sábado, 3 de abril de 2021

A atemporalidade de Judas


A atemporalidade de Judas

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Dizem que é dia de “malhar o Judas”. Então, eu percebo como mais de 2000 anos de história permanecem confusos e nebulosos por aí. Judas errou. Depois de trocar a vida do grande amigo por algumas moedas de prata, em razão da inveja que nutria por ele, sentiu o peso do remorso e se suicidou.

Mas, já parou para pensar que ao retirar a própria vida, ele fez como Pilatos e lavou as mãos? Sim, porque tal atitude foi uma forma prática que ele encontrou tanto para apagar quanto para se abster dos seus erros e não ter que conviver com a culpa. Delação. Inveja. Beijo traidor. Recebimento de vantagem financeira. Como justificaria algo tão injustificável?

Olhando, então, para esse século XXI que nos abraça, essa ideia da execração pública do “traidor”, tanto tempo depois, não é necessariamente a discordância ou o desconforto diante dos fatos ocorridos; mas, um modo peculiar que o ser humano contemporâneo encontrou para disfarçar (ou expiar) seus próprios erros, lançando luz sobre o alheio.

Até parece que o perfil de Judas seria uma exceção nos dias de hoje! Há pelo menos uma centena em cada esquina, tentando levar alguma vantagem na vida, da pior forma possível. O ser humano tem se vendido com uma facilidade extraordinária. Os séculos só fizeram contribuir com uma ascensão gritante do TER e, por essa razão, as pessoas entregam seus princípios e valores em um verdadeiro mercado de escambo.

E é nessa reflexão que deveríamos nos ater. Afinal, o que acontece de bom ou ruim no cotidiano é porque encontra respaldo. Quando olho para a figura de Judas, percebo com imensa clareza traços de uma humanidade distorcida que ainda reside dentro dos campos sombrios da alma. De perto, bem de perto, o ser humano parece não ter nenhuma vocação para ser o “mocinho” da história.

De um jeito ou de outro, ele acaba tendendo a escapar do fascínio da perfeição. Tornando-se um rebelde, com ou sem causa, que se agita pela adrenalina da transgressão. Ultrapassar limites. Testar a paciência dos outros. Abusar das regras sociais. Enfim... mesmo sabendo, que pode se dar muito mal. Que vai se arrepender. Que vai ter que se explicar. Que vai ter que pagar pelos erros.

Ah; são tantos os exemplos por aí! Já deu uma passada de olhos nos noticiários do dia? Leia com atenção. Nas linhas e entrelinhas sobre anônimos e famosos. Porque os Judas contemporâneos, nem sempre se mostram escancarados; há uma certa sutileza, às vezes, no seu modus operandi. Mas, no fim das contas, Judas são sempre Judas e a “tentação” acaba lhes vencendo.

Especialmente em um país tão pródigo como este. Lembrando só, que pecado é pecado; embora, há quem insista em fazer-lhe gradação para minimizar a própria culpa. Então, vez por outra, nos deparamos com enxurradas de arrependimentos tardios, os quais são totalmente inócuos, como o próprio Judas nos mostrou.

Judas é, portanto, a personificação da má escolha. Totalmente ciente do certo e do errado, do bem e do mal, ele se permitiu cruzar a fronteira. Dizer que ele foi “tentado” é só uma tentativa de atenuar o seu instinto, a sua vontade, a fim de eximir e diluir o peso das responsabilidades. E isso acontece com certa frequência, porque, cada vez mais, as pessoas abdicam das suas convicções, da sua consciência, para agradar e pertencer ao grupo, ao coletivo social, ou a algum interesse particular.

No entanto, o resultado final é sempre a solidão. Os Judas acabam sempre banidos, alijados da sociedade. Consumidos por suas péssimas decisões. Pode ser que não aconteça de primeira, mais vai acontecer, mais dia menos dia vai. Porque a humanidade não dispõe de muita paciência para conviver com espelhos que possam revelar alguma imperfeição que ela não deseja mostrar.

Assim, tendo em vista tudo o que permeia a personalidade tão discutível dessa figura chamada Judas, que tal um mergulho na seguinte reflexão do escritor Mia Couto, “As pálpebras limpam os olhos de poeiras. Que pálpebras limpam as poeiras do coração? ” (Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos). Porque a humanidade, mais do que nunca, precisa dar uma solução para tantas sujidades armazenadas nas almas; a fim de que, o mundo possa ver, não pela perspectiva de Judas, mas de sua própria, os caminhos pelos quais deve seguir.


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