terça-feira, 16 de março de 2021

À espera de que...


À espera de que...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

“Antes tarde do que nunca” é uma expressão que não me agrada por razões óbvias. Ao contrário do que muita gente tenta impingir ao utilizá-la, não se trata de um apagamento de todas as necessidades e urgências que clamaram até ali. O que foi, foi. Não volta mais. Não pode ser mudado. Não pode ser reescrito. E no Brasil, ela é empregada dentro de uma banalização absurda; decorrência, em grande parte, das omissões e negligências que postergam o cotidiano “ad aeternum”.

De modo que tudo o que precisa e deve ser feito chega sempre subscrito por um “Antes tarde do que nunca”. E assim, a sociedade brasileira vai consolidando a trivialização de uma espera que pode ou não acontecer. Aceitando a sina de viver sob o regime do conformismo em relação a uma cidadania que lhe parece como aspiração distante do real.

O pior é saber que esse processo se espalha por todos os caminhos e meandros sociais. Não acontece somente dentro de um campo determinado. É assim na Saúde Pública, na Educação, na Cultura, na Habitação, na Segurança, no Trabalho, na Previdência Social, ... Como se a vida tivesse que se arrastar indefinidamente em busca de migalhas. E ainda há quem diga que o povo gosta de viver assim! Que jeito esquisito de se abster das responsabilidades, não é mesmo?!

Esse tipo de mendicância indigente, embora seja resquício da nossa colonialidade, se mantém por força de interesses maiores. Ora, é ela quem move as engrenagens da “indústria das mazelas”, a qual mantém cativa a população. Mas, se engana redondamente quem pensa que são os menos favorecidos e privilegiados o único alvo desse projeto de poder e controle. Todos são afetados. Haja vista as teias enredantes da burocracia nacional ou a morosidade da Justiça. Portanto, ninguém escapa de experimentar esse jugo.

No entanto, diante da excepcionalidade manifesta pela Pandemia, muitos creram que esse panorama seria afetado e uma mudança entraria em vigor. Mas, não. A resistência impressa, além do cerne dessa filosofia postergante, manteve-se ativa, como nunca. Apenas a brutalidade dessa realidade secular é que foi desnuda, tornando impossível não dimensionar a sua significância e repercussões no dia a dia.

A passividade de outrora não resistiu ao sabor amargo dos acontecimentos. Chega-se a um ponto em que o “Antes tarde do que nunca” soa perverso demais, porque beira as raias da sobrevivência, do tênue limite entre a vida e a morte. Agora, não era uma questão de aguardar pelo salário minguado, ou pela oportunidade de emprego, ou pela comida, ou pela aposentadoria, ou quaisquer outros direitos fundamentais. Dessa vez, era o leito de hospital, a vaga em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), o respirador, o anestésico para intubação, o oxigênio, a suficiência das equipes de saúde, ...

Então, ficou evidente com a Pandemia que o “Antes tarde do que nunca” é a representação da inação nacional em todas as suas instâncias. A tradução perfeita do porquê o país não deslancha, não flui como deveria. Ele vive da espera por alguém ou por alguma coisa. E esse esperar suga as esperanças, mata quaisquer expectativas, desalenta completamente. Além disso, ele é também o espelho da insuficiência. Na medida em que nem sempre o que chega a se concretizar satisfaz plenamente as demandas e emergências.

No frigir dos ovos é como se tudo não passasse de um gesto simbólico; mas, não efetivo. Dar uma satisfação para a sociedade, não significa necessariamente resolver alguma coisa. E a história brasileira é pródiga, por exemplo, em lançamentos de pedras fundamentais, cujo projeto jamais sai do papel, ou inaugurações de obras inacabadas, os quais só fazem a população dizer em coro “Antes tarde do que nunca”, sem perceberem o veio caudaloso de dinheiro jogado fora.

Mas, por pior que seja o panorama atual é bom não esquecer de que sempre chega o momento em que a insustentabilidade supera o conformismo e as pessoas passam a discernir que “muitas vezes temos que dar tempo ao tempo. Outras vezes, temos que arregaçar as mangas, e resolver – nós mesmos, determinada situação. Neste caso, não existe pior coisa do que adiar” (Paulo Coelho – Escritor); afinal de contas, “quem vive esperando, morre penando” (Carlo Goldoni – Dramaturgo).


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