sábado, 20 de março de 2021

Sobre a Felicidade...


Sobre a Felicidade...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Pode até soar estranho; afinal, estes são tempos pandêmicos. Mas, discutir sobre a Felicidade, além da costumeira condição de contentamento existencial, pode ser muito útil dentro do atual contexto, porque ela ultrapassa as fronteiras da idealização humana e alcança repercussões muito práticas na sociedade. Foi por essa razão que, em 28 de junho de 2012, a Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu o dia 20 de março como Dia Internacional da Felicidade (The International Day of Happiness) 1.  

Ora, um mundo em que as pessoas tenham motivos para se sentirem felizes, satisfeitas e alegres é um mundo em que a paz e o bem-estar das sociedades estão assegurados. De modo que promover esse movimento de “felicidade” significa contribuir para a contenção de conflitos e guerras sociais e étnicas, ou quaisquer outros tipos de comportamento beligerante. E assim, a proposta foi aceita pelos 193 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU).

Claro que aceitar nem sempre significa cumprir. Porque essa “felicidade” não é um status dissociado de inúmeras questões sócio, políticas e econômicas complexas. Por isso, para apoiar e incentivar essa prática, a ONU prepara anualmente um relatório mundial, cujo tema a ser discutido impacta diretamente a felicidade enquanto objetivo humano fundamental.

O primeiro relatório foi intitulado “Felicidade e bem-estar: definindo um novo paradigma econômico”. Nos últimos 3 anos, os temas foram “A migração dentro e fora de países” (2018), “A relação entre felicidade e comunidade” (2019) e “Ambientes para a felicidade (social, urbano e natural) ” (2020) 2. Os responsáveis pela elaboração da base estrutural desse trabalho são a Sustainable Development Solutions Network (SDSN) e o Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, em Nova Iorque (EUA).

Como já é possível perceber, mensurar a “felicidade” não é tão simples. Porque, além da escolha do tema em torno do qual se concentram as análises, o resultado do ranking depende da avaliação individual das pessoas nos últimos 3 anos, ou seja, o índice publicado em 2020, por exemplo, se refere aos dados de 2017 a 2019. Sem contar, a importância da ferramenta estatística utilizada, que nesse caso é a Escala da Escada (Cantril Ladder Scale) 3.

No entanto, dadas as especificidades de cada país, a comparação entre eles só é possível a partir de 6 variáveis estabelecidas pelos pesquisadores, as quais têm potencial de influenciar o bem-estar geral dos cidadãos. São elas: Produto Interno Bruto (PIB) per capita, expectativa de vida, suporte social, liberdade para fazer escolhas, generosidade e percepção da corrupção. E ao contrário do que se possa pensar, nem todo país rico é feliz. O que se mede é o nível de eficiência das políticas públicas para gerar dignidade e bem-estar à população.

Daí a relevância dessas informações. Depois de figurar na 17ª posição no ranking da “felicidade”, em 2016, o Brasil só obteve perdas até alcançar a 32ª posição, em 2020. Mais uma vez, as raízes de nossas mazelas não são consequência direta da Pandemia; mas, da fragilidade com que se constitui o arcabouço de bem-estar e satisfação social no país.

O acirramento das desigualdades, visivelmente perceptível por meio dos dados do empobrecimento e desemprego divulgados periodicamente, reafirmam a tendência do país em se afastar cada vez mais do conceito global de “felicidade”.

Infelizmente, a ideia de que “o brasileiro é feliz” se desconstruiu. De repente, descobriu-se que a “felicidade” com a feição de completude, de tudo resolvido, não existe. A verdadeira “felicidade” é um processo contínuo, inacabado. Então, cada dia mais as razões para a desolação e o infortúnio se multiplicam, diante das frentes que ameaçam claramente a sobrevivência humana.

Por isso, o país perdeu o sorriso, perdeu a graça, e a Pandemia só levou o último suspiro de motivação para resistir. Não se tem paz. Não se tem bem-estar. Entre os indivíduos a inquietude se inflama e perturba. O abatimento que os consome não é físico, é moral; sobretudo, quando as tensões se elevam na linha tênue entre a vida e a morte.

Isso significa, então, que bem mais do que uma posição melhor no ranking da “felicidade”, o que o brasileiro precisa de agora em diante é pensar em uma maneira eficiente para poder reverter o seu declínio humano e cidadão; porque, “A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos” (Arthur Schopenhauer – filósofo alemão).

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