, ele também é afetado por essas questões.

Os olhos que acompanham as atuações, as produções e as exibições públicas, no cenário internacional, de certa forma ainda estão contaminados por certos vieses ideológicos, os quais possibilitam a construção de senões aos filmes que estão fora do espectro dominante da cinematografia mundial.

Desse modo as escolhas não são, então, pautadas basicamente por questões técnicas. Cada corpo de jurados traz consigo crenças, valores, convicções, interesses, simpatias, que acabam por esgarçar o seu processo decisório, afastando-os de um posicionamento mais ético e isento.

Nesse sentido, inclusive, é importante destacar o papel lobista que atua sobre a dinâmica cinematográfica. Infelizmente, o lobby do cinema nas premiações não é apenas uma estratégia de marketing, mas um mecanismo de reprodução de poder e consagração da dominância cultural.

Por isso, não cabe ingenuidade na análise dos acontecimentos. Quando grandes estúdios investem milhões para influenciar os votantes, eles transformam o mérito artístico em uma extensão do capital econômico e social, com o único propósito de garantir que o sucesso se concentre nos mesmos grupos.

Além disso, o prêmio é uma ferramenta de marketing que aumenta o valor do filme e a empregabilidade dos envolvidos, reforçando uma estrutura de classes dentro da indústria cinematográfica.

Assim, em linhas gerais, o alto custo das campanhas lobistas atua como uma barreira para filmes independentes ou de países fora do eixo tradicional; bem como, se encarrega de negligenciar quaisquer narrativas que fujam do padrão cinematográfico tradicional ou vigente.

Para isso, não é incomum que o lobby, muitas vezes, envolva campanhas difamatórias ou desqualificantes contra concorrentes, modificando a escolha artística em um processo puramente político e estratégico. Como já aconteceu na história do cinema.

Caro (a) leitor (a), daí a importância de entender que a manifestação da cultura é, antes de tudo, uma expressão interna, uma relação direta com seu próprio povo. Só depois, é que ela pode ser compartilhada com o externo, com o mundo, porque aí ela já está fortalecida, enriquecida pela própria identidade nacional.   

E nesse momento, então, a sua aclamação ou a sua incompreensão pelo estrangeiro pode ser decodificada de uma maneira adequada e satisfatória. Por isso, mesmo tensionada, sob a pressão externa, as crises econômicas ou os conflitos internos, a cultura se adapta e resiste porque não é algo que se possui, mas algo que se é.

Então, munida dessa impessoalidade para analisar os acontecimentos, sem precisar dessa ou daquela legitimação alheia para se sentir confortável, plena e feliz, ela se mantém. Porque a cultura é capaz de incorporar quaisquer elementos dos eventuais contratempos e se transformar, mantendo intacto o seu núcleo identitário.

Assim, o maior prêmio para quaisquer manifestações ou expressões culturais é a capacidade de realizar, de dar vida às ideias, aos projetos, gerando uma conexão coletiva inimaginável. Aí, nesse instante, ela deixa de pertencer apenas ao criador e passa a dialogar com a sociedade de maneira plena, inteira e extraordinária.