sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Non sense ...


Non sense ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Para início de conversa, o campo político-partidário brasileiro é mesmo um caso para psicanálise!  Afinal, no inconsciente desses indivíduos, transitam desejos, memórias e conflitos, os quais teimam explodir em rompantes aleatórios e, tantas vezes, desprovidos de qualquer vestígio de ética e moral. Acontece que esses comportamentos são sim, capazes de influenciar negativamente os caminhos do comportamento social, no país.

No momento, a Direita, em todos os seus matizes, se uniu para uma cruzada de votações, cujas pretensões envolvem três Propostas de Emenda Constitucional (PECs). Uma diz respeito a alteração das regras para o foro privilegiado de autoridades. A segunda propõe mudanças no artigo da Constituição que trata da imunidade parlamentar. E a última retoma a proposta de anistia aos envolvidos nos atos do 08 de janeiro de 2023.

Bem, como é de conhecimento público, a Constituição Federal do Brasil, de 1988, estabelece o conceito de república dividida em três poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário — a fim de evitar a tirania e o arbítrio; bem como, garantir o bom andamento da democracia.

O que já demonstra, claramente, a intenção embutida nas tais votações de realizar uma ruptura com esse Princípio de Freios e Contrapesos, ou seja, com essa divisão de poderes em que cada um tem a autonomia e a responsabilidade de fiscalizar o outro, garantindo que ninguém detenha poder absoluto e que a atuação de todos seja sempre equilibrada e voltada para o bem-estar da sociedade.

E a razão disso é muito fácil entender! O último pleito eleitoral para a formação dos quadros de legisladores do Congresso Nacional sinalizou uma vantagem numérica para os representantes da Direita e seus matizes, de modo que a base de apoio ao governo ficou bastante reduzida.  Acontece que, tomados pela vaidade, esses parlamentares passaram a usar de sua legislatura para boicotar os projetos do Executivo, através de diferentes mecanismos.

Além do costumeiro e histórico fisiologismo, que trata da construção do poder através da obtenção de vantagens, adaptando suas posições e alianças conforme o benefício disponível, esse grupo de parlamentares passou a sequestrar o orçamento público, através do chamado Orçamento Secreto. A tal ponto que a questão foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF), dada a flagrante falta de transparência, nas vultosas movimentações financeiras.

Mas, não bastasse isso, há tempos que as pautas legislativas não só vêm sendo apresentadas repletas de vícios e de inconstitucionalidades, exigindo a arbitragem do STF para uma decisão a respeito, como assuntos importantíssimos, de total interesse do cidadão, os quais deveriam ser deliberados pelas Casas Legislativas, acabam sendo deslocados para apreciação pela Corte Suprema do Judiciário brasileiro.

E por conta desse comportamento errático e displicente do Legislativo federal, o Judiciário passou, por força das circunstâncias, a ganhar um protagonismo social.  Afinal, uma vez provocado, o judiciário não pode se furtar ao seu papel institucional, sob pena de prevaricar, ou seja, de cometer crime pelo fato de retardar ou deixar de praticar ato de ofício.

No entanto, apesar disso, parlamentares da Direita, em todos os seus matizes, vêm buscando confrontar, repetida e belicosamente, o STF. Dessa vez, o atrito se configura através das três Propostas de Emenda Constitucional (PECs), pelo fato de que todas as pautas atuam no sentido de obstaculizar, inviabilizar e esvaziar o papel constitucional do Judiciário, ao mesmo tempo em que amplia os poderes e atribuições do Legislativo federal.

Por isso, não importa se há parlamentares cometendo crime de lesa-pátria em outro país, custeados com dinheiro público. Se a imagem do “jeitinho brasileiro” está sendo reafirmada por esse tipo de Propostas de Emenda Constitucional (PECs).  Se o “viralatismo”, que tanto afronta à soberania brasileira, está sendo ostentado dentro do próprio Congresso Nacional. Se há pautas urgentes e importantes, aguardando há décadas, para serem deliberadas e votadas.  ...

O que está posto nesse rol de “desimportâncias” declaradas por parte do Congresso Nacional é um misto de impunidade, de autoblindagem, de inconstitucionalidade e de antidemocracia. O que esses parlamentares pretendem, faz lembrar os tempos absolutistas, entre os séculos XV e XVIII, caracterizados pela concentração total do poder nas mãos do rei.

Agora, em pleno século XXI, quem não aceita estar sujeito às leis e/ou outros poderes, é uma parcela significativa do Legislativo federal brasileiro. Embora pareça um ato de rebeldia absoluta, na verdade, essa gente só faz renegar o próprio compromisso constitucional assumido junto ao país e aos seus próprios eleitores, para satisfazer aos próprios e abjetos interesses.