sábado, 30 de abril de 2022

Pra mim não dá. E pra você?


Pra mim não dá. E pra você?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Por mais que se tente utilizar a contemporaneidade como desculpa ou pretexto para justificar as inúmeras incongruências que exalam das relações humanas, pra mim tanto absurdo realmente não dá.

Essa história de ficar em cima do muro, se equilibrando desconfortavelmente para não assumir uma posição, é surreal. É um jeito muito bizarro de fazer mistério sobre quem é você de verdade. Afinal, uma hora se mostra do direito, outra do avesso, às vezes nem aparece, enfim... Portanto, pra mim não dá.

Não dá pra defender a vida ao mesmo tempo em que aceita com naturalidade as mais infinitas formas de violência que podem levar à morte. Sim, porque a fome mata, a miséria mata, a falta de saneamento básico mata, o desemprego mata, as doenças não tratadas matam, ... Sem contar, que na vida se morre objetivamente; mas, também, subjetivamente. Morrem os sonhos, as esperanças, os desejos, a criatividade, ... e quando isso acontece, o ser humano realmente morre. ...

Não dá pra defender a postura de boa pessoa, quando na primeira oportunidade sai da sombra para agir de má fé com o outro, para usar de toda e qualquer estratégia de esperteza para se sobrepor aos demais. Porque bondade boa mesmo, é bondade genuína. Que brota da alma. Que não precisa e não quer nada em troca. Quer apenas ser. Ser transparente. Ser pacífica. Ser generosa. ...

Não dá pra defender a igualdade, olhando para tudo e para todos com uma seletividade ferinamente apurada que possibilita ranquear ou categorizar pessoas e coisas, segundo critérios demasiadamente cruéis e perversos. Porque essa é uma igualdade enviesada, distorcida, que torna iguais apenas aqueles cuja igualdade se faz com base nas minhas crenças, nos meus valores, nos meus princípios. ...

Não dá pra defender a liberdade, desconsiderando a existência natural dos limites. Porque a liberdade não é absoluta, como muitos querem acreditar. Não porque existem regras, códigos, leis para estabelecer um padrão de comportamento; mas, porque a vida é feita por ações e reações. Ao se escolher, ao se decidir, por isso ou por aquilo, as consequências, os desdobramentos representam os freios, os contrapesos, o preço a se pagar. São os limites que não podemos contestar. Então, a liberdade não é absoluta. ...

Não dá pra defender a fraternidade, aceitando com passividade, e total indiferença, as desigualdades no mundo. Ora, a fraternidade no seu sentido pleno impõe a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Enxergá-lo como seu semelhante, com os mesmos direitos, os mesmos deveres, as mesmas necessidades. Então, não dá para relativizar a fraternidade por meio de esmolas, de donativos, de um assistencialismo que não busca mudar, transformar a realidade, tornando a cidadania acessível a todos. ...

Não dá pra defender o meio ambiente e viver sob os comandos de um consumismo desenfreado, de uma total inconsequência quanto à produção e descarte de resíduos, da manutenção de hábitos e costumes cotidianos contrários à sustentabilidade. Defender o meio ambiente é ser socioambientalmente sustentável, a fim de criar condições favoráveis para que todos tenham acesso à dignidade humana, à dignidade cidadã. Suas atitudes e comportamentos não impactam negativamente apenas o meio ambiente, impactam a humanidade, um coletivo que já padece de inúmeros infortúnios, desgraças, crises. ...

Não dá pra defender a educação, acreditando que o desequilíbrio entre o público e o privado pode continuar existindo. Agradecendo pelo seu privilégio de ter acesso a algo melhor, ao invés de pensar que todos deveriam ter o mesmo. Fortalecendo a perspectiva de que as inacessibilidades, as carências, as fragilidades, podem levar décadas para serem solucionadas, como se o desenvolvimento e o progresso educacional estivessem dissociados da sociedade, como se pudessem acontecer em tempos distintos.  ...

Não dá pra defender a salubridade, acreditando que o desequilíbrio entre o público e o privado pode continuar existindo. Agradecendo pelo seu privilégio de ter acesso a algo melhor, ao invés de pensar que todos deveriam ter. Fortalecendo ideias estapafúrdias, como por exemplo, a de que o Sistema Único de Saúde (SUS) é um gasto desnecessário e pode facilmente ser substituído pela ampliação da rede privada. ...

Pois é, pra mim realmente não dá. Tudo isso representa um verdadeiro baile de máscaras, onde as pessoas se escondem por trás de discursos, politicamente corretos, para não deixar transparecer o que se passa no mais profundo do seu íntimo. Na verdade, não passa de uma exaltação da hipocrisia, do “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”, disseminada para servir aos interesses de homogeneização do pensamento social.

Trata-se de uma verdadeira cruzada contra as diferenças, contra as individualidades, contra as identidades; mas, totalmente a favor da massificação. Os resultados, até aqui, me parecem aquém das expectativas. Porque tudo o que foge da naturalidade se torna caricato e facilmente perceptível, e nesse caso, os discursos e as ações estão muito desalinhados.  Basta uma passada de olhos pelo cotidiano ou pelos veículos de comunicação e informação para comprovar.

Daí a convivência, a coexistência, estarem tão pesadas, tão difíceis. O mundo caminha para uma imensa população de lobos em peles de cordeiros que tentam dissimular suas intenções, suas pretensões, suas verdades mais ocultas; para sobreviver as hostilidades impostas. Por isso, tantas decepções, tantas frustrações, tantos desapontamentos na busca de tecer relações com um mínimo de transparência.

Você vai conversando, vai convivendo e, quando menos se espera, aquela aparência se desconstrói por palavras e gestos avassaladores, comentários e ações brutais. Você se depara com um outro que não existia, até então. Não é uma questão de idealização que se possa fazer a respeito das pessoas, que comumente acaba malsucedida.

Trata-se, simplesmente, do comportamento social vigente na contemporaneidade, no qual há uma dissimulação trivializada, que relativiza a vida a tal ponto em que dissocia as opiniões dos indivíduos, criando perspectivas de análise e de crítica diferentes. Como se no contexto particular se pudesse pensar e agir de uma certa maneira, para atender aos próprios interesses, as próprias vontades; mas, em relação ao coletivo se torna imperioso pensar e agir de uma outra forma, ou seja, há uma ruptura total com o senso empático da humanidade.

Assim, as más condutas buscam se camuflar, se esconder, até que seja possível alcançar seus propósitos. A hipocrisia reina. A maldade reina. A violência reina. Como diz uma canção, que eu amo, “[...] Palavras duras em voz de veludo [...]” 1, soam com uma naturalidade desconcertante e incomodativa; mas, sem que ninguém tome a iniciativa de rebater, de rechaçar, de confrontar.

Eu preciso de um pouco mais de verdade, de clareza, na convivência. Quero olhar nos olhos do outro sem qualquer traço de sombra, de desconfiança. Quero palavras ditas sem silêncios entrecortados, sem pausas pesadas. Quero gestos inteiros e não ensaiados. ... É por essas e por outras, então, que pra mim não dá. Do jeito que está já deu! E pra você, hein?!



1 Cuide bem do seu amor (Herbert Vianna) - https://www.youtube.com/watch?v=C1Wz7vTWUBQ 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Nem tudo é beleza na tropicalidade brasileira...


Nem tudo é beleza na tropicalidade brasileira...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quer saber? A estupidez cansa. A ignorância cansa. A alienação cansa. ... Enquanto, uma significativa parcela da sociedade brasileira se permite discutir a vida na espuma da superficialidade, do não essencial, do absurdo, a realidade continua a seguir o seu caminho natural e a nos trazer situações que já deveríamos ter virado a página.

Não é possível, em pleno século XXI, o Brasil “tropical e abençoado por Deus”, permanecer alheio a certas coisas. Há quatro dias, o país perdeu uma cidadã por falta de soro antiofídico 1. É! Poderia ser eu, ou você, ou qualquer um.

Algo realmente estarrecedor! Considerando que o país tem excelência (ou pelo menos tinha) nessa terapêutica. Tanto na produção de imunobiológicos (soros e vacinas) quanto no trato dos pacientes que sofreram acidentes por animais peçonhentos.   

Afinal, por ser um país cuja diversidade de fauna e flora, desde sempre, impôs riscos e necessidades nesse sentido, estratégias precisaram emergir para dar o suporte necessário em situações de urgência e emergência.  

Sobretudo, em decorrência do avanço sobre o uso e ocupação do espaço territorial brasileiro, aproximando as fronteiras da urbanização daquelas ainda não urbanizadas ou naturais. Talvez, tenha sido esse o grande estopim fomentador para o nosso caminho de sucesso científico e tecnológico, no campo das ciências biomédicas brasileiras.

Marcado pela presença de grandes nomes como Oswaldo Cruz (Sanitarista, Epidemiologista e Bacteriologista), Evandro Chagas (Especialista em Medicina Tropical), Carlos Chagas (Biólogo, Sanitarista, Infectologista e Bacteriologista), Adolpho Lutz (Especialista em Medicina Tropical) e Vital Brazil (Sanitarista e Toxicologista), que deram o impulso suficiente para o surgimento de grandes institutos de pesquisa 2 e conseguiram salvar tantas vidas afetadas pelos impactos da coexistência nesse contexto tropical.

No entanto, essa não é uma questão para ser analisada apenas do ponto de vista dos benefícios de tão grandes descobertas e inovações. A grande verdade é que ela lança luz sobre algo pouco difundido e conhecido pelos brasileiros.

Pois é, enquanto uns e outros fazem o enviesamento e a distorção ideológica em relação à saúde, criando uma linha divisória excludente e desigual, está no Sistema Único de Saúde (SUS) o papel majoritário sobre certos aspectos, incluindo, por exemplo, as doenças tropicais (especialmente, as negligenciadas 3) e os acidentes por animais peçonhentos.

Então, o primeiro ponto a se desmistificar diz respeito à saúde pública. Não, saúde pública não quer dizer “saúde para pobre”. A saúde pública tem por premissa fundamental estabelecer todas as medidas necessárias, as quais serão executadas pelo Estado, a fim de garantir indistintamente o bem-estar físico, mental e social de todos os cidadãos.

Portanto, o SUS representa o conjunto tanto das ações quanto dos serviços de saúde oferecidos pelos órgãos e instituições públicas pertencentes aos diferentes entes da Federação, ou seja, Municípios, Estados, União e Distrito Federal.

Assim, no caso dos acidentes por peçonhentos, especialmente os acidentes ofídicos (por serpentes), eles “foram incluídos, pela Organização Mundial da Saúde, na lista das doenças tropicais negligenciadas que, acometem, na maioria dos casos, populações pobres que vivem em áreas rurais” 4; embora, possam acontecer em qualquer espaço geográfico e com qualquer membro dos diferentes estratos da população. 

Por isso, foi criado o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), cujos dados oferecem à vigilância epidemiológica a possibilidade “de identificar o quantitativo de soros antivenenos a serem distribuídos às Unidades Federadas, além de determinar pontos estratégicos de vigilância, estruturar as unidades de atendimento aos acidentados, elaborar estratégias de controle desses animais, entre outros”. 

Ora, então, como foi acontecer esse acidente ofídico, citado lá no início? Simples. Uma junção de questões. Primeiro, o desmantelamento e a precarização do SUS vem possibilitando esse tipo de episódio. Faltam recursos humanos e materiais para oferecer o serviço necessário com qualidade e eficiência. Portanto, os cortes de investimento na área da saúde pública promovem o surgimento de tragédias anunciadas. Não, eles não são mimimi.

Além disso, é fundamental esclarecer que “a aplicação do soro no paciente picado pelo animal peçonhento é gratuita, realizada somente em ambiente hospitalar, por pessoal devidamente treinado, em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS)” 5. Isso porque é necessária “a avaliação correta do tratamento adequado ao paciente, se é indicada a administração de soro e qual tipo de soro recomendado” 6.

Depois, as recentes ações antrópicas nos principais biomas brasileiros, incluindo o fogo e o desmatamento criminosos, que favorecem o deslocamento das espécies sobreviventes para outras áreas. Especialmente aquelas que fazem fronteiras com espaços já urbanizados total ou parcialmente. Essas espécies estão, na maioria das vezes, feridas, estressadas, famintas e, por essas razões, muito mais susceptíveis a agressividade e ao ataque, como instinto de sobrevivência.

Também, não se pode deixar de destacar o fato de que as mudanças climáticas podem atuar ativamente nesse deslocamento das espécies selvagens. O calor, a escassez hídrica, a oscilação térmica, os tornados, os redemoinhos de fogo, as inundações, as chuvas de granizo, ... tudo isso, pode sim, representar uma alteração abrupta no padrão comportamental de muitas espécies.

Assim, considerando o cenário atual há uma visível tendência que esse tipo de interação entre a população e as espécies selvagens e presentes no ecossistema brasileiro, se tornem cada vez mais intensas e frequentes.

Sinal de que devemos nos preocupar sim, com esses acontecimentos. Quem lhe garante que você não corre esse tipo de risco, hein? Veja só o exemplo recente:“Morador de Ituiutaba encontra cascavel na rua de casa; cobra foi capturada pelos bombeiros” 7.

No fim das contas, o brasileiro não pratica apenas a insustentabilidade ambiental. Na verdade, ele pratica diversas versões de uma insustentabilidade socioambiental, na medida em que ele também destrói todos os seus sistemas de proteção. Ele não tem apreço por nada, nem por si mesmo.

Essa é, portanto, a reflexão que precisa ser feita. Que bicho terá lhe picado (ou mordido) para que o brasileiro abrisse mão, tão displicentemente, do exercício da sua cidadania, dos seus direitos, do seu bem-estar, da sua sobrevivência individual e coletiva?

Que prazer é esse que envolve uma liberdade insana, uma indiferença perversa, um descaso aviltante, uma negligência indigesta? Porque olhando de fora, a certa distância, só consigo ver a morte ganhando um status cada vez mais trivializado, cada vez mais indolor, cada vez mais impessoal, que não me faz qualquer sentido.  



quarta-feira, 27 de abril de 2022

O Brasil entre a graça e a desgraça


O Brasil entre a graça e a desgraça

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Depois de alguns dias sendo o assunto mais comentado nas rodas populares, o benefício da graça parece longe de ser digerido no país, dadas as conjunturas em que ele foi concedido.

De uma hora para outra, o que era para ter caráter de extrema excepcionalidade e importância foi sumariamente vulgarizado. O que era para ser um recurso jurídico se transformou em ato politiqueiro de natureza reprovável.

Dessa vez, a graça não teve nenhuma graça! Graça assim, cheia de pessoalidade, de imoralidade, de desvio de finalidade, não faz ninguém rir. Especialmente, quando se olha para mais de 90% da população que vive a sombra de tantas desgraças.

Pois é, para esses cidadãos não há graça. Parece que a clemência de Deus e dos homens lhes abandonou, tornando seu cotidiano árido, áspero, sofrido, um verdadeiro caminho de penitência.

Talvez, por isso, o benefício da graça soou tão mal. Que ousadia livrar um único condenado, cujo processo de julgamento do seu delito não restou dúvidas a respeito do merecimento da pena, enquanto milhares de brasileiros e brasileiras são culpabilizados por situações que fogem por completo da sua participação, da sua decisão, da sua escolha.

Sim, porque no Brasil a pobreza é crime, a miséria é crime, o desemprego é crime, o analfabetismo é crime, a cor da pele é crime, ... todo o rastro de desigualdades sociais são pretextos para penalização do cidadão comum, sem que, para tanto, ele seja julgado e condenado nos parâmetros da lei.

Tudo acontece de maneira velada, subliminar, como se a sua existência de pura adversidade valesse, por si só, como prova irrefutável e indigna de qualquer revisão, ou reconsideração, ou misericórdia. Para esses não há graça.

Não é à toa que Rui Barbosa tenha feito a seguinte consideração: “A injustiça, senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas” 1. E não há nada mais nocivo à esperança, à fé, à confiança, do que a injustiça.

Engana-se quem pensa que este episódio, ainda fumegante, é único na história brasileira. Pode ser enquanto traços e contornos; mas, a verdade é que, em doses homeopáticas, injustiças desse quilate, com o mesmo flagrante repulsivo, acontecem a torto e a direito, no país.

O que significa que há tempos “O povo sabe que não tem justiça; o povo tem certeza de que não pode contar com os tribunais; o povo vê que todas as leis lhe falham como abrigo no momento em que delas precise, porque os governos seduzem os magistrados, os governos os corrompem, e, quando, não podem dominar e seduzir, os desrespeitam, zombam das suas sentenças, e as mandam declarar inaplicáveis, constituindo-se desta arte no juiz supremo, no tribunal da última instância, na corte de revisão das decisões da justiça brasileira”  2.

A graça é, portanto, só mais uma regalia, um privilégio entre tantos destinados a uma ínfima parcela da sociedade. É só mais um modo sutil e cruel de apontar a distinção que se faz entre uns e outros, afrontando de maneira inquestionável o princípio constitucional da igualdade cidadã.

Como se o benefício da graça traçasse a linha divisória que separa os indivíduos, no Brasil, quando da ruptura dos parâmetros que deveriam orientar a sua aplicação. Infelizmente, a graça foi desvirtuada. A graça foi corrompida.

Isso significa que, mais uma vez, “A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural” (Darcy Ribeiro) 3.

Em suma, no Brasil há os que vivem sob a eterna graça; mas, há uma imensa maioria fadada a sobreviver sob a eterna desgraça. Não, porque o manto da bondade, da misericórdia, da justiça, seja curto para cobrir a todos sem distinção. Mas, porque se estabeleceu que dessa forma é mais interessante, é mais apropriado, é mais confortável e, até mesmo, ironicamente engraçado.

Não nos esqueçamos de que “Cada qual se veste com a sua dignidade por fora, diante dos outros; mas, sabe muito bem tudo de inconfessável que se passa no seu íntimo” (Luigi Pirandello) 4. Assim, não há graça que seja suficientemente capaz de encobrir todos os deslizes, todos os “mal feitos”, todos os pecados, todos os crimes. Fato é que, mais dia menos dia, se descobre que “O Rei está nu! ” 5.  



1 BARBOSA, R. Excertos de discurso parlamentar de 17 de dezembro de 1914. In: Discursos Parlamentares. Obras completas. v.XLI, 1914, tomo III, p.86-87. https://institutopoimenica.com/2012/05/18/a-runa-da-justia-rui-barbosa/

2 BARBOSA, R. Obras Completas. p. 81. Publicado por Ministério da Educação e Saúde, 1942.

3 RIBEIRO, D. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 472p.

4 PIRANDELLO, L. O falecido Mattia Pascal. Nova Alexandria, 2007. 215p.

5 Fábula de Hans Christian Andersen. - http://revistavitrineibiuna.com.br/?p=6701  

terça-feira, 26 de abril de 2022

Não quero o certo e nem o errado, eu quero ser feliz!


Não quero o certo e nem o errado, eu quero ser feliz!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A recente eleição na França trouxe entre tantas reflexões uma que é bastante importante para o mundo. A candidata da extrema-direita que fora derrotada no segundo turno das eleições presidenciais prometeu aos seus eleitores manter sua posição de luta contra o candidato reeleito 1.

Mas, o que isso tem de especial? Simplesmente, o fato de que a política global tem se mostrado assim, secularmente divergindo opiniões e permitindo que esse movimento de rupturas e desagregações atue, de maneira catastrófica, contra os interesses dos próprios países e cidadãos.

Se no cotidiano comum da vida humana já se percebe nitidamente a dificuldade dialógica em se encontrar um denominador comum, nem queira pensar no campo político! Nesses seletos espaços da representatividade popular, o que se vê amiúde são atores digladiando seus egos na defesa de interesses enviesados e, quase sempre, particulares. Mantendo em chama a alta o velho ideário de que “os fins justificam os meios”.

O povo, os interesses deste, aparecem comumente de maneira coadjuvante nos discursos inflamados, tal qual um véu que mascara aquilo que se esconde mais profundamente, ou seja, as (más) intenções.

É preciso entender que essa discordância política selvagem não tem, na verdade, nada de normal ou de natural. Essa história de se fazer oposição a certas ideias ou projetos, tendo como base única de fundamentação apenas um “sou contra”, é muito démodé; mas, particularmente, perversa.  

Trata-se de um narcisismo exacerbado que faz de tudo, o que parte do outro, algo menor, desimportante, vulgar e contestável. Além de só evidenciar o tamanho do vazio argumentativo de uma ignorância estúpida.

Ora, pelo menos em tese, seres humanos podem bem mais do que isso! Cabeça foi feita para pensar! E um mundo plural, como é o nosso, não pode existir defendendo caminhos únicos, restritos e limitados.

Pensar grande não é pensar com vista a privilegiar uns e outros. Pensar grande é pensar coletivamente. É fazer do pensamento uma materialização da própria evolução, em todas as direções e sentidos.

Vejam, por exemplo, o cenário da imunização contra a COVID-19 no mundo. Enquanto correntes entrincheiradas em suas convicções criam obstáculos para vacinar o maior número de pessoas no planeta, o vírus está por aí, firme e forte.

Tanto que a China continua fazendo lockdown para conter o avanço das variantes, apesar de todos os inconvenientes econômicos que tal medida tem imposto para eles e o resto do mundo. Recuo dos preços do petróleo. Containers parados nos portos. Desabastecimento de produtos. Um verdadeiro caos. O mundo patinando sem sair do lugar.

Basta um minuto de atenção para perceber que esse comportamento não cabe mais nas necessidades do século XXI. Chega dessa ideia absurda que coloca a razão como um prêmio a quem consiga provar que a tem! Ninguém precisa ter razão! Ninguém precisa estar certo o tempo todo!

Porque, para início de conversa, todos somos seres inacabados. Feitos de um barro que precisa ser modelado e remodelado, muitas vezes nessa vida, sem que consiga chegar ao patamar ideal. Somos pura perspectiva, um jeito próprio de olhar e entender a dinâmica do mundo, porque somos humanamente singulares.

É claro, que diante de tantos rodopios que a Terra já deu, muita coisa já se estabeleceu como valor, como princípio, como caminho. Outras tantas fazem parte de algo mais pessoal e intransferível, que parte da consciência decisória e resolutiva de cada um. Mas, muito há por se equacionar coletivamente, porque diz respeito aos interesses humanitários.

E como não somos cópias xerográficas, cada um é um, somos milhões distribuídos por aí, imbuídos dessa missão. Em casa. Na rua. No trabalho. Em todo lugar. E, quase sempre, estabelecendo as conexões necessárias a partir das afinidades, dos pontos em comum que nos alinhavam as emoções, os sentimentos e as ideias.

Mas, como elas não se apresentam em 100% do tempo, não as ter não tem que impor quaisquer desqualificações ou impossibilidades para que possamos dialogar e encontrar um ponto comum que seja no meio do caminho para as partes.

O que passa por uma boa dose de boa vontade, de disposição, de desapego, de espírito pacifista. Porque quem quer um mundo melhor, quer que ele seja assim por inteiro, não aos pedaços, aos farelos, às migalhas.  

Então, quando olho para a política me deparo como uma estrutura que só pode ser definida por um estado de total debilidade e adoecimento. Afinal, ela se distanciou muito do que entendia Aristóteles, ou seja, “A política não deveria ser a arte de dominar, mas sim a arte de fazer justiça”.

Mas, infelizmente, como o tempo ela se permitiu aliar a outros sistemas de força e poder, a tal ponto que ela “tem sido a arte de obter a paz por meio da injustiça” (Agostinho Silva – filósofo e poeta português). Ora, e “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar” (Martin Luther King Jr.).

Portanto, a ideia de fragmentar a política em facções de gente capaz de só dizer “sou contra”, partindo do pressuposto de que tudo que não parte de mim ou do meu grupo merece ser rechaçado, está levando a humanidade para um imenso buraco, proliferando desafios, esbanjando equívocos e enaltecendo despreparados e incompetentes.

De modo que a defesa arraigada de certas dicotomias, como “certo e errado” ou “bom e mau”, ergue muralhas intransponíveis para a evolução e o desenvolvimento social.  Não se pode exagerar a vida no absolutismo das questões, na demonização disso ou daquilo, porque ela se faz sob eterna relativização. Tudo depende das conjunturas, dos cenários, dos impactos, dos atores, do tempo.

Mais do que nunca, a contemporaneidade é só um palco de incertezas, razão pela qual tudo precisa ser medido, pesado e analisado sob a ótica histórica e criticamente reflexiva.  

Por isso, convido você leitor (a) a não perder as oportunidades de pensar com equilíbrio e profundidade; mas, também, de compartilhar comigo a sabedoria do poeta Ferreira Gullar, quando escreveu: “Não quero saber do sofrimento, quero é felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. Uma vez, discuti feio sobre determinada situação. Fiquei sozinho em casa, cheio de razão e triste pra cacete. Então, pra que querer ter razão? Não quero ter razão. Quero é ser feliz! ”

domingo, 24 de abril de 2022

Nem contra, nem a favor, muito pelo contrário!


Nem contra, nem a favor, muito pelo contrário!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nada de errado quanto às opiniões diferentes. Sinal de que o mundo ainda mantém a sua gênese plural. É assim que deve ser, pessoas díspares, cada uma contribuindo com a sua perspectiva, o seu ponto de vista, a respeito de um determinado assunto. No entanto, os tempos contemporâneos fizeram da dicotomia do contra e a favor a síntese da discordância opinativa.

Distante dos argumentos bem construídos, bem fundamentados, bem organizados, o ser humano simplesmente transformou a dialogia em uma praça de guerra das paixões mundanas. Concordantes e discordantes se digladiam para firmar a sua certeza, como princípio absoluto da razão. Algo que, no caso do Brasil, fica demasiadamente evidente.

Não sei se trazido do espírito competitivo presente no status de país do futebol, a verdade é que esse sentimento afoito e intempestivo tomou conta do cenário mais importante da sociedade brasileira, que é a política. O que foi profundamente impactante, do ponto de vista negativo, tendo em vista a fragilidade notória da consciência cidadã nacional.

Foi como se uma linha tivesse sido marcada, com giz, no chão de algum lugar qualquer. De repente, de maneira quase automática, pessoas se dispuseram de um lado e de outro sem muita noção do aquilo significava, apenas tendo sido movidas por um palavrório inflamado que exercia um papel motivador contagiante.

Porém, essa descrição exemplificativa, não traduz exatamente esse movimento, na inteireza da sua complexidade. O Brasil é um país historicamente de matriz colonial, o que significa que suas bases sociais foram configuradas a partir da discussão sobre dominados e dominadores (ou explorados e exploradores). Em síntese, um berço de desigualdades em estado bruto.

Foram elas, então, que permitiram a construção de perspectivas sociais profundamente diferentes, apesar da convivência e da coexistência sob um mesmo espaço geográfico. Isso explica um grupo dominador, minoritário em relação ao dominado, desfrutando de todas as regalias e privilégios por conta do conjunto de poderes que sempre deteve em suas mãos. E um grupo majoritário de dominados, sobrevivendo sem vez e voz na sociedade, a mercê de uma indignidade social aceita e exercida pelos dominadores.   

É dessa gênese que emerge a sociedade brasileira contemporânea. Dessa fragmentação histórica que não conseguiu superar, pela passagem do tempo, o ranço dessas perspectivas sociais tão distintas. De modo que a construção política se deu atrelada a esse cenário, fazendo das diferenças sociais uma impossibilidade de desconstrução de velhos paradigmas e dessa compreensão uma justificativa para a manutenção de uma rivalidade entre lados opostos.

Por conta disso, tudo o que não está na pauta de discussão política nacional é o país. O inconsciente coletivo do brasileiro foi tão desastrosamente impregnado por essa tensão histórica, que o desenvolvimento dos interesses nacionais, os quais beneficiariam a todos indistintamente, não conseguem ser trabalhados. Tanto que as velhas mazelas, como é o caso dos crimes contra a administração pública 1, por exemplo, encontram espaço livre para se perpetuar.

Então, a cada ciclo eleitoral o país se expõe ao acirramento dessa dicotomia, até mesmo, de maneira inconsciente. O medo de que haja uma expansão do exercício cidadão, por parte dos partidos políticos que apoiam aqueles que vieram secularmente sendo alijados dos seus direitos e participação social, é diretamente proporcional ao medo daqueles que não querem a continuidade da ala política que defende ardorosamente a supremacia dos beneficiados por todo tipo de regalias e privilégios.

Até que, o jogo de discursos e narrativas passa a ultrapassar o equilíbrio da diplomacia política e social, para atentar a paz por meio da beligerância de atitudes extremas e irrefletidas. Pois, o desejo de ter razão, na contemporaneidade, ganhou, portanto, contornos muito mais perigosos.

A começar pela Pós-Verdade, que é disseminada aos milhões de informações meticulosamente criadas para modelar a opinião pública e satisfazer aos interesses de uns e outros. Como se a dicotomia do contra e a favor abdicasse da análise crítica e reflexiva dos fatos, para se render à vulnerabilidade que reside no apelo as emoções e às crenças pessoais.

De modo que não escapa ninguém, nem mesmo aqueles que possam ser considerados aptos para opinar com isenção. Gente com largo conhecimento e experiência profissional e de vida. Como se tivessem sido contaminados por uma superficialidade que não só limita a possibilidade de aprofundamento dos assuntos; mas, também, cria um certo tipo de entorpecimento aos sentidos.

De repente, todos precisam se tornar partidários de um lado ou de outro das questões, ainda que não saibam exatamente o que isso quer dizer ou possa vir a representar. São movidos por ego, por sentimentos, por interesses, por supostas vantagens, por algo que está alheio ao que de fato importa coletivamente.

E assim, vamos andando em círculos nessa espiral de loucura. Criando convicções, como quem faz bolhas de sabão. Repetindo histericamente comportamentos e linguagens contrárias aos padrões de civilidade conhecidos. Reproduzindo a história dentro de cenários absolutamente desajustados ao trânsito do tempo. Abdicando da consciência, da reflexão, do pensamento, em nome de uma unanimidade parcial e previamente definida. No fim das contas, nada mais nada menos do que escrevendo a mesma história por meio de sinônimos, só para fazer tudo parecer uma grande novidade.



1 Corrupção, peculato, concussão e prevaricação. 

sábado, 23 de abril de 2022

Só mais uma gota de hipocrisia!


Só mais uma gota de hipocrisia!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Vamos e convenhamos, há limite até para a hipocrisia! Sim, porque todo o espanto, toda a perplexidade, manifestado nos últimos dias não passa disso, hipocrisia. Sim, porque é só uma forma bastante fajuta de tentar aplacar a consciência pelo pecado da omissão, da inação, da covardia negligente. Afinal, quem nunca ouviu que “é melhor prevenir do que remediar”, hein?! Pois é.

Nunca as verdades estiveram tão às claras como na contemporaneidade. Talvez, pela ideia de que tudo é efêmero, passageiro, volátil, as pessoas perderam o pudor de dissimular, de esconder, de ofuscar o que, de fato, lhes habitava alma. Assim, perderam o freio, os modos, a compostura, e transbordaram a sua verborragia de maneira incontrolável. Só não viu e ouviu quem não quis ver e ouvir!

Sem contar, que é de a natureza humana testar os limites. Verificar até onde se é permitido e tolerável transitar nas relações sociais. Desde pequenino é assim. Então, a medida em que a permissividade flexibiliza as regras do jogo, as situações vão saindo naturalmente fora do controle. Não é à toa o alerta trazido por um outro provérbio, que diz “é de menino que se torce o pepino”!

Mas, todos querem liberdade de maneira ampla e irrestrita. Para fazer e acontecer, sem medir as consequências. Então, começam a se constranger em impor limites uns aos outros. Afinal de contas, não querem melindrar nem constranger seus pares, para não terem que provar do mesmo remédio. Vão fazendo, portanto, vista grossa para tudo e para todos. Não importa se é uma bobagem ou algo gravíssimo. O padrão definido passou a ser “lavar as mãos” para quaisquer absurdos.

Entretanto, eis o dia em que a vida cobra a fatura. Às vezes, até mesmo, com certo requinte de crueldade e escárnio. Foi o que aconteceu pelas mãos do decreto da graça concedido, há dois dias, pelo Presidente da República.

Depois de tudo que ele já disse e fez na sua longa carreira política, tal atitude só manteve a linearidade da sua própria coerência. Tomando por base os cenários configurados por suas atitudes, totalmente isentos de represálias ou punições contundentes e assertivas, ele deu continuidade ao seu repertório de distensões aos limites.

Paremos de tampar o sol com peneiras, porque ele se sente plenamente confortável com a retórica hipócrita que se manifesta diante de suas atitudes intempestivas. Tratam-se de discursos e narrativas vazias de qualquer efeito inibidor ou resolutivo, que só fazem satisfazer as manchetes midiáticas e nada mais. Ele sabe que no jogo dos interesses políticos, no fim das contas, ninguém quer se indispor, como já ficou claro até aqui.

É contemporização aqui, outra acolá. Sempre no aguardo que os ânimos esfriem e o assunto caia no esquecimento da opinião pública. Não importando os prejuízos que se avolumem para o país, em decorrência dessa total desgovernança.

Sim, porque o país está nitidamente à deriva. Padecendo de um emaranhado de crises socioeconômicas gravíssimas, sem que ninguém tome providências cabíveis a respeito. E nem se pode dizer que a inação que se vê seja produto do ano eleitoral, porque não é. Ela está presente há tempos bem anteriores à eleição desse ano. Vai ter a coragem de dizer que não?

Foi essa dinâmica toda que deixou a população à mercê do próprio azar. Sim, azar. Aliás, algo que é fruto de um excesso de confiança no que ela chama de esperteza, de malandragem; mas, que não passa de uma preguiça ignorante de assumir as responsabilidades inerentes à sua cidadania. Porque o silêncio da população referenda a inação do poder público. Não dizem por aí que “a voz do povo é a voz de Deus”, então...

O adoecimento da nossa República, da nossa Democracia, do nosso Estado de Direito, então, é o efeito cumulativo de todo tipo de hipocrisia que se tece no país. O pior disso é ter a certeza de que “As nossas maiores dissimulações são desenvolvidas não para esconder o que há de ruim e feio em nós, mas o nosso vazio. A coisa mais difícil de esconder é aquilo que não existe” (Eric Hoffer – escritor norte-americano).

O que em síntese é a inexistência de uma identidade nacional que seja verdadeiramente capaz de sustentar o nosso compromisso cidadão. Infelizmente, não conseguimos ter uma identidade que vai além do nosso individualismo selvagem. Vivemos com os olhos fixos no próprio umbigo, nos próprios interesses, o que significa que, na maior parte do tempo, “os seres humanos definem a realidade através da desgraça e do sofrimento” (Matrix) 1.

Então, quando a situação aperta, se torna insustentável, o mecanismo mais prático para lidar com a inconveniência é a hipocrisia. Dessa forma, parafraseando o escritor francês, Honoré de Balzac, os costumes acabam se tornando a hipocrisia de uma nação. A tal ponto de que, gota a gota desse veneno, vamos adoecendo rumo ao fim. 



1 Matrix (The Matrix 1999) - https://www.youtube.com/watch?v=2KnZac176Hs 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

22 de abril de um ano qualquer...


22 de abril de um ano qualquer...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não sei se foi descuido, ou se foi proposital; mas, fato é que mais um 22 de abril se registra pelos burburinhos em torno de um mesmo ponto em comum, a ingerência.

Há 522 anos, ela se apresentava pela introdução do país ao sistema colonialista que vigorava na época. Eram as ingerências da Metrópole sobre a Colônia, segundo seus interesses, incluindo, até mesmo, os mais escusos.

Agora, em pleno século XXI, no contexto da história Republicana, são as ingerências dos mandatários do poder que fazem corar e constranger a sociedade.

Aliás, no presente contemporâneo, as falas do Presidente da República não necessitam ser lidas nas entrelinhas para esclarecer seus sentidos e suas intenções. O papo é reto, como dizem por aí, e como provam, por exemplo, as gravações daquela reunião ministerial de 2020 1.

A ingerência não visa atender aos interesses da nação brasileira; mas, surge enviesada pela natureza privada da pessoa humana, abstraindo-se qualquer formalidade da figura do Chefe de Estado e de Governo.

Dessa vez, foi na expressão de uma velha prática absolutista, a qual veio se constituir como instituto constitucional brasileiro a partir da Independência e da promulgação da Constituição de 1824.

Simplesmente, o Presidente da República decidiu conceder a graça constitucional a um recém-condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ou seja, um perdão individual manifesto a alguém condenado ou em cumprimento de pena.

Mas, não foi qualquer condenado. Foi um aliado direto do governo, uma pessoa muito próxima da seara palaciana. Além disso, ele nem se deu ao trabalho de aguardar o trânsito em julgado do processo, surpreendendo a todos.

Porém, a utilização de um instrumento legítimo não subtrai ou descaracteriza a manifestação da ingerência, da interferência política, tendo em vista que as prerrogativas que sustentam o poder do Presidente da República para a concessão da graça são expressas com base em condições específicas.

Isso significa que ele pode muito; mas, não pode tudo. A atitude rompante aponta para um claro desvio de finalidade, afrontando não só o princípio da impessoalidade, que sustenta a administração pública 2; mas, também, a separação dos poderes.

O recurso da graça constitucional veio desconsiderar de maneira aviltante o curso do processo, a sua fundamentação comprobatória e a gravidade dos crimes apontados, os quais levaram ao resultado condenatório, como se a única perspectiva a ser considerada e aceita pelo Presidente da República, para o caso, fosse a absolvição do réu.  

Em um piscar de olhos, o Brasil se apequenou. Não só do ponto de vista interno; mas, também, externo. Mesmo nos áureos tempos coloniais, a fragilização do sistema de governança metropolitana, por meio de certas práxis bastante questionáveis, abriu um flanco importante para invasões de outras metrópoles. Franceses. Holandeses. Ingleses. ...

Ora, as tomadas de decisões precisam ser muito bem medidas e pesadas, para não culminar em consequências além do imprevisível. Desafiar as leis, colocar em risco a estabilidade interna, pode sim, configurar uma mensagem de desorganização anárquica, despertando interesses alheios além das fronteiras.  

Talvez, nada de apropriação territorial nos moldes coloniais; mas, um acirramento de posições nas mesas de negociações diplomáticas e comerciais. Uma imposição muito mais incisiva de interesses externos em detrimento dos nossos, estabelecendo regras duras e bem mais desiguais as quais, se não forem cumpridas, podem resultar em retaliações significativas.

Tudo porque o Brasil abalou as suas bases de credibilidade, de confiança, de eventual pujança, quando decidiu intempestivamente afrontar os seus princípios democráticos, as suas leis e instituições, em nome de interesses pouco ortodoxos.

No fundo, esses acontecimentos só fazem esclarecer o tamanho do abandono que a governança nacional padece. Sim, porque não só de mazelas seculares crônicas vive o Brasil. O que era ruim tornou-se ainda pior nos últimos três anos, diante dos desmantelamentos promovidos pela administração pública.  

Escassez de recursos para manutenção e aprimoramento das políticas e projetos nacionais. Aparelhamento nitidamente carente de habilidade e competência na gestão das instituições. Desestabilização decorrente da Pandemia do Sars-Cov-2 e suas variantes. Efeitos da recente guerra na Ucrânia, e por todas as crises que emergiram desses movimentos.

Pois é, como no Titanic, faltam botes salva-vidas para uma imensa maioria de cidadãos brasileiros. As atenções, as preocupações, as ações, estão voltadas para uma elite da elite, um seleto grupo de asseclas. A grande verdade é que, a governança do país gira em torno da órbita dessas pessoas. Nada mais importa a não ser a sobrevivência e o bem-estar delas.

Também não importam questões como decoro, integridade, honra, honestidade, correção, dignidade. De modo que não dá para esquecer as palavras do Padre António Vieira, em pleno século XVII, de que “A restituição do respeito é muito mais difícil do que a do dinheiro”. Afinal, certas atitudes inevitavelmente suscitam a seguinte dúvida, “Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros? ”.  


2 O qual “busca traduzir a noção de que a administração pública deve tratar todos os cidadãos e cidadãs sem discriminações. Divergências e convergências políticas/ideológicas, simpatias ou desavenças pessoais não podem interferir na atuação e tratamento por parte dos servidores públicos”. (Fonte: https://www.clp.org.br/limpe-os-5-principios-da-administracao-publica-mlg2/). 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Nada como um dia após o outro...


Nada como um dia após o outro...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Nada como colocar os pingos nos is, para se ter uma real dimensão da vida. Durante muito tempo o país vendeu seus discursos e narrativas como manifestação de uma representatividade popular coletiva, a qual, no fundo, nunca existiu.

Então, os últimos três anos vieram definitivamente sacodir as poeiras, revirar os guardados, mexer com as estruturas, faxinar geral a história, a fim de colocar tudo no seu devido lugar. Dando a cada coisa ou situação a denominação precisa, a compreensão exata.

Já diz o provérbio popular, “Quando a esmola é demais o santo desconfia”. Há pouco mais de 130 anos de República no Brasil, que questões tais como liberdade, corrupção, carga tributária, desenvolvimento e progresso, circulam como anseios comuns à população local, quando não é bem assim.

O que acontece é que os mandatários do poder sempre precisaram da legitimidade popular para os seus próprios interesses. Era preciso inflamar a opinião pública a respeito dos problemas, para postarem-se como exímios servidores capazes de dar cabo às aflições populares.

No entanto, na hora de colocar a mão na massa, de resolver mesmo a situação, tudo era devidamente enviesado para satisfazer aos interesses de uma pequena parcela da sociedade brasileira. Aquela que já vinha, desde os tempos coloniais, desfrutando de todas as regalias, privilégios, poderes e status, e que a partir da República constituiu a base do ideário direitista.

Portanto, todos os caminhos da vida brasileira sempre orbitaram o universo dessas pessoas, o universo da Direita, ainda que de uma maneira disfarçada, ocultada por uma aparência de boas intenções e apreço pelo povo.

Então, agora, em plena contemporaneidade, inspirados pelos movimentos de Direita, especialmente, os mais extremistas, essa parcela da população brasileira saiu do seu pseudoanonimato para hastear bem alto as suas convicções. Deixando, bem claro, ao restante da população que o seu lugar deve ser o de permanecer a margem da história.

Ora, não se trata de nenhuma especulação; mas, de uma constatação com base na experimentação diária do cotidiano brasileiro. A Direita está, como se diz por aí, “deitando e rolando” nas suas regalias, privilégios, poderes e status, ainda que sejam representativamente uma ínfima camada da população.

Isso explica, sem quaisquer chances de dúvida, a razão pela qual o país transita em círculos repetitivos, sem que suas mazelas jamais sejam resolvidas. Nossos problemas e maiores desafios não estão concentrados nas figuras A, B ou C; mas, nessa estrutura secular denominada Direita.

Basta um pouco de atenção, sobre quaisquer dos 3 Poderes da República, por exemplo, para perceber como os discursos acabam, de um jeito ou de outro, convergindo na mesma direção. Porque a base deles é constituída por elementos da Direita.

O que significa que, o país vira daqui mexe dali, mas não consegue se livrar do ranço de certas ideias retrógradas e absurdas, porque elas garantem a estabilidade de uma zona de conforto há mais de 500 anos.

Assim, essa estrutura ideológica cria um emaranhado de desafios sociais que contêm de maneira incisiva, qualquer eventual arroubo da população, que se encontra nas demais camadas do estrato social, impedindo-a de insurgir contra esse Status quo.

As pessoas ficam tão cansadas, tão desgastadas, tão exaustas do seu cotidiano, das longas jornadas pela sobrevivência, que não conseguem manter a atenção sobre o que realmente acontece de mais importante no país e que afeta a sua própria realidade.

É sempre muito bom lembrar do que escreveu George Orwell, em sua obra “1984”, “ Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”; pois, “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.

Isso significa que até aqui, os caminhos transitaram pela seguinte lógica, “se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela” (George Orwell).

A manutenção das desigualdades é uma ferramenta, portanto, de alienação e controle social. Porque ela priva a grande massa da população do exercício contínuo da sua cidadania, relegando-o ao mero ato de um voto, que não traduz a construção de uma consciência política, apenas um movimento autômato.  

Aliás, a instituição do sufrágio universal, não deixa de ser um mecanismo para fazer as pessoas se sentirem importantes e participantes do processo político, a partir da oferta consolidada de um direito. No entanto, ele permanece um direto vazio que não cumpre o papel transformador da sociedade.  

E apesar de tudo isso ser triste e terrivelmente impactante, na ótica da contemporaneidade, na verdade, não passa de uma espuma que esconde algo ainda maior e mais terrível que está em curso. Esse processo que se desenha ao longo de mais de 500 anos no Brasil e que, também, aconteceu em tantos outros países, agora adquire novas formas e contornos que podem ser mais brutais e perversos.

A matéria publicada há dois dias, pelo MIT Technology Review, intitulada “A inteligência artificial está criando uma nova ordem mundial colonial” 1, merece sem dúvida alguma uma leitura plena e reflexiva. Segundo a referida publicação, “o impacto da IA está repetindo os padrões da história colonial”, o que significa que ela “está usando outros meios mais insidiosos para enriquecer os ricos e poderosos às custas dos pobres”.

Portanto, o objetivo desse artigo é “ampliar a visão do impacto da IA na sociedade para começar a descobrir como as coisas poderiam ser diferentes”. O que em linhas gerais se traduz em um movimento de análise crítico-reflexiva em torno da cidadania, a partir da destruição de camadas de escombros sociais seculares que vieram se depositando e se agregando à revelia da grande massa das populações.

Afinal, os tempos atuais nos impõem a seguinte reflexão, “A verdadeira divisão não é entre revolucionários e conservadores, mas entre autoritários e libertários” (George Orwell). E só se compreende isso, com a precisão necessária, quando a ideia de que “sem contato com o mundo externo e o passado, o cidadão [...] é como um homem no espaço interestelar que não tem meios de saber que direção leva para baixo ou para cima” (George Orwell).

Desse modo, antes que fiquemos à deriva, de fato, na nossa República Colonial ou Colônia Republicana, não nos esqueçamos de que ainda há possibilidade de desconstrução, de transformação, de ressignificação; pois, segundo Jean-Paul Sartre, “O homem deve ser inventado a cada dia”.  Bora, então, que o tempo urge!