Sinuca
de bico
Por
Alessandra Leles Rocha
Desculpe a minha franqueza; mas,
o contínuo da vida é muito mais complexo do que se pode imaginar. Se a situação
está pra lá de crítica nesse momento, o agravamento pode estar a caminho e
ninguém pode fazer nada a respeito, sabia? Pura consequência da falta de
percepção holística do mundo. De modo que entre a Pandemia e o planeta há uma
interação que acontece à revelia dos seres humanos.
Bem antes do Sars-COV-2, já se
ouvia dizer que os períodos de outono e inverno no Brasil ampliam as
possibilidades de infecção viral. As baixas temperaturas e o clima mais seco
favorecem a disseminação em massa desses agentes infectocontagiosos, dada a circunstância
de ambientes fechados, pouco ventilados e mais aglomerados por pessoas. E,
amanhã, se inicia o outono por aqui.
O que nos faz crer que as
condições para o acirramento pandêmico podem se fortalecer. Porque, pensando no
que já vem acontecendo em inúmeras cidades país afora, em relação as
aglomerações nos meios de transporte e eventos clandestinos, o contexto
ambiental a entrar em vigor tende a favorecer a permanência circulante dos
vírus dentro das moradias, com mais intensidade ainda.
Especialmente, porque nesses períodos
algumas regiões são afetadas pelo baixo volume de chuvas e, por consequência, a
redução na capacidade dos reservatórios de abastecimento de água, os quais, por
vezes, já se viram obrigados a medidas de restrição de fornecimento. Agora,
imagine só, em plena Pandemia, quando a água para higienização é tão fundamental,
a população ter que enfrentar o desabastecimento.
Essa questão dos reservatórios,
aliás, vem preocupando há décadas o país. Esse é o preço pago pelo desequilíbrio
hidrológico que se acentua a partir das ações antrópicas (humanas) sobre o Meio
Ambiente, traduzidas pela ampliação das áreas de desflorestamento,
desmatamento, queimadas, assoreamento dos rios e contaminação por resíduos e
efluentes.
Quanto mais esses processos são
viabilizados e intensificados, menos a Natureza consegue manter os volumes
hídricos em condição satisfatória de atender as demandas sociais. Isso
significa que, ao chegarem as estações de estiagem, outono e inverno, elas se
deparam com condições cada vez mais extremas e limitadas para a formação de
nuvens e chuva. Sem contar, a presença de fenômenos climáticos, como o El Niño e
a La Niña, que também promovem impactos profundos nos regimes pluviométricos do
planeta.
No entanto, agora estamos em
plena Pandemia, uma emergência sanitária de proporções globais. E quando o
assunto é saúde pública, não é possível dissociá-lo das demandas hídricas, em
razão de que as medidas de higiene são fundamentais. Higiene dos materiais e
vestimentas. Higiene corporal. Higiene dos alimentos. ... Portanto, higiene
como premissa para o controle e prevenção de doenças.
Mas, infelizmente, estamos diante
de uma “sinuca de bico”. Certamente, por nossa inteira responsabilidade; mas,
estamos. A respeito do que foi explicitado até aqui, o ser humano é diretamente
responsável; na medida da sua negligência, imprevidência, descaso, banalização,
negacionismo ... O que só nos faz crer em um cenário caótico a se arrastar por
um período além do esperado.
Não se esqueça, a Pandemia gira conjuntamente
com o planeta; de modo que, a vida não suspendeu as demais atividades por tempo
indeterminado.
Outros vírus, bactérias, fungos e
protozoários continuam por aí, promovendo seus estragos. Doenças do trato
respiratório permanecem ampliando o número de vítimas, entre as diversas faixas
etárias da população. A poluição, sob diferentes formas, persiste tecendo
desdobramentos em níveis cada vez mais preocupantes e letais. ...
E tudo isso depende de ações
claras, objetivas e imediatas dos seres humanos para serem mitigadas e/ou
resolvidas. Só que estamos frente a uma sucessão de ineficiências e insuficiências
que colocam o país na berlinda.
A realidade atual vislumbra o
macabro. Para todos os lados que se permite olhar, a morte parece flertar sem
cerimônia, como se não nos restasse outra opção. Esta é uma terra arrasada que
resume um processo de dissociação e fragmentação estrutural, com vistas a não
permitir aos elementos dialogarem entre si. Vagamos no desespero errante de uma
sobrevivência que não encontra meios para se firmar.
Entendo que, “ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante” (George Orwell); mas, a Terra não vai parar de girar e nem os problemas vão deixar de se sobrepor em camadas cada vez mais profundas. Porque a verdade que nos arrebata tão violentamente, nesse momento, se resume em compreender que “o essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas de produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra foram teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, portanto, com o passar do tempo, inteligentes” (George Orwell – 1984). Assim, cuidado com o que pensa ser “normal”, porque de “normalidade” em “normalidade” poderemos estar sendo conduzidos ao nosso próprio fim.