sexta-feira, 30 de junho de 2023

O veredicto


O veredicto

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Embora não haja ineditismo na inelegibilidade de um Ex-Presidente da República brasileiro, a decisão tomada, hoje, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) diz muito ao eleitorado direitista, em todos os seus matizes. Não, pela decisão se direcionar a um de seus representantes; mas, pelo fato de desconstruir certos paradigmas que vieram tentando reafirmar, com mais afinco, nos últimos cinco anos.

Talvez, o mais emblemático deles, seja a ideia de que o poder pertence a todos aqueles que simpatizam e apoiam à Direita. Afinal, essa é uma convicção tecida no inconsciente coletivo nacional, desde os primórdios da colonização, quando todos os poderes, no campo social, estavam concentrados nas mãos das elites. Desse modo, elas não só decidiam, mas o faziam segundo seus interesses e conveniências, ou seja, estavam sempre aptas a legislar em causa própria, enviesando radicalmente a simetria dos direitos e deveres.

Algo que não é difícil de perceber, quando se lança um olhar isento sobre os últimos anos no Brasil. A Direita em todos os seus matizes, mais ou menos radicais e extremistas, não assumiu simplesmente o poder, no que diz respeito a gestão pública. De saída ela impôs a sua beligerância à República, à Democracia e ao Estado Democrático de Direito.

Em relação à República, a prioridade foi promover a ruptura com a participação popular, com a possibilidade de os diversos segmentos sociais poderem contribuir para o bem comum do país. Deixando a expressão República Federativa do Brasil praticamente restrita à condição textual presente na Constituição de 1988.

Quanto à Democracia, em face da alienação imputada por meio de distorções factuais e inverdades, promovidas por autoridades e simpatizantes ao governo, com o auxílio intenso das mídias sociais, o povo foi afetado no campo da construção de suas crenças, valores e princípios cidadãos. Afinal, uma Democracia diante de tantos sinais de comprometimento e deterioração ética e moral, impede a população de exercer a sua cidadania em plenitude.  

E o que dizer, então, sobre os ataques contínuos ao Estado Democrático de Direito? De repente, o país foi tomado por uma fúria contra a ideia de que, segundo determina a Constituição Federal vigente, o poder do Estado é limitado pelos direitos dos cidadãos, a fim de se evitar abusos do aparato estatal para com a população.

O modelo de governança decidiu, então, insurgir contra as leis, desrespeitar o ordenamento jurídico e agir segundo suas próprias convicções. Em cada espaço organizacional do governo, o que se viu foi um rompimento explícito com os ritos, os códigos e as regulamentações, em nome de uma nova ordem sumariamente estabelecida.

Assim, a decisão pela inelegibilidade aponta para um resgate da normalidade institucional e constitucional brasileira. A Constituição Cidadã, como é chamada a Constituição de 1988, resistiu aos ataques abjetos da Direita e todos os seus matizes, mais ou menos radicais e extremistas. Provando não só a existência de limites para a manutenção da ordem e do equilíbrio social; mas, também, que quaisquer tentativas de resgatar ideias retrógradas associadas a uma pseudossuperioridade ou pseudoimportância, reafirmadas por certos grupos, especialmente, quando se encontram em posições de poder e de influência, serão confrontadas e submetidas aos rigores da lei.  

Mas, não para por aí, a relevância desse momento. O veredicto de hoje fortalece o Brasil, também, no cenário internacional na medida em que une seus esforços aos de todos aqueles que vêm se empenhando arduamente na defesa Democrática e contra a expansão das forças autoritárias e radicais ao redor do planeta.

Sem contar que uma das grandes lições que ficam desse processo no TSE é a atenção que se deve dar às palavras, em razão do franco movimento contemporâneo de manipulação, desconstrução e negação dos fatos, para disseminar inadvertidamente milhões de inverdades e confundir o pensamento da sociedade.

Não é à toa, portanto, que as Fake News podem ser consideradas as grandes promotoras de abalo à Democracia, porque através delas se criou uma flexibilização e/ou relativização demasiada sobre o conjunto de conceitos que orbitam o universo democrático.

O que significa que uma população contaminada e inebriada por notícias falsas diminui o seu senso crítico e analítico em relação ao fato de que “a própria defesa da democracia é muitas vezes usada como pretexto para sua subversão. Aspirantes a autocratas costumam usar crises econômicas, desastres naturais e sobretudo, ameaças à segurança – guerras, insurreições armadas ou ataques terroristas – para justificar medidas antidemocráticas” (Steven Levitsky).

Daí a necessidade de colocar a cabeça para pensar e refletir sobre o ontem, o hoje e o amanhã, no contexto brasileiro. A inelegibilidade pune pessoas; mas, não pune ideias. Portanto, o desafio de evitar os retrocessos, os absurdos, as arbitrariedades, não acabou. Há milhares de pessoas a pensar e defender os mesmos pontos de vista e comportamentos que culminaram na inelegibilidade, nos atos antidemocráticos, na minuta golpista, no negacionismo às vacinas, no terraplanismo, ...

E entender esse arraigamento ideológico implica em reconhecer que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico” (Umberto Eco - O cemitério de Praga, 2010)

quinta-feira, 29 de junho de 2023

E o Brasil sendo o Brasil...


E o Brasil sendo o Brasil...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Se o mundo contemporâneo vive sob constante efervescência, o Brasil não poderia ficar para trás. O que explica porque antes mesmo do resultado final do julgamento sobre a inelegibilidade do ex-presidente, ouve-se rumores no Legislativo Federal sobre iniciativas quanto a um Projeto de Lei (PL) que garanta anistia diante de uma condenação 1.

Bem, mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar, ainda que a notícia seja totalmente estapafúrdia, vexatória, descabida. Na verdade, ela é só o ponto de partida para exemplificar, de maneira franca e direta, o modus operandi das elites brasileiras, quando o assunto é isentá-las de suas responsabilidades, de seus delitos, de seus desvios éticos e morais. E lá está o ranço colonial, mais uma vez!

Há um provérbio que diz “quem foi rei nunca perde a majestade” e ele se adequa perfeitamente a esse contexto. Na medida em que as elites brasileiras, em sua vasta maioria, podem ser consideradas como a expressão plena do ideário direitista nacional e sempre estiveram na dianteira do poder, não surpreende que se julguem, então, no direito de permanecer enviesando as regras sociais em benefício próprio.

A construção secular do inconsciente coletivo desse contingente se fundamentou por uma flagrante assimetria de desigualdade, ou seja, a vida em sociedade era definida por uma importância regida pelo poder e o capital.  Portanto, quem pode manda, faz e acontece; inclusive, mudando as regras do jogo e estabelecendo leis que sejam favoráveis e benevolentes aos seus interesses e objetivos.

Nesse sentido, então, o que propõe um certo grupo de legisladores com tamanha infâmia é publicizar aos quatro cantos do país, e do mundo, que as elites brasileiras estão acima do Bem e do Mal, não se curvando diante dos preceitos constitucionais ou de quaisquer outros instrumentos legais vigentes. Trata-se de insubordinação em estado bruto, como se a imunidade parlamentar pudesse autorizar a impunidade.

E assim, antes mesmo que a ideia chegue ao plenário legislativo, ela já implode com todas as narrativas e discursos que a Direita nacional e seus matizes, mais ou menos radicais e extremistas, vieram propagando com mais afinco nos últimos quatro anos. Sim, porque quando se defende “passar pano” para comportamentos antirrepublicanos, antidemocráticos, está se afirmando que a garantia do poder legitima quaisquer afrontas e excessos.

Traduzindo em miúdos, isso significa que tal proposta pretende aceitar que se fechem os olhos, da maneira mais torpe, para uma avalanche de crimes contra a administração pública como, por exemplo, peculato, concussão, prevaricação, falsificação de papéis públicos, emprego irregular de verbas e rendas, exercício arbitrário ou abuso de poder, modificação ou alteração não autorizada de sistema de informações.

E é nessa, que os reis ficam nus! As pautas do marketing de campanha viram fumaça no afã desesperado de demarcar as fronteiras da desigualdade jurídica nacional, na qual há os que estão acima da lei e os que estão sob o peso dela. Mas, não para por aí. É o Brasil de 500 anos atrás sendo o mesmo, do ponto de vista de suas crenças, valores, princípios e convicções. Um país preso na sua identidade colonial e em tudo o que ela representa.

Ora, anistias não são soluções para coisa alguma! Os problemas, os conflitos, as tensões não se extinguem colocando uma pedra sobre o assunto. Quem fez permanece ciente dos seus atos. Quem sofreu continua reverberando a sua indignação, o seu descontentamento, a sua raiva. Talvez, seja essa a grande reflexão para o país, na medida da sua tendência histórica de promover anistias do ponto de vista objetivo ou subjetivo, as quais só fizeram aprofundar a dificuldade de aparar as arestas, de superar os desalinhos, de construir os consensos. Como se o país vivesse constantemente dividido, ainda que não tenha a devida compreensão a respeito.

É preciso romper com a ideia de fazer da anistia um perdão quase que sacrossanto. No Brasil, já ficou claro que as anistias funcionam como verdadeiros cheques em branco para que os piores males nacionais permaneçam na sua sina de subdesenvolver o país. Autoridades e notáveis não podem continuar no papel lastimável de multiplicadores de maus exemplos, éticos e morais, amparados por esse manto invisível a que chamam impunidade ou jeitinho. Principalmente, porque em tempos tão tecnológicos a vergonha ganha a dimensão do mundo em fração de milésimos de segundos e arranha de maneira contundente a imagem do país.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Quando a dialogia falha ...


Quando a dialogia falha ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Além de considerar a dialogia um exercício fundamental para realçar a capacidade cognitiva humana, tenho defendido sempre a necessidade de resgatá-la em tempos contemporâneos, tão avessos à exposição clara e objetiva das ideias. É importante destacar que, para dialogar não basta apenas um indivíduo, o que explica porque nem sempre a boa intenção sai do rol da intenção.

E o que me faz escrever sobre isso, mais uma vez, é o excesso de contemporização manifesto pelo Ministro da Defesa diante do curso jurídico que apura todos os cenários golpistas experimentados pelo país 1, especialmente, aqueles dentro do recorte temporal que se seguiu após o fim das eleições, em outubro de 2022.

Bem, por mais perplexidade que possa ter causado o envolvimento das Forças Armadas nesse processo, não há como negar que elas estiveram presentes sim. Áreas militares, na frente de Quartéis Generais, por exemplo, foram ocupadas sem resistência alguma das Forças, o que desconstrói a narrativa de que uma participação seria fruto do livre arbítrio individual de certos elementos. Quando há autorização, a anuência, é porque a questão passa a ser de natureza institucional.  

Vamos e convenhamos que elas erraram, na mão, quando permitiram construir uma imagem homogeneizada de si mesma, em que membros da ativa e da reserva se misturavam e davam a impressão de uma coisa só, no ex-governo. Quem olhasse de fora não sabia exatamente quem estava em qual condição. Acontece que essa é uma questão importante, do ponto de vista do próprio regulamento militar, o qual impõe limites mais severos as ações e comportamentos para quem está na ativa.

Então, dessa conjuntura para o que se viu depois, em termos de pura incivilidade e insubordinação constitucional, foi um pulo. Especialmente, porque eles haviam sido enredados e contaminados pela política dentro do ambiente de caserna, o que afetou drasticamente a manutenção das crenças, princípios e valores militares. Era como se eles estivessem militares; mas, não fossem militares, dado o comportamento antagônico que passaram a ostentar e que não pode ser atribuído, única e exclusivamente, à obediência hierárquica ao seu Comandante em Chefe, naquela ocasião.

E por mais que todas essas considerações sejam importantes, não é exatamente esse o ponto crítico na minha reflexão. Por força das próprias bases históricas, os militares brasileiros tendem a ser ideologicamente alinhados à Direita e seus matizes diversos. O que explica uma eterna tensão na convivência deles com governos que venham a ser mais flexíveis ou mais distantes das suas convicções. De modo que os últimos quatro anos foram para muitos deles um momento de glória, pelo grau de afinidade e simpatia tecido pela reciprocidade ideológica.

Mas, como a beligerância e a barbárie demarcaram espaços no cenário social em que eles eram, direta ou indiretamente, partícipes, a princípio o governo eleito considerou a possibilidade de buscar o arrefecimento das tensões através de alguém com capacidade dialógica para tal. Acontece que a escolha se mostrou inapropriada pela parcialidade do escolhido.

Afinal, alguém que simpatiza com dois lados tão antagônicos, na medida em que ele era amigo do ex e do atual presidente, não tem como manter a neutralidade decisória e de ação diante de flagrante efervescência político-partidária no país. E não tem, sobretudo, porque no cerne da sua alma está um ser humano fervorosamente de Direita, cuja família é, inclusive, ligada ao universo agrário pernambucano. Haja vista o desastroso e infeliz comentário que ele fez, recentemente, sobre a desigualdade no país, quando chegou a afirmar que “O sonho do pobre no Nordeste é ser pobre no Sul”2.

O que significa que, por natureza, ele já tem um lado para pender suas opiniões. Daí tanta condescendência, tanta cordialidade, tanta indulgência, na condução das tratativas sobre os atos golpistas que foram deflagrados após o término das eleições, ou seja, bloqueios em estradas, acampamentos em áreas militares, ameaças em redes sociais, depredações de edificações e patrimônio público na capital federal, enfim. Pois é, em todos esses acontecimentos estão as digitais da Direita e de seus matizes, sejam eles mais ou menos radicais.

Acontece que se essas pessoas estivessem dispostas ao diálogo elas não teriam agido como agiram. Por isso, a postura do Ministro se mostra tão equivocada, quando insiste e persiste na exaltação ao diálogo, como forma de pacificação do país. Ele deveria saber que a polarização no Brasil é histórica, não é fato recente. Tem suas raízes lá nos tempos da Casa Grande e Senzala, ou seja, nasce do mesmo pé que nascem todas as desigualdades nacionais.

Portanto, a turba enfurecida, desde outubro de 2022, não pretende se curvar à Democracia, ao Estado de Direito, à Constituição Federal e, principalmente, a um governo cujo viés ideológico é contrário ao seu. E sendo assim, seja quem for que tenha agido na contramão da legalidade precisa ser responsabilizado, levado a tomar consciência da dimensão da sua incivilidade, da sua anticidadania, na medida da proporção de seus atos. Não há pacificação que se consagre lançando as sujeiras sob os tapetes da República. Problemas tem que ser resolvidos, de preferência, ainda na raiz. Afinal, como dizia Dean Rusk, “A pacificação apenas torna o agressor mais agressivo”. 

terça-feira, 27 de junho de 2023

Não é uma responsabilidade minha, dele ou daquele. É nossa!


Não é uma responsabilidade minha, dele ou daquele. É nossa!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Com dados da World Resources Institute, “A cada cinco segundos no ano passado, o planeta perdeu uma área de floresta tropical virgem equivalente a um campo de futebol, e cerca de 43% desta destruição foi registrada apenas no Brasil – resultado da catastrófica política ambiental do ex-presidente” 1.

No entanto, os alertas que se acendem diante dessa informação, dão conta apenas de um viés da história, que são as florestas tropicais. Mas, enquanto brasileiros, temos que entender que o desmatamento e as queimadas ilegais têm se disseminado por outros biomas nacionais, tão importantes quanto a Amazônia, como é o caso da Mata Atlântica, do Cerrado e do Pantanal.

Ora, isso significa que estamos atacando drasticamente o equilíbrio ecossistêmico e criando espaços profícuos para que os processos de desertificação se instalem. Duas matérias me chamaram atenção essa manhã, uma a respeito da relação direta entre as mudanças climáticas e os efeitos delas correlacionados à  insegurança alimentar e às doenças respiratórias 2, e outra a respeito da escassez hídrica nos EUA elevando o preço das commodities agrícolas em razão da dificuldade de produção 3.

A todos aqueles que vêm rosnando para as políticas ambientalmente sustentáveis, para as exigências diplomáticas no campo socioambiental do comércio exterior, meu alerta para que reflitam melhor a respeito. Infelizmente, do ponto de vista da organização social e da distribuição de poder e riqueza, o mundo pouco evoluiu em relação ao seu retrato colonial, por conta de êxitos mercantis pontuais que vieram sendo mantidos com unhas e dentes pelas sucessivas gerações.

É fundamental fazer um flashback da história, para entender que entre os séculos XIV e XVII, o modo de ser, de pensar, de agir, era demasiadamente limitado. A hegemonia de algumas nações constituía nelas uma compreensão extremamente individualista, de modo que o pensamento coletivo era inexistente. E justamente por isso, é que elas não se constrangeram e nem se importaram com as práxis empregadas na exploração dos recursos naturais planeta afora. Aliás, findado os tempos coloniais e emergida a Revolução Industrial, o movimento permaneceu exatamente o mesmo.  

Mas, como tão bem escreveu Sir. Isaac Newton, “a toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto” (3ª Lei ou Princípio da Ação e Reação), de modo que não tardou muito para que as grandes potências do mundo começassem a sentir de perto os efeitos de suas investidas desenvolvimentistas, a partir das consequências ambientais. Desflorestamento. Incêndios florestais. Esgotamento de recursos hídricos. Poluição atmosférica. Acúmulo de resíduos sólidos. Insalubridade. Enchentes e alagamentos. Secas prolongadas. Alterações abruptas nos padrões climáticos. ...

E se não bastasse um entendimento a respeito de tudo isso, sob uma perspectiva individual de cada país, a dinâmica do mundo fez emergir uma compreensão globalista desses efeitos, ou seja, uma percepção humanizada de que a raça humana na sua integralidade estava sob ameaça de problemas que vieram sendo criados historicamente e cuja parcela principal de responsabilidade, recaia justamente sobre as grandes potências em razão do seu próprio ciclo de progresso.

Em contrapartida, as nações que se formaram na esteira dessa história, ao contrário de emergir embasadas por novos paradigmas, novas visões de mundo e de sociedade, lamentavelmente, acabaram dando prosseguimento aos mesmos modus operandi. Continuaram presas ao extrativismo explorador irracional, aos maus usos e ocupações do espaço geográfico, ao descompromisso com a preservação das reservas hídricas, à dizimação de espécies da fauna e da flora, à apropriação indébita dos territórios pertencentes aos povos originários, enfim.  O que também as fez desfrutar da referida Lei de Newton.

Assim, diante de uma total assimetria de concepções, em que uns já perceberam a gravidade das suas ações, outros em parte e muitos de maneira alguma, o cenário diplomático internacional tenta desenvolver um consenso, muito mais no sentido de estancar a letalidade imposta pela ruína socioambiental das más práxis empregadas, do que simplesmente privilegiar (ou proteger) uns em detrimento de outros.

O entendimento de que as ameaças climáticas afetam a todos indistintamente, sob diferentes formas, conteúdos e intensidades, está posta na mesa de negociação há décadas. Cada um tem a exata dimensão da sua responsabilidade no processo de degradação socioambiental no planeta. O ponto chave é que não adianta discutir o montante de erros passados e as responsabilidades de cada um, imersos em outros cenários conjunturais. É preciso saber o que será feito do que restou do planeta, do que ainda permite a existência e a sobrevivência humana.

Aí, nesse sentido, se os países em desenvolvimento (emergentes) e os subdesenvolvidos podem ser cobrados em termos de preservação e compromisso com a sustentabilidade ambiental, no que diz respeito às reservas naturais, aos ecossistemas, em contrapartida, os países desenvolvidos também precisam ser cobrados em relação aos impactos provocados por suas revoluções tecnocientíficas, as quais possuem potencial degradante sobre o Meio Ambiente. Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla de responsabilidades a serem assumidas e efetivamente colocadas em prática.

Afinal de contas, como dizia Mahatma Gandhi, “Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível”. O planeta Terra é um só para todos. Então, ninguém está isento de nada, quando o assunto são obrigações, deveres, compromissos, atribuições. Sem vida não há progresso, nem desenvolvimento, nem tecnologia. Segundo o escritor e filósofo inglês Alan Watts, “O sentido da vida é estar vivo. É tão claro, tão óbvio e tão simples. Mesmo assim, todo mundo não para de correr em pânico, como se fosse necessário conseguir alguma coisa além de si próprio”.

domingo, 25 de junho de 2023

Os desafios da mudança no mundo contemporâneo


Os desafios da mudança no mundo contemporâneo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não há mudança sociocomportamental que não passe pelos níveis de consciência humana, no que diz respeito às suas crenças, valores, princípios e convicções. E na realidade contemporânea, inúmeras vezes, os indivíduos acabam entorpecidos pela força de um inconsciente coletivo deturpado, totalmente descompromissado com o respeito, em todas as suas formas e expressões.

Basta um bocado de atenção, para perceber como esse movimento acirra os níveis de tensão, de intolerância e de violência entre as pessoas. Tudo em razão de padrões que passam a vigorar, os quais são legitimados, na maioria das vezes, por indivíduos não só pertencentes às elites; mas, também, que exercem influência ideológico-comportamental através das mídias. E em um país com tantas discrepâncias sociais e econômicas, como é o Brasil, não é difícil compreender como esses pseudoprotocolos se tornam extremamente prejudiciais e nocivos.

Começa pelo fato de contribuírem para uma profunda desumanização do indivíduo. O que ele (a) é enquanto essência humana é subtraído em nome da sua capacidade de ter, de consumir, de se encaixar a um ideal imposto. Isso faz com que milhares de pessoas passem, então, a viver em função disso, em uma busca desesperada e absurda desse selo social de aceitação e de pertencimento, o qual, muitas vezes, está intimamente associado ao consumo de bens, produtos e serviços. De modo que nessa espiral de loucura, há quem acabe constituindo graves perdas materiais e afetivas, por conta de tentar satisfazer às padronizações.

E correr atrás do padrão é abdicar da própria identidade. Não é à toa que o ser humano esteja desaprendendo a se gostar, a se aceitar, a se respeitar; pois, a identidade impõe a realidade da vida como ela é, sem romantização, sem retoques, sem idealização. Em contrapartida, o que faz a padronização contemporânea é ludibriar as pessoas a acreditarem que podem se ajustar e caber em cotidianos totalmente contrários aos seus. Como tudo parece lindo, perfeito, encantador, elas mergulham de cabeça nessa corrida maluca, mesmo sabendo que não há garantia alguma de que vai dar certo.

Outro aspecto importante para análise são as diferentes personalidades que povoam o ambiente de influência dos veículos de comunicação e de informação tradicionais e alternativos. A verdade é que são poucas aquelas em que se poderia atribuir a qualidade de influenciar pessoas, em razão não só de terem discernimento e bom senso para manifestar suas ideias e opiniões; mas, pelo grau do conhecimento empregado para fundamentar seus discursos e narrativas. Algo que explica o volume expressivo de contradições que marca o universo midiático.

Muitos se apegam a defender e hastear bandeiras em nome de causas importantes na contemporaneidade ao mesmo tempo em que se comportam de maneira antagônica a respeito. Como se pode lutar contra a gordofobia, por exemplo, e ostentar posts e fotos exibindo uma barriga negativa? Como se pode rechaçar a aporofobia, ao mesmo tempo em que o luxo se reafirma na forma de jantares, festas, mansões e outras expressões do supérfluo? ... Muitos, talvez, não tenham ouvido falar sobre a Semiótica 1; mas, ela marca de maneira profunda a sociedade contemporânea nesse contexto que acabo de descrever.     

Simplesmente, porque ela estabelece uma leitura de mundo, da vida, do ser humano, a partir da produção de sentido derivada da imagem. Ela cria uma comunicação pela linguagem não-verbal, ou seja, basta ver para entender, para decodificar o significado, para construir uma compreensão. De certo modo, isso acaba sendo muito mais eficiente dentro de uma realidade que se consome pela pressa, pela insuficiência do tempo, porque não demanda o aprofundamento crítico-reflexivo sobre a linguagem verbal, seja ela escrita ou oralizada. Afinal, as palavras podem nos conduzir por diferentes caminhos interpretativos, especialmente, por conta do nosso próprio coletivo de informações e de memórias sobre um determinado assunto.

Então, sem querer, a Semiótica nos desnuda. Por esse mecanismo de comunicação o sujeito incorre no erro de se trair e revelar exatamente sob quais crenças, valores, princípios e convicções está alicerçada a sua identidade. Sim, porque na medida em que ele (a) precisa enaltecer, reverenciar, valorizar, realçar, isso ou aquilo, fica provada a importância e a significância que ele (a) dedica a respeito. Não há comunicação sem intenção. Daí a facilidade de se perceber como os padrões exigidos pelo mundo contemporâneo se mostram tão fortes e implacáveis, como se pudessem criar uma sociedade homogeneizada.

Por isso, tenha muita atenção aquilo que você posta ou curte nas mídias sociais. De repente, sem se dar conta dos sinais trocados manifestos pela sua simples atitude, você acaba referendando preconceitos, intolerâncias e violências. Promovendo um efeito multiplicador altamente prejudicial à construção de uma consciência coletiva mais respeitosa, justa, fraterna e empática. Jamais nos esqueçamos de que “Agir, reagir, interagir e fazer são modos marcantes, concretos e materiais de dizer o mundo, interação dialógica, ao nível da ação, do homem com sua historicidade” (Lucia Santaella) 2



1 É a ciência que se dedica ao estudo de todos os signos, nos processos de significação na natureza e na cultura. (https://www.scielo.br/j/pci/a/6JyyhXvsymcjvXX7GFXXFkg#:~:text=A%20Semi%C3%B3tica%20%C3%A9%20a%20ci%C3%AAncia,na%20natureza%20e%20na%20cultura)

2 SANTAELLA, L. O que é a Semiótica. São Paulo: Editora Brasiliense, 2003. p.10. 

sábado, 24 de junho de 2023

Ah, as certezas!


Ah, as certezas!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Ah, as certezas! Que no mundo contemporâneo encenam o duelo entre a razão e a idealização exacerbada! Eis o delírio se esfacelando, como tinha que ser! O movimento beligerante do grupo mercenário Wagner, que estava trabalhando em favor do governo russo na guerra contra a Ucrânia, expressa exatamente isso. Afinal, essas personagens emergiram, justamente, do excesso de certezas russo.

A anexação da península da Crimeia, pelo governo russo, em 2014, pode ser considerada um ensaio bem-sucedido para as pretensões do Kremlin, se analisada do ponto de vista limitado ao seu recorte espaço/temporal. E com base nisso, foi que a Rússia se encheu de certezas sobre seu plano expansionista contemporâneo. Sem maiores resistências e objeções iniciais, ela tinha como certo o sucesso, quando decidisse operacionalizar uma ação de grandes proporções. É importante dizer que, nessa ocasião, as relações russas com grupos mercenários já existiam1, embora oficialmente negadas.

Entretanto, querendo ou não admitir, a contemporaneidade impôs para os humanos uma intensidade à sua dinâmica, que o tempo se vestiu de uma imprevisibilidade fora de controle. Tudo pode mudar a qualquer instante, à revelia das vontades e quereres de quem quer que seja. Considerando, então, que de 2014 até 2022, se passou quase uma década, a estratégia russa foi sim, contaminada por uma dose imensa de ingenuidade, no sentido de acreditar que o seu balizamento referencial havia permanecido intacto.

Nesses oito anos, muita água correu por debaixo das pontes do mundo! Inclusive, com o surgimento de um vírus desconhecido que colocou a humanidade de joelhos.  O funcionamento das estruturas sociais, políticas, econômicas, diplomáticas, foi radicalmente alterado em relação ao que vigorava, até então. Houve uma ruptura drástica e dramática para os seres humanos que impôs a necessidade de construir novos paradigmas capazes de sustentar uma nova ordem social em curso. A vida precisou, portanto, ser repensada sob as perspectivas de micros e macrocosmos.  

E ao decidir invadir a Ucrânia, em 2022, a Rússia se absteve por completo de considerar essa outra realidade global, na qual ainda reverberava, por exemplo, os desdobramentos e consequências pandêmicas. O cenário era de um mundo enlutado, empobrecido, em franco processo de reorganização, que não precisava de nenhum outro tipo de instabilidade ou de tensão. Todos precisavam de paz para se reequilibrar diante de árduo processo de rescaldo.

Mas, o pensamento russo apostou suas fichas na convicção de que esse seria, então, um momento ainda mais ideal, tendo em vista que, pelo menos em tese, eles venceriam de maneira rápida e sem maiores consequências. Pois é, enceguecidos pelas certezas, eles não perceberam que a Pandemia havia sido um instrumento de agregação, que buscava pela cooperação coletiva o fortalecimento das populações, e deram um gigantesco tiro no pé.

A guerra se iniciou e as conjunturas mostraram a sua face, bem mais hostil, aos russos. Da idealização para a prática eles descobriram um verdadeiro abismo! Uma muralha de resistência estendeu-se além das fronteiras ucranianas, dado o apoio internacional de diversos países; sobretudo, aqueles pertencentes a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Acontece que a resistência prolongou a duração do conflito, como era de se esperar. Em uma guerra, quanto mais o tempo passa, mais o emprego de investimentos financeiros se torna necessário para conter a assimetria das forças.    

Mas não era somente isso que não estava nos planos do governo russo. Seu exército não conseguiria suprir a demanda do conflito e as baixas inevitáveis viriam a fragilizar cada vez mais o seu poderio. Sem contar com forças militares adicionais, oriundas de possíveis parceiros diplomáticos, eles não tiveram outra opção a não ser estreitar, cada vez mais, os laços com os mercenários para lutar a seu favor. Acontece que mercenários não lutam por bandeiras, por ideias, por líderes, eles lutam por diferentes tipos de vantagens, gerando um poço sem fundo para um leque bastante diversificado de ambições.

O que significa que as recentes notícias, dando conta de que houve um recuo quanto a uma invasão de Moscou pelo grupo 2, deve ter custado muito caro para a Rússia e provocado, inevitavelmente, um impacto severo sobre suas estruturas de poder. Quem diria, mais uma traquinagem do imponderável sobre o excesso de certezas do Kremlin! A rebeldia dos mercenários expôs para o mundo a dimensão da imprevidência russa quando decidiu criar uma guerra. Aliás, uma lição importantíssima para todo o cenário político-partidário global! Cuidado com o excesso de certezas! Com as vaidades! Com os pseudopoderes! Com os mercenários de plantão!

O mundo contemporâneo não transita de maneira linear, homogênea, uniforme. Muito pelo contrário! Da manhã para tarde, da tarde para a noite, da noite para a madrugada, tudo pode mudar! Já que o narcisismo, o individualismo e o egocentrismo correm soltos, sem amarras. Assim, um evento aqui, ou ali, ou acolá, para desalinhar as órbitas dos astros e alterar o curso dos planos infalíveis de uns e outros, por aí.

Porque no campo das relações coletivas, foi, é e sempre será uma maluquice total pensar que se pode responder pelo (in) consciente do outro. Todo mundo sabe, ou pelo menos deveria saber, que o ser humano é um ser inacabado, incompleto, sujeito às mudanças internas e externas da vida, as quais se impõem diante dele, e para isso, ele nem sempre precisa pedir benção para ninguém.  

sexta-feira, 23 de junho de 2023

A biografia e os juros


A biografia e os juros

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O bom da vida é que existe a possibilidade de fazer da própria biografia um espelho das nossas melhores qualidades e virtudes. Pena, que nem todo mundo entenda dessa maneira e saia, por aí, pesando na tinta do seu pior lado. Fiquei pensando sobre isso, depois que o Banco Central (BC) manteve, mais uma vez, a taxa de juros em 13,75% ao ano.

Aí você me pergunta: o que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Todas as vezes em que o ser humano é o elemento central da dinâmica da vida, a sua biografia é que está em jogo para as páginas da história. Quem decide sobre a taxa de juros no país são oito figuras que compõem o Comitê de Política Monetária (COPOM). Portanto, oito biografias que estão sendo escritas. Inclusive, vale ressaltar que dentre elas está a do Presidente do Banco Central (BC) que dispõe do chamado voto de qualidade, ou seja, o voto de desempate para as decisões.

Diante disso, pelo menos em tese, cinco desses cidadãos parecem cada vez menos preocupados com as suas biografias, especialmente, do ponto de vista profissional. Afinal de contas, não é só o Brasil que vem questionando veementemente o posicionamento do COPOM em relação à taxa de juros elevadíssima. É o mundo. São as maiores autoridades técnicas e científicas no assunto que também se colocaram em oposição a essa insistente persistência equivocada do BC brasileiro. E de certa forma, tais críticas fazem transparecer a existência de uma desconfiança em torno das habilidades e competências desse seleto grupo de economistas.

Seja o que for, a verdade é que nas entrelinhas dessa estranha resistência da taxa de juros existe uma flagrante subversão político-ideológica em prejuízo ao bom senso fundamentado pelas Ciências Econômicas e as conjunturas atuais. O que significa que o BC está sendo alçado à constrangedora posição de último bastião da Direita nacional e de seus matizes e simpatizantes; sobretudo, os mais radicais e extremistas. E por isso, pretende usar dos instrumentos que lhes são pertinentes para minar e obstaculizar a atual gestão federal, a fim de lhe constituir impedimentos para a plena consolidação de seus projetos e políticas públicas.

Traduzindo em miúdos, essa posição arraigada assumida pelo COPOM declara abertamente o seu distanciamento de uma das missões do BC que é “fomentar o bem-estar econômico da sociedade” 1.  Mas, como compatibilizar bem-estar econômico com juros nas alturas? Não faz sentido. Há uma ruptura natural da dinâmica econômica, na medida em que os juros elevados afugentam o cidadão que passa a consumir menos, obrigando o comércio a comprar menos, a enxugar ao máximo as despesas e a trabalhar com o mínimo de funcionários possível. Diante desse cenário, a indústria passa, também, a produzir menos, a investir menos e a reduzir as vagas formais de trabalho, ou seja, entra em ritmo de desaceleração.  

Para piorar, o desemprego emergido dessa situação puxa o poder de compra da população para baixo e acentua a crise. Porque amplia-se o quadro das demandas por políticas públicas, na medida em que mais pessoas perdem planos privados de saúde, passam a requerer o Seguro Desemprego, enfrentam a dificuldade de arcar com os custos habitacionais, ampliam os contingentes de evasão escolar, enfim. Acontece que nada disso, não é e nem nunca foi, uma preocupação para a Direita nacional e seus matizes e simpatizantes; sobretudo, os mais radicais e extremistas.

Pelo andar da carruagem, então, o COPOM vai tentar se manter imóvel no seu posicionamento. Só não percebem essas figuras que, enquanto fazem birra, maculam sua biografia de maneira patética e desnecessária. Esfacelando seu conhecimento teórico e prático em nome da preservação e manutenção do ideário direitista, que não consegue enxergar além de si mesmo. Que pena!

Mas, como dizia a velha canção do Chico, “Apesar de você...” 2, “o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,9% nos primeiros três meses de 2023 em relação ao trimestre anterior, bem acima das expectativas projetadas. A taxa de investimento foi de 17,5% do PIB. Já a taxa de poupança foi 18,1%, acima da taxa registrada no mesmo período de 2022 (17,4%)” 3.

Isso sem contar que “De acordo com o documento Crescimento Real Trimestral do PIB, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil apresentou no primeiro trimestre deste ano o quarto maior índice de crescimento em relação às 37 nações cujos dados estão disponíveis” 4; e que, “A agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) elevou de estável para positiva a perspectiva para a nota de crédito do Brasil” 5.

Pois é, verdade seja dita, Luís Fernando Veríssimo tem razão, “Com o tempo, os detalhes estragam qualquer biografia”. Por isso mesmo, os membros do COPOM, deveriam repensar suas crenças, valores, princípios e convicções, considerando que “A história de uma vida começa num dado lugar, num ponto qualquer de que se guardou a lembrança e já, então, tudo era extremamente complicado. O que se tornará essa vida, ninguém sabe. Por isso a história é sem começo e o fim é apenas aproximadamente indicado” (Carl Gustav Jung).

quinta-feira, 22 de junho de 2023

O tênue limite entre a tecnologização contemporânea e a proteção e defesa do direito do consumidor


O tênue limite entre a tecnologização contemporânea e a proteção e defesa do direito do consumidor

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não é sem razão que o estresse se tornou o grande mal do século e arrastou consigo um conjunto de outros males que vêm adoecendo a humanidade. Acontece que, nem sempre, ele é fruto do indivíduo, do seu nível de tensão ou de excesso de afazeres e impaciência voluntários. Na verdade, são as teias da própria dinâmica social coletiva que, na maioria do tempo, o enreda para uma burocratização desnecessária da vida, a qual afeta, em cheio, o seu equilíbrio e a sua saúde física e mental.

Um dos exemplos clássicos disso, está na tecnologização exacerbada dos atendimentos, em especial, aqueles oferecidos pelas empresas de comunicação. A constante apologia das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), no sentido de persuadir a sociedade, para que ela construa uma percepção positiva das mesmas, está sendo exercida diante de uma flagrante infração aos direitos do cidadão, incluindo a proteção e a defesa do direito do consumidor. Daqui e dali milhares de pessoas são impedidas de verem suas demandas por informações e serviços atendidas, em razão da obstaculização operacionalizada por atendimentos estritamente tecnológicos ou virtuais.

Acontece que, comércios e indústrias, elencam seus sistemas informatizados com base em sistemas munidos de dados com capacidade limitada para dar conta de responder a todos os tipos e necessidades de questionamentos oriundos de seus clientes e usuários. De modo que lacunas vão sendo geradas a partir dessas insuficiências e ineficiências dos sistemas, e o cidadão se torna refém dos silêncios burocráticos, à revelia de todo o seu esforço e empenho para dirimir suas demandas, muitas vezes, urgentes.

Vamos e convenhamos viver no mundo contemporâneo, ainda que sob condições básicas, não é nada barato! O ônus imposto às dinâmicas cotidianas têm arrancado o couro de muita gente, por aí! E qual a razão disso? Majoritariamente o emprego das altas tecnologias, as quais se sustentam sob altos investimentos científicos, logísticos e operacionais. Assim, estes são absorvidos e apresentados pelas planilhas de custo dos serviços oferecidos aos clientes e usuários. O que deveria, então, responder por qualidade e excelência, cada vez mais se mostra na contramão das expectativas e lança as pessoas a uma espera ad aeternum por soluções.  

Há um simplismo demasiado no emprego da expressão incapacidade resolutiva. É preciso entender que o cerne de tamanha insatisfação, advém de constatar que, pelo fato de a cadeia operacional não se constituir fundamentalmente tecnologizada, há setores que dependem do trabalho humano e por isso, uma imensa quantidade de equívocos e ruídos passam a emergir no fluxo das operações porque há falhas na comunicação. Em suma, o velho esquema no qual o que começa errado vai errado até o final! E o que é realizado de maneira incorreta implica, necessariamente, em ter que ser corrigido, no intuito de satisfazer as expectativas. Mas, será que o cliente ou usuário tem todo esse tempo para esperar?

Veja bem, o cidadão procura um estabelecimento para lhe fornecer algum produto ou serviço, negocia, assina um contrato, se compromete a pagar regiamente pelo acordo firmado, e de repente, fica na mão. O documento que deveria ser a salvaguarda dos direitos e obrigações de ambas as partes se torna, de certo modo, inócuo pela força arbitrária do desrespeito voluntário do estabelecimento, quando negligencia a qualidade das práxis comerciais e subjuga o cliente ou usuário ao desequilíbrio das responsabilidades assumidas.  

Portanto, mais do que atentar severamente contra a proteção e a defesa do direito do consumidor, em termos práticos e objetivos, a tecnologização afeta o cidadão na sua dignidade humana, na sua saúde física e emocional, quando expõe o indivíduo a exercitar uma peregrinação sem fim, ao longo de dias, semanas ou meses, em busca de uma solução para suas demandas. O que adquire um status de reverberação social incalculável, quando se propõe a mensurar a quantidade de pessoas expostas sumariamente a esse tipo de abuso e de desumanização no trato das relações comerciais.

Com o grande desenvolvimento científico no campo da Medicina e das Ciências Biomédicas, em torno da década de 70, o mundo se organizou em um novo campo de discussões denominado Bioética. Observando atentamente os rumos dados, a passos largos, pela contínua expansão das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), penso que é chegada a hora de a humanidade se organizar em torno de uma Tecnoética, a fim de se estabelecer limites aos excessos, as afrontas, as arrogâncias, aos desacatos e as arbitrariedades decorrentes da tecnologização no mundo contemporâneo. Sem contar que, algo nesse sentido, tende a ser de extremo proveito para a modulação das ciências jurídicas a respeito desse assunto. 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Aplausos, só no final!


Aplausos, só no final!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Muita calma! O julgamento de inelegibilidade do ex-presidente da República pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 1 é sim, uma resposta importante ao povo brasileiro. No entanto, é imperioso ressaltar a sua incapacidade de responder satisfatoriamente aos inúmeros ataques deflagrados contra a Democracia, o Estado de Direito e as Instituições nacionais, ocorridos nos últimos anos no país.

O Brasil, diante de sua população e do mundo, assistiu a uma série de atos delituosos graves que não podem passar impunes, mais uma vez. E isso não significa quaisquer vestígios de revanchismo. Muito pelo contrário! Trazer à tona a responsabilização por todos os acontecimentos de natureza nefasta ao país, aponta para um olhar amplo sobre muitos personagens. Afinal, o ex-Presidente nunca esteve só na sua empreitada golpista, como é de conhecimento público e notório.

Justamente, por isso, é que o simples fato de ele vir a tornar-se inelegível já fez florescer, nos veículos de informação e comunicação, as especulações em torno de quem o sucederia no espectro da direita nacional, com todos os seus matizes mais ou menos radicais e extremistas. Sinal de que todos os horrores e desmantelamentos, que se viu operacionalizar pelas mãos do projeto político desse grupo, contam com a clemência da impunidade. Em todas as expressões do seu silêncio, da sua inação, da sua negligência, do seu corporativismo, ...

Aliás, distante de qualquer obra do acaso, as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), em curso no Congresso Nacional, demonstram exatamente a estratégia do enviesamento político-partidário para desqualificar a proposta investigativa de apuração dos fatos e conduzir o processo à velha práxis do “acabar em pizza”. Muito bate-boca. Muito oposicionismo de ocasião. Muito desrespeito. Muita superficialidade e omissão no trato dos trabalhos. Porque, no fundo, ninguém ali quer se comprometer. Sobretudo, aqueles cujas digitais estão presentes nas rotas dos assuntos discutidos.

Lamento, mas não dá para sentir alívio e julgar encerrados os absurdos, apenas com o tal julgamento no TSE. O Brasil foi subitamente tomado por figuras anticidadãs, terroristas, que se encontravam, ao longo de décadas, escondidas nas sombras de um pseudopatriotismo de fachada, garantido a peso de ouro pelo poder capital. Afinal, pouco mais de 500 anos de história foi sim, capaz de consolidar na consciência das elites, e de seus simpatizantes de estimação, um direito adquirido que não pode ser de mais ninguém.

De modo que, agora, depois de se sentirem legitimados para bradar aos quatro cantos, para fazer e acontecer nos espaços da República, imagina que eles irão se dignar ao exercício de uma autorreflexão que reconheça a Democracia, o Estado de Direito e as Instituições como elementos fundamentais para o país! Essas pessoas estão tomadas por um inconformismo, uma rebeldia, uma insubordinação, um descontentamento, ainda que tentem se disfarçar como lobos em peles de cordeiro. O nível de tensão que as habita é tão profundo que pelas palavras proferidas elas próprias se traem.

Engana-se completamente quem acredita que a dicotomia nacional, na representação nós e eles, o bem e o mal, a direita e a esquerda, é uma manifestação contemporânea. O Brasil dividido é o espelho da gênese nacional. A história brasileira se dá pela separação entre os importantes e os desimportantes. Daí a razão pela qual as desigualdades socioeconômicas não terem sido superadas. Há um embate de forças e poderes totalmente desigual nesse jogo, que nada tem a ver com o quantitativo numérico da população; mas, com a distribuição na pirâmide social. E assim, consolidou-se no inconsciente coletivo a velha máxima “manda quem pode e obedece quem tem juízo”!

Por ironia do destino, talvez, tenhamos sido colocados diante do mais importante ponto de inflexão para a sociedade brasileira, no sentido de validar as diretrizes constitucionais, quanto à igualdade e à equidade. As instâncias superiores da Justiça brasileira têm nas mãos uma oportunidade única para provar que a lei, nesse país, é para todos. Rompendo, de uma vez por todas, com o ranço histórico colonial que gestou gerações e gerações marcadas pela brutalidade das desigualdades e que, hoje, sustenta os comportamentos mais repugnantes manifestos pela direita nacional e seus matizes; sobretudo, aqueles mais radicais e extremistas.

Surfando na onda contemporânea da liberdade sem limite, essa gente impôs ao país um grau de insegurança e de instabilidade jamais vistos, e que não pode ser premiado com a ausência da devida responsabilização, no campo jurídico. Não é por falta de memória e, nem tampouco, de provas, que se pode fazer vista grossa a respeito. Houve sim, uma subversão completa da ética, da moral, da ordem, do progresso, das leis, para satisfazer aos desejos e interesses do espectro político que estava no poder.

Mais de 700 mil mortes pela COVID-19. Atraso e corrupção na compra de vacinas. Ameaças ao STF e seus ministros. Gastos públicos injustificáveis. Isolamento diplomático. Presentes não declarados. ... E inúmeras estratégias para deflagração de um Golpe de Estado. Acha pouco? É isso o que respalda a necessidade de responsabilizar os protagonistas, os coadjuvantes, os figurantes e o elenco de apoio, envolvidos em cada um desses acontecimentos. Caso contrário, eles terão argumentos suficientes para não só nutrir a sua fé incondicional na impunidade brasileira; mas, para retornar ávidos ao ponto onde estavam.  

De que lado a humanidade está???


De que lado a humanidade está???

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Relembrando o que dizem as Sagradas Escrituras, “Não se pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24). Mas, é exatamente isso o que aponta a resistência em relação aos combustíveis fósseis, como se percebe na matéria “A corrida entre Brasil, China, EUA e países da Europa para explorar ‘novo pré-sal’”1. Algo que frustra profundamente as expectativas por um novo paradigma de transição energética, no mundo, e a consolidação de práxis mais sustentáveis.

Acontece que essa é uma história que em nenhum momento do seu curso se dignou a ponderar os prós e os contras. Foi a ganância que moveu o mundo nessa direção. Mais precisamente, os interesses de uma minoria em detrimento da maioria global. Portanto, é difícil para eles admitir certas verdades e colocar em xeque a manutenção do seu status socioeconômico, ainda que, desde a década de 70 já se saiba, por fontes seguras, que as reservas de petróleo são finitas. O que, pelo menos em tese, significa que em algum momento o mundo vai se deparar com a urgência de novas matrizes de energia para atender às suas demandas.

Digo isso porque, talvez, nem chegaremos a esse ponto. Ora, os combustíveis fósseis, em especial o petróleo, que movem o mundo contemporâneo, o fazem sobre um rastro de impactos e degradações bastante significativas. E são justamente estas que estão repercutindo nas transformações das condições naturais do planeta, tornando-o cada vez menos saudável e habitável para a população.

Algo que vai muito além da quantidade expressiva de poluentes atmosféricos oriundos da queima desses combustíveis, traduzida no que se chama de Efeito Estufa. Na verdade, a população humana já convive com toneladas de plásticos, de diferentes tipos e densidades, cobrindo vastas áreas oceânicas e terrestres, numa jornada praticamente impossível de biodegradação.

Afinal, não é só a materialidade em si dos resíduos plásticos o que preocupa; mas, o quanto ela contribui para a liberação de partículas tóxicas na água, ou seja, os microplásticos. Além disso, tendo em vista o volume de plástico produzido no planeta, quando se faz a opção pela queima desse material promove-se a liberação de gases, também, extremamente tóxicos, tais como dioxinas, furanos, mercúrio e bifenilos policlorados (PCB).

De modo que essa realidade acrescida de todos os demais tipos de degradação ambiental – desmatamento, desertificação, queimadas, exploração mineral criminosa, assoreamento dos rios, uso e ocupação irregular do solo, ... – inviabiliza as condições da Terra, para que se faça sentido as demandas dos combustíveis fósseis, no que diz respeito ao desenvolvimento e ao progresso. O colapso da qualidade ambiental implica necessariamente no colapso social, como ajuda a entender a matéria “Por que estamos perto de alta recorde nas temperaturas” 2. Aliás, recentemente os incêndios florestais no Canadá deixaram Nova York coberta de cinzas e com a pior qualidade do ar no mundo 3.  

Todas essas considerações, então, servem basicamente para mostrar que não se trata de uma birra ideológica contra os pilares da produção global, como muitos tentam fazer parecer. O fato é que as condições ambientais do planeta não só foram exauridas à revelia da sua capacidade de recuperação, como expuseram os limites de tolerabilidade para a sobrevivência humana. Na verdade, é a vida em todas as suas formas que está ameaçada diariamente pela antropização. O que significa que quaisquer pretensões de desenvolvimento e de progresso nessas conjunturas se tornam inviáveis.   

Portanto, não adiantam eventos, fóruns, debates, conferências que permaneçam sendo escritas sobre os mesmos rastros de destruição. A eloquência dos discursos e das narrativas é totalmente inócua diante da persistência das velhas práxis. O tempo dos prazos, dos limites, já passou. A força dos impactos socioambientais não depende mais da confirmação técnico-científica; pois, já se impõe pelos eventos extremos do clima arrasando os continentes. Os desequilíbrios já estão instituídos, de modo que tudo agora gira em torno de mitigar desesperadamente os processos danosos de reafirmação destrutiva.

Então, qual a razão de a humanidade insistir nos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que, daqui e dali, há milhares de peças publicitárias e matérias jornalísticas enaltecendo os carros elétricos, por exemplo? De que lado estão os seres humanos? Quem souber responder precisamente a essas perguntas que se manifeste. O mundo anseia por respostas que façam sentido e, quem sabe, sinalizem novos caminhos dialógicos de debate. Por enquanto, o que melhor traduz a realidade contemporânea, por incrível que possa parecer, são as palavras de William Shakespeare de que “É uma infelicidade da época, que os doidos guiem os cegos”.