sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A revolta “pós-moderna” da vacina


A revolta “pós-moderna” da vacina

 

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

 

Uma história não se conta da perspectiva de um único quadro. O Negacionismo científico que se exacerbou nesses tempos pandêmicos não chegou agora. Basta uma consulta nos boletins de vacinação das últimas décadas para se perceber como as pessoas têm negligenciado a prevenção. Não é à toa que recentemente as mortes por Sarampo têm assustado e ganhado as páginas da imprensa mundial.

O que separa o ser humano desse microuniverso patogênico não passa de um véu de invisibilidade microscópica. Estamos com eles dia e noite sem nos darmos conta. Dentro e fora de nossos corpos eles se multiplicam e se armam na cruzada infectante. Portanto, isso não é privilégio do COVID-19 para se lançar mão de uma “obrigatoriedade vacinal” exclusiva.

Aliás, o que vem garantindo a humanidade certo equilíbrio nessa relação é justamente a presença de vacinas disponíveis e acessíveis ao maior número de pessoas.  É importante destacar a respeito da imunização, o fato de que não existe totalidade em razão de que, apesar dos rígidos controles científicos e sanitários, algumas pessoas não são aptas a vacinação por razões médicas diversas.

Não se trata de um problema com uma determinada vacina, mas de uma incompatibilidade biológica do próprio indivíduo que pode representar um prejuízo maior do que o benefício da imunização. Mas isso só pode ser avaliado pelo médico que acompanha esse paciente, que conhece o histórico de saúde do mesmo na sua completude. Não é uma mera questão de achismo, ok?

Por isso, é muito preocupante o comportamento que vem sendo imposto pela sociedade mundial em negar a prática da vacinação. Seria muito oportuno que os meios de comunicação, conjuntamente com os gestores públicos, começassem a trabalhar na publicidade dos boletins epidemiológicos junto à população, para trazer uma consciência holística a respeito dos riscos de reincidência de doenças, as quais já poderiam estar até erradicadas.

É fundamental considerar que algumas doenças, como a Febre Amarela, são endêmicas, estão presentes em várias regiões do Brasil e do mundo. Outras, como a Tuberculose, jamais deixaram de marcar presença nas sociedades, especialmente, no tocante aos sistemas carcerários superpopulosos, em virtude do surgimento da AIDS. De modo que, o controle de vacinação se faz necessário para evitar surtos epidêmicos severos entre a população, porque neles o foco inicial da doença se expande em uma velocidade assustadora para todo o conjunto social.

Esta, inclusive, é uma das razões pelas quais diversos países impõem nas suas normas sanitárias a exigência compulsória de apresentação da carteira de vacinação para ingresso em seus territórios. Trata-se de um dos mecanismos de barreira sanitária alfandegária, que contribui para a análise e proposição de medidas de controle no caso de um eventual surto de determinada doença. Isso facilita o rastreamento do agente infectocontagioso entre a população.

No que diz respeito ao COVID-19, acima de discussões políticas e ideológicas, talvez o que seja de fato necessário considerar é que as vacinas propostas estão longe da consagração pública que todas as demais já alcançaram ao longo do tempo. Ainda que todo o trabalho técnico e científico das empresas produtoras esteja amparado por extrema vigilância e regulação, tudo acontece concomitantemente a ampla elucidação sobre a doença em si.

O COVID-19 é um agente viral desconhecido. Portanto, os últimos meses foram dedicados a se conhecer profundamente o seu comportamento biológico, seus mecanismos de infecção e reinfecção, suas potencialidades em relação a mutabilidade gênica e, particularmente, os riscos de sequelas pós contato com o vírus; visto que, ele consegue impactar com severidade órgãos do sistema cardiovascular e respiratório, sistema renal e sistema neural por períodos relativamente longos, demandando tratamentos suporte. Portanto, ainda que as vacinas em curso sejam uma esperança na prevenção da COVID-19, as respostas não podem ser consideradas plenamente conclusivas.

Levando-se em consideração todas as expectativas criadas em torno delas quanto à retomada imediata do cotidiano em nível pré-pandemia, a verdade é que a cautela e as medidas sanitárias básicas propostas – uso de máscara, higienização constante das mãos, evitar aglomerações e contatos físicos – tenderão a persistir por um tempo não previsível. O que gera em muitos um sentimento de frustração e desalento em relação à vacinação; afinal, as outras já existentes mostraram-se uma solução quando aplicadas dentro dos critérios estabelecidos pelos sistemas de saúde. Mas, como isso não é uma receita de bolo, então...

O importante é estar atento as informações e as orientações disponibilizadas pelos órgãos oficiais de saúde, especialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a respeito do andamento da vacinação nos países que já iniciaram os processos, ainda que em nível emergencial. As vacinas autorizadas, as quais se saíram bem-sucedidas nas fases de testagem, agora ganham o espaço público fora dos laboratórios e podem reafirmar seus dados iniciais; bem como, trazer novas e importantes informações sobre o produto desenvolvido.

Enquanto aguarda-se o processo começar no país, analisar e refletir são palavras de ordem. Essas são as verdadeiras obrigações do cidadão antes de qualquer iniciativa. Porque o que se vê em qualquer esquina é uma baixíssima utilização do bom senso, do respeito mútuo, da solidariedade diante dos milhares que vieram a óbito pela COVID-19, da ausência de amor próprio.

Estamos diante da visão mais clássica da sociedade pós-moderna, ou seja, aquela que abraçou as transgressões para se abster de quaisquer obrigações. E o resultado se avoluma diante do nosso nariz. Na afronta ao sistema jurídico e normativo explode o caos da irresponsabilidade, da carnificina, da desorientação social, da involução. Assim, embora importantíssimas as informações e as decisões registradas no papel, se as palavras não forem devidamente absorvidas e incorporadas pelo cidadão, elas se tornam ineficazes. Antes dessa vacina é preciso encontrar um caminho que seja, realmente, capaz de recobrar a consciência humana sobre seu próprio senso de humanidade.


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