sábado, 12 de dezembro de 2020

Tudo se transforma...


Tudo se transforma...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Assistindo ao documentário LIXO EXTRAORDINÁRIO 1, de 2010, não pude deixar de pensar a respeito de como a humanidade compactua com as perversidades sociais, a fim de satisfazer o âmago do seu próprio individualismo.

Diante de todos os avanços da ciência e da tecnologia, inclusive apresentando ao mundo uma dúzia de possibilidades de vacina para a prevenção do COVID-19, desenvolvidas em menos de um ano de pesquisa, não percebo esforços significativos e na mesma velocidade para lidar com as desigualdades que expõem milhares de seres humanos a condições degradantes e insalubres diariamente.

Creio que a população brasileira, na sua imensa maioria, não reflete por um minuto sequer a respeito do próprio lixo que produz. Já entrou no rol dos atos mecânicos e cotidianos da sociedade o descarte dos resíduos produzidos. O que acontece depois fica sem pergunta, vagando em um mar de esquecimento profundo.

Uma pena, porque para algum lugar ele é destinado e, portanto, na geografia das cidades é necessário dispensar uma área para esse fim. Tarefa complexa na medida da compatibilização com tantas outras demandas espaciais que os municípios apresentam ano a ano. Não pode ser área de preservação permanente, não pode estar próximo demais do perímetro urbano habitado, não pode ter cursos d’água, enfim... de modo que a escolha se torna sempre difícil e limitada.

Considerando que a produção de resíduos não é uma questão do crescimento da população por si só, mas de suas demandas de interesse e consumo, esses espaços precisam de tempos em tempos serem substituídos por outros, reiniciando o árduo processo de seleção. Inclusive, é importante salientar que essa vida útil dos aterros é diretamente impactada, também, pelo fato de uma política pública que não fomenta repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar os materiais. A sociedade simplesmente descarta; coloca em um saco plástico qualquer os seus resíduos e fim de papo.  

Isso significa que não há uma verdadeira atenção aos desperdícios. As relações de consumo produzidas pelos seres humanos são, em geral, inadvertidas e irresponsáveis; como se bastasse apenas ter que considerar a disponibilidade de dinheiro ou não para adquirir isso ou aquilo. Se há ou não uma necessidade real daquela compra, ou se os recursos naturais estão sendo exauridos desnecessariamente, ou se aquele produto não precisaria de tantas embalagens, ou se não há possibilidade de consumo dentro do prazo de validade, ... nada disso é levado em consideração. Tudo se resume em comprar e depois descartar.

Uma visão um tanto quanto insensível; mas, que tende a ser pior quando se alcança a perspectiva humana que reside no microcosmo do lixo. Por trás dos grandes caminhões que coletam toneladas e mais toneladas diariamente pelas cidades e as despejam nos aterros, há uma legião gigantesca de seres humanos que promovem a seleção e a venda de tudo o que é reciclável nessas montanhas de lixo.

Suprindo, de certa forma, a ineficiência e insuficiência das políticas públicas, os catadores são uma classe de trabalhadores oriundos da desigualdade. A margem das oportunidades sociais, eles são uma parcela de gente sumariamente descartada e invisibilizada, que sobrevive aos perigos e desafios da vida nos lixões. Eles criam em meio a total precariedade a sua própria rede de assistência social; embora, a realidade não lhes permita desfrutar de uma expectativa de vida normal. No entanto, a sua dignidade humana é tão forte e plena, que constrange quando comparada a tantos que só fazem produzir lixo por aí.

A questão é que ao não perceber essas pessoas, a sociedade primeiro aceita e admite que elas habitem e trabalhem em condições absolutamente insalubres. Expostas a doenças diversas ao mesmo tempo em que há uma real desassistência médico-hospitalar para tratá-las. Vulneráveis diante da carência de um sistema de segurança alimentar e nutricional. Banidas da acessibilidade educacional, cultural, habitacional e de saneamento básico. De repente, é como se tivessem sido transformadas em mero produto do lixo, perdendo sua identidade, sua cidadania.

Depois, a sociedade não contribui de maneira efetiva para que os materiais recicláveis cheguem aos catadores de maneira limpa e não prensada pelos caminhões de coleta tradicional. Que tenham galpões próprios e com infraestrutura adequada para a triagem e venda dos produtos. Não se importa que essas pessoas sejam tratadas com tanta indiferença e negligência, nem tampouco possam morrer por isso. Basta imaginar nessa pandemia, quando a higienização das mãos e o uso de máscaras mostrou-se tão fundamental na prevenção, como foram lançadas a tragicidade essas pessoas.

E quanto mais eu reflito sobre tudo isso mais tenho a terrível impressão de que o mundo é mesmo divido entre os que são importantes e os que não são; como se houvesse uma precificação para a vida humana. No entanto, essa abstenção de consciência e bom senso não muda o fato de todas as vidas importarem. Na dinâmica do cotidiano cada um dá a sua contribuição para o desenvolvimento seja apontando soluções, criando novidades, colocando a mão na massa para valer. Se alguém para, a roda da vida para.

Por isso, o que o documentário conseguiu extrair em três anos de vivência no local onde foi filmado, o Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, RJ, de 2007 a 2009, é que a perversidade não está nesse microcosmo do lixo, mas na relação do resto da sociedade com ele. Está na necessidade da desconstrução das narrativas incorporadas ao inconsciente coletivo de ambos os lados, o caminho para o resgate da dignidade humana e da cidadania, a fim de promover um desenvolvimento social equilibrado e produtivo.

Sem imaginar o que encontraria pela frente, me vi extasiada diante do processo que a arte de Vik Muniz 2 desencadeou, dando visibilidade as potencialidades humanas adormecidas pela rudeza das desigualdades. Afinal, havia sonhos, conhecimentos, esperanças, amores, tristezas, lutas, ... soterrados por montanhas de lixo despejadas diariamente. O que ele fez foi revolver, catar, separar e resgatar o que havia de melhor naquelas pessoas. Enquanto lhes trouxe a consciência sobre seu próprio valor, ensinou ao restante do mundo um caminho para pensar sobre o significado de tudo isso, sobre o papel da humanidade na construção de um mundo melhor, mais justo, mais solidário.   

Já dizia Antoine Lavoisier, químico do século XVIII, “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Olhando para o documentário e sobre o momento presente que a humanidade atravessa, isso fica muito claro. Por mais que as forças de resistência sejam muitas, a lição maior é de que “nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. ...não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar” (Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo alemão).

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