segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Sociedade. Vida. Morte. E seus vieses preconceituosos...


Sociedade. Vida. Morte. E seus vieses preconceituosos...

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

O assunto de 2020 é a Pandemia e não poderia ser diferente. Um novo vírus chegou derrubando as portas, desestabilizando a ordem, nivelando por baixo a humanidade, .... Enfim, causando o caos. Estranho é que, apesar de tudo isso, ele não foi o primeiro e nem será o último na história. Talvez, então, esse frisson não tenha a sua raiz nesse ser diminuto; mas, no próprio ser humano e, mais precisamente, nos seus vieses preconceituosos.

De fato, o COVID-19 é democrático no espectro de ação. Em gotículas de saliva ele é disseminado pelos ambientes e conduzido as vias aéreas de quem estiver no lugar errado na hora certa. Todos podem ser a bola da vez. Entretanto, ele não produziu manifestações diretas de preconceito quanto a sua transmissibilidade. A proposta de isolamento social não veio para impor um banimento social definitivo; mas, a fim de se evitar temporariamente a propagação do contágio viral.

No entanto, ela sim, chegou banhada pelo preconceito, na medida em que para as parcelas menos favorecidas da população não foram oferecidas oportunidades de permanecerem nesse isolamento.  Quanto aos privilegiados o que se viu foi um descontentamento diante da ideia e uma enxurrada de investidas transgressoras.

Como é possível perceber, a sociedade não se enxerga seletiva em relação a imposição de determinados comportamentos. Assim, quando falo a respeito da ideia de preconceito, a qual se fez presente para mim nesse momento histórico, busquei ir um pouco além do que descrevi acima, percorrendo outros aspectos.

Considerando que já circulavam entre nós milhões de agentes patogênicos por segundo, havia uma tendência tão convicta de acreditar na potencialidade solutiva da ciência para resolver quaisquer problemas, que as pessoas não dispensavam uma atenção tão contundente como agora. Era como se as doenças atingissem a sociedade de maneira pontual, levando a cada indivíduo a se responsabilizar por seus próprios cuidados e soluções, ou seja, como se não houvesse uma interação coletiva.  

Há quase 40 anos, por exemplo, foi descoberto o vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) que desenvolve a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Desde então, o mundo científico vem empenhando todos os seus máximos esforços a estudar o vírus no propósito de preveni-lo, tratá-lo ou, até mesmo, curá-lo; visto que, essa doença já fez, aproximadamente, mais de 35 milhões de vítimas ao redor do mundo.

No entanto, observando a comoção causada pelo COVID-19, junto a população atual, é fácil perceber que com o HIV o processo foi um pouco diferente. Não só por conta das conjunturas sociais da época, década de 80; mas, porque a AIDS foi inicialmente estigmatizada como uma doença pertencente aos gays e usuários de drogas injetáveis; portanto, segmentos já popularmente segregados.

Isso fez com que, de um modo geral, as pessoas não enquadradas nesse perfil se sentissem imunes ao vírus e sem uma necessidade efetiva de engajamento social em favor das políticas de saúde para a doença que surgia. O que levou muitas delas a contraírem a doença inadvertidamente em relações sexuais sem uso de preservativo e/ou em condições de promiscuidade, em transfusões de sangue e hemoderivados sem controle de qualidade sanitária, ou em compartilhamento de instrumentos perfuro cortantes em serviços de saúde e de estética, tais como bisturis, alicates, tesouras etc.

Mas, até que a ciência conseguisse provar efetivamente os caminhos reais da transmissão – fluídos corporais –, o que para surpresa de muitos eram comuns a outros patógenos como o vírus da Hepatite C e a Sífilis, o preconceito se fixou severamente no inconsciente coletivo das pessoas; de modo que, a AIDS ainda representa um símbolo de intolerância e segregação, o que faz com que suas vítimas padeçam não só pela doença imunológica e seus desdobramentos, mas pela morte social decretada subliminar ou diretamente pela sociedade.

Mesmo assim, nesse momento crucial de discussão em torno do tênue limite entre a vida e a morte, ninguém se pergunta sobre os avanços das pesquisas em torno da AIDS; a qual conta com tratamentos mitigadores disponíveis, mas nenhuma vacina para prevenção. O silêncio que ecoa sobre o HIV, também, se propaga por outras doenças, por meio do preconceito social. Isso significa que as parcelas tidas como “bem-nascidas”, providas de regalias e direitos “extras” têm a falsa impressão de estarem imunes a diversas patologias que infestam o mundo à revelia de sua “bolha”. Como se as suas atitudes preconceituosas, discriminadoras e intolerantes fossem suficientemente capazes de blindar o contato com tais indesejáveis enfermidades. Só que não.

Tuberculose, Dengue, Febre Amarela, Zika, Chikungunya, Malária, Hanseníase, Raiva, e tantas outras doenças, estão por aí fazendo vítimas sem que a sociedade dispense a devida atenção. Não se trata de uma questão geográfica entre o rural e o urbano, ou a periferia e a zona sul; porque as patologias não exigem essa especificidade, inclusive, pelo fato do mau uso e ocupação do solo que a própria sociedade estabeleceu. Na geografia do mundo real as pessoas se deslocam, transitam pelos espaços.

E se não carregam consigo a possibilidade de transmissão da doença, por excreção de fluidos corpóreos – tosse, escarro, sangue, fezes, urina –, podem carregar o agente infeccioso – vírus, bactérias, protozoário, fungo – para diferentes lugares até que possam se encontrar com o vetor específico presente no ambiente e, assim, disseminar o problema.

Basta pensar um pouquinho, então, para perceber que são milhares de pessoas com as quais mantemos contato direta ou indiretamente nas ruas, no transporte público, nos shoppings, nas feiras, nas festas, enfim... O que dentro de uma lógica absolutamente natural não nos permite inferir exatamente sobre a rotina de hábitos e comportamentos de cada uma delas, para saber se seriam ou não potencialmente transmissoras disso ou daquilo.

Sem contar a incerteza que ronda os caminhos de prevenção, tratamento e/ou cura dessas inúmeras doenças; pois, nem todas contam com tal arcabouço e, nem tampouco, uma resposta individual de cada um, plenamente satisfatória. Sim; protocolos, remédios e vacinas vez por outra não funcionam em algumas pessoas. Entre a vida humana e a ciência há mistérios indecifráveis que interrompem o fluxo de sucesso esperado. Então, o preconceito que aflora do sentimento de superioridade capital também se esvai como fumaça quando a realidade caminha por estradas mais humanas e menos idealizadas.

Assim, enquanto apostam suas fichas em alguma vacina que pretende prevenir a raça humana do COVID-19, a humanidade em sua grande maioria segue alheia ao contínuo do mundo, com todos os seus perigos e desafios. Não enxergam que podem, como cantou Caetano, “morrer de susto, de bala ou vício” 1 a qualquer instante; mas, também, de doenças conhecidas ou não. O que significa que ainda se rendem aos apelos narcísicos dos seus preconceitos “démodé”, que não servem senão ao agravo das conjunturas pretéritas e atuais. Porque no fim das contas, “todo conceito que o homem não modifica com sua evolução, torna-se um preconceito” 2 (Carlos Bernardo Gonzales Pecotche).

 



1 https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/76612/

2 Foi um escritor, educador, pedagogista, conferencista e pensador humanista, conhecido como fundador da Logosofia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

sábado, 31 de outubro de 2020

SOCIEDADE X TECNOLOGIA


Atenção aos ventos da mediocridade!

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Há tempos me preocupo com os desdobramentos oriundos da Revolução Industrial, os quais para muitos passaram a margem de uma reflexão consciente e problematizadora. A impressão que tenho a respeito desse processo é de que a sociedade “assinou um contrato sem ler as minúsculas linhas de rodapé”, ancorando-se apenas no discurso propagandista repleto de facilidades, vantagens e benefícios; mas, que nunca chegaram a se firmar verdadeiramente entre nós.

E agora que já estamos na 4ª onda dessa Revolução os efeitos ruins parecem mais acentuados e visíveis; embora, não despertem o surgimento de soluções satisfatórias a respeito. A sociedade foi enovelada pelas teias da ciência e da tecnologia, dos modismos e consumismos, de narrativas aparentemente convincentes acerca do novo e padece lentamente a carência de uma reação criticizante e transformadora.

O que de certo modo se confirma no artigo “‘Geração Digital’: por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais”, publicado ontem pelo site da BBC News/Brasil 1. Contrariando as expectativas em torno das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), como instrumentos de aprimoramento cognitivo e intelectual da humanidade, os resultados começam a desapontar. Os nativos digitais não tendem a ser tudo o que se poderia imaginar deles dentro desse novo contexto social.  

Basta uma observação, mesmo que breve, da infância e juventude contemporâneas para verificar o nível de superficialidade em que o conhecimento tem se alicerçado. O que se explica por vários caminhos, a começar pelo fato de que munidos de uma convicção sobre todas as informações e toda a sabedoria existentes no mundo estarem ao alcance de suas mãos, armazenadas em telas de alta resolução de notebooks, tablets, iphones e/ou ipads, é natural que emerja uma desconstrução da sua autonomia e autoralidade no campo do conhecimento. Por que aprender se está tudo ali, não é?!

Além disso, tendo em vista de que estão diante de milhões de informações geradas por segundo, a impossibilidade de dar-lhes a devida atenção por meio de uma leitura consciente e reflexiva, os leva a se transformarem em leitores de manchetes e títulos, o que limita e torna mediocrizada a sua capacidade analítica e argumentativa a respeito dos acontecimentos, assuntos e fatos. Eles sabem que não serão capazes de acompanhar em tempo real tudo o que está disponível; de modo que, não encontram sentido em um processo de leitura mais aprofundado.  

Aliás, não se pode negar a existência de um abismo que desafia a construção de conhecimento pela geração digital.  Se já existe um déficit mensurado cientificamente em torno das práticas de letramento tradicional, agora ele se soma ao déficit das práticas de letramento digital. Isso significa que estarem imersos em um mundo onde reinam as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) não é o suficiente para o desenvolvimento pleno das habilidades e competências crítico-reflexivas desses indivíduos; as quais deveriam resultar no seu próprio conhecimento a respeito do mundo.

É preciso que existam ferramentas de leitura, interpretação, comunicação capazes de instrumentalizar criativamente toda a construção de sentidos e de processos socialmente interativos. Caso contrário, a dificuldade de agregação das ideias e informações se torna dificultada tanto pela superficialidade quantitativa quanto pela carência de letramento.

O raciocínio “globalizante” pode conduzir erroneamente à crença de que noções básicas sobre as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) - tais como, navegar em redes sociais, consultar sites de busca, copiar e colar - bastam para a integração social, ou seja, emprego, aumento da renda, sucesso profissional, pertencimento social.  Mais do que reforçar esses valores sociais contemporâneos, reconhecidos no contexto da globalização, o objetivo fundamental deveria ser criar possibilidades de uma identidade cidadã que dialoga dentro e fora de seus próprios espaços, ou seja, que é capaz de produzir e circular informação e conhecimento de forma diferente e muito melhor do que a forma tradicional.

Sendo assim, para que se promova uma ruptura necessária com essa “mediocrização” humana que está em curso é importante compreender que “pessoas que sabem as soluções já dadas são mendigos permanentes. Pessoas que aprendem a inventar soluções novas são aquelas que abrem portas até então fechadas e descobrem novas trilhas. A questão não é saber uma solução já dada, mas ser capaz de aprender maneiras novas de sobreviver”; afinal de contas, “quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente” (Rubem Alves).


Hoje é o Dia do Saci!!!









Happy Halloween!!!





terça-feira, 20 de outubro de 2020

HC-UFU participa da Campanha do AVC

HC-UFU participa da Campanha do AVC

 

Programação começa hoje com o encontro de pessoas que tiveram AVC

 

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é a segunda causa de morte e a primeira de incapacidade no Brasil. De acordo com os especialistas, a  prevenção pode evitar 90% dos casos, por isso a importância  da divulgação de informações sobre a doença, seus fatores de risco, tratamento e necessidade de reabilitação multiprofissional precoce.

Com o objetivo de divulgar estas informações a Rede Brasil AVC realiza, no mês de outubro, a Campanha do AVC. O tema deste ano é "Movimente-se! Uma em cada quatro pessoas terá um AVC ao longo da vida. Não deixe que seja você”!  Em Uberlândia, a campanha está em sua 5º edição e é promovida pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) em conjunto com  estudantes, residentes e profissionais de diversas áreas da UFU.

A programação, devido à pandemia da Covid-19, será toda on-line e terá  hoje, 20, a partir das 20h, o “I Encontro de pessoas que tiveram AVC e seus cuidadores. O encontro será uma roda de conversa, mediada pela neuropsicóloga Lígia Vilela, sobre o tema "O que o AVC mudou na minha vida?".

Nos dias 23 e 24, será realizado o “V Simpósio do Dia Mundial do AVC” com especialistas renomados que irão discutir assuntos como: “Trombólise no AVCi”; “Alterações neuropsicológicas pós-AVC”, “Toxina botulínica na reabilitação pós-AVC”, entre outros. As inscrições são gratuitas.

Também como parte da programação haverá a “III Corrida contra o AVC”.  Este ano, o participante poderá escolher o dia, a hora e o local para correr, caminhar ou pedalar. Basta percorrer a quilometragem selecionada na inscrição até o dia 22 de outubro e enviar foto de relógio GPS, app de corrida ou painel da esteira para receber o kit com viseira, camiseta e medalha..

As inscrições e a programação completa estão disponíveis no site https://campanhaavcuberlan.wixsite.com/website

Fonte: Assessoria de Comunicação / HC-UFU

           20/10/2020



segunda-feira, 12 de outubro de 2020

15 de Outubro - Dia do (a) Professor (a)


Ser ou não ser... PROFESSOR?

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Muitos vão dizer que não há razões para comemorar; mas, acredito que há, pelo menos, milhões de razões para pensar. Como quaisquer outras profissões a docência exige, cobra, sacrifica. Não é tarefa fácil, como alguns querem afirmar; aliás, está longe disso. A missão de um professor compreende uma complexidade tão profunda que é bobagem pensar que alguém começa e termina seu ofício da mesma maneira.

Não, não é só ensinar. Não é só transmitir. Não é só compartilhar. Não é só orientar. Não é só explicar. Não é só debater. ... Ser professor é tudo isso e muito mais diante de uma plateia altamente plural, repleta de expectativas, de frustrações, de sonhos, os quais irão temperar essa convivência ao longo do tempo.

Por isso a aula preparada nem sempre resultará na aula dada. Tudo vai depender da humanidade que transcende e existe nessa relação de comunhão e fraternidade baseada em uma sala de aula. Como se um espaço físico pudesse conservar a maravilha e o esplendor da dinâmica das linguagens verbais e não verbais, que buscam se fazer perpetuar no cognitivo e na alma de cada um dos presentes.

Entendo que o tempo vem desbotando esse registro, impingindo um lento e doloroso processo de deterioração, precarização e invisibilização docente. Construindo no inconsciente coletivo da sociedade, um discurso desqualificador a respeito, o qual se reafirma nas posições pessoais que os próprios docentes se permitem, tantas vezes, manifestar. Porque, de algum modo, os insultos e as ofensas só alcançam a sua materialidade quando os sujeitos permitem.

Dizem por aí que os bons são maioria; mas, os maus fazem mais barulho. É nessa linha de raciocínio que os docentes precisam parar para uma reflexão mais profunda e contundente sobre si mesmos. A rudeza das dificuldades do ofício acrescida aos desafios burocráticos e institucionais do país teima em retirar-lhes o foco e colocá-los armados para a luta de seus direitos diariamente.

Mas isso não é um privilegio só da docência. Qualquer profissão vista de perto revela suas agruras. O problema é que há muita idealização, muita glamourização em torno dessa ou daquela área; porém, pouco se fala a respeito dos obstáculos, dos desgastes físicos, mentais e emocionais a serem enfrentados para se aproximar daquele padrão de vida ou daquele salário. Seria preciso estar no olho de cada um desses furacões que circulam ao redor para dimensionar a disposição de enfrentamento.

O ponto chave, então, está em dialogar consigo mesmo, antes de dialogar com a sociedade; no sentido de reconhecer em que grau de relevância a docência ocupa na vida do professor. Afinal de contas, ninguém bate a porta de uma pessoa e a obriga a se engajar na docência. É ela quem decide quem escolhe seguir esse caminho por alguma razão, a qual será determinante para que ela permaneça ou não na jornada. Daí a importância dessa reflexão íntima e pessoal.

A verdade é que nenhuma profissão, no fundo, é para amadores. Cada vez mais o mundo é voraz na sua fome competitiva, desleal e difícil, obrigando as pessoas a provarem a sua resiliência e a sua convicção a todo instante.  É fundamental estar disposto a ir além de si mesmo, inovar, ousar, surpreender com a plena consciência da disposição em se lançar na empreitada.

E a sala de aula é um universo em franca expansão. O que significa que a carreira docente há tempos rompeu a rotina formalizada e formalizadora para alçar voos inimaginados. De modo que a compreensão em relação ao significado da satisfação profissional não fica restrita ao reconhecimento institucional, governamental ou social. O docente precisa entender que essa satisfação precisa nascer e crescer nele, no desabrochar de cada ato do seu ofício. Há tantas maneiras de ensinar. Tantas maneiras de planejar e conduzir uma aula. Tantas maneiras de construir o conhecimento. ...

Coisas simples se transformam no fantástico. Música vira teatro. Planeta Terra ensinado através de modelagem em massinha colorida. Novos poetas emergem da aula de inglês. Gêneros textuais ensinam lições de gramática da língua materna. Sessão pipoca contextualiza a história a partir do cinema. Hortas que fazem a Biologia mais perto da vida escolar. Enfim... Mudam-se as formas, os conteúdos, as avaliações, há uma desconstrução para que o conhecimento possa ser ressignificado e alcançado pela individualidade de cada um.  

Esperar do mundo uma resposta, uma boa nova, um alento pode ser cansativo e doloroso. Pode chegar fora de hora. Pode ser insuficiente. Pode não vir. Mas, quando o professor decide regar a semente da docência, que dorme silenciosa dentro dele, com as águas da genuína motivação e felicidade que correm em suas veias; aí ninguém segura à grandeza do imprevisível na expressão máxima do seu talento.

É nesse instante que, mesmo sem se dar conta, o professor escreve a linha da sua imortalidade na vida do outro. Deixa a sua marca. Estabelece o seu legado. Conquista o registro na história. Pode ser que ele não venha jamais a ter os melhores salários, os melhores planos de carreira, as melhores infraestruturas, os melhores..., as melhores... No entanto, “Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar” (Rubem Alves). Então, neste e em todos os dias da sua existência, parabéns professor (a)!!! 

sábado, 10 de outubro de 2020

Dia Mundial de Cuidados Paliativos destaca a importância do cuidado para a qualidade de vida de pacientes e familiares

Dia Mundial de Cuidados Paliativos destaca a importância do cuidado para a qualidade de vida de pacientes e familiares

HC-UFU possui uma comissão de cuidados paliativos e uma equipe de cuidados paliativos oncológico

 

Com o tema “Meu Cuidado. Meu Conforto” será comemorado no próximo sábado (10), o Dia Mundial de Cuidados Paliativos. A data é celebrada todos os anos no segundo sábado do mês de outubro e foi criada pela The Worldwide Hospice Palliative Care Alliance (WHPCA), organização internacional não governamental, que se concentra no desenvolvimento dos Cuidados Paliativos e Hospices. No Brasil a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) apoia e incentiva a campanha que tem como um dos objetivos alertar para a necessidade de priorizar políticas e serviços de cuidados paliativos. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define cuidados paliativos como a assistência promovida por uma equipe multidisciplinar com a finalidade de melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida.

O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) tem uma Comissão de Cuidados Paliativos, implantada em 2019, além de uma equipe de Cuidados Paliativos Oncológicos. O coordenador da comissão, o médico geriatra e paliativista, Marcelo de Freitas Mendonça, explica que a equipe de Cuidados Paliativos do Setor de Oncologia atende pacientes internados no setor, em tratamento ambulatorial e em domicilio. A Comissão de Cuidados Paliativos presta assistência a pacientes internados nas demais unidades do hospital com qualquer tipo de doença que ameace a continuidade da vida, e que a equipe médica tenha solicitado um parecer clínico da comissão.

Composta por médicos geriatra e pediatra, enfermeira, psicóloga e assistente social, a comissão já atendeu, em pouco mais de um ano, cerca de 300 pacientes. “Estamos otimistas com o nosso trabalho que está só começando. Nosso projeto é ampliar o atendimento de Cuidados Paliativos para o ambulatório e para a casa do paciente”, ressalta Mendonça. Também faz parte dos planos estender a atuação para o ensino com a criação de um curso de residência médica em Cuidados Paliativos. “Com a contratação de novos médicos paliativistas pelo concurso Ebserh vamos criar, em 2022, a residência médica e já temos residentes interessados", aponta.

 

Cuidados Paliativos Oncológicos

O programa existe desde 2002 com uma equipe interdisciplinar coordenada pela médica Paula Andrea Victal Junqueira de Freitas e já atendeu mais de três mil pacientes. Atualmente, 436 pacientes estão em acompanhamento pelo programa. Além da assistência, a equipe realiza a capacitação de profissionais de rede de Atenção Primária e Secundária de Uberlândia e de outras cidades da região.

 

Programação

Para comemorar o Dia Mundial de Cuidados Paliativos, incentivar a reflexão e a atualização das equipes o HC-UFU preparou um Quiz com direito a premiação. As perguntas são sobre a prática dos Cuidados Paliativos, conforme os princípios e a definição mais recente da OMS. Os prêmios foram doação ao projeto. Hoje, a partir das 19h, haverá uma live com Diego e Victor Hugo. A transmissão será pelo https://youtu.be/8BYdJp4N21g 

 

Fonte: Assessoria de Comunicação do HC-UFU





sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A Paz e a Fome


A Paz e a Fome

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Em um mundo tão refratário a empatia, a notícia de que o Prêmio Nobel da Paz de 2020 foi atribuído ao Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU). Isso significa que a fome volta a ter destaque e importância fundamental nas discussões internacionais; sobretudo, no campo da cooperação multilateral. E se em 2019, já havia 135 milhões de pessoas em condição de profunda insegurança alimentar no planeta, agora diante da Pandemia do COVID-19 as expectativas são de que esses números tendam a se agravar; por isso é preciso pensar e falar a respeito.

Ao contrário do que muita gente pensa por aí, a fome e a miséria não são escolhas. Seres humanos em todo o mundo são vitimas das conjunturas sócio-político e econômicas que lhes impingem a indignidade como caminho de sobrevivência. E não bastasse a barriga roncando desconfortável o seu vazio, a cabeça doendo e provocando um tipo esquisito de confusão mental, esse corpo que se desenvolve frágil, esquálido, se torna alvo da baixa imunidade e não consegue lutar contra as investidas de inúmeras doenças.

Portanto, a insegurança alimentar exerce uma paralisia social de dimensões catastróficas. Na medida em que o ser humano encontra-se no pior estágio da sua vulnerabilidade existencial. A fome e a miséria não matam só o corpo, lenta e gradativamente; antes disso, elas consomem a identidade, a subjetividade, a cidadania e lançam esse ser destruído as margens da invisibilização, da insignificância, da mendicância, do assistencialismo oportunista.

A comida no prato é o primeiro degrau de ascensão do ser cidadão. Se ele é negado, todos os demais direitos sociais previstos constitucionalmente também o são, ou seja, educação, saúde, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência. Então, na medida em que a sociedade ignora a existência de seres humanos vivendo sob essa condição, ela compactua com a construção de todos os abismos de desigualdade que impedem a sociedade ser compreendida holisticamente em toda a sua diversidade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os dados da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD) Contínua de 2019, apontam que “o grupo de pessoas em pobreza extrema no Brasil, que inclui os que vivem com menos de 1,9 dólar por dia, ganhou cerca de 170 mil novos integrantes em 2019 e encerrou o ano passado com 13,8 milhões de pessoas, o equivalente a 6,7% da população do país”; portanto, este “é o quinto ano seguido no qual o número de brasileiros na miséria cresce” 1. Não se esquecendo de que esse era o panorama Pré-Pandemia.

A questão é que todas essas informações possibilitam emergir, com mais clareza, as verdades ocultas e indigestas que circundam a sociedade. As respostas práticas e objetivas que a insegurança alimentar aguarda das autoridades competentes vai muito além do simplismo da oferta e disponibilização de alimentos à população carente. Afinal de contas, a fome e a miséria não podem ser transformadas em uma indústria de benesses e contrapartidas político-eleitoreiras; como se viam nos séculos passados com o chamado “voto de cabresto”.

A fome e a miséria precisam ser combatidas sim, efetivamente; mas, a partir de ações que visem desconstruir as fronteiras perenes de desigualdade e oportunizar a essas pessoas desassistidas a sua integração e participação cidadã na sociedade. Elas não podem passar o resto de suas breves vidas recebendo doações de alimentos, cestas básicas, enquanto vivem a ultrajante realidade da indigência humana. Sobrevivendo a ambientes totalmente insalubres e não urbanizados. Impossibilitadas do seu acesso à saúde, educação e trabalho pela total carência de documentos que atestem a sua existência social para o país.

Não se alcança a paz sem a dignidade, sem o senso humanitário. O que o Prêmio Nobel da Paz de 2020 faz, então, é retirar dos olhos de bilhões de indivíduos as vendas, as quais têm cegado e possibilitado a promoção do individualismo, da ganância, da cobiça, da avareza, do desperdício, para que o mundo possa resgatar em todos os sentidos a compreensão “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”; por isso, “São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade” 2.

Por isso, para a Organização das Nações Unidas (ONU), em seus 17 Objetivos de Desenvolvimento sustentável estão contemplados em sequência de prioridade, a erradicação da pobreza em todas as formas e em todos os lugares (Objetivo 1) e a erradicação da fome, alcançando a segurança alimentar, a melhora nutricional e a promoção da agricultura sustentável (Objetivo 2) 3.  A entidade entende que sem o desenvolvimento e atenção humana básica não há nenhum outro desenvolvimento capaz de prosperar.  

Assim, aproveitemos a celebração desse prêmio para pensar: “Aqui, na Terra, a fome continua, / A miséria, o luto, e outra vez a fome. / Acendemos cigarros em fogos de napalme / E dizemos amor sem saber o que seja. / Mas fizemos de ti a prova da riqueza, / E também da pobreza, e da fome outra vez. / E pusemos em ti sei lá bem que desejo / De mais alto que nós, e melhor e mais puro. / No jornal, de olhos tensos, soletramos / As vertigens do espaço e maravilhas: / Oceanos salgados que circundam / Ilhas mortas de sede, onde não chove. / Mas o mundo, astronauta, é boa mesa / Onde come, brincando, só a fome, / Só a fome, astronauta, só a fome, / E são brinquedos as bombas de napalme.” (José Saramago – Fala do velho do restelo ao astronauta) 4.