O dia
seguinte para a política tradicional brasileira ...
Por Alessandra
Leles Rocha
Sem essa de reduzir a movimentação popular nas ruas à mera matemática. Não. Não é uma questão de números. É uma questão de voz. De consciência. De exercício cidadão. Daqui a dez dias chega o Natal, ou seja, estamos em pleno período natalino, e o Brasil, na figura dos seus cidadãos e cidadãs, entendeu a necessidade de sair às ruas para cobrar o Congresso nacional, em relação aos seus desvirtuamentos ideológicos, éticos e morais.
O que aconteceu, nesse último domingo, 14 de dezembro, foi sim, inédito na historicidade brasileira. É interessante, porque se tivesse havido uma tentativa institucional, por exemplo, de persuadir a população, no sentido de fazê-la abrir os olhos e mudar suas crenças e valores político-partidários, nada disso teria acontecido.
Digo isso, considerando o fato de que vivemos em plena contemporaneidade, onde a força misteriosa do desejo de liberdade; sobretudo, de decisão, de escolha, se faz imperar. Afinal, vivemos tempos polarizados.
Porém, o que impulsionou tantos eleitores a irem às ruas foi o próprio Congresso nacional, se colocando como inimigo do povo. Também, pela primeira vez na história democrática desse país, o Legislativo federal extrapolou os limites, os parâmetros éticos e constitucionais, e mostrou a sua pior face aos cidadãos brasileiros. Aliás, pode-se dizer que agiram como golpistas de colarinho branco!
Golpistas porque suas atitudes têm sido pautadas no golpismo. Cuja essência é agir fora das normas e da Constituição, desconsiderando a vontade popular expressa nas urnas. Utilizando como ferramentas para esse processo a desinformação, a retórica polarizadora, as manifestações caricaturais e as manobras jurídicas para minar a democracia. E, tendo como representantes, o espectro político partidário da Direita, em todos os seus diversos matizes, mais ou menos radicais e extremistas.
Bom, aí você pode argumentar que essa gente chegou ao congresso nacional pela via democrática, pela escolha dos eleitores. Sim, verdade! Acontece que o véu da ilusão começou a ser rasgado, no instante em que uma turba enfurecida tomou a capital federal em 08 de janeiro de 2023. A partir dali, a trama golpista tornou-se maciçamente de conhecimento público e seus apoiadores, simpatizantes e executores têm sido responsabilizados e punidos.
Portanto, está no contexto desse cenário o ponto de partida para a desconstrução do pensamento polarizado coletivo, especialmente, de parte da população brasileira que viveu anos adormecida na sua identidade nacional letárgica.
O choque de realidade foi tão intenso e repentino que despertou as consciências à revelia de suas vontades ou quereres. Resgatou as reflexões. Animou as potencialidades críticas do exercício cidadão. Tornando impossível não ver, não compreender, não questionar, não clamar por mudanças.
O ímpeto da ganância, da sede de poder, do Congresso nacional, em particular da Câmara dos Deputados, fez com que o espectro político-partidário da Direita, em todos os seus diversos matizes, mais ou menos radicais e extremistas, abrisse a Caixa de Pandora.
A velha metáfora sobre a curiosidade humana, a origem do mal e a resiliência da esperança, a qual explica que as ações impulsivas, através da abertura da caixa, inevitavelmente, liberam consequências negativas para o coletivo humano, também, descortinou o fato de que a esperança pode não ser algo positivo.
De certa forma, a própria esperança pode ser um mal, na medida em que, para alguns, ela representa a ilusão de que tudo pode melhorar. E esse é o ponto. Passados pouco mais de 500 anos de história, o (a) brasileiro (a), por mais resiliente que possa parecer, já se questiona sobre as perspectivas e expectativas que nutre a respeito do seu país.
Acontece que a abertura dessa caixa gera efeitos em cascata, muitas vezes, tremendos e irreversíveis, que desafiam de imediato a cautela e a responsabilidade. Em linhas gerais isso significa que a inovação sem prudência e a busca por conhecimento sem sabedoria libertam desafios inimagináveis.
Por isso, a verdadeira sabedoria reside em usar a esperança como força para lidar com eles e transformar a realidade. Algo que, no momento atual, se expressa por uma renovação profunda da representatividade político-partidária, no Congresso brasileiro.
Basta de PEC da Blindagem. De PEC da Anistia/Dosimetria. De Pl da Devastação. De Marco temporal. De violência política de gênero. De orçamento secreto. De emendas Pix. ... É isso o que dizem os cidadãos brasileiros que foram às ruas, nesse último domingo. O povo está em busca de quem represente, de fato, os seus interesses e necessidades.
Até aqui, o país assistiu a uma aguda crise de confiança devido à distância entre os políticos e os seus eleitores, em uma absoluta ausência de identificação.
Daí o desencanto, o surgimento de novas formas de participação, o clamor das diversas demandas democráticas, revelando a tensão existente entre a legitimidade formal dos partidos e a necessidade de conexão real com as bases.
Enquanto isso, mais um pleito eleitoral se aproxima. 2026 é logo ali! No entanto, dessa vez, o recado da massa cidadã já vem sendo dado. E como diz o provérbio, "Quem avisa, amigo é"! Se os partidos apenas tentarem, ou falharem, ao capturar essa voz, sofrerão as consequências desse acirramento nas urnas, demonstrando a dimensão do significado do fortalecimento democrático, a partir da coesão social decorrente do despertar da consciência cidadã.
