O
Imperialismo do século XXI
Por Alessandra
Leles Rocha
Diante da agressão militar dos
EUA, com ataques e explosões em Caracas, resultando na captura do presidente
venezuelano, ocorrida no dia 03 de janeiro de 2026, é preciso refletir.
Afinal, nações como o Brasil, o México,
a Argentina, a Colômbia, o Peru, o Chile, a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Paraguai,
o Uruguai, a Costa Rica, o Panamá, Cuba, a República Dominicana, o Haiti, entre
outros, têm a sua historicidade marcada não só pelo colonialismo, práxis as
quais a metrópole dominou, ocupou e explorou o território, a economia, a política
e a cultura das denominadas colônias; mas, também, pelo imperialismo, no século
XIX.
Impulsionadas pela Segunda
Revolução Industrial, no final do século XIX e início do século XX, as práxis imperialistas
buscavam matéria-prima, mercados consumidores e mão de obra barata, ampliando o
lucro e o controle das grandes nações; bem como, manifestando seu domínio
político, econômico e cultural, justificado por teorias racistas, deixando
legados de dependência e conflitos.
Daí o motivo da reflexão. A ação
dos EUA na Venezuela revela um ressurgimento do imperialismo, no qual o poder
unilateral baseado na força e no interesse por recursos minerais, nesse caso o petróleo,
desafia a configuração multilateralista global, e reconfigura a hegemonia
americana sobre a América Latina.
Trata-se da perspectiva de uma
nova fase intervencionista, fundamentada pelo discurso de segurança e de
apropriação de recursos naturais importantes, impactando profundamente a
estabilidade regional e a soberania nacional dos países dessa região.
Acontece que, apesar desse
cenário, certos eleitores, apoiadores, simpatizantes e representantes da
ultradireita latino-americana, e dos demais vieses direitistas, estão
publicamente apoiando as ações dos EUA na Venezuela.
O que, na verdade, significa apoiar
o ressurgimento de práticas imperialistas clássicas, adaptadas ao contexto do
século XXI, onde a disputa por recursos e influência se manifesta através de
pressões econômicas e intervenções político-militares, reafirmando o poder
hegemônico estadunidense em sua esfera de influência histórica.
E as razões que levam a
ultradireita e demais vieses da direita latino-americana a subestimarem o novo
imperialismo se dá por uma combinação de fatores que frustraram os seus
interesses no diversos campos do poder.
Ora, governos progressistas
frustraram esse espectro político-partidário na América Latina porque desafiaram
o status quo das elites econômicas e políticas, promovendo a inclusão
social, a redistribuição de renda e a soberania nacional.
Assim, a defesa de direitos das
minorias e dos trabalhadores ou a adoção de políticas anti-imperialistas, representa
uma ameaça aos interesses tradicionais de classes dominantes ligadas a
ultradireita e demais vieses da direita latino-americana, as quais passam,
então, a se sentirem totalmente atraídos por soluções autoritárias e imperialistas
em defesa da ordem econômica liberal e conservadora.
Porém, não há garantias absolutas
de sucesso para esse espectro político-partidário em um contexto imperialista, considerando
que o imperialismo ao criar instabilidade e conflitos internos e/ou externos,
também gera resistências e contradições que podem minar essas forças.
Haja vista que a submissão de
países, tais como o Iraque e o Afeganistão, ao imperialismo dos EUA foi
comprovada em desestruturação social, traumas coletivos, conflitos internos
intensificados, migrações forçadas e radicalização.
Questões que desencadearam ressentimento
coletivo, ausência de transparência de direitos humanos e profunda instabilidade
socioeconômica, ao contrário de uma política de boa governança e de estabilidade,
demonstrando os impactos negativos da intervenção externa nas estruturas
sociais e políticas locais.
Portanto, o imperialismo impacta
a soberania dos países afetados através da imposição de estruturas de poder que
subordinam a autonomia nacional aos interesses de potências estrangeiras.
Seja pela utilização frequente de
táticas de dividir para conquistar, exacerbando conflitos étnicos ou de classe
preexistentes para facilitar o controle externo, ou que impeçam a formação de
uma vontade nacional unificada.
Ou pela transferência sistemática
de suas riquezas, a qual impede o investimento em infraestrutura e serviços
públicos, tornando o Estado incapaz de garantir direitos básicos aos seus
cidadãos, que é uma função primária da soberania estatal.
Além disso, não se pode esquecer
que os imperialistas impõem seus padrões culturais, linguísticos e de consumo, promovendo
uma ruptura da coesão social e da identidade nacional, que são elementos
fundamentais para o exercício da soberania.
Em síntese, o imperialismo gera o
silenciamento social da soberania ao impor a hegemonia de uma nação sobre
outra, deslegitimando as estruturas políticas, culturais e sociais locais.
Ao silenciar o conhecimento
local, a soberania intelectual e política é solapada, impedindo que a sociedade
se autodetermine. O que significa que ela se torna formal, mas não real, pois
as decisões sociais e econômicas são ditadas pelos centros de poder externos,
restando à população local um papel passivo na condução de seu próprio destino.
Daí as mídias e a educação se tornarem instrumentos fundamentais para o imperialismo, na medida em que elas moldam a sociedade, fazendo com que a resistência à perda de soberania seja vista como retrocesso ou instabilidade, devendo ser rechaçadas de todas as maneiras.
