A Paz e
seus relativismos
Por Alessandra
Leles Rocha
Lamento, mas o ser humano não é
de paz. Ele é de guerra. Está intrínseco na sua essência a beligerância, o
conflito, a discórdia. Portanto, não se deixe enganar pelos discursos que tentam
justificar a guerra por uma tensão nuclear.
Não. Muito antes de 1945, dos bombardeios
atômicos em Hiroshima e Nagasaki, a belicosidade já transitava entre os seres
humanos. As páginas da historicidade não deixam dúvidas a respeito.
Por isso, é preciso analisar,
refletir, camada por camada, sobre esse assunto. Começando pela desigualdade. Esse
é o ponto de partida. Afinal, todo e qualquer conflito é marcado pelo desequilíbrio.
É sempre o mais forte contra
aquele que se considera mais fraco. Os oponentes nunca estão exatamente em pé
de igualdade. Seja em relação aos exércitos, as armas, as estratégias, à
disponibilidade de recursos financeiros, de apoios, ...
O que significa que os custos
humanos e sociais caem desproporcionalmente sobre as populações. Nesse sentido,
as guerras aprofundam, perpetuam a violência estrutural, derrotando o tecido
social e colocando o poder político-econômico acima da vida civil.
Basta olhar para certos conflitos
em curso na contemporaneidade. Mianmar. Síria.
Haiti. Iêmen. Sahel Africano (Mali, Burkina Faso e Níger). Guerra Civil no Sudão. Guerra Israel-Hamas na Faixa
de Gaza. Guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Por todos os lados, o que se vê é a
mais absoluta destruição.
De modo que ela precisa ser
compreendida como um traço do fracasso civilizatório do ser humano, ou seja, uma
ruptura do contrato social e um sintoma de tensão profunda na estrutura da
humanidade.
Quando a guerra se torna o meio
principal de resolução de conflitos, ocorre uma descivilização. O autocontrole
e as normas sociais dão lugar à barbárie, provando que as instituições falharam
em mediar as relações humanas de forma racional.
Além disso, é preciso entender que
a beligerância não decorre da busca por solucionar conflitos. Analisando fria e
pragmaticamente a história, a imensa maioria dos conflitos relatados foram motivados
por interesses estratégicos, econômicos, políticos e/ou disputas de poder, não pela
paz.
E dentro desse contexto, o que se
desdobra e reverbera é comumente os sentimentos de ódio, de destruição, de intolerância
e/ou do acirramento das disputas territoriais, desencadeados muito mais como
uma extensão de políticas ocultas do que um instrumento de resolução pacífica.
Por essas e outras é que o
pretexto da ameaça nuclear não se sustenta, na medida da sua assimetria. Ora, se
alguns países podem possuir arsenais nucleares, porque outros não podem?
Veja, a falta de armas nucleares
coloca muitos países em posição de vulnerabilidade, enquanto o equilíbrio do
terror entre as potências armamentistas impede conflitos diretos entre elas,
mas não resolve as ameaças regionais.
Assim, sem um desarmamento geral
e completo, a desigualdade entre países armados e não armados mantém o risco
nuclear perene. Esse é, portanto, o ponto que reafirma o impasse que atravessa a
resistência das potências globais ao desarmamento nuclear geral e completo.
Enquanto os proponentes do
desarmamento focam nas consequências humanitárias e na moralidade, os Estados
nucleares operam sob a lógica da sobrevivência em um sistema anárquico
internacional, onde as armas nucleares são vistas como o seguro final da sua soberania
estatal, um ato prudente e necessário para a sua autopreservação.
Acontece que, embora as armas
nucleares reduzam a probabilidade de uma guerra direta e total entre grandes
potências, elas tendem a aumentar a probabilidade de conflitos menores ou
indiretos, a partir da lógica de que os Estados se sentem protegidos contra uma
escalada total.
Portanto, os conflitos não
desaparecem. Eles são empurrados para países periféricos ou para o campo
diplomático e econômico, por estratégias como guerras por procuração, ou seja, ao
contrário de as grandes potências lutarem entre si, elas financiam e armam
facções em países menores.
No mesmo viés, eles promovem ataques
cibernéticos para sabotar infraestruturas críticas, roubar dados e causar danos
econômicos, superando eventuais barreiras físicas. Ou apoiam as insurgências, a partir do
financiamento, armamento e/ou treinamento de grupos rebeldes para
desestabilizar governos inimigos sem combate direto.
Diante disso, a geopolítica contemporânea
não deixa dúvidas de como a posse de armas de destruição em massa altera o
comportamento das nações no xadrez global, na medida em que transfere as agressões
dos campos de batalha diretamente para formas mais sutis e fragmentadas de
conflito, na ótica da relação custo-benefício.
Sim, porque considerando que o
custo da guerra nuclear é infinito, logo, as nações buscam o ganho marginal
através de pequenos conflitos. Então, como se vê, a síntese dessa construção é
simples, a humanidade vive, desde 1945, uma paz nuclear.
Trata-se, então, de uma paz
armada e desigual, na qual o medo da aniquilação total não é capaz de eliminar a
agressividade, a incivilidade, seja ela humana ou estatal. A partir de mecanismos
que forçam as nações a encontrarem caminhos menos diretos e mais complexos para
se manifestar.
Por isso, em plena
contemporaneidade, pouco mais de 8 bilhões de seres humanos são obrigados, à
revelia de suas vontades e queres, a permanecer vivendo sob o tempo da desinformação,
da espionagem e da guerra psicológica, explícita ou velada. A viver em um
estado de vigilância e tensão constante, mesmo sem o risco iminente de uma
bomba nuclear.
