terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Gaslighting. A violência pela manipulação.


Gaslighting. A violência pela manipulação.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante de uma epidemia de violência no mundo contemporâneo; sobretudo, de gênero, é preciso refletir. O assunto é sim, extremamente complexo; mas, nem por isso há de se colocá-lo submerso em uma montanha de desculpas e justificativas insustentáveis.

Sempre existe um comportamento comum nas manifestações de violência, e observando diferentes episódios que têm sido divulgados pela imprensa, um deles se destaca. Trata-se do gaslighting, uma tática de manipulação emocional cujo objetivo é desestabilizar a vítima psicologicamente.

O termo se difundiu a partir da peça de teatro britânico " Gas Light " de 1938, escrita por Patrick Hamilton, cujo enredo fala de um marido que manipula a esposa, conduzindo a intensidade das luzes ao gás da casa e negando a mudança, fazendo-a duvidar de sua sanidade e memória.

Pois é, no contexto da violência de gênero, essa prática tem sido comumente usada como ferramenta de controle, valendo-se das desigualdades sócio-históricas de poder para silenciar e desestabilizar as mulheres. Afinal, o gaslighting atua na desconstrução da autonomia e identidade da vítima.

Tudo começa, quando o agressor nega os fatos, omite as informações ou inventa eventos para gerar uma confusão mental, por parte da vítima. Nesse contexto, ele utiliza frases do tipo "você está louca" ou "está exagerando" para desqualificar os sentimentos e o senso crítico da mulher.

Assim, o agressor parte da sua posição, seja ela emocional, social ou financeira, para validar a sua versão dos fatos como a única verdade, a fim de invalidar sistematicamente a manifestação da vítima. Por isso, frequentemente, o agressor convence terceiros de que a vítima é instável ou emocionalmente confusa, usando o poder social para silenciar qualquer tentativa de denúncia ou busca por ajuda.

De modo que o objetivo final não é apenas vencer uma discussão, mas manter uma dinâmica de dominação onde a vítima perde o controle sobre sua própria capacidade cognitiva. No entanto, muitos não se dão conta dessa dinâmica pelo fato de que ela é capaz de perpetuar ciclos de abuso sem o uso de força física. Pois, ao criar um ambiente de confusão mental, o agressor dificulta a percepção dessa violência por parte da vítima e de outras pessoas.

Daí a importância de não desqualificar os relatos de violência das mulheres. Esse é o ponto de partida para romper com estruturas históricas que perpetuam a desigualdade de gênero e a impunidade, em todo o mundo. Quando um relato é validado, ocorre um enfrentamento direto aos mecanismos que mantêm os ciclos da violência, interrompendo a reprodução da opressão.

A desqualificação, seja na forma do gaslighting ou do julgamento moral da vítima, é sim, uma forma de violência simbólica, a qual reafirma relações de poder e dominação masculina. Historicamente, os relatos femininos foram sempre confinados ao âmbito privado e silenciados para evitar uma eventual desagregação familiar ou social. Por isso, ao não desqualificar esses relatos permite-se que certos temas, antes considerados particulares, ganhem relevância e projeção pública e política.

Veja, o medo de não ser acreditada é um dos principais motivos pelos quais as mulheres não denunciam. Além disso, paira sobre elas o desconforto da revitimização, na medida em que ao ser desqualificada a vítima experencia um novo trauma. Contudo, vale ressaltar que o supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu pela proibição de meios que desqualifiquem a mulher em processos, reconhecendo que isso fere a dignidade e a constitucionalidade.

Portanto, os ventos estão soprando de um modo diferente. Em pleno século XXI, já se dispõe de elementos suficientes para compreender que o descrédito sistemático das mulheres é um reflexo de uma sociedade patriarcal e misógina, de modo que não permitir colocar a fala feminina em posição de inferioridade se torna uma responsabilidade direta da própria sociedade.

Nesse cenário, então, está posta uma necessidade de escuta empática e de validação discursiva das mulheres, enquanto formas de resistência sistemática e contínua contra a manipulação psicoemocional, a fim de não apenas desafiar; mas, de desconstruir toda essa estrutura social tóxica e nociva, que vem reverberando historicamente. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dia Mundial de Combate ao Câncer (04/02)


Dia Mundial de Combate ao Câncer (04/02)

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O objetivo da data é aumentar a conscientização e a educação mundial sobre a doença, além de influenciar governos e indivíduos para que se mobilizem pelo controle do câncer.

Pois se trata de um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo” 1.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o “Brasil deve registrar 781 mil novos casos da doença por ano até 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma (de alta incidência, mas baixa letalidade), a projeção é de aproximadamente 518 mil casos anuais. As previsões confirmam que o câncer vem se consolidando como uma das principais causas de adoecimento e morte no Brasil, aproximando-se das doenças cardiovasculares.” 2.

E para compreender a dinâmica desse avanço do câncer, seja a nível brasileiro quanto global, é preciso ter em mente que os principais fatores de sua incidência na população contemporânea incluem o tabagismo, o consumo de álcool, a obesidade, a dieta excessiva, o sedentarismo e a exposição à poluição, incluindo os agrotóxicos.

Em relação ao tabagismo, ele atua na promoção do câncer a partir da inalação de mais de 7 mil substâncias, sendo cerca de 70 delas carcinogênicas. Portanto, elas causam danos físicos ao DNA, mutações genéticas e inflamação celular. Assim, tais alterações sobrecarregam o reparo celular e aceleram a divisão de células, favorecendo o surgimento de tumores malignos, especialmente na boca e no esôfago.

Quanto ao consumo de álcool, ele promove o desenvolvimento do câncer através da metabolização do etanol em acetaldeído, um composto tóxico que danifica o DNA das células e causa alterações, as quais produzem lesões. Além disso, ele aumenta os níveis de estrogênio, provocando uma inflamação crônica que gera estresse oxidativo e facilita a penetração de carcinógenos nos tecidos, elevando os riscos de tumores na boca, mama, fígado, esôfago e cólon.

A obesidade promove o desenvolvimento do câncer, principalmente, por induzir um estado de inflamação crônica, o qual aumenta os níveis de hormônios, tais como o estrogênio e a insulina. A produção excessiva de hormônios atua principalmente como um estimulante para a divisão celular acelerada, o que aumenta as chances de erros genéticos e o crescimento de tumores em tecidos sensíveis.

E nesse contexto, a dieta excessiva e a má nutrição são consideradas a segunda principal causa de câncer que pode ser prevenida. Por isso, recomenda-se priorizar alimentos de origem vegetal, como frutas e grãos integrais, e evitar o consumo de bebidas adoçadas e embutidos. Afinal, alimentos que promovem a inflamação crônica, tais como salsicha, bacon, presunto e linguiça, açúcar, farinha branca, gorduras saturadas e trans, e bebidas alcoólicas, criam um ambiente propício para o desenvolvimento e progressão de tumores.

O que somado ao sedentarismo vem promovendo a expansão do câncer na população contemporânea. Sim, porque a ausência de atividade física regular pode levar o indivíduo a obesidade, a inflamação crônica e a redução da eficiência imunológica, permitindo o surgimento de um ambiente celular favorável ao crescimento tumoral. Razão pela qual, o sedentarismo tem sido associado diretamente a certos tumores, tais como o de mama, de cólon, de endométrio e renal.

Por fim, a exposição aos agrotóxicos e poluentes no ambiente, seja no ar, na água e/ou nos alimentos, aumenta o risco de câncer dada a contaminação crônica. Trabalhadores rurais e residentes próximos a áreas de plantio intensivo estão mais expostos, com maior incidência de internações e óbitos por câncer.

O que ocorre devido ao contato e/ou a ingestão contínua, ainda que em baixas doses, via alimentos, ar e água contaminada, que leva ao acúmulo de tóxicos no organismo ao longo do tempo. Inclusive, estudos relacionados aos agrotóxicos e aos poluentes ambientais apontam para uma maior incidência de câncer no cérebro, na próstata, no rim, no fígado, no pulmão, além de leucemia e linfoma.

Daí a importância em destacar que esses contaminantes têm a capacidade de iniciar, promover e acelerar mutações, sendo muitos deles classificados como genotóxicos, ou seja, aptos a danificar o DNA, resultando no desenvolvimento de tumores. Bem como, interferem no sistema hormonal, provocando doenças, mesmo em níveis muito baixos de exposição.

Como se vê, então, enfrentar o avanço do câncer na sociedade contemporânea exige uma abordagem multifatorial, pois se trata de uma doença que não é apenas de natureza biológica, mas também um reflexo de nossos hábitos, ambiente e estruturas socioeconômicas.

Por isso, um dos maiores obstáculos no combate ao câncer está na desigualdade socioeconômica. As populações mais vulneráveis ​​enfrentam maiores riscos de exposição a certos fatores, tais como alimentação precária, tabagismo, alcoolismo e poluição ambiental, e sofrimentos com diagnósticos tardios, elevando a mortalidade.

Nesse sentido, é preciso entender que a desigualdade, nesse cenário, é uma questão estrutural. A falta de políticas públicas eficientes e o investimento insuficiente na prevenção aumentam a carga da doença entre os menos favorecidos, impactando diretamente o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).  

Ocorre que apesar de os países de alto IDH terem maior número absoluto de casos, a incidência e a mortalidade aumentam proporcionalmente e mais rapidamente em países de baixo e médio IDH.

O que tende a explicar, por exemplo, porque em contextos de baixa renda, com menor IDH, o câncer é mais letal; pois, o combate se dá de maneira desigual. Esses países sofrem com a falta de infraestrutura e investimento para diagnóstico precoce e tratamento, condenando milhares de pessoas à morte prematura, fato que torna o câncer uma doença diretamente ligada à desigualdade social e ao nível de desenvolvimento.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Educação no Brasil: O que escondem certas novidades?


Educação no Brasil: O que escondem certas novidades?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Vira daqui, mexe dali, e a Educação no Brasil é motivo de reflexão. A oferta de ensino público no país é descentralizada e compartilhada, com municípios focados na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, os estados nos anos finais do ensino fundamental e médio, e a União com o ensino técnico e superior.

Sendo que o financiamento do ensino básico é realizado majoritariamente pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), a partir da redistribuição dos recursos mediante o número de matrículas efetivadas.

E essa informação é de suma importância. Começando pelo fato de que o ensino básico no Brasil - ensino infantil, fundamental e médio -, que corresponde a 18 anos de formação do aluno, encontra-se sob gestão dos municípios e dos estados. Assim, eles   dividem as tarefas logísticas e operacionais, ou seja, transporte escolar, infraestrutura e manutenção de prédios e equipamentos, merenda e insumos físicos, e gestão do calendário e vagas, para garantir o funcionamento das redes de ensino público. Estas obrigações são fundamentais para o acesso físico e estrutural dos alunos às escolas.

Aspectos que têm povoado os veículos de comunicação e informação, com notícias que apontam para uma realidade, frequentemente, destoante dessas e de outras obrigações previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996) e na Constituição Federal de 1988 (arts. 205 a 214). Sendo que um dos aspectos que se sobressai, nesse contexto, se refere à infraestrutura e à manutenção de prédios e equipamentos.

Sim, a infraestrutura escolar no Brasil contemporâneo reflete profundas desigualdades socioespaciais, onde a precariedade de prédios e equipamentos, principalmente, em áreas periféricas e rurais limita o aprendizado e perpetua a exclusão social. A falta de equipamentos adequados limita as metodologias educacionais e a inclusão de novos contingentes sociais, impactando a formação global do aluno.

Bem, ainda que existam investimentos, há um alto índice de insatisfação com instalações básicas, tais como banheiros, refeitórios, laboratórios, bibliotecas, quadras de esporte, evidenciando a necessidade de alocação eficiente de recursos para garantir, inclusive, as exigências de educação em tempo integral. Mas, se fosse para considerar apenas os prédios onde se localizam as salas de aula, a situação já seria extremamente crítica.

Sejam escolas urbanas ou rurais, não é difícil verificar como inúmeras delas se encontram em situação de extrema precariedade. Carecem de reformas estruturais, de ventilação adequada, de falta de água potável, de esgotamento sanitário, de energia elétrica, de mobiliário compatível às atividades escolares, ...

Além disso, prédios abandonados tornam-se vulneráveis ​​a furtos, vandalismo e invasões, transformando o que deveria ser um polo educativo em um problema de segurança pública para a vizinhança.

E diante desse cenário de abandono e precariedade enfrentado por diversas escolas públicas, sob gestão de municípios e de estados, é inevitável que, em algum momento, se chegue ao seu fechamento e encerramento das atividades educacionais.

Acontece que o processo não para no abandono e posterior fechamento dessas escolas públicas. Em algum momento, ele é seguido de novas construções em outros locais, tendo como justificativa uma eventual readequação da rede escolar. No entanto, a realidade dessas escolas fechadas por falta de manutenção e estrutura inconveniente, poderia ser facilmente solucionada através de reformas. E por que não é?

Ora, porque a construção de novas unidades atende a interesses políticos locais em realizar inaugurações, especialmente, em anos eleitorais, deslocando alunos para áreas periféricas ou reduzindo o número total de escolas funcionando simultaneamente. Desse modo, inaugurar uma nova escola pode mascarar o fechamento de outras, resultando em saldo nulo ou negativo na quantidade total de estabelecimentos, impactando a cobertura educacional, especialmente no ensino básico.

O fechamento de escolas municipais/estaduais seguido da inauguração de novas unidades cria, portanto, a falsa sensação de ampliação; pois, foca na construção, na novidade, ignorando a redução líquida do patrimônio escolar. Trata-se de uma manobra política para construir uma propaganda oficial que destaca apenas as novas unidades construídas.

Afinal, essas inaugurações geram visibilidade política e fotos de escolas modernas, enquanto o fechamento de unidades menores ou rurais, que atendem a esse modelo de reordenamento da rede, ocorre de forma silenciosa e dispersa. Não é à toa que, frequentemente, governos municipais e estaduais anunciam novas construções enquanto deixam milhares de obras escolares paradas, gerando um esquema onde o número de unidades educacionais efetivas em funcionamento não cresce, ou até diminui.

Diante desse modelo de reordenamento escolar, com o fechamento de unidades próximas às comunidades, especialmente na zona rural, tem-se um aumento da distância para os alunos, contribuindo para a evasão escolar. A precariedade física, portanto, não é apenas um problema técnico, mas uma barreira que impede que uma escola pública exerça sua função de mobilidade social, mantendo a estrutura da pirâmide social brasileira.

O que significa que a evasão escolar não é um evento acidental, mas uma característica estrutural muitas vezes utilizada para validar políticas de austeridade, que consistem no corte rigoroso de gastos públicos; sobretudo, quanto aos investimentos em infraestrutura, saúde e educação.

Por isso, quando as taxas de evasão sobem, o custo por aluno formado aumenta, fazendo com que se torne o argumento técnico para reduzir repasses, sob a lógica de que o sistema é ineficiente e precisa ser ajustado. Assim, menos alunos em sala resultam em menos recursos para a escola, perpetuando a precariedade. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A desumanização e a inconsciência de que a vida é um todo indivisível


A desumanização e a inconsciência de que a vida é um todo indivisível

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se engana quem pensa que a desumanização se limita a atos de crueldade física, mental e emocional contra seres humanos. Não, a desumanidade também afeta outros seres vivos.  Esse processo não é apenas uma falta de empatia, mas uma construção intelectual que justifica uma exploração.

Trata-se de uma falha ética que estabelece uma posição moral arbitrária, onde o sofrimento de um ser vivo, não humano, é considerado irrelevante apenas por ele não pertencer à espécie Homo sapiens.

Assim, ao transformar a natureza em mercadoria, em objeto, em algo desimportante e sem valor, o ser humano se desumaniza porque perde a conexão com o meio que sustenta a sua própria existência.

De modo que a desumanização contra um ser vivo não humano aponta para o fato de que ao negar a eles o status de sujeitos morais, a sociedade contemporânea rompe o imperativo ético de cuidado e de responsabilidade.

A moralidade torna-se seletiva; na medida em que a preservação dos seres vivos passa a depender diretamente das vontades e dos interesses do ser humano.

Nesse sentido, o enfraquecimento desses valores sinaliza uma dessensibilização social, na qual a desumanização se sobrepõem à compaixão e ao respeito pela vida.

Haja vista, por exemplo, a realidade contemporânea do abandono e da violência contra animais domésticos e/ou de estimação. Ela configura um problema de saúde pública, de negligência social e de um reflexo da banalização da violência, muitas vezes, atrelada à falta de responsabilidade dos tutores, seja por dificuldades financeiras ou por deformidades culturais.

Algo que sinaliza a realidade de uma sociedade que prioriza a humanidade sobre a alteridade, onde a vida, seja ela humana ou não, só tem valor enquanto serve a um propósito egoísta.

Como se fosse possível constituir uma banalização da morte e uma transformação de seres que têm a capacidade de sentir sensações físicas e emoções, em meros recursos para fins humanos.

E diante das reiteradas manifestações de desumanização contra os animais, a criminalização dos maus-tratos foi instituída no Brasil.

O animal deixou de ser visto como coisa para ser reconhecido como um ser senciente, ou seja, capaz de sentir sensações físicas e emoções.

Portanto, maltratar animais é crime no Brasil, conforme a Lei nº 9.605/1998. Se forem cães e gatos, a Lei nº 14.064/2020 aumenta a pena para reclusão de dois a cinco anos.

Além disso, o artigo 225, § 1º, inciso VII, da Constituição Federal de 1988, estabelece que o Poder Público tem o dever de proteger a fauna e a flora, vedando práticas que coloquem em risco suas funções ecológicas, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.

E o Decreto 11.349/2023 trouxe uma mudança significativa para a proteção dos direitos animais no Brasil, quando criou a Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, bem como o Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais dentro do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Segundo a Resolução do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) nº 1236/2018, a qual define crueldade, abuso e maus-tratos aos animais, é fundamental destacar a responsabilidade de veterinários e zootecnistas em identificar e denunciar esses atos. Por isso, ela inclui orientações sobre práticas como eutanásia e transporte de animais, sempre visando minimizar o sofrimento.

Vale ressaltar que nas entrelinhas de toda essa construção jurídica está a Teoria do Elo. De acordo com os estudos da sociologia e da criminologia, a violência contra animais é frequentemente um preditor de violência contra humanos, especialmente, minorias sociais - negros, indígenas, população LGBTQIA+, Pessoas com Deficiência (PCDs), mulheres, idosos, refugiados, e pessoas em situação de vulnerabilidade, como é o caso dos moradores de rua.

Daí a punição à crueldade animal ser, também, uma forma de prevenir a manipulação desumanizadora do tecido social como um todo. Afinal, ao tornar a crueldade um crime, o Estado estabelece um novo padrão ético, sinalizando que a empatia e a compaixão são valores fundamentais para a convivência em uma sociedade civilizada.

A importância de não compactuar com a desumanização, estendendo esse cuidado aos animais e à natureza, reside na construção de uma ética da alteridade que confirma o valor intrínseco de toda forma de vida.

Afinal de contas, consiste nessa consciência o que diferencia o processo de humanização genuíno da simples dominação técnica; pois, somente através da utilização da empatia e da autorreflexão, características distintivas do ser humano, é que se torna possível proteger a vida em todas as suas manifestações. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O SILENCIAMENTO NA EDUCAÇÃO


O SILENCIAMENTO NA EDUCAÇÃO

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

No século XX, Darcy Ribeiro, antropólogo, educador, escritor e político brasileiro, já dizia que “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. De modo que pensar a partir da perspectiva da fragilização e do sucateamento do ensino, em suas mais diversas formas e conteúdos, não consegue trazer a inteireza ou completude dessa crise.

A verdadeira base desse gigantesco iceberg é o silenciamento da educação. Isso significa que, na realidade contemporânea, está se firmando uma práxis na qual há uma imposição estrutural e ativa de silêncio sobre determinados assuntos ou saberes, funciona como um mecanismo de poder que marginaliza vozes dissidentes, grupos oprimidos e professores, perpetuando desigualdades sociais e raciais.

Como se estivesse em curso uma pedagogia do silenciamento, que é capaz de transformar o ambiente educativo em um espaço antidemocrático de reprodução de discursos dominantes, limitando o diálogo e a participação crítica, que é ocultada por modelos supostamente disciplinadores ou de ordenamento. Assim, o silenciamento passa a atuar como uma ferramenta de manutenção do status quo social, convertendo a escola ou instituição de ensino em um aparelho ideológico que atende aos interesses de grupos dominantes.

Isso significa preparar os indivíduos para a liberdade passiva de ordens, essencial para a estrutura de partidos ou regimes que exigem obediência sem questionamento. Condição que garante à base da pirâmide social permanecer em sua posição, não interferindo ou obstaculizando os interesses político-partidários que lucram com a sociedade de castas. Politicamente, isso transforma o cidadão em um espectador passivo, vulnerável à manipulação e ao populismo, já que sua voz foi suprimida pelo sistema educacional.

Mas, não para por aí. Dentro dessa dinâmica há inúmeras vozes em defesa do silenciamento curricular para apagar memórias históricas ou conflitos sociais, criando uma narrativa oficial que favorece sua permanência no poder e neutraliza a oposição antes mesmo que ela aprenda a se expressar. Portanto, o silenciamento educacional funciona como um importante mecanismo de poder, na medida em que oculta narrativas de grupos subalternizados, tais como os negros, os indígenas, as mulheres, os LGBTQIA+, resultando no apagamento histórico-social.

Além disso, o silenciamento educacional trabalha ativamente para a desconstrução da identidade nacional. Sim, ao buscar uma identidade única, ele acaba por desconstruir as identidades reais e múltiplas dos cidadãos, gerando um distanciamento entre o que é ensinado e a realidade experenciada cotidianamente.

Há, portanto, um impedindo para que se desenvolva uma consciência crítica necessária ao reconhecimento da própria cidadania, a partir da consciência identitária que permite a cada indivíduo se reconhecer plenamente como parte integrante da nação. Daí a necessidade de compreender que o silenciamento não é apenas uma falta de fala, mas uma presença ativa de exclusão que molda o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido na construção do ser nacional.

Até que, de repente, todas essas engrenagens alcançam a subjetividade do próprio conhecimento. O silenciamento educacional, com toda a sua supressão do pensamento crítico e da liberdade de cátedra, vem sendo limitado severamente no que diz respeito à sua produção científica. É, os resultados vêm mostrando uma menor geração de tecnologias, inovações e autonomia econômica, nos países em que o silenciamento educacional se tornou política pública.

A falta de estímulo ao pensamento autônomo e o medo de retaliação geram queda na produção de conhecimento, evidenciado por quedas no volume de publicações acadêmicas. De modo que isso perpetua as desigualdades, inclusive geopolíticas, pois limita a diversidade de perspectivas na pesquisa e dificulta a inclusão social através do conhecimento, reduzindo o potencial transformador da ciência.

Haja vista que menos pesquisadores formados e incentivados resultam em um atraso na geração de soluções tecnológicas e inovações cruciais para o desenvolvimento do próprio país. O silenciamento educacional e científico, portanto, não afeta apenas a produção de dados, mas limita a capacidade da sociedade de se autoanalisar, inovar e se desenvolver de forma equitativa.

Em linhas gerais, então, o silenciamento educacional é o instrumento contemporâneo de manutenção da hegemonia de grupos dominantes. Contudo, não se pode esquecer de que o que não é dito ensina tanto quanto o que é dito. Ao silenciar diferenças comunicadas aos estudantes, se estabelece uma visão distorcida e equivocada de que certas existências são anormais ou irrelevantes, impedindo o desenvolvimento da alteridade. Desse modo, em vez de preparar os indivíduos para um mundo aberto e plural, o silenciamento busca homogeneizar o olhar e o pensamento.

O silenciamento não é uma falha do sistema educacional, mas uma estratégia política para garantir que o mundo permaneça fechado às transformações sociais que uma educação diversificada poderia gerar. Portanto, ele é parte da involução social contemporânea, que favorece a reprodução da ordem estabelecida em vez da transformação, a ausência da qualidade ou do desenvolvimento humano da sociedade, e a geração de um retrocesso na capacidade coletiva de resolver crises.

Como escreveu Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. De modo que, “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Afinal, “A palavra viva é diálogo existencial. Expressa e elabora o mundo, em comunicação e colaboração. O diálogo autêntico – reconhecimento do outro e reconhecimento de si, no outro – é decisão e compromisso de colaborar na construção do mundo comum. Não há consciências vazias; por isto os homens não se humanizam, senão humanizando o mundo”. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A relação direta entre a economia brasileira e suas tragédias socioambientais

A relação direta entre a economia brasileira e suas tragédias socioambientais

 

Por Alessandra Leles Rocha   

 

Gostaria que fosse; mas, não é uma mera impressão, o fato de o Brasil do século XXI permanecer reproduzindo as mesmas bases econômicas que constituíram o seu período colonial (de 1530 a 1822). Uma colônia de exploração que se caracterizou pelo extrativismo mineral e vegetal, e pela produção de monocultura exportadora.

Desse modo, a estrutura econômica brasileira contemporânea permanece fortemente baseada no extrativismo mineral e nos grandes latifúndios do agronegócio, com suas monoculturas, perpetuando um modelo exportador de commodities. O que significa um padrão baseado na produção e venda em larga escala de matérias-primas, sejam elas agrícolas, minerais ou energéticas, com baixo valor agregado para o mercado internacional.

Algo que reflete na dependência externa, na concentração enviesada de terra e renda, gerando desigualdades sociais, impactos ambientais e subordinando o desenvolvimento nacional às oscilações de preços globais. Sem contar, que a transferência industrial se torna freada por uma estrutura que privilegia o setor primário em detrimento de uma indústria diversificada e tecnologicamente avançada.

Nesse cenário, então, a orientação de exportação centrada em produtos de baixo valor agregado, as chamadas commodities, limita a complexidade econômica, inibindo a difusão tecnológica e a inovação no tecido produtivo. Além de gerar menos empregos, de concentrar renda nas mãos de uma ínfima minoria do estrato social, a economia torna-se extremamente dependente de ciclos internacionais de preços, o que compromete o planejamento de longo prazo e a consolidação da estrutura industrial.

Mas, um aspecto que merece uma atenção especial diz respeito ao modelo de exportação de commodities minerais, um dos pilares da economia brasileira, representando um item essencial para o superávit comercial, tendo na mineração de ferro, ouro e cobre a sua liderança.

Afinal, ele oculta uma série de atrasos estruturais, tais como a dependência tecnológica internacional, a fiscalização ambiental insuficiente e ineficiente, a deficiência de infraestrutura e a reprimarização da pauta exportadora, ou seja, o aumento da participação de produtos básicos, commodities agrícolas e minerais, nas exportações em detrimento dos produtos manufaturados de alto valor agregado.

Portanto, esse modelo transforma o patrimônio natural brasileiro em riqueza específica para poucos, enquanto nacionaliza os prejuízos sociais e ambientais. Haja vista que, secularmente, ele tem gerado graves prejuízos socioambientais, destacando-se a contaminação hídrica e do solo por rejeitos e metais pesados, o desmatamento, a destruição de habitats de espécies da fauna e da flora, além de conflitos territoriais com povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Primeiramente, porque a dependência excessiva de commodities minerais torna a economia brasileira refém dos preços internacionais e da demanda, gerando instabilidade macroeconômica e dificultando o desenvolvimento socioeconômico sustentável. Segundo, porque a legislação brasileira sobre mineração é considerada defasada por perpetuar um modelo primário-exportador de baixo valor agregado, focando na extração bruta das commodities, gerando todo tipo de vulnerabilidade econômica e impactos socioambientais. Isso ocorre devido a legislação que, por vezes, facilita a exploração em áreas sensíveis, priorizando o patrimônio da União (art. 20 da CF/88) sobre as comunidades locais.

Fato que vulnerabiliza diversas regiões, a partir de impactos socioambientais negativos, tais como eventos antrópicos, capazes de causar danos significativos, incalculáveis ​​e de difícil reversão aos ecossistemas, à biodiversidade e às comunidades humanas, e o desenvolvimento desigual, onde a atividade mineradora produz um alto PIB (Produto interno Bruto), mas baixos índices de desenvolvimento humano (IDH).

De modo que a mineração cria territórios de conflito, pressão sobre locais e degradação de ecossistemas para atender as demandas internacionais, fazendo com que as falhas estruturais na fiscalização e na legislação, transformem crimes socioambientais em acidentes. O modelo consolida o lucro para poucos e o desastre ambiental para muitos, evidenciando uma flagrante inexistência de justiça ambiental, no Brasil.

Os desastres contemporâneos da mineração brasileira, como os rompimentos de barragens em Mariana/MG (2015) e Brumadinho/MG (2019), e a contaminação hídrica e por rejeitos de bauxita em Barcarena/PA (com destaque na série histórica entre 2003 e 2018), dão a dimensão real do que significa a perpetuação histórica desse modelo atrasado de extrativismo mineral.

Aliás, ontem, 25 de janeiro de 2026, quando a tragédia socioambiental ocorrida em Brumadinho completou 7 anos, após chuvas intensas atingirem a região de Congonhas/MG, houve o rompimento de um reservatório responsável por reter água com sedimentos de uma cava de mina, um tipo de cratera artificial aberta para extração de minérios, pertencente a uma grande mineradora1.

É preciso entender que a escolha do método de contenção de rejeitos e efluentes pela atividade mineradora reflete uma priorização de custos sobre a segurança. Bem como, áreas de mineração intensiva acabam por se tornar territórios de sacrifício, onde o risco é concentrado localmente para beneficiar o desenvolvimento econômico externo.

Acontece que a ideia de que o risco da atividade mineradora é concentrado localmente não é verdadeira. Apesar de se tentar reduzir a um ponto geográfico específico, os danos ambientais e os sociais, eles se propagam inevitavelmente por vastas regiões, ignorando as políticas de fronteiras. Por isso, uma falha local pode gerar crises de desabastecimento em setores industriais distantes, demonstrando que a instabilidade do setor minerador é um risco compartilhado globalmente. O preço socioambiental da mineração é, portanto, um ônus coletivo, mesmo que a operação seja pontual.

Daí a urgência de uma reflexão profunda sobre o modelo do extrativismo mineral no Brasil. Diante do recrudescimento das mudanças climáticas, através dos seus diferentes eventos extremos e distribuição planetária, como chuvas intensas e secas prolongadas, não há como negar a ocorrência de uma fragilização decorrente da deterioração dos sistemas de contenção, ou seja, as barragens e pilhas de rejeitos de mineração. Esses processos tendem a elevar o risco de colapsos, de desastres socioambientais, ameaçando comunidades, a biodiversidade e a segurança hídrica; bem como, gerando a desterritorialização e a injustiça ambiental.

Já não restam dúvidas, então, de que esses desastres são exemplos de incertezas fabricadas, onde o avanço tecnocientífico gera riscos incalculáveis ​​que o próprio sistema não consegue gerenciar agressivamente. A influência política das grandes corporações vem resultando em processos de licenciamento ambiental muitas vezes considerados frouxos ou pouco fiscalizados, o que permite a consolidação de um cenário de impunidade onde as anormalidades são trivializadas, banalizadas, como operações cotidianas. Portanto, estamos diante de um risco sistêmico produzido pela organização social e econômica do setor, no Brasil.



1 https://www.youtube.com/watch?v=K0fMM9RmFyc  (Prefeito de Congonhas: “Estimativa do vazamento é 220 mil m³ de água”). 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Analfabetismo funcional de alto nível na sociedade contemporânea


Analfabetismo funcional de alto nível na sociedade contemporânea

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A recente notícia de que mais de 30% dos cursos de Medicina, 107 dos 351 cursos avaliados pelo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) tiveram notas consideradas insatisfatórias e foram reprovados pelo MEC, é grave e exige uma reflexão de toda a sociedade brasileira.

Não há como negar a banalização e a precarização do conhecimento, na contemporaneidade. Estamos sim, diante de um processo no qual o saber vem perdendo a sua profundidade reflexiva, analítica e ética, transformando-se em mercadoria de consumo rápido e fragmentado. De modo que esse não é um problema que se resume apenas aos Cursos de Medicina.  

A contemporaneidade nos confronta diretamente com um esvaziamento do rigor didático-pedagógico e metodológico da educação em geral; mas, principalmente, no que diz respeito aos cursos de formação profissional, resultando em um quadro alarmante de extrema fragilidade das bases intelectuais, tanto dos discentes quanto dos docentes.

E isso vem ocorrendo, principalmente, em razão de uma tecnologização e cientificação contemporânea que promovem a obsoletização do conhecimento, a partir do deslocamento do valor do saber de uma perspectiva de sabedoria para uma pseudoeficiência.

Isso significa que o conhecimento além de ser fragmentado em dados, ele se torna uma mercadoria informativa, ou seja, o que não pode ser traduzido em quantidades computáveis ​​torna-se obsoleto, ultrapassado, antigo ou irrelevante, para o sistema. Portanto, o saber só é validado se gerar a aplicabilidade técnica, tornando o pensamento crítico-reflexivo uma peça de museu diante da urgência operacional.

Não bastasse isso, a cientificação extrema passou a delegar o julgamento humano aos algoritmos. Se uma máquina pode decidir ou calcular os resultados, o esforço humano de compreensão profunda é visto como ineficiente. Em síntese, essa nova forma de conhecimento passa a ter um prazo de validade curto, tendo em vista de que será substituído pela próxima atualização de software ou de uma nova ferramenta tecnológica no mercado.

Esse cenário, então, nos mostra que o impacto da tecnociência no ensino-aprendizagem contemporâneo transita por uma tensão profunda entre a eficiência técnica e a formação humana. Milhares de estudantes estão abdicando do seu papel de sujeito que questiona o porquê das coisas, para se tornarem operadores de sistemas que apenas buscam o como fazer.

Acontece que nessa educação fundamentada pela lógica do algoritmo, ou seja, rápida, superficial e externa para resultados quantificáveis, se estabelece uma crença, extremamente perigosa, de que tudo pode ser ensinado via telas, desconsiderando por completo que isso significa produzir uma atrofia da experiência sensível e do diálogo presencial.

O excesso da mediação tecnológica tende a isolar o indivíduo em bolhas de confirmação, onde o aprendizado não é um encontro com o outro, com diferentes visões de mundo, mas apenas o consumo de conteúdos personalizados pelas tecnologias de última geração. O que muita gente, por aí, se esquece ou prefere não ver, é que esse contexto trabalha a favor de que o ensino desempenhe apenas o papel de engrenagem do mercado de trabalho.

Isso significa que o valor do aprender, com o propósito de construir efetiva e verdadeiramente o conhecimento, é desprezado e anulado se não houver uma aplicação técnica imediata. Acontece que a consequência imediata disso é o analfabetismo funcional de alto nível. Sim, a sociedade passa a produzir indivíduos técnicos, em tese, capazes; mas, eticamente cegos e incapazes de refletir sobre as consequências de suas próprias ações técnicas.

Basta ver que o analfabetismo funcional de alto nível, na sociedade contemporânea, exibe cada vez mais a incapacidade de leitura, de interpretação e de organização de informações complexas, por milhares de alunos, tornando-os promotores de narrativas superficiais em razão da sua inversão de prioridades, quando ao contrário de buscar por conhecimento profundo, se permitem absorver conteúdos rasos e sensacionalistas, comuns nas redes sociais.

Desse modo, o analfabetismo funcional de alto nível torna os estudantes alvos simples para a pós-verdade, mediante a fragilização do seu pensamento crítico e de suas habilidades de interpretação, ao se depararem com notícias falsas e manipulações; posto que, não conseguem discernir fatos de opiniões ou verificar fontes, comprometendo a sua tomada de decisões.

No caso da formação médica brasileira, por exemplo, o analfabetismo funcional de alto nível representa um risco grave, na medida em que impede os futuros profissionais médicos de alcançarem uma compreensão profunda de artigos científicos complexos, de diretrizes clínicas e prontuários; bem como, comprometendo a aplicação de raciocínio crítico e da consolidação de uma atualização contínua.

Assim, todo esse cenário de carências tende a levar a diagnósticos imprecisos, tratamentos inadequados e, consequentemente, impactando a segurança e a qualidade do cuidado ao paciente, devido à dificuldade de gestão das informações e da comunicação eficaz.

Fala-se muito em humanização da Medicina, no Brasil; mas, ela começa na formação médica, enquanto processo essencial que contempla, desde o primeiro dia de aula, o ensino de empatia, de ética e de acolhimento, aprofundando-se na integração de disciplinas humanísticas e atividades extracurriculares.

Portanto, que a notícia veiculada pelos mais diversos meios de comunicação, causando constrangimento e preocupação, ainda que seletiva a alguns segmentos sociais, possa ter despertado uma consciência de urgência coletiva, mais abrangente, no sentido de reumanizar os currículos escolares a fim de se fazer uma oposição consciente e direta a essa expansão da supremacia da tecnociência na formação profissional brasileira.

Afinal de contas, esse processo de atrofia da capacidade de julgamento moral e social, está sim, associada a diversas políticas públicas as quais vêm, ao longo de décadas, invalidando e obstaculizando a possibilidade dos alunos em desenvolver o pensamento crítico, a ética e a compreensão das relações de poder e alteridade. Sendo que esse é o tipo de saber que permite a qualquer indivíduo, em qualquer profissão, se situar como sujeito histórico, parte integrante e integrada a própria realidade.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.


Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em dezembro de 2022, eu escrevi o texto O AVESSO DO MUNDO VIRTUAL, no qual eu compartilhava a seguinte experiência no antigo Twitter: “em 08 de outubro fui pega de surpresa com a suspensão permanente das minhas contas, por uma suposta violação das regras de utilização. Acontece que não só faltaram maiores esclarecimentos a respeito dessa violação, como as minhas manifestações recorrendo da suspensão não foram sequer respondidas. Uma notificação padrão de análise era encaminhada; mas, não passou disso. E diante dessa situação, eu decidi desativar as contas; mas, fui impedida por uma mensagem alegando a suspensão das mesmas. Vejam só que situação absurda!”.

Passados 4 anos, a situação se repete da mesma forma, de maneira ainda mais surpreendente, dessa vez a plataforma foi o Youtube. Acordei, essa manhã, e quando liguei o celular para me inteirar das notícias do dia, descobri que a minha conta havia sido removida ou, segundo eles, “o meu Canal foi removido”. Não houve quaisquer avisos prévios, quaisquer menções de que eu estaria infringindo alguma regra ou política da plataforma. Foi uma decisão sumária. Exatamente como da outra vez.

Acontece que eu não tenho um canal, nunca gravei um vídeo sequer nessa ou em quaisquer outra plataforma, tratando de qualquer assunto. Eu apenas acompanhava as publicações presentes naquele espaço. Seguia assuntos diversos, entre importantes e supérfluos, sérios e engraçados.  Algumas vezes, eu compartilhava assuntos interessantes e importantes. Mas, na maioria do tempo, eu me dedicava a acompanhar a dinâmica do dia.

Então, eu me perguntei: onde está a liberdade de decidir, de escolher? Ela desapareceu. Como fumaça. Como um passe de mágica. Diante da presença dos algoritmos, os quais, por alguma razão, decidiram que as minhas escolhas, a minha decisão em torno da busca por informações, estaria destoando gravemente do que eles consideram certo, do que eles consideram relevante. Os algoritmos interferiram diretamente na construção do meu conhecimento de mundo.

Exatamente, como aconteceu no Brasil, durante a Primeira República ou República Velha, entre 1889 e 1930, com o chamado voto de cabresto, um importante mecanismo utilizado para controlar o comportamento eleitoral da população. Pois é, em pleno século XXI, o controle social vem sendo exercido pelos algoritmos, através da modulação do comportamento e da gestão da informação em larga escala, limitando o debate público e a exposição ao contraditório. Esse uso de metadados permite, então, não apenas influenciar processos democráticos, por exemplo, como estabelecer padrões de consumo e comportamento.

Afinal de contas, os algoritmos de redes sociais e buscadores são projetados para maximizar o engajamento, o que promove as bolhas de filtro, nas quais a exposição ao contraditório é eliminada, restringindo a liberdade intelectual e a capacidade de escolha. O que significa que a falta de transparência sobre como essas decisões são tomadas aliena o direito do cidadão de contestar ou compreender as lógicas que restringem seu acesso a direitos e oportunidades no ambiente virtual.

Portanto, o controle social exercido por algoritmos na contemporaneidade, impacta diretamente a autonomia individual, na medida em que limita o acesso a perspectivas divergentes, reduzindo a base de informações necessárias para uma escolha livre e consciente. De modo que, muitas vezes, esse controle manifestado pelos algoritmos exerce uma ação direta sobre a manutenção ou o cancelamento de contas e/ou perfis. Como se eles atuassem na figura de juízes automatizados, promovendo uma censura silenciosa e impeditiva de recursos e de autodefesa, por parte do cidadão. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Não adianta torcer o nariz ...


Não adianta torcer o nariz ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O ser humano é um ser cultural.  O que significa que ele não é definido apenas pela sua biologia, mas principalmente pela sua capacidade de criar, de transformar e de transmitir significados, valores, costumes e conhecimentos.

Por isso, ele molda tanto o seu ambiente quanto a si mesmo, tornando-se um produto e agente da história e da sociedade, de modo a refletir sobre o mundo as suas compreensões, percepções e expectativas, dessa forma, atribuindo sentidos e construindo identidades.

Daí a cultura não ser apenas um produto de consumo, mas um recurso que gera emprego e renda através da Economia Criativa, onde a criatividade e o capital intelectual tornam-se os principais motores do valor nacional, gerando riqueza, trabalho e desenvolvimento humano, indo além dessa perspectiva, para algo maior que promove a inclusão social, a diversidade sociocultural e o bem-estar comunitário, redefinindo o papel do indivíduo e da comunidade na economia contemporânea.

Em termos de Brasil, a economia criativa se destaca por sua velocidade de expansão, superando atividades tradicionais e contribuindo significativamente para a economia nacional.

Haja vista que o setor ultrapassou a marca de R$ 393,3 bilhões em 2023, representando 3,59% do PIB brasileiro, com projeções de aumento em 2025.

Sem contar que ela emprega mais de 7 milhões de pessoas no Brasil, com projeções de chegar a 8,4 milhões até 2030, considerando que a expectativa é de que esse crescimento tanto no mercado formal, com carteira assinada, quanto no informal, seja impulsionado principalmente por setores como games, audiovisual, moda e tecnologia.

De modo que a criatividade individual e coletiva; bem como, o conhecimento e a imaginação, passam a ser recursos econômicos tão importantes quanto o capital físico tradicional. Afinal, a economia criativa gera não só renda e empregos, mas também fortalece a identidade cultural.

E certamente esse pode ser considerado o grande pulo do gato, porque além de promover a autoestima e a qualidade de vida, empoderando comunidades marginalizadas, faz da cultura um instrumento real de ruptura com o "complexo de vira-lata", quando inverte a lógica de valorização da produção nacional, alterando a exportação de commodities pela exportação de capital intelectual e identidade cultural brasileira.

O primeiro semestre de 2025 viu, por exemplo, as exportações de livros brasileiros crescerem 7%, superando o total de 2024, impulsionadas pelo programa Brazilian Publishers, projeto da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), com apoio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que movimentou USD 14.367.900 em negócios nas principais feiras literárias do mundo. O valor representa um crescimento de 7% em relação ao ano todo de 2024.

No campo audiovisual, os filmes brasileiros ganharam espaço, atingindo uma participação de 11,2% do público total nos cinemas até agosto de 2025. O mercado audiovisual brasileiro projetou um crescimento de 5% ao longo do ano, impulsionado por investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

Em suma, o audiovisual brasileiro mostrou forte expansão, com o mercado de VoD (Vídeo sob Demanda) identificando mais de 138 mil títulos e consolidando-se, enquanto o cinema viu um aumento na presença de conteúdo nacional, 14,1% das sessões, e um crescimento expressivo na venda de ingressos para filmes brasileiros, proporcionando um setor resiliente e em crescimento, impulsionado também pelo aumento de salas e da projeção de expansão econômica.

Além disso, a economia criativa brasileira também expandiu seu foco em outros pilares. O fortalecimento de laboratórios de inovação. As plataformas de crowdfunding (financiamento coletivo). As soluções em gestão de resíduos eletrônicos. A ascensão do slow fashion (produção ética e sustentável). O upcycling (reaproveitamento e customização de materiais que seriam descartados). O design de produtos ecológicos, valorizando a produção local e consciente. A construção de roteiros personalizados, constituindo o chamado turismo de experiência, e a gastronomia artesanal, os quais ganham força com propostas únicas de valorização cultural local.

ARTESANATO, GASTRONOMIA, MÚSICA, ARTES CÊNICAS, PATRIMÔNIO, MODA, DESIGN GRÁFICO, DESIGN DE INTERIORES, SOFTWARE, JOGOS ELETRÔNICOS, CINEMA, TELEVISÃO, NOVAS MÍDIAS, PUBLICIDADE, ARQUITETURA, MARKETING, FOTOGRAFIA, EDIÇÃO, carregam, portanto, um recurso abundante e multiplicável, capaz de contribuir para a inovação e o desenvolvimento de uma sociedade, em todos os tempos.

É por essa força pulsante e vigorosa, que os brasileiros e brasileiras puderam iniciar o ano de 2026, celebrando a conquista notável do filme O Agente Secreto, ao vencer no Globo de Ouro 2026, em Los Angeles, as categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura; bem como, no Critics Choice Awards 2026 como Melhor Filme Estrangeiro.

Aliás, não se pode esquecer que as inúmeras premiações que o filme já conquistou, até o momento, tiveram como ponto de partida a sua estreia mundial em 18 de maio de 2025, como parte da Seleção Oficial do 78º Festival de Cannes, onde concorreu pela Palma de Ouro.

Na ocasião, ele conquistou os prêmios de Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho, Melhor Ator para Wagner Moura, tornando-o o primeiro sul-americano a vencer nesta categoria em Cannes, o Prêmio FIPRESCI de crítica internacional, e o Prêmio Art House Cinema (Prix des Cinémas Art et Essai).

É preciso compreender e reconhecer a importância simbólica e material da cultura para a sociedade brasileira contemporânea, na medida em que ela oferece um arcabouço de significados que permitem aos brasileiros se apropriarem da sua condição de nação, valorizando a complexa miscigenação do país, a partir do compartilhamento dos códigos, dos valores e das tradições que são capazes de criar um sentimento de solidariedade que facilita a comunicação e a cooperação coletiva; bem como, fortalece o seu espírito soberano.  

Relembrando as palavras de Fernanda Montenegro, uma das mais importantes atrizes brasileiras da história, “Nossa deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar cultura a outro. Nós temos é que buscar a cultura no povo, dando condições para que ela brote. Só assim torna-se possível criar uma real identidade cultural”.

Porque é com essa consciência que a riqueza das manifestações culturais brasileiras permite desafiar as normas impostas ao longo da colonização do país, consolidando-se como um motor de inovação e resistência nacional, que nos permite dizer alto, e muitas vezes, VIVA A CULTURA BRASILEIRA!