domingo, 7 de março de 2021

#MesDaMulher


Sororidade...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Abandonando as águas rasas da reflexão e mergulhando rumo as complexidades é fácil perceber a verdadeira história da participação feminina na sociedade. Nem só de confrontos com os homens vivem as mulheres. A falta de Sororidade demonstra ser o grande desafio na construção de um mundo alinhado à igualdade, a equidade e a justiça. Esse é ponto que desconstrói a ideia de que os obstáculos sociais para as mulheres advêm exclusivamente dos sistemas de controle e poder masculinos.

Que o mundo, em pleno século XXI, ainda se sustente sobre as bases do “clube do Bolinha”, ninguém duvida. Eles permanecem detentores das rédeas do planeta porque, passado de geração em geração, o “corporativismo masculino” lhes assegura coesão e coerência além dos discursos, mas nas práticas e táticas da sobrevivência social. Juntos, eles se fortalecem para o bem e para o mal.

Algo que as mulheres começam a entender só agora. A rivalidade feminina sempre custou caro a sua sobrevivência e direitos, de modo que os comportamentos competitivos têm esfacelado a união entre elas e vulnerabilizado a sua existência e participação na sociedade. Razão pela qual favorecem diretamente as ações masculinas e fortalecem as aspirações sociais deles.

O que para eles é algo genuíno, inerente a condição do homem, para elas esse é o grande “tendão de Aquiles”; pois, trata-se de um processo de construção, de elaboração lenta e gradual. É necessário que cada mulher perceba e compreenda a necessidade e o valor dessa teia relacional denominada Sororidade.

O que não deixa de ser uma tarefa árdua, porque nessa posição elas se predispõem a admitir uma condição feminina de igualdade. Medos, angústias, sofrimentos, violências, carências, frustrações, sonhos, desejos, ... passam a ser entendidos como questões pertencentes a todas e, não somente, a esse ou aquele grupo. Portanto, nenhuma mulher é mais ou menos do que a outra. Todas estão no mesmo barco.

De um jeito ou de outro, seus cotidianos femininos existem sob a batuta deles, os homens. Não importam as razões que fomentam a sua objetificação, o seu silenciamento, a sua invisibilização, a sua discriminação, o seu banimento... porque as consequências disso são perversas e cruéis da mesma maneira para qualquer mulher. Como também não importam a idade, a raça, a escolaridade, a religião, a renda, ... o que importa é que mulheres são seres humanos. E a consolidação da Sororidade busca, justamente, formar essa consciência.

Há milênios o discurso feminino é entrecortado por ideias e narrativas que as colocam em um contexto à parte da humanidade. Como uma subespécie, um subproduto, um artigo de segunda linha. Capaz de cumprir determinados papéis preestabelecidos; mas, sem direito de manifestar ou reivindicar algo mais dentro da sociedade.

Assim, ao invés de aprenderem a se comunicar, elas passaram a ser meras figuras decorativas e contemplativas. Na sua grande população não construíram pontes entre si, canais de diálogo, espaços de discussão de sua própria existência. Sempre se olharam com curiosidade. Sempre teceram ideias especulativas e irreais sobre as vidas umas das outras. Sempre cobiçaram suas existências como se isso pudesse ser um mecanismo de libertação. ... Por isso, tantas rivalidades, tantos revanchismos, tanta hipocrisia, tanto tempo perdido nas horas que pudessem emergir o seu verdadeiro SER.

De algum modo, esse panorama explica porque as mulheres ainda engatinham na sua Sororidade. Pensar diferente. Pensar por si mesma. Pensar. Aprender a pensar. ... O mundo ainda é uma caixa apertada, o que faz da liberdade uma aspiração e o senso de coletividade uma construção a ser erguida. Basta ler alguns textos, como “The girl who can”1 (Ama Ata Aidoo) e “Girl” 2(Jamaica Kincaid), para entender como essa estratégia social impositiva em minar a construção de elos e afinidades femininas, criou verdadeiras prisões subjetivas que mantêm agrilhoadas, até hoje, milhões de mulheres.

Ao invés do diálogo, da argumentação, do questionamento, as mulheres se tornaram simples repetidoras dos discursos preestabelecidos na sociedade, tanto por homens quanto por suas próprias ancestralidades. Raras foram as que impetuosamente desafiaram o modus operandi vigente. Tudo muito pontual; sem contar, que a resistência interior de muitas delas existe como um escudo de proteção, uma zona de conforto onde podem transitar sem deflagração de conflito, sem serem estereotipadas como “difíceis de lidar”, “intransigentes”, “briguentas” ou “problemáticas”.

Por isso, a Sororidade é tão bem-vinda. Que suas correntes em curso possam avançar cada vez mais sobre as almas femininas e os terrenos ocupados pelos homens. Assim, elas chegarão verdadeiramente a compreensão de sua identidade, de seu valor, de sua participação conjunta na sociedade. Este, então, será o dia em que será possível à mulher “amar-se em sua força e não em sua fraqueza; não para fugir de si mesma, mas para se encontrar; não para se renunciar, mas para se afirmar; nesse dia, então, o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal” (Simone de Beauvoir – escritora, filósofa e teórica social francesa). Afinal de contas, somente amando a Sororidade é capaz de aflorar.


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