quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Em banho-maria ...


Em banho-maria ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Centrão.

Oposição.

Direita e seus matizes.

Ranços históricos.

Fisiologismo.

Emendas Parlamentares.

Regalias.

Privilégios.

 

Na verdade,

Tudo é desfaçatez.

Tudo é veloz.

Tudo é dissimulado ...

A Democracia corre perigo.

 

PEC da Blindagem 1.

PEC do Foro Privilegiado 2.

PEC da Anistia 3

Corporativismo.

Interesses escusos.

Chantagem.

Despudor.

Cinismo.

 

Na verdade,

Tudo é desfaçatez.

Tudo é veloz.

Tudo é dissimulado ...

A Democracia corre perigo.

 

Descompromisso constitucional.

Anticidadania.

Antidemocracia.

Cinismo.

Sabujice.

Subserviência.

Desrespeito.

Traição.

 

Na verdade,

Tudo é desfaçatez.

Tudo é veloz.

Tudo é dissimulado ...

A Democracia corre perigo.

 

Relembrando os seguintes versos da Legião Urbana, “Quando querem transformar / Dignidade em doença / Quando querem transformar / Inteligência em traição / Quando querem transformar / Estupidez em recompensa / Quando querem transformar / Esperança em maldição: / É o bem contra o mal / E você de que lado está? 4.

Abra seus olhos. Preste atenção. Os (des)caminhos do país, há pouco mais de 500 anos, são sempre preparados em banho-maria. Sempre à espera do momento ideal, o que significa a invigilância do cidadão e a ignorância popular, segundo a percepção de seus próprios representantes.



1 PEC da Blindagem prevê mudanças profundas nas regras para investigação, prisão e julgamento de deputados e senadores.

2 PEC do Foro Privilegiado pretende acabar com o foro privilegiado para autoridades em crimes comuns, em um momento em que o STF conduz diversos processos sobre o uso de emendas parlamentares.

3 PEC da Anistia. Aliados do ex-presidente veem PEC das prerrogativas como primeiro passo para anistia. (leia https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2025/08/27/hugo-motta-pacote-impunidade-anistia-bolsonaro-julgamento-stf.ghtml)

4 1965 (Duas tribos) - Legião Urbana (1989) / Compositores: Renato Russo / Dado Villa Lobos / Marcelo Bonfá.


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O Brasil que não gosta do Brasil


O Brasil que não gosta do Brasil

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Os verdadeiros inimigos do país não estão além de suas fronteiras. Eles estão aqui e fazem parte do espectro político-partidário da Direita. O que inclui não somente os seus representantes; mas, financiadores de campanha, apoiadores e simpatizantes. Portanto, gente que cultua, de maneira cega e arraigada, o ranço colonialista que escreveu as páginas da historicidade brasileira.

Segundo a imprensa nacional, “Estratégia da oposição cria bomba fiscal para esvaziar aposta de Lula na isenção do IR” 1 , visando ameaçar o projeto que isenta do imposto de renda todos os brasileiros com renda de até 5 mil reais mensais, ou seja, o que seria um alívio para 26 milhões de contribuintes.

Durante os últimos anos, em especial, tentou-se fazer incutir no inconsciente coletivo brasileiro, a título de justificar a polarização político-partidária, a ideia do “antilulismo”, a qual descreve a corrente de oposição e desaprovação ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma estratégia de personificação do desagrado em reação às políticas progressistas e de caráter social.    

Acontece que esse desagrado não tem absolutamente nada a ver com o rosto, a figura, desse ou daquele indivíduo. O que eleva a ira do espectro político-partidário da Direita é a presença do progressismo no país. Afinal, essa é uma corrente de pensamento que defende o progresso social, político e econômico através de reformas, transformações e a busca pela igualdade e os direitos humanos.

Algo que entra em choque direto com todos os princípios e valores herdados dos tempos em que o Brasil foi Colônia de Exploração. Eram tempos de um modelo de economia voltado exclusivamente para a exportação, com a presença de grandes latifúndios alicerçados por monoculturas, tais como a cana-de-açúcar e o café, e pela utilização de mão de obra escravizada. O que limitou significativamente o desenvolvimento nacional e perpetuou um ciclo de dependência econômica e desigualdade em relação às Metrópoles europeias.

Portanto, as consequências sociais desse modelo podem ser compreendidas pela reafirmação de uma desigualdade social e econômica acentuada, presença de forte imobilismo social, a perda e a supressão de culturas e identidades locais, a disseminação de doenças que causaram alta mortalidade entre populações nativas, a imposição de estruturas socioeconômicas alienígenas, ou seja, estranhas, bizarras e opressoras para a maioria da população, a marginalização de grupos sociais e de gênero, e a perpetuação da violência através da escravidão e do trabalho forçado. E é dentro desse contexto, que o Brasil vem transitando ao longo dos seus pouco mais de 500 anos.

Daí a dificuldade das elites brasileiras, o topo da pirâmide social, em aceitar os ventos do progresso. Essa gente quer manter tudo como sempre esteve. Quer permanecer defendendo a preservação de instituições sociais, valores, costumes e tradições, o que se traduz, por exemplo, pela naturalização da desigualdade, da resistência às mudanças sociais, do aprofundamento da exploração, da defesa de suas regalias e privilégios, e da propagação de preconceitos e discursos de ódio.

Algo que não passa mais despercebido de nenhuma viva alma, considerando-se o fato de que, há um certo tempo, perderam totalmente o pudor quanto à ruidosa legitimação da sua hegemonia, enquanto classe dominante; bem como, pelos recorrentes episódios de desmantelamento dos sistemas de proteção social, resultando em crises sociais e econômicas e na repressão dos direitos humanos.

Portanto, há sim, uma parte do Brasil que não gosta do Brasil! Que não compreende o país como unidade, totalidade, coletividade. Que resiste bravamente a qualquer possibilidade de avanço do progresso, dificultando a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, limitando o desenvolvimento das pessoas e das comunidades, apenas para atender ao seu desejo de manter os padrões sociais, políticos e econômicos arcaicos, os quais se acostumou a desfrutar.

Acontece que essa parte do Brasil que não gosta do Brasil tem em sua composição elementos representativos, apontados pelo voto democrático. O que significa uma escolha do cidadão. E escolhas podem ser revistas, repensadas, não é mesmo? Ter um representante que não cumpre o papel de defender os interesses de boa parte do seu eleitorado não faz nenhum sentido.

Por isso, como disse George Bernard Shaw, dramaturgo, romancista irlandês e Prêmio Nobel de Literatura, em 1925, “O progresso é impossível sem mudança; e aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada”.


Escolhendo a vergonha ...


Escolhendo a vergonha ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O Brasil está sob uma transformação profunda, quase uma reescrita da sua historicidade, no âmbito de aspectos coloniais efetivamente nefastos. Entretanto, apesar de surpreendente, tais mudanças enfrentam uma resistência estúpida, por parte de certos indivíduos. É o caso, por exemplo, da Câmara dos Deputados.  

Relembrando que, historicamente, o mundo já assistiu à formação de uma organização política que substituiu o parlamento por uma instituição corporativa na Itália fascista, temos no Brasil um desenho semelhante a se configurar em relação a esse tipo de corporativismo.

Enquanto "espírito de grupo", de cooperação entre indivíduos e setores, esses (as) parlamentares buscam pela defesa aguerrida de seus privilégios, regalias e poderes; por isso, resistem à cassação de parlamentares flagrantemente envolvidos em atos disruptivos ao ordenamento jurídico brasileiro.

É, lamentável que o Congresso nacional venha se permitindo escolher a vergonha, a mais completa e absoluta falta de decoro, demonstrada por atos absurdamente incompatíveis ao exercício parlamentar. Mas, a Câmara dos Deputados aceitar que um de seus pares permaneça reiterando o cometimento de crime de lesa-pátria é inadmissível! É a desmoralização total da referida Casa legislativa!  

Ao se omitir de aplicar a cassação de mandato a qualquer parlamentar que venha praticar, publicamente, atos gravemente prejudiciais à soberania brasileira, traindo de maneira absoluta seu país de origem e com grandes danos econômicos a ele, a Câmara dos Deputados, de certa forma, rasga o seu compromisso constitucional de defender os interesses do Brasil, escondendo-se sob o manto vulgar e abjeto do corporativismo.

Esse é sim, um fato repugnante, desprezível, pois extrapola a si mesmo, na medida em que envolve gastos vultosos de dinheiro público. Diante do fato de não ter renunciado e de sua licença das atividades parlamentares ter expirado, o referido deputado permanece recebendo um salário bruto mensal de R$ 46.366,19, acrescido de verbas como a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), a qual varia por estado, e outras ajudas de custo para despesas relacionadas ao mandato, enquanto trai e conspira contra o Brasil em território estrangeiro.

Além disso, para conter os efeitos desastrosos e altamente prejudiciais decorrentes do seu crime de lesa-pátria contra a economia nacional, já foram gastos pelo Brasil em torno de R$ 30 bilhões. Dinheiro que poderia estar sendo investido em benefício do próprio desenvolvimento do país e de sua população; mas, precisou ser destinado a impedir consequências ainda piores, oriundas do atrito diplomático gerado pelo tal deputado.

Bem, ao escolher essa vergonha, institucionalizada pelo silêncio e omissão do corporativismo político, a Câmara dos Deputados sinaliza compactuar com o crime de lesa pátria e suas consequências. Sinaliza que garantir o poder, a qualquer preço, está sim, acima das obrigações e dos deveres constitucionais. De modo que ela escreve um capítulo deplorável no registro da sua historicidade, no que diz respeito ao seu exercício ético e moral.

Já dizia Rui Barbosa, político, diplomata, advogado e jurista brasileiro, “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”. Daí a necessidade dos (as) cidadãos (as) brasileiros (as) de prestar bastante atenção ao seguinte aspecto: “Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam com a outra, antes se negam, se repulsam mutuamente. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada” (Rui Barbosa).


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

“Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Heródoto


“Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Heródoto *

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É uma pena, mas o Brasil insiste em viver de futuro! Não é à toa que, ao invés de focar no hoje, no agora, diante da efervescência dos acontecimentos nacionais e internacionais, a ala político-partidária e de imprensa esteja com os olhos voltados para a sucessão eleitoral de 2026. Por isso, resolvi tecer uma breve reflexão do que se faz de suma importância nesse contexto.

Bem, é claro que as personagens são fundamentais para contar uma história; mas, ao contrário do que uns e outros, por aí, possam pensar, é sobre a ideologia, ou seja, o conjunto de ideias, crenças, valores e normas que moldam a forma como um grupo social percebe e interage com o mundo, que devemos prestar bastante atenção.

Ora, pessoas vêm e vão! Portanto, figuras humanas não são elementos fixos. Já a ideologia, que elas sustentam e materializam nas suas expressões e comportamentos, essa sim, é uma estrutura fixa e atemporal. Daí a necessidade de observá-la bem de perto.

Nem preciso dizer que 2025 já entra para a historicidade brasileira, como um ano de profunda importância e ineditismo. Um ex-presidente, vários membros do escalão maior das Forças Armadas, alguns cidadãos ligados ao governo anterior, estão no banco dos réus, em razão do deplorável acontecimento do 08 de janeiro de 2023, sob a acusação de organização criminosa armada; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; golpe de Estado; dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União, e com considerável prejuízo para a vítima; e, deterioração de patrimônio tombado.

Entretanto, uma eventual condenação desses indivíduos não significa, em si mesma, o restabelecimento da paz democrática e cidadã, para o Brasil. Afinal, os indivíduos são punidos; mas, a ideologia, a qual eles defendem e manifestam, não.

E esse é o ponto de reflexão! As ideologias são como sementes. Elas podem permanecer dormentes, ou seja, inativas; mas, isso significa apenas sobreviver às condições temporariamente adversas, até que um momento mais favorável se oportunize.

E isso não é novidade! Há exatos 80 anos, por exemplo, o mundo assistiu ao fim da 2ª Guerra Mundial e todas as consequências desencadeadas pelo ultrarradicalismo imposto pelo regime nazista.

Em um primeiro momento, houve quem acreditasse que o Holocausto, o deslocamento maciço de populações, o desenvolvimento de um sentimento de unidade e de colaboração na Europa Ocidental para evitar novos conflitos, o receio de uma outra guerra nuclear, seriam questões absorvidas e incorporadas pela humanidade, sem quaisquer restrições.

Só que não. A ideologia que construiu e colocou em prática a 2ª Guerra Mundial apenas se tornou dormente. Células nazistas e ultrarradicais, que já haviam se espalhado pelo planeta, se invisibilizaram, ou camuflaram, para sobreviver às condições adversas, que se impuseram ao final do conflito bélico.

O que significa que o nazismo e o ultrarradicalismo não desapareceram, eles permaneceram de prontidão para despertar a qualquer momento. Inclusive, no Brasil. Caro (a) leitor (a), o atual recorte contemporâneo é, nesse sentido, um terreno fértil para que sementes tóxicas, nocivas, deletérias, possam germinar.  

Pelo simples fato de que navega, pelo (in)consciente coletivo nacional, e global, a ideia de que “Na busca, portanto, da totalidade, encontra-se a falta; na busca das certezas, encontram-se as dúvidas, na busca de um porto seguro, encontra-se a insegurança, que se manifesta, sobretudo, quando mitos da modernidade, simulacros do paraíso, nos colocam, de forma poderosa, em situação de inferioridade, de constrangimento, de angústia” (CORACINI, 2005 1).

Daí a necessidade da plena atenção às linguagens e suas construções. Não é porque alguns indivíduos estejam sendo julgados, responsabilizados, que a apropriação de suas ideologias ultrarradicais e extremistas não possa acontecer através de outros simpatizantes, representantes, apoiadores.

Conhece a expressão "lobo em pele de cordeiro"? Pois é, ela descreve indivíduos ou grupos que, sob um disfarce de inocência, bondade ou inofensividade, escondem intenções predatórias ou maliciosas para manipular, explorar ou prejudicar outros.

Acontece que, no campo político-partidário; sobretudo, no Brasil, onde o fisiologismo político é uma mácula secular, essa dinâmica de engano e dissimulação pode levar a danos sociais irreparáveis, tendo em vista, o própria historicidade marcada pela herança colonial exploratória.

Além disso, as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) contribuem significativamente para a reverberação de práxis comunicativas nocivas e deletérias, no cenário contemporâneo atual.

Por essas e por outras, é que a representatividade, à luz do seu significado político-partidário, se torna objeto fundamental para análise crítica da sociedade contemporânea.

Um exemplo disso está nas seguintes palavras de Eni Puccinelli Orlandi, pesquisadora brasileira e pioneira na esfera da análise do discurso, “é justamente quando esquecemos quem disse ‘colonização’, quando, onde e por que, que o sentido de colonização produz seus efeitos” (2001 2); pois, na ideologia, não há ocultação de sentidos, mas o apagamento do processo de sua constituição.

Afinal de contas, a historicidade, com frequência, insiste que certas ideias, crenças, valores, conflitem diretamente com a cognição humana, a tal ponto de gerar tensão e desconforto psicológico.

Então, automaticamente, esse processo tende a levar os indivíduos a alterarem esses aspectos a fim de minimizar a sua importância ou, até mesmo, a racionalizar comportamentos irracionais para restaurar a harmonia cognitiva.

Portanto, cabe a todo cidadão se manter sempre ciente de que uma das consequências mais comuns e visíveis, no que diz respeito ao campo político-partidário, é a escolha de uma representatividade equivocada e prejudicial à cidadania e à Democracia, por parte da população.  



* Heródoto (484 a.C. - 425 a.C.) foi um historiador grego.  

1 CORACINI, M. J. R. F. Concepções de Leitura na (Pós-) Modernidade. In: LIMA, R. C. de C. P. (Org.). Leitura: múltiplos olhares. Campinas: Mercado de Letras; São João da Boa Vista: Unifeob, 2005. p.15-44.

2 ORLANDI, E. P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2001.


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Nem tudo é o que parece ...


Nem tudo é o que parece ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Sim, a história repete seus ciclos ou, pelo menos, tenta. Afinal de contas, nesse sentido, o tempo é uma variável imperiosa e que não pode ser desconsiderada, sob nenhuma hipótese. Ainda que à revelia de uns e outros, por aí, o mundo gira, rodopia, dá voltas e mais voltas, o que significa que se permite transformar, metamorfosear. Por mais que a resistência egóica que acompanha o ser humano insista em negar.

Feita essa breve consideração, olhemos para os recentes acontecimentos, no teatro da geopolítica global. Não há acaso em política, do mesmo modo que não há na vida. A presença estadunidense como interlocutora para o fim da guerra na Ucrânia, começou pelo interesse envolvendo a exploração de minerais raros em troca de apoio militar e segurança. Considerando que a Ucrânia possui grandes reservas desses minerais. Assim, a ideia era estabelecer uma exploração conjunta de recursos minerais estratégicos, tais como o lítio e o titânio, cruciais para a indústria de tecnologia e de baterias.

Mas, como costumam dizer, por aí, “faltou combinar com os russos”! O recente encontro, entre EUA e Rússia, ocorrido no Alasca, parece ter frustrado essas expectativas. Acontece que as reservas desses minerais em solo ucraniano estão presentes principalmente no leste e sul do país, o que inclui áreas atualmente sob controle russo. Daí o governo de Moscou não parecer interessado em abrir mão da sua ocupação naquele país, pois a exploração desses recursos é de grande interesse geopolítico. Sem contar que a Rússia e a China, pertencentes ao bloco dos BRICS, também, desfrutam de uma parceria pragmática que envolve interesses econômicos e de segurança.

E a questão dos tais minerais raros é um assunto que gera disputa entre China e Estados Unidos, na medida em que os estadunidenses buscam reduzir sua dependência dos chineses em relação a esses minerais estratégicos, os quais são cruciais para tecnologias como eletrônicos, veículos elétricos e sistemas de defesa. O que torna uma posição similar sobre o Ocidente e o futuro da ordem mundial, entre chineses e russos, um motivo a mais de aliança entre as duas potências, aprofundando a decepção estadunidense. Tanto que, rapidamente, os EUA postou-se menos entusiasmado na interlocução pelo fim da guerra na Ucrânia.

Contudo, seu plano B, parece ser intensificar as ações intimidadoras e beligerantes na América Latina; posto que, enviou destroieres para perto da Venezuela, sob o pretexto de que o regime venezuelano é um cartel de drogas terrorista. Bem, narcotráfico não combina com terrorismo. Envolvido com a produção, a distribuição e o consumo de substâncias ilícitas, narcotraficantes estabelecem suas relações de poder de uma maneira, geralmente, camuflada em relação a atenção das autoridades. Já o terrorismo é visto como um fenômeno social que vai além da violência física, envolvendo aspectos como motivação, comunicação, normas sociais e percepções públicas. Terroristas fazem questão da visibilidade, da comunicação e da propaganda não só para recrutar novos membros quanto para disseminar medo e influenciar a opinião pública.

Mas, observando atentamente o movimento belicoso dos EUA na região venezuelana, a intenção parece ser reafirmar, diante do mundo, seu poder sobre sua antiga área de influência, ou seja, a América Latina. Os antigos ventos da Guerra Fria, quando os EUA e a URSS exerciam sua influência de natureza política, econômica, militar e/ou cultural, mediante a aceitação, por parte dos estados menores, de sua posição subordinada em relação a eles. Acontece que, o mundo do século XXI, é outro. A China vem exercendo uma influência crescente no Sul Global, ou seja, países em desenvolvimento e ex-colônias, especialmente na Ásia, África e América Latina. Portanto, essa influência multifacetada, envolvendo aspectos econômicos, políticos e culturais, tem implicações significativas para a ordem mundial e as relações internacionais, que afetam os interesses dos EUA e rompem com a ilusão de que a América Latina, por exemplo, ainda faça parte do “quintal estadunidense”.

O tabuleiro geopolítico contemporâneo está, portanto, sob uma outra dinâmica. Intimidações, sanções, beligerâncias, ... não parecem ter o efeito prático ideal, como acontecia antigamente. O mundo do século XXI traz à tona uma reconfiguração das relações de poder no cenário internacional, o que permite criar outras dinâmicas e alianças. Tanto que o bloco dos BRICS, formado por onze países membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, vem buscando fortalecer a cooperação econômica, política e social entre seus membros, promovendo um aumento da sua influência na governança internacional; bem como, visando impulsionar o desenvolvimento socioeconômico sustentável e promover a inclusão social. 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Aprisionados pela ignorância?!


Aprisionados pela ignorância?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Vira daqui. Mexe dali. E a questão colonial permanece assombrando a realidade brasileira. Dessa vez, a ótica da discussão é a liberdade de expressão. Essa bandeira contemporânea que vem sendo hasteada por inúmeros indivíduos e grupos que almejam expressarem suas opiniões, ideias e pensamentos livremente, sem censura ou restrições de quaisquer naturezas.

Mas, será isso mesmo? Penso que não. O século XXI está, mais do que nunca, sendo regido pelo signo da alta tecnologia. A sociedade contemporânea já vive entre dois mundos, o real e o virtual. Ideias, conhecimentos, informações, transitam na velocidade da luz e não só modelam as relações e as interações sociais, como as modulam, segundo os interesses e as necessidades do poder.

Quem está por trás desse jogo, então, são as Big Techs. Empresas de tecnologia de grande escala que exercem influência significativa no mercado global, dominando setores como internet, comunicação e eletrônicos. O que significa que elas se opõem a mecanismos de regulação da internet, argumentando que isso pode prejudicar a liberdade de expressão e a inovação, além de gerar insegurança jurídica e onerar as empresas com multas e sanções.

No entanto, há um aspecto importantíssimo que diz respeito ao fato de que a desinformação, o discurso de ódio e outros conteúdos ilegais, os quais proliferam nas plataformas digitais, é altamente rentável para elas.

Isso acontece porque o modelo de negócios dessas plataformas é baseado em engajamento, e conteúdos polarizadores, sensacionalistas e tóxicos tendem a gerar mais interações, resultando em mais tempo de permanência dos usuários, coleta de dados e exibição de anúncios.

Acontece que, por trás dessa coleta de dados, existe um interesse de controle e manipulação social, por parte das esferas de poder. Afinal, essas informações produzem caminhos enviesados e tendenciosos capazes de ampliar a concentração de poder econômico, potenciais abusos na utilização dos dados, riscos à privacidade e à segurança; mas, principalmente, impactar na disseminação de desinformação e enfraquecimento da democracia.

Observando com atenção à realidade brasileira, tudo isso se torna perceptível e compreensível, na medida, por exemplo, que as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) não foram devidamente incorporadas à dinâmica social.

Enquanto elas já são parte integrante e integrada, da realidade dos países desenvolvidos, por aqui a sua relação com o cidadão se encontra repleta de lacunas, de vazios, que não permite afirmar a existência de uma Cultura Digital inclusiva e amplamente acessível.

Veja, a inclusão digital é algo multifacetado e é indissociável aos letramentos digitais. A maioria dos (as) brasileiros (as) ainda se encontra desprovida de letramento computacional, ou seja, de uma capacidade consciente sobre como usar, entender e interagir, de forma crítica e eficaz, com as tecnologias digitais, ultrapassando o simples manuseio de dispositivos.

Também não se vê o letramento digital, o qual além da compreensão e uso das informações em ambientes digitais, incluindo a leitura, a escrita e a produção de conteúdo em plataformas, envolve a compreensão crítica das informações, a avaliação da veracidade e a navegação segura no ciberespaço.

Como diz o filósofo francês, Michel Foucault, “Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”.

Olhando, então, para a questão dos (multi)letramentos digitais, que envolve a compreensão e a produção de significados através de diversas formas de comunicação, incluindo as ferramentas digitais, as mídias e as tecnologias, a sua insuficiência e ineficiência, no caso brasileiro, decorrem dos interesses presentes no neoimperialismo contemporâneo, oriundo das Big Techs.

Em substituição ao (multi)letramento operou-se, e ainda opera, por aqui, uma maciça narrativa em torno da liberdade de expressão, como se ela pudesse existir à margem da responsabilidade cidadã, do respeito democrático e aos direitos coletivos.

A defesa ruidosa e combativa em torno da liberdade de expressão estabelece, então, o enfraquecimento da coesão social e da capacidade de resistência, especialmente, das minorias sociais, facilitando a manipulação por parte dos poderes estabelecidos.

Assim, em nome dessa pseudoliberdade, vendida e disseminada pelas Big Techs, a desinformação, o discurso de ódio e outros conteúdos ilegais, se proliferam nas suas plataformas digitais. Ao dividir e segmentar a sociedade, dificulta-se a coesão em torno da defesa de direitos e interesses.

Quanto à propagação de notícias falsas e a manipulação da informação, executa-se a política do medo, da desconfiança, dificultando a tomada de decisões conscientes. De modo que não se pode negar como esse emaranhado todo favorece às intenções e às pretensões das agendas ultradireitistas globais.

Haja vista que o uso da liberdade de expressão para incitar a violência ou questionar a legitimidade de processos democráticos pode colocar em risco a estabilidade das instituições e o cumprimento das leis.

Isso ocorre, porque “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar” (Michel Foucault).

Daí o Brasil estar diante de um confronto internacional, capitaneado pelas Big Techs, contra o Supremo Tribunal Federal (STF), órgão máximo do Poder Judiciário no país.

É, caro (a) leitor (a), “As pessoas sabem aquilo que elas fazem; frequentemente sabem por que fazem o que fazem; mas o que ignoram é o efeito produzido por aquilo que fazem” (Michel Foucault).

Por isso, é fundamental compreender, camada por camada, desse neoimperialismo (ou neocolonialismo), o qual diz respeito à influência e controle exercidos por certas potências sobre outras nações.

Afinal, muitas vezes, isso ocorre de forma indireta e através de meios econômicos, políticos e culturais, aproveitando-se da fragilidade e da vulnerabilidade da construção histórica de inúmeros países.

Como escreveu o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, “O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento” (Capitalismo Parasitário, 2009).


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Ilusões e delírios não mudam os fatos e a realidade


Ilusões e delírios não mudam os fatos e a realidade

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Dizia o escritor e jornalista italiano, Umberto Eco, “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”. Sábias palavras! Em um mundo tomado pelo individualismo egóico narcisista, as palavras podem atingir os espaços mais delicados da natureza humana e gerar respostas, que ultrapassam os limites da dor e do sofrimento, para se converterem em ódio e vingança.

Trata-se de uma ruptura com a idealização! Essa forma irrealista, que considera as suas próprias perspectivas e expectativas do mundo, da vida, como se fossem perfeitas ou ideais; mas, na verdade, não se sustentam. A verdade nua e crua da realidade é sempre imperiosa e indisposta a satisfazer as vontades e os quereres, de quem quer que seja.

Assim, considerando o momento atual da contemporaneidade, vale refletir sobre as seguintes palavras de Bob Marley, cantor, compositor e guitarrista jamaicano: “Me criticam por ser diferente, mas rio deles por serem todos iguais, e loucos como eu vivem pouco, mas vivem como querem pois não me importa se não houver o amanhã, me deram a vida e não a eternidade...”.  Afinal, elas soam como um grito de liberdade, uma apropriação identitária, sem precedentes.

Até aqui, a historicidade humana tem orbitado uma lógica bastante controversa. Há quem diga: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, para expressar a capacidade de dominação e eventual superioridade, de uns sobre os outros. Acontece que essa é uma ideia derivada dos primórdios da civilização e que foi reafirmada, ao longo do tempo, a partir da abstenção da consciência crítica e reflexiva dos indivíduos, instrumentalizada pela violência, o medo, a opressão.

Haja vista, por exemplo, as práxis colonialistas, imperialistas, neocolonialistas. Elas sempre objetivaram imputar a certos povos a necessidade de uma tutela, ou seja, que o outro, tido como mais forte, mais rico, mais autossuficiente, assumisse a responsabilidade legal, sob diferentes aspectos, pelo bem-estar daqueles que, em sua percepção, estivessem em condição mais frágil e vulnerável.

O que significou o ápice da exploração, tendo em vista, de que houve a apropriação dos recursos – humanos, materiais, naturais - ou produtos desse outro grupo, frequentemente, através de práticas desiguais e injustas, gerando relações de poder desequilibradas.

Nesse contexto, por exemplo, o mundo presenciou o surgimento do Eurocentrismo, uma visão de mundo que considerava a Europa e seus valores como o centro da história e desenvolvimento da humanidade, negligenciando ou subestimando outras culturas e perspectivas.

Então, diante dos recentes acontecimentos desencadeados pelos EUA, é que se deve tecer uma análise. O atual presidente estadunidense está tomado por uma construção ideológica idealizada, a qual está sob franco ataque da realidade do século XXI.

Esse é o ponto! Ele vem dobrando suas apostas, pagando para ver, porque essa verdade é extremamente inconveniente, desconfortável, indigesta. Ela rompe de maneira sumária com a defesa do seu mundo paralelo idealizado.

Sem se dar conta, sem observar com a devida atenção, ele perdeu o timing do mundo. Dos seus giros e rodopios. Da sua evolução. Da sua metamorfização. De modo que, de repente, na linha dos seus olhos emergiram países que vêm questionando as suas decisões, as suas imposições, as suas condutas, na seara diplomática e de comércio exterior.

Mas, não só isso! O exercício soberano de cada um deles reflete o incômodo estadunidense diante de certos posicionamentos, por divergirem da sua postura em situações semelhantes. Como diria Caetano Veloso, cantor e compositor brasileiro, “É que Narciso acha feio o que não é espelho” (Sampa, 1978).

Esses países abriram precedentes. Em linhas gerais, segundo a compreensão estadunidense, eles estão servindo como modelo ou exemplo para ações ou eventos futuros, especialmente em contextos sociais e/ou institucionais.

Portanto, eles podem exercer algum tipo de influência nos comportamentos, decisões e normas sociais, nos EUA. O que cria uma fratura na idealização, no mundo paralelo, que o atual presidente estadunidense tenta firmar, legitimar e legalizar.

Algo que o torna cada vez mais semelhante a personagem Rainha de Copas, criada por Lewis Carroll, escritor britânico. Figura emblemática do livro "Alice no País das Maravilhas", ela retrata uma líder tirânica, cuja autoridade é baseada no medo e na imposição, refletindo sua natureza cruel e impulsiva. Outro traço importante dessa personagem é o seu ego inflado, que a impede de reconhecer seus próprios erros e limitações.

Mas, não se pode esquecer que a Rainha de Copas também pode ser vista como uma sátira da sociedade vitoriana. E o que foi o período vitoriano? Corresponde ao reinado da rainha Vitória, no Reino Unido (1837-1901), quando a Inglaterra tornou-se a principal potência industrial e comercial do mundo, impulsionada pela Revolução Industrial e pela expansão colonial. Isso significa que o Reino Unido expandiu seu império colonial na África e na Ásia, consolidando seu poder e influência global.

Contudo, se houve grande prosperidade para a burguesia, para as demais camadas da sociedade, as desigualdades sociais se acentuaram e se aprofundaram radicalmente.

Além disso, como todo grande império, o seu declínio se deu por um processo complexo impulsionado por múltiplos fatores, os quais se destacam as duas guerras mundiais, o enfraquecimento econômico, o surgimento de movimentos nacionalistas e a ascensão de novas potências.

Bem, qualquer semelhança não é mera coincidência! Apesar de não haver relação direta entre os dois eventos, um ocorrido no século XIX e outro no século XXI, a essência das práxis converge para os mesmos objetivos e desdobramentos.

Daí tantas sanções, tanta animosidade, tanta belicosidade, sendo destilada pelos EUA. Eles ainda não perceberam a inexistência de uma ponte entre o mundo real e o seu mundo paralelo. Estão se debatendo, digladiando, por não aceitarem os fatos, a vida como ela é.

Afinal de contas, “Em certo sentido, a direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e com a ordem. A ordem é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem - a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta”. Razão pela qual “Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos” (Eduardo Galeano - escritor e jornalista uruguaio).

Entretanto, a força dos ventos da mudança chegou! Variáveis diversas ocupam o cenário da ordem mundial. Portanto, nada do que os estadunidenses e seus asseclas fizerem irá promover uma solidez para a sua idealização.

Ao contrário, cada novo tensionamento global, só tende a esgarçar, mais e mais, o tecido geopolítico, gerando desgastes imensos, com uma perda de tempo e de energia desnecessária, sem que o mundo deixe de seguir seu fluxo, seu caminho natural.

Relembrando os ensinamentos de Mahatma Gandhi, líder pacifista indiano que lutou pela independência da Índia em relação ao império britânico, “Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova”.


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Impunidade. Criminalidade. Um caminho que se retroalimenta no Brasil.

Impunidade. Criminalidade. Um caminho que se retroalimenta no Brasil.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A notícia de um tal “Pacote da impunidade”, o qual propõe que as investigações contra parlamentares só aconteça mediante a autorização deles próprios 1, é mais um pedaço da ética esfacelada sobre o chão do Congresso nacional.

De modo que não há como não lembrar as palavras de Rui Barbosa, político, jurista, diplomata e escritor brasileiro: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem- se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Pois é, a contemporização do absurdo estabelece uma espetacularização dantesca para a sociedade. Onde já se viu, parlamentar, condenada pela justiça brasileira, fugir do país sem ter tido o seu mandato cassado?

Onde já se viu, parlamentar se licenciar do parlamento e viajar para outro país, com fim específico de cometer crime de “lesa pátria”, e não ter o seu mandato cassado?  

Onde já se viu, parlamentar sob restrições da justiça brasileira, por conta de investigações da Polícia Federal (PF), sair do país sem autorização de Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)?   

Onde já se viu, parlamentares ocuparem os plenários do Congresso Nacional para impedir a abertura dos trabalhos legislativos, interrompendo o andamento de projetos e votações, com o objetivo de ganhar tempo ou pressionar por mudanças? Onde já se viu?

Se por um lado, tudo isso envergonha, constrange, apequena, não só parlamento brasileiro, mas o país; por outro, permite ao cidadão (ã) eleitor (a) conhecer a verdadeira face de quem o (a) representa na seara político-democrática.

E isso é um ganho significativo, considerando que parece ter chegado o tempo de “separar o joio do trigo", ou seja, discernir e distinguir o que é bom do que é ruim, o que é valioso do que é inútil, ou o que é verdadeiro do que é falso, em diversas situações da vida, incluindo o campo político-partidário.

Afinal de contas, se esse (a) ou aquele candidato (a) destoa de maneira tão significativa dos parâmetros éticos e morais do eleitor, por que razão deveria esse simpatizar com ele (a) e apoiá-lo (a)?

No caso dessa proposta de Emenda Constitucional, defendida por parlamentares que se amotinaram no Congresso nacional, na última semana, a ideia é elaborar um conjunto de medidas legislativas que visam protegê-los pelo cometimento de crimes e reduzir a punição de delitos, promovendo, assim, a impunidade.

Está claro, então, que eles já indicam a sua tendência em agir na contramão das leis e do próprio decoro parlamentar. Estão admitindo, de viva voz, a sua intenção em transgredir, em desobedecer, em violar quaisquer parâmetros éticos, presentes na sociedade brasileira. O que, ao menos em tese, os torna inapropriados para representarem os interesses e as pautas de seus eleitores.

Há pouco mais de 500 anos, a historicidade brasileira convive com as mazelas e os desdobramentos gerados pela impunidade. A falta de punição ou consequências para as ações que violam as normas ou as leis, seja em âmbito legal ou moral, produz sim, um sentimento de descrença nas instituições e na justiça; mas, sobretudo, enfraquece o tecido social.

É, a impunidade no topo da pirâmide reverbera pelas demais camadas ou estratos sociais, fragilizando a credibilidade do país, como um todo. Por isso, citei Rui Barbosa! Ele não errou e permanece atualíssimo na suas considerações. Especialmente, quando se coloca reparo no comportamento da atual legislatura do Congresso brasileiro.

As sucessivas atitudes degradantes e incompatíveis ao exercício parlamentar, permitem que a impunidade ultrapasse aquelas paredes e passe a contribuir para a perda de valores éticos e morais na sociedade em si.

Ora, as ações criminosas quando deixam de ter consequências, de ter punições, levam à banalização da violência e da criminalidade, nos demais espaços sociais. Portanto, estamos diante de um problema que afeta a confiança, a segurança e a própria estrutura da sociedade.

Chega! “Justificar tragédias como ‘vontade divina’ tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas” (Umberto Eco - escritor, filósofo e semiólogo italiano). Isso vale tanto para os presidentes das casas legislativas brasileiras, Câmara dos Deputados e Senado Federal, quanto para o restante da população.

Basta de contemporizar! De transigir! De pactuar! De permitir! De tolerar! Como dizia Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, “São muitos os cidadãos que perdem a opinião por falta de uso”. Mas, por sorte, “A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la" (Eduardo Galeano) e, agora, ela está límpida e transparente bem diante do nosso nariz, só aguardando a ruptura final com qualquer ranço de indecisão.  


domingo, 10 de agosto de 2025

O Bode Expiatório


O Bode Expiatório

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Você já deve ter ouvido a expressão “bode expiatório”. Ela se refere à prática de culpar uma pessoa, ou grupo, por algo negativo que aconteceu, mesmo que não seja a verdadeira responsável. É o que está acontecendo, nesse exato momento, na realidade brasileira, em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O incômodo causado pela existência de uma Corte Suprema que atua de maneira disciplinada e com o devido rigor às leis brasileiras, tem promovido a ira da ultradireita dos EUA e reverberado no governo estadunidense.

Primeiro, porque o Brasil, um país em franco desenvolvimento, é capaz de punir seus traidores e ofensores à Democracia, a partir do exímio trabalho do STF, ao contrário do que aconteceu por lá, um país de desenvolvido. O que abre precedentes para que a oposição estadunidense questione os (des)caminhos que a sua Democracia vem trilhando, nos últimos anos, e passe a exigir mudanças.

Segundo, porque é necessário aos interesses da ultradireita internacional, incluindo sua parcela nos EUA, criar elementos de grave tensão social, especialmente, no Sul Global (África, América Latina, Ásia e Oceania), para consolidar sua reapropriação imperialista.

Como já dito e repetido, diversas vezes, pelo atual governo dos EUA, eles não se furtarão em interferir nos pleitos eleitorais da América Latina, em 2025 e 2026. O que faz da rusga com o Brasil, um bode expiatório, para intimidar e inibir o exercício da soberania, por cada país da região.

Por fim, a síntese desse cabo de guerra, imposto pelos EUA ao Brasil, é frear o ideário multilateralista defendido pelos BRICS. Eles estão profundamente desconfortáveis diante da expansão da influência de países como o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul, como foro de articulação político-diplomática de países com o Sul Global e de cooperação nas mais diversas áreas.

Afinal, durante muito tempo, esses foram territórios submetidos ao imperialismo estadunidense. De modo que esses aspectos permitem um melhor entendimento do que realmente está acontecendo na seara diplomática entre EUA e Brasil. Do mesmo modo que os estadunidenses promoveram uma série de golpes de estado na América Latina, na década de 1960, incluindo o Brasil, para firmarem a sua hegemonia imperialista nos tempos da Guerra Fria, agora, em pleno século XXI, eles tentam recurso semelhante.

Acontece que já se passaram 6 décadas e o mundo, nem de longe, é o mesmo! Haja vista que a Guerra Fria acabou, há tempos. Hoje, quem faz contraponto aos EUA é a China, desempenhando um papel central e, cada vez mais, influente no cenário geopolítico atual, sendo considerada uma potência que desafia a Ordem Mundial.

Ora, ela disputa por influência e poder em diversas áreas, como tecnologia e segurança. Além disso, a China emergiu, ao longo desse recorte temporal, como a segunda maior economia do mundo e a maior exportadora, com grande influência sobre o comércio internacional.

Por essas e por outras, considerando o contexto atual do Sul Global, a China vem desempenhando um papel multifacetado, sendo vista não só como um parceiro econômico e investidor; mas, também, como um ator político que desafia a ordem global estabelecida pelo Ocidente.

Veja, ela tem se posicionado como uma alternativa ao modelo ocidental de desenvolvimento, oferecendo financiamento e projetos de infraestrutura através de iniciativas como a Nova Rota da Seda ou Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), os quais diversos acordos já estão em curso.

Portanto, qualquer que seja o tensionamento belicoso imposto pelos EUA, ao Brasil, ou a qualquer outro país da América Latina, em nome da manutenção do seu imperialismo, parece fadado ao insucesso. Porque a China já figura como um importante parceiro comercial e investidor para muitos países do Sul Global, impulsionando o crescimento econômico e a infraestrutura em diversas regiões. E dadas as conjunturas atuais, quem trocaria o certo pelo duvidoso, tendo em vista todo o conjunto de incertezas, riscos e resultados imprevisíveis, apresentados pelos EUA? Essa é a análise a se fazer.  


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Enquanto isso, no Senado Federal ...


Enquanto isso, no Senado Federal ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

41 senadores da República assinam pedido de impeachment do Ministro Alexandre de Moraes. Como já escrevi em diversas ocasiões, a ultradireita brasileira não está só nas suas empreitadas, ela atua em conjunto com os demais matizes da Direita nacional. Isso explica parte dessa ação, a qual não diz respeito exclusivamente a um único ministro do Supremo Tribunal Federal (STF); mas, a todos que, de uma maneira ou de outra, venham a desagradar os interesses dos participantes desse referido espectro político-partidário.

Surpresa? Não. Todos os países, cujas democracias colapsaram, utilizaram desse expediente. Inibir, cooptar, destituir, cassar, ... têm sido práxis comuns empregadas pela ultradireita global, em relação às Supremas Cortes de seus países. Mais do que legislar em favor de si mesma, a ultradireita não quer ser confrontada, questionada, responsabilizada, diante de suas investidas no poder. Ela não aceita obstáculos de nenhuma natureza. Ela quer uma justiça que haja com total parcialidade aos seus interesses.

O curioso é que a Direita brasileira e seus matizes; sobretudos, os mais radicais e extremistas, utilizam como um de seus argumentos principais, contra o referido ministro, uma possível ausência de imparcialidade. Veja só! Aliás, é bom esclarecer os princípios estabelecidos pela lei n.º 1.079, de 10 de abril de 1950, os quais definem através do artigo 39 1 os crimes que levariam um membro do STF a sofrer um processo de impeachment. E exercendo a ética, como princípio para essa leitura, se vê claramente uma tentativa da Direita brasileira e seus matizes; sobretudos, os mais radicais e extremistas, de enviesar e distorcer a interpretação da lei, para satisfazer seus propósitos.

Contudo, eu chamo atenção para o fato de que, enquanto esses elementos do parlamento nacional criam esse tipo de tensionamento institucional, estão deixando de cumprir o juramento constitucional proferido no ato de sua posse, ou seja, "’Prometo guardar a Constituição Federal e as leis do país, desempenhar fiel e lealmente o mandato de senador que o povo me conferiu e sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil’. Após a leitura desse compromisso pelo senador mais idoso, os demais senadores confirmam o juramento com a frase: ‘Assim o prometo’".  Portanto, eles estão, segundo o Código de Ética e Decoro Parlamentar do Senado Federal, utilizando as prerrogativas do cargo de forma inadequada, para prejudicar terceiros; bem como, utilizando o cargo para obter vantagens para si ou para terceiros, através de condutas, tais criar obstáculos para outras pessoas.

É, esses senadores não estão nem aí para os interesses do país e de seus eleitores! Deveriam estar defendendo, com unhas e dentes, a soberania nacional, ao invés de se apequenarem reafirmando a verborragia mentirosa dos EUA e sua ultradireita raivosa, contra o STF. Sim, estão passando recibo, em três vias, da sua sabujice, do seu servilismo, colonial. Estão envergonhando a pátria que os pariu e os sustenta a valores exorbitantes!   Daí a necessidade de lembrar sempre: “Para demagogos cercados por restrições constitucionais, uma crise representa uma oportunidade para começar a desmantelar o inconveniente e às vezes ameaçador sistema de freios e contrapesos que vem com a política democrática” (Steven Levitsky e Daniel Ziblatt - “Como as democracias morrem, 2018).