segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Entre a Vida e a Morte

Entre a Vida e a Morte



Por Alessandra Leles Rocha





Que a vida tem valido nada, disso ninguém duvida. Qualquer motivo tem sido motivo para abater seres humanos sem dó nem piedade. Basta uma discussão. Um conflito. Uma suspeita. Uma dose de intolerância religiosa. Ou de Racismo. Ou de Xenofobia. Ou de Homofobia. De Feminicídio, nem se fala. A mídia escorre sangue todos os dias. Mas, apesar da recorrência e da naturalização que se tem atribuído a esse contemporâneo processo de barbárie, é preciso refletir. 
Primeiro porque parece estar havendo um esgarçamento do sentimento de proteção e preservação da própria espécie. Segundo porque nessa carnificina explícita as evidencias em relação a uma hierarquização da vida são facilmente perceptíveis. Algumas vidas parecem valer mais do que outras. Serem mais importantes do que outras. Terceiro porque diante dos acontecimentos a sociedade não parece coesa em torno de um sentimento de constrangimento, ou de indignação, ou de repulsa.
Assim, alguns se fazem de desentendidos. Outros invisibilizam os acontecimentos. Há os que aplaudem vigorosamente. Enfim... No entanto, causa estranheza quando vêm à tona discussões em torno do Aborto, da Eutanásia e da Pena de Morte, porque a manifestação popular parece muito mais engajada e disposta a rechaçar conjuntamente tais ideias, sob a alegação de que a vida não pode ser subtraída por ninguém.
De fato, a vida não pode mesmo ser subtraída por ninguém. Pena que fica nisso. A análise dos prós e contras nessa balança que equilibra temáticas tão delicadas, tão complexas, aponta que não basta enxergar a morte apenas em relação ao viés do ato materializado da violência.  Matar vai muito além. Manter vivo sem dignidade, sem amparo, sem assistência, sem condições humanitárias, sinaliza uma sentença de morte adiada. Até que ponto, então, as manifestações inflamadas nesse contexto estariam combatendo a subtração de uma vida?!
Daí a importância do conhecimento, da reflexão, da ponderação, quando o assunto é vida. De que lado a sociedade está em relação à existência humana, independente de cor, credo, etnia, gênero, ideologia...?!
Quando se volta os olhos para todas as violências contemporâneas, sente-se que o que paira no ar é a sensação de um narcísico incômodo em relação às diferenças sociais, de modo que a solução mais prática e rápida apresentada tem sido o extermínio. Como se as pessoas estivessem obrigadas a permanecer dentro de nichos específicos, perdendo a sua mobilidade social, em nome da preservação da própria vida.
Basta ver o caso da moradora de rua, em Niterói, RJ, que foi assassinada a tiros por um homem, quando pediu a ele R$1,00. As linhas divisórias que se constroem dentro da sociedade são um estímulo nocivo para esse processo. Elas fomentam a insegurança; mas, também, o ódio, a hostilidade, o revanchismo entre todos os lados.
O que significa um resultado socialmente antiproducente, porque os conflitos são geradores de custos elevados dentro dos mais diversos aspectos, não somente econômicos. Seres humanos adoecem pela violência. Seres humanos migram por conta da violência. Seres humanos perdem trabalho em virtude da violência. ...
Seja por armas brancas ou por revólveres e metralhadoras, a questão é que a vida não pode viver a mercê de um constante “faroeste”. Os norte-americanos idolatram as armas por uma questão histórica. Sua colonização foi marcada pela chegada a um lugar “inóspito”, cheio de perigos naturais, e eles precisavam de armas para se defender.
Na atualidade, eles pagam um preço alto por essa decisão, em virtude dos massacres brutais promovidos por atiradores que escolhem locais públicos para desafiar a lei e a ordem.
A humanidade está se tornando sua pior ameaça. Enxergando inimigos em cada esquina. Atirando antes de saber quem é. Matar está se tornando um ato altamente irresponsável. Nem mesmo pessoas habilitadas e qualificadas para atirar estão conseguindo manter seu equilíbrio. Confrontos violentos estão se cronificando na sociedade e as estatísticas de balas perdidas, por exemplo, se ampliando vertiginosamente.
Nem sempre o ataque é a melhor defesa. Também nessa semana, uma professora, em Juiz de Fora, MG, foi atingida por uma bala perdida enquanto ia comprar um presente de aniversário para o filho. O responsável pela tragédia, um policial reformado que queria impedir a fuga de um assaltante.
No fim das contas, sinto que a sociedade está transformando tudo em armas. Carros matam. Bebidas alcoólicas matam. Drogas matam. ... Não vejo, então, razão alguma para legalizar e legitimar outras formas.
A violência nos seus níveis atuais, quando não extermina, incapacita e esfacela, ainda mais, a frágil estrutura das famílias. Os desdobramentos da barbárie que vivemos são tão ou mais perversos e cruéis do que ela própria.
Já dizia Jean-Paul Sartre, filósofo francês, “a violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”. E ele estava certo. Uma derrota porque enaltece a covardia, a impotência, a tirania, a incapacidade plena de dialogar, de conviver, de coexistir; de modo que, o ser humano deixa de ser humano para se tornar um animal indomesticável e incapaz de pensar.  Ora, e ele foi criado para ser bem mais do que isso, não acha?!


*Crônica escrita em 22 de novembro de 2019.

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