segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Imperialismo do século XXI


O Imperialismo do século XXI

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante da agressão militar dos EUA, com ataques e explosões em Caracas, resultando na captura do presidente venezuelano, ocorrida no dia 03 de janeiro de 2026, é preciso refletir.

Afinal, nações como o Brasil, o México, a Argentina, a Colômbia, o Peru, o Chile, a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Paraguai, o Uruguai, a Costa Rica, o Panamá, Cuba, a República Dominicana, o Haiti, entre outros, têm a sua historicidade marcada não só pelo colonialismo, práxis as quais a metrópole dominou, ocupou e explorou o território, a economia, a política e a cultura das denominadas colônias; mas, também, pelo imperialismo, no século XIX.

Impulsionadas pela Segunda Revolução Industrial, no final do século XIX e início do século XX, as práxis imperialistas buscavam matéria-prima, mercados consumidores e mão de obra barata, ampliando o lucro e o controle das grandes nações; bem como, manifestando seu domínio político, econômico e cultural, justificado por teorias racistas, deixando legados de dependência e conflitos.

Daí o motivo da reflexão. A ação dos EUA na Venezuela revela um ressurgimento do imperialismo, no qual o poder unilateral baseado na força e no interesse por recursos minerais, nesse caso o petróleo, desafia a configuração multilateralista global, e reconfigura a hegemonia americana sobre a América Latina.

Trata-se da perspectiva de uma nova fase intervencionista, fundamentada pelo discurso de segurança e de apropriação de recursos naturais importantes, impactando profundamente a estabilidade regional e a soberania nacional dos países dessa região.

Acontece que, apesar desse cenário, certos eleitores, apoiadores, simpatizantes e representantes da ultradireita latino-americana, e dos demais vieses direitistas, estão publicamente apoiando as ações dos EUA na Venezuela.

O que, na verdade, significa apoiar o ressurgimento de práticas imperialistas clássicas, adaptadas ao contexto do século XXI, onde a disputa por recursos e influência se manifesta através de pressões econômicas e intervenções político-militares, reafirmando o poder hegemônico estadunidense em sua esfera de influência histórica.

E as razões que levam a ultradireita e demais vieses da direita latino-americana a subestimarem o novo imperialismo se dá por uma combinação de fatores que frustraram os seus interesses no diversos campos do poder.

Ora, governos progressistas frustraram esse espectro político-partidário na América Latina porque desafiaram o status quo das elites econômicas e políticas, promovendo a inclusão social, a redistribuição de renda e a soberania nacional.

Assim, a defesa de direitos das minorias e dos trabalhadores ou a adoção de políticas anti-imperialistas, representa uma ameaça aos interesses tradicionais de classes dominantes ligadas a ultradireita e demais vieses da direita latino-americana, as quais passam, então, a se sentirem totalmente atraídos por soluções autoritárias e imperialistas em defesa da ordem econômica liberal e conservadora.

Porém, não há garantias absolutas de sucesso para esse espectro político-partidário em um contexto imperialista, considerando que o imperialismo ao criar instabilidade e conflitos internos e/ou externos, também gera resistências e contradições que podem minar essas forças.

Haja vista que a submissão de países, tais como o Iraque e o Afeganistão, ao imperialismo dos EUA foi comprovada em desestruturação social, traumas coletivos, conflitos internos intensificados, migrações forçadas e radicalização.

Questões que desencadearam ressentimento coletivo, ausência de transparência de direitos humanos e profunda instabilidade socioeconômica, ao contrário de uma política de boa governança e de estabilidade, demonstrando os impactos negativos da intervenção externa nas estruturas sociais e políticas locais.

Portanto, o imperialismo impacta a soberania dos países afetados através da imposição de estruturas de poder que subordinam a autonomia nacional aos interesses de potências estrangeiras.

Seja pela utilização frequente de táticas de dividir para conquistar, exacerbando conflitos étnicos ou de classe preexistentes para facilitar o controle externo, ou que impeçam a formação de uma vontade nacional unificada.

Ou pela transferência sistemática de suas riquezas, a qual impede o investimento em infraestrutura e serviços públicos, tornando o Estado incapaz de garantir direitos básicos aos seus cidadãos, que é uma função primária da soberania estatal.

Além disso, não se pode esquecer que os imperialistas impõem seus padrões culturais, linguísticos e de consumo, promovendo uma ruptura da coesão social e da identidade nacional, que são elementos fundamentais para o exercício da soberania.

Em síntese, o imperialismo gera o silenciamento social da soberania ao impor a hegemonia de uma nação sobre outra, deslegitimando as estruturas políticas, culturais e sociais locais.

Ao silenciar o conhecimento local, a soberania intelectual e política é solapada, impedindo que a sociedade se autodetermine. O que significa que ela se torna formal, mas não real, pois as decisões sociais e econômicas são ditadas pelos centros de poder externos, restando à população local um papel passivo na condução de seu próprio destino.

Daí as mídias e a educação se tornarem instrumentos fundamentais para o imperialismo, na medida em que elas moldam a sociedade, fazendo com que a resistência à perda de soberania seja vista como retrocesso ou instabilidade, devendo ser rechaçadas de todas as maneiras.