segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Mariana... Brumadinho... Brasil...


Mariana... Brumadinho... Brasil...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Há dois anos o Brasil viu repetir uma tragédia ambiental. Era Brumadinho, MG. Isso porque, quatro anos antes, uma outra havia ocorrido em Mariana, MG. Fruto do descaso e da omissão governamental, de grandes empresas e, de algum modo, da própria sociedade que se absteve e se abstém de exercer o seu papel cidadão consciente e fiscalizador.

De uma hora para outra o país passou a se dar conta da dimensão dos impactos negativos que se escondem atrás dos grandes empreendimentos; sobretudo, os mineradores.  Entre acenos e promessas no campo das melhorias aos municípios e seus Estados, na geração de emprego e renda para a população, as preocupações parecem se esvair como fumaça e dar lugar a uma esperança gigantesca por dias melhores. Que durante algum tempo podem até se configurar realidade; mas, o que está destinado ao risco um dia cobra o seu preço.

Nesse caso, cobrou duas vezes nas tragédias; mas, vem cobrando muitas outras mais da própria sociedade local. Cobranças diretas e indiretas que fazem reviver todos os dias as feridas abertas pelo o que aconteceu. Ainda há corpos não encontrados. Ainda há pessoas desalojadas. Ainda há lembranças irrecuperáveis. Ainda há tanto por fazer e tentar restaurar.

E por mais solidários que sejam os brasileiros, essa dor, desde o primeiro momento, pareceu muito pontual. Difícil de projetar em significância, em profundidade, para se apropriar e realmente entender. Aquelas eram vidas que existiam sob uma realidade muito particular, muito específica daquele lugar; dentro de uma mineiridade meio urbana meio rural, permeada de simplicidade e delicadeza, como se presa a um recorte de um tempo bom.

Mas, como a vida tem lá a sua dinâmica, eis que, de repente, o mundo foi arrebatado por um vírus desconhecido num piscar de olhos, também. Dessa vez, seriam bilhões de seres humanos surpreendidos por uma nova realidade que os desalojaria das suas zonas de conforto e lhes imporia um novo modo de viver.

As centenas de milhares iriam morrer dessa vez. Em comum, com aquelas tragédias mineiras, a dor de uma despedida à distância, silenciosa, sem afagos, sem afeto. Um rito esvaziado pela impossibilidade repentina de um simples adeus. Corpos em valas comuns, abertas em esforços diários para dar vazão ao morticínio da doença.

E na medida dos dias, do isolamento, das incertezas, de uma vida virada de cabeça para baixo estávamos mais próximos de Brumadinho e Mariana, do que poderíamos algum dia supor. Ainda que a realidade das barragens continuasse não nos pertencendo, as fronteiras do mundo haviam sido implodidas para que experenciássemos o significado mais difícil do inesperado.

Dessa vez, não era obra do homem; mas, permanecia totalmente dependente do seu protagonismo, da sua inciativa, da sua humanidade para resolver. Afinal de contas, a fila do desalento ficou muito maior. Todos perderam. De um jeito ou de outro, a corrente de impacto confrontou a todos.

Se havia alguém que não tivesse entendido muito bem a situação em Brumadinho e Mariana, dispensando comentários infelizes e/ou inoportunos, o COVID-19 chegou para deixar tudo em pratos limpos. Inclusive, de uma maneira melhor do que qualquer lição de moral, ou seja, pela vivência pessoal. E aprender na escola da vida pode ser muito mais desafiador e significativo do que se possa imaginar.

Hoje, podemos verdadeiramente compartilhar as lágrimas, a dor, a angústia, o sofrimento e tudo mais que esses brasileiros começaram a sentir bem antes de nós. Agora sim, temos lastro para tecer essa empatia, porque vimos pela luz de nossos olhos o espelho da alma de cada um deles. Nossas demandas são deles e as deles são nossas também. Quaisquer que sejam as circunstâncias desafiadoras para quaisquer entes dessa federação, elas são de todos, porque o país é um todo indivisível. Que não nos esqueçamos disso jamais: as tragédias não escolhem geografia.

 

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