domingo, 20 de junho de 2021

Os milhões e as mortes


Os milhões e as mortes

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É, ou pelo menos deveria ser, algo extremamente impactante pensar em MEIO MILHÃO DE MORTES, causadas por uma doença que já é passível de prevenção por meio de vacinas; a COVID-19. Choca, escandaliza, horroriza, ... pensar sobre um acontecimento tão nefasto como esse.

No entanto, quem disse que a morte, no Brasil, está restrita a esse viés? Meio milhão só por uma causa específica, sem contar outras doenças, ou fome, ou miséria, ou violências diversas, ou alguma manifestação das profundezas da subjetividade humana.

Afinal de contas, morrer não é só parar de respirar, o coração de pulsar, o cérebro de funcionar. Tem muita gente morta circulando por aí. Isso acontece quando há uma ruptura total com os valores fundamentais que sustentam o sentido da vida humana; sobretudo, na sua concepção mais bonita da convivência e da coexistência coletiva.

A indiferença e o escárnio com que muitos têm se manifestado em relação as mortes de seus semelhantes, ao contrário do que compreendem, só faz demonstrar o quão mortos, já estão. Fenecendo em seus casulos de individualismo asfixiante. Dependentes da satisfação de desejos insaciáveis, oriundos de valores e princípios deturpados, para poderem continuar vagando, como almas penadas, inconscientes de sua condição existencial.

Por isso, creditar a responsabilidade desse MEIO MILHÃO DE MORTES às narrativas e comportamentos de determinados indivíduos, geralmente aqueles com maior influência ou visibilidade, não traduz a realidade. O papel destes foi legitimar a abertura de uma zona de conforto, onde outros tantos, puderam se permitir exacerbar o mesmo individualismo. Estamos diante de uma fronteira bem definida, ou seja, quem é contra ou a favor da morte. Sim, porque essa é uma questão pacificada por si só.

Talvez seja isso, o que produz tamanho desconforto e instabilidade social. Seria mais fácil se fosse esse ou aquele a defender algo tão absurdamente mórbido; mas, de repente, se percebe que são muitos fazendo eco para uma mesma narrativa; muitos mortos vivos, por aí. Gente que saiu do seu obscurantismo cotidiano para brilhar no “lado negro da força”, com uma disposição de defesa convicta e arraigada, que chega a espantar.

Como se a dissimulação encenada por muito tempo tivesse chegado ao fim. O individualismo tomou as rédeas da situação e resolveu imperar. Portanto, não há o “nós”. Não há o senso coletivo. Não há a defesa das demandas sociais; somente, as individuais. Cada um sobrevive na sua bolha de interesses, a qual não inclui, nem mesmo, uma eventual preocupação com a própria sobrevivência, porque está totalmente centrada no TER ao invés do SER.

Razão pela qual os milhões distribuídos em verbas no Congresso Nacional, ou que rolaram debaixo dos panos dos universos paralelos que têm se descortinado a partir de investigações diversas, ou aqueles gastos com medicamentos sem eficiência alguma para combater a Pandemia, também, passam indiferentes para determinados indivíduos dentro da sociedade.

Do mesmo modo a escalada do desemprego, da miséria e de tantas outras mazelas crônicas do país, estimadas estatisticamente pela escala dos milhões de seres humanos, também, parecem invisíveis para essas pessoas.

Portanto, por pior que seja admitir, já ultrapassamos os MILHÕES DE MORTOS a lamentar. E essa verdade cruel e indigesta dimensiona o grau de esfacelamento que a sociedade brasileira conseguiu atingir. Porque a morte no seu sentido concreto, já sabemos ser irrecuperável; mas, essa morte subjetiva, tende a construir outras mortes dentro do ambiente coletivo humano. Mortes instrumentalizadas pelos piores sentimentos e emoções que um ser humano pode armazenar dentro de si.

Estamos diante de uma cova sem fundo. Assistindo, lenta e gradualmente, ao morticínio de um país, através da degradação e deturpação da sua identidade nacional, que sintetiza as suas condições sociais e afetivas de pertencimento a uma determinada cultura.

Cada dia respiramos menos. Cada dia o fôlego diminui. O que vem exigindo das pessoas um esforço sobrehumano para resistir às investidas mortais. Todos os dias temos razões para sentir falta, para carecer de alguma coisa ou de alguém. Todos dias diminuímos um pouco mais.

Então, antes que seja tarde demais, que a morte já tenha nos consumido até o mísero vestígio da alma, convido a pensar sobre a seguinte citação de Rachel de Queiroz. Bons entendedores, entenderão!

“O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças” (Memorial de Maria Moura, 1992).


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