terça-feira, 3 de março de 2020

DIA INTERNACIONAL DA MULHER / 2020

O mundo não é cor de rosa



Por Alessandra Leles Rocha




Só mesmo com muita persistência para continuar prosseguindo por caminhos tão tortuosos e cercados de espinhos, como têm feito mulheres ao longo da história humana sobre a Terra. Misoginia e Sexismo não são pautas recentes; sempre estiveram presentes na sociedade. Justificados por uma razão ou outra foram conseguindo se firmar no contexto social e garantir mecanismos para a vigilância e o controle feminino.
E temos ouvido tantas histórias, tantos relatos da violência e da opressão contra as mulheres. Para cada avanço do tempo um obstáculo. Pequenos golpes dados em doses homeopáticas a fim de que sua existência e sua dignidade não alcancem a inteireza que lhes é de direito. Suas escolhas quase sempre não são genuínas; na medida em que, são marcadas pela escassez de oportunidades que o mundo controlado pelos homens lhes impõe.
O mundo não é cor de rosa. O ideário do papel feminino na sociedade, que se arrasta pelos séculos, é o ponto de partida para entendermos a profundidade que esconde as agruras vividas pelas mulheres. Antes de pensarmos na divisão por gênero, eles e elas, a sociedade vem se constituindo pela fragmentação econômica, no modelo piramidal de classes, ou seja, os mais ricos no topo e os mais pobres na base. Apesar de a base sustentar o topo, esse é quem controla todos os processos, discursos e comportamentos. Isso inclui o “mundo cor de rosa”.
Sendo assim, esse ideário no qual a mulher se ocuparia somente das atribuições relativas ao seu núcleo familiar – filhos e marido, beirando à perfeição, jamais traduziu a realidade de todas as mulheres. Esse era o pensamento do topo, cujo controle estava nas mãos do patriarcado, sustentado pelas filosofias e religiões que atribuíam a esse conjunto de mulheres um papel secundário, quase decorativo, à sociedade. Esse pensamento retira delas a identidade natural e lhes devolve uma identidade fundamentada na dependência do outro, na qual o homem se torna o provedor financeiro, afetivo, emocional e intelectual.
Quanto ao restante feminino da pirâmide a realidade sempre foi outra. Embora no seu contexto existisse a influência do patriarcado, as mulheres da base piramidal antes de tudo eram componentes fundamentais de uma classe trabalhadora emergente. Amas de leite. Empregadas domésticas. Passadeiras. Lavadeiras. Cozinheiras. Babás. Tutoras. Enfim, ocupando todos os trabalhos domésticos pelos quais o topo da pirâmide pagava para não ter que realizar. No entanto, em razão da inferiorização desse trabalho, os salários dessas mulheres sempre foram muitas vezes menores do que aqueles pagos aos homens por funções, também, consideradas inferiores – mensageiros, condutores de charretes, ferreiros etc.
Portanto, o papel feminino da mulher na sociedade sempre foi definido pela própria sociedade. Na medida com que a organização social vai se transformando e estabelecendo novas demandas, os espaços para inserção delas vão se abrindo. Foi assim durante as Grandes Guerras Mundiais. Foi assim durante as Crises Econômicas que impuseram grandes contingentes de desempregados. Foi assim diante da necessidade de profissionais em novas áreas do conhecimento. Enfim...
O que não significa, necessariamente, uma ruptura com a vigilância e o controle sobre elas; afinal de contas, o patriarcado ainda persiste. Talvez, o modo da ação patriarcal é que tenha passado por transformações, constituindo na realidade contemporânea em uma mescla entre episódios de violência brutal inominável e discursos depreciativos, desqualificantes, preconceituosos e vulgares.
A pergunta que não quer calar é simples, por quê? Não seria mais fácil estabelecer a igualdade e a equidade de gênero na sociedade? Mas a resposta é a escravidão que sempre existiu. Que está impregnada na matriz social e revela bem mais do que uma questão racial ou econômica. O subjugar feminino aos interesses e conveniências patriarcais, também, é um mecanismo secular de escravidão. Portanto, as pessoas em geral não têm pudor em exercer a inferiorização, o menosprezo, a indignidade a qualquer um de seus pares.
É aí que mora o perigo, pois abriga o silêncio. Enquanto uns silenciam pela comodidade ou por se julgarem acima e distantes de quaisquer riscos, outros pensam que o silêncio é o abrigo mais seguro e confortável para sobreviver às hostilidades e crueldades do mundo.
Entretanto, as estatísticas só fazem provar que não.  Ninguém sabe quem vai ser a bola da vez, mas sabe que essa bola existe. E só por isso já se faz necessário recobrar a consciência e refletir. Como dizia a estilista francesa Coco Chanel, “não importa o lugar de onde você vem. O que importa é quem você é! E quem é você? Você sabe?”.
Isso significa que pensar sobre quem somos o que e porque queremos isso ou aquilo, é rechaçar quaisquer tentativas de escravidão. As correntes físicas e morais se rompem quando temos a dimensão exata de que há sempre mais de uma resposta para uma mesma pergunta. Por que, então, abdicar do direito de respondê-la e outorgá-lo aos outros? Por que abrir mão de ser para apenas existir? Medo. Insegurança. ... A verdadeira zona de conforto é onde nos colocamos, onde permitimos recostar a nossa paz mais sublime e profunda. Sendo assim, não se esqueça, ainda que o mundo não seja cor de rosa, ele pode sim, ser mais colorido, mais interessante, ou simplesmente, do jeito que você sempre quis e imaginou.

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