- https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/21-de-marco-dia-internacional-de-luta-pela-eliminacao-da-discriminacao-racial
- https://bvsms.saude.gov.br/21-3-dia-internacional-para-a-eliminacao-da-discriminacao-racial/
- https://www.unesco.org/pt/node/66691
- https://grupomulheresdobrasil.org.br/dia-internacional-de-luta-pela-eliminacao-da-discriminacao-racial/
sábado, 21 de março de 2026
21 de Março - Dia Internacional de luta pela eliminação da Discriminação Racial
sexta-feira, 20 de março de 2026
A marcha rumo à escassez hídrica global
A marcha
rumo à escassez hídrica global
Por
Alessandra Leles Rocha
Com uma população mundial estimada
em aproximadamente 8,3 bilhões de pessoas, vivendo sob a dinâmica e as consequências
do desenvolvimento urbanoindustrial, certas questões precisam ser pensadas e analisadas
com bastante critério.
Então, diante da proximidade com
o Dia Mundial da Água, a ser celebrado em 22 de março, decidi tomar essa
questão como o ponto de partida para essa reflexão.
O desenvolvimento urbano e
industrial tem levado ao esgotamento e à contaminação das reservas de água
limpa por meio da superexploração de aquíferos, da impermeabilização do solo
que impede a recarga natural, e do descarte de efluentes sem tratamento.
Esse cenário gera escassez
hídrica ao inviabilizar o uso da água, afetando mais de 4 bilhões de pessoas ao
redor do mundo.
Veja, a falta de água potável
segura já afeta mais de 1,2 bilhão de pessoas, principalmente no Sul Asiático e
na África Subsaariana.
Países como o Afeganistão, o Paquistão,
o Irã, a Síria, o Iêmen, a Etiópia e a Somália, além de áreas na Índia, China e
outras partes do Oriente Médio, enfrentam dificuldades extremas, diante das crises
hídricas e/ou pela contaminação de diversas fontes, limitando o acesso a água
limpa para seu público.
A contaminação da água no mundo,
portanto, impacta a sobrevivência humana de forma crítica, direta e desigual,
sendo um dos maiores desafios do século XXI.
O que significa que ela não é
apenas um problema ambiental ou biológico, mas um reflexo da desigualdade
social, da negligência institucional e da injustiça ambiental, onde as
populações vulneráveis pagam o preço mais alto.
Não é sem razão que milhões de
pessoas morrem anualmente devido a doenças veiculadas pela água tais como a cólera,
as diarreias, a hepatite A e a febre tifóide.
A contaminação por agrotóxicos e
metais pesados causa doenças crônicas
como câncer, disfunções
hormonais e problemas neurológicos.
Isso acontece devido ao fato de
que os processos convencionais das Estações de Tratamento de Água (ETA) e
Esgoto (ETE) foram projetados majoritariamente para remover matéria orgânica,
sólidos suspensos e coliformes fecais (bactérias), não sendo eficazes para
toxinas complexas ou contaminantes emergentes.
Desse modo, alguns patógenos são
resistentes aos processos biológicos e à cloração convencional, podendo sobreviver
ao tratamento e serem lançadas em corpos hídricos.
Em relação aos agrotóxicos, pesticidas
e/ou herbicidas, dada a sua composição complexa, eles passam direto pelos
tratamentos biológicos e físicos de decantação e filtração convencionais.
Mas, talvez, o pior seja em
relação aos metais pesados, tais como Chumbo, Cádmio, Mercúrio, que não são
biodegradáveis.
Eles se acumulam no lodo da ETE
ou passam pela ETA. A remoção exige processos físico-químicos específicos como
a precipitação e a troca iônica, que nem todas as estações possuem.
Além disso, não se pode esquecer que
além dos itens já apontados, os processos se mostram falhos em relação aos resíduos
de medicamentos, ou seja, antibióticos, antidepressivos, anticoncepcionais,
lançados inadvertidamente na rede pluvial e de esgoto, e os produtos de higiene
pessoal como microplásticos e os filtros solares.
Portanto, apenas o tratamento
primário, que é físico, e o secundário, que é biológico, não basta. É
necessário investir em filtração por membranas, ou seja, ultrafiltração, osmose
reversa, ozonização e/ou Processos Oxidativos Avançados (POAs) para degradar
agrotóxicos e eliminar os vírus.
Mas não bastasse esse cenário, a
oferta de água limpa no planeta está ameaçada também pela captação intensiva de
água subterrânea para abastecer indústrias e populações urbanas, causando o
rebaixamento do lençol freático e fazendo com que os poços sequem e os reservatórios
naturais demorem séculos para se recuperar.
Ao se considerar que a
industrialização na perspectiva do avanço tecnológico e da inteligência
artificial (IA) afeta radicalmente a já precarizada oferta de água limpa no
mundo contemporâneo, tem-se um catalisador imediato para a consolidação da
crise de escassez hídrica ainda no século XXI.
Talvez, muitos não saibam, mas a
IA facilita a transformação da água em um ativo financeiro ultra precioso.
Softwares de monitoramento
permitem que empresas privatizem a gestão hídrica com precisão matemática,
transformando o que deveria ser um direito humano em uma mercadoria
algorítmica.
Isso retira o controle da gestão
da água da esfera pública e entrega a algoritmos focados em lucro.
E a razão disso está no fato de
que a IA exige uma infraestrutura física massiva, com grandes Data Centers, os
quais consomem milhões de litros de água potável diariamente para resfriar os servidores.
Estima-se que os grandes centros
podem consumir até 5 milhões de galões, cerca de 19 milhões de litros/dia, o
equivalente ao uso de uma cidade de 10.000 a 50.000 pessoas, porque a água é
essencial para o resfriamento evaporativo, sendo o método mais barato do que o
uso de eletricidade para dissipar o calor gerado pelos servidores.
Isso cria um conflito
distributivo, a água que abastece as comunidades locais é desviada para manter
a nuvem cibernética.
De modo que tudo isso representa,
então, a priorização do capital digital sobre as necessidades biológicas
básicas, ou seja, um fator de transformação nas relações de poder e cidadania.
A instalação de data centers em
regiões de escassez hídrica gera uma competição direta com o abastecimento
público e a agricultura.
Assim, o esgotamento de fontes
locais aumenta o risco de doenças em comunidades com acesso já precário à água.
Dizia o médico e escritor João Guimarães
Rosa, “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor
quando acaba”.
Então, se quiser ter uma dimensão
do que pode acontecer à humanidade por conta desse movimento de escassez
hídrica em curso, basta disposição para parar, pensar e refletir.
Se precisar de auxílio, assista aos seguintes filmes: Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que mostra um futuro pós-apocalíptico onde a água é controlada por tiranos, Wall-E (2008), uma animação que retrata uma terra coberta de lixo e sem recursos naturais, incluindo água, 007 - Quantum of Solace (2008), que aborda a privatização e o controle da água como tema central de um golpe político, e Waterworld - O Segredo das Águas (1995), que retrata a escassez de água doce potável, A Lei da Água (2015), documentário que foca no Código Florestal Brasileiro e sua relação direta com a crise hídrica no Brasil, O Futuro das Águas: Desafio do Século (2022), documentário que trata da competição global pela água potável e os riscos de conflitos.
quarta-feira, 18 de março de 2026
O petróleo ... Sempre o petróleo
O
petróleo ... Sempre o petróleo
Por
Alessandra Leles Rocha
Segundo o dito popular, “Recordar
é viver”! Então, mãos à obra.
A relação entre a humanidade e o
petróleo se inicia entre a segunda metade do século XIX e o início do século
XX, com a Segunda Revolução Industrial. A princípio o papel dele era produzir
querosene em substituição ao óleo de baleia e o carvão para iluminação. Somente
a partir da invenção do motor a combustão interna e o desenvolvimento da
indústria automobilística é que o petróleo passou a ser refinado para obter
gasolina e diesel, tornando-se a principal fonte de energia para transportes.
Então, a partir do século XX,
especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo se tornou a principal
fonte de energia e matéria-prima do mundo. O que significa que a economia
mundial passa a ser refém do preço do barril de petróleo. Por consequência, a
cada alta dos preços dos barris há um arrepio global pelo risco do descontrole
da inflação; posto que, aumentam o custo de produção e transporte de quase
tudo. Além disso, a disputa pelo controle das reservas de petróleo molda os
humores da geopolítica do planeta.
Aí, na década de 1970, o mundo
assiste estarrecido à grande crise do petróleo. Na verdade, dois grandes eventos,
um em 1973 e outro em 1979, colocaram fim à era de crescimento acelerado do
pós-guerra no Ocidente.
Em outubro de 1973, Egito e Síria
atacaram Israel, fato que levou os países árabes membros da OPEP (Organização
dos Países Exportadores de Petróleo) a impor um embargo de petróleo aos EUA,
Holanda e outros aliados de Israel. Tal atitude da OPEP afetou drástica e
intencionalmente a produção, resultando em escassez global e quadruplicando o
preço do barril, naquela ocasião.
Depois, em 1979, com a derrubada
do Xá Reza Pahlevi e a ascensão do aiatolá Khomeini, no Irã, um dos maiores
produtores globais de petróleo, houve pânico no mercado e uma nova paralisação
na produção. Mas, não bastasse isso, em 1980, a guerra entre o Irã e o Iraque manteve
a oferta baixa e os preços altos durante o início daquela década.
De modo que foi dessa maneira que
o planeta descobriu a face difícil do petróleo. A combinação inédita de alta
inflação, devido ao aumento de preços, e a estagnação econômica com recessão e
desemprego, atingiu os países. Tudo muito bem acompanhado por longas filas em
postos de combustível, devido ao racionamento e ao aumento vertiginoso do preço
da gasolina.
Era o ponto de mutação para a indústria
automobilística, com o fim da era dos carros grandes e gastadores, produzidos
pelos americanos. A indústria passou a fabricar carros menores, mais leves e
econômicos, popularizando os motores de 4 cilindros.
Mas, certamente, o grande impacto
decorrente dessa grande crise foi a busca por alternativas energéticas. Sim, diante
da fragilidade exposta pela dependência de uma única fonte, houve um grande
incentivo ao uso de energia nuclear, hidrelétrica e pesquisas em fontes
renováveis como a solar e a eólica.
Fato que, no Brasil, resultou no
surgimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, incentivando
carros movidos a etanol para reduzir a dependência da gasolina. Sobretudo,
porque os países em desenvolvimento, no qual se enquadra o Brasil, viram sua
dívida externa disparar. Afinal, eles pagaram mais caro pelo petróleo e o
capital ficou mais caro internacionalmente, gerando uma década perdida, marcada
pela estagnação econômica, a hiperinflação e a crise da dívida externa.
Contudo, o mundo parece não ter
aprendido com a história. A recente escalada militar entre EUA e Israel contra
o Irã, com bombardeios e ameaças de bloqueio no Estreito de Ormuz pelos
iranianos, considerando que esse é o local por onde passa 20% do petróleo
mundial, está gerando uma nova crise energética severa. A disparada nos preços
dos barris já está em curso. A alta no petróleo ameaça frear a economia
mundial, com forte pressão inflacionária nos EUA e outros países, incluindo o
Brasil.
O choque no preço da energia
encarece os combustíveis, o transporte e os produtos fabricados. Isso pressiona,
então, os bancos centrais a manterem as taxas de juros elevadas por mais tempo
para fortalecer a inflação, prejudicando o crescimento econômico e aumentando o
risco de estagflação, ou seja, estagnação econômica, com baixo ou nulo
crescimento do PIB e alto desemprego, com inflação elevada.
Sem contar que a instabilidade
geopolítica gera uma fuga de recursos de mercados emergentes para ativos
seguros. Então, no Brasil, ocorre a valorização do dólar, encarecendo
importações e repassando o aumento do petróleo para o preço final dos
combustíveis na bomba. Além disso, apesar de o Brasil ser exportador líquido de
petróleo, o impacto negativo é sentido nos custos da cadeia produtiva a partir
do frete, dos insumos, dos fertilizantes.
Portanto, qualquer crise relativa
ao petróleo é uma crise global. O mundo sofre as consequências. O que significa
que vivemos em uma sociedade de risco. A economia mundial é um sistema
integrado e, diante do fato de que o petróleo é a base da matriz energética e
do transporte, uma crise na sua oferta não é um evento isolado, mas um efeito
dominó que afeta desde o preço da comida até a estabilidade política de nações
distantes.
Sim, vivemos em uma era onde os
riscos econômicos, ambientais e energéticos não respeitam fronteiras. Uma
decisão ou conflito em um ponto do globo gera consequências inevitáveis e
incontroláveis para
todos, evidenciando a dimensão dos impactos sobre as instituições nacionais frente aos fluxos globais.
Por isso, é preciso equilíbrio e
discernimento para transpor qualquer crise relativa ao petróleo. Em momentos de
instabilidade no setor petrolífero, o equilíbrio emocional e técnico é o que
separa uma gestão de danos eficiente de um desequilíbrio generalizado. É dessa
forma que o discernimento entra para filtrar o que é oscilação real de mercado do
que é meramente especulação financeira ou alarmismo midiático. Veja, sem essa
clareza, o pânico se torna um combustível muito mais perigoso do que a própria
falta de óleo, gerando corridas aos postos, inflação preventiva e paralisia
econômica.
Daí a importância fundamental da comunicação transparente e proativa pelas autoridades para conter especulações e o pânico socioeconômico durante crises no setor de petróleo. A transparência não significa esconder ou minimizar a realidade, mas sim mostrar que as autoridades estão agindo com fatos, competência e planejamento para proteger o consumidor final. Não se pode esquecer de que a confiança do cidadão é o ativo mais importante em qualquer crise.
terça-feira, 17 de março de 2026
Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos
Territorialidade
de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos
Por
Alessandra Leles Rocha
Há alguns dias eu escrevi um
texto falando sobre a territorialidade de risco; mas, a fim de não o tornar
muito extenso, optei por desmembrar uma parte muito importante, a qual diz
respeito à prática do aterramento de áreas de fundo de vale ou de erosão com resíduos
sólidos, presentes em zonas urbanas ou não.
Bem, até o início do século XX,
essa era uma prática esporádica, que acontecia em pequenas erosões rurais ou
periurbanas. No entanto, entre as décadas de 1950 e 1970, com o crescimento da
urbanização no Brasil, a falta de saneamento básico e a precariedade da gestão
de lixo, as voçorocas urbanas foram usadas como lixões ou aterros informais
para lixo doméstico e entulho.
Acontece que essa dinâmica persistiu
e, apesar da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) tê-la
tornado ilegal, infelizmente, ela ainda ocorre, especialmente em áreas
periféricas, devido ao fato de muitos gestores públicos acreditarem que o baixo
custo dessa prática é mais vantajoso, do ponto de vista orçamentário, do que a
realização do tratamento da erosão pela engenharia geotécnica.
Só que não. Primeiro, porque esse
tipo de preenchimento representa uma intervenção profunda na geografia e na
geologia do local. Veja, as voçorocas ou áreas de erosão são formadas por água
subterrânea e superficial, ou seja, pelo lençol freático exposto, decorrente da
perda da cobertura vegetal, principalmente, por desmatamento e queimadas. Desse
modo, os resíduos preenchem o espaço; mas, são incapazes de conter a água. Como
resultado tem-se o entupimento do fluxo natural, criando uma represa
subsuperficial assustadora.
Segundo, porque o uso de entulho
de construção civil, de resíduos industriais ou do próprio lixo doméstico para
o preenchimento traz riscos seríssimos. Começando pelos metais pesados, tintas
e solventes que se infiltram diretamente no lençol freático, já que a voçoroca
é uma exposição profunda do solo. Depois, a presença de materiais orgânicos que
leva a um processo de decomposição desses, gerando vazios internos, os quais
podem causar a desestabilização do terreno aterrado. Por fim, esse descarte
inadequado impede uma drenagem correta da água, criando outras frentes de
erosão nas bordas do aterro.
Isso significa que esse tipo de material
comumente usado não possui coesão. Então, sendo exposto ao peso de eventuais
edificações, o solo cede, causando rachaduras e colapsos. Assim, ao ignorar a
dinâmica hídrica e geológica, o que deveria ser uma solução urbanística se
transforma em uma área de risco iminente.
Um episódio clássico foi o
conjunto habitacional Cingapura Zaki Narchi, na Zona Norte de São Paulo, construído
na década de 1990, com o propósito de substituir as habitações precárias por
edifícios verticalizados, atendendo cerca de 700 famílias. Porém, não se levou
em conta que ele foi construído em área de antigo lixão, gerando a percolação do
metano pelo solo até a superfície e, portanto, os riscos de explosão devido ao
acúmulo de gás no subsolo.
A concentração de metano no
subsolo dos 140 apartamentos térreos atingiu níveis extremamente perigosos,
incluindo explosão, de modo que a Prefeitura de SP instalou 20 drenos para
aliviar a pressão do gás e evitar uma evacuação dos moradores, afirmando ter
resolvido o problema em novembro de 2011. No entanto, embora tenha sido
relatado a mitigação do risco imediato com os drenos, a situação no local permanece
sob observação devido à natureza do subsolo.
E esse não é o único caso, embora
não exista um levantamento nacional estatístico exato para contabilizar o
número de ocorrências de instabilidade em áreas urbanas, decorrentes do
aterramento de voçorocas com resíduos sólidos no Brasil. Além disso, é preciso lembrar
de que a situação é muitas vezes agravada pela combinação de terrenos
acidentados, alta intensidade de chuvas e o lançamento irregular de diferentes resíduos,
comprometendo a estabilidade das áreas aterradas.
Haja vista a situação das áreas
aterradas com resíduos sólidos e entulho na Região Metropolitana de Belo
Horizonte (RMBH), as quais apresentam riscos geológicos elevados, especialmente
durante o período chuvoso. A combinação de solo instável, acúmulo de lixo e
infraestrutura de drenagem insuficiente causa desmoronamentos e erosões graves
que ameaçam a segurança da população.
Seja como for, o fato é que essas
áreas quando ocupadas ou urbanizadas tornam-se, portanto, zonas de alto risco
de acidentes e contaminação. Porque além da instabilidade física do terreno,
esse aterramento causa poluição hídrica e do solo, gerando sérios riscos à
saúde pública. Não só pelo acúmulo de lixo atrai animais como ratos, baratas,
escorpiões e mosquitos, elevando casos de dengue e outras zoonoses; mas, pelo
fato de que a decomposição de certos resíduos, nesses locais, pode liberar
gases e partículas tóxicas, causadoras de doenças graves.
Daí a importância da discussão crítico-reflexiva
sobre esse assunto, pela população brasileira, na medida em que sob a ótica da
territorialidade de risco, essa prática consolida vulnerabilidades diversas. Portanto,
essa prática transforma áreas erosivas em territórios de risco habitacional e
sanitário, onde uma população local, muitas vezes de baixa renda, vive em
ambiente degradado e insalubre, intensificando a desigualdade socioambiental no
país.
É fundamental ter em mente que a insalubridade de uma área de risco, seja ela urbana ou não, compromete a salubridade de toda a região afetada. Porque o ambiente daquele espaço geográfico funciona como um sistema interconectado, onde problemas localizados em regiões vulneráveis geram impactos que se propagam por todo o território através de vetores biológicos, ambientais e sociais.
O Oscar não nos define!
O Oscar
não nos define!
Por
Alessandra Leles Rocha
É isso mesmo! Por quê precisamos
da legitimação internacional para celebrar a nossa cultura?! Essa é a pergunta
que temos que fazer hoje, amanhã, depois, sempre. Porque romper as bolhas,
expandir as fronteiras, intercambiar pontos de vista, é nisso que reside a
força sociocultural brasileira.
Apesar de estarmos em pleno
século XXI, não podemos fingir que o mundo não vive sob a influência
imperialista, monopolista, egocentrista, ... porque essa é uma verdade fática. E
o cinema faz parte do mundo, por isso, ele também é afetado por essas questões.
Os olhos que acompanham as
atuações, as produções e as exibições públicas, no cenário internacional, de
certa forma ainda estão contaminados por certos vieses ideológicos, os quais
possibilitam a construção de senões aos filmes que estão fora do espectro
dominante da cinematografia mundial.
Desse modo as escolhas não são, então,
pautadas basicamente por questões técnicas. Cada corpo de jurados traz consigo
crenças, valores, convicções, interesses, simpatias, que acabam por esgarçar o
seu processo decisório, afastando-os de um posicionamento mais ético e isento.
Nesse sentido, inclusive, é
importante destacar o papel lobista que atua sobre a dinâmica cinematográfica.
Infelizmente, o lobby do cinema nas premiações não é apenas uma estratégia de
marketing, mas um mecanismo de reprodução de poder e consagração da dominância cultural.
Por isso, não cabe ingenuidade na
análise dos acontecimentos. Quando grandes estúdios investem milhões para
influenciar os votantes, eles transformam o mérito artístico em uma extensão do
capital econômico e social, com o único propósito de garantir que o sucesso se
concentre nos mesmos grupos.
Além disso, o prêmio é uma
ferramenta de marketing que aumenta o valor do filme e a empregabilidade dos
envolvidos, reforçando uma estrutura de classes dentro da indústria
cinematográfica.
Assim, em linhas gerais, o alto
custo das campanhas lobistas atua como uma barreira para filmes independentes
ou de países fora do eixo tradicional; bem como, se encarrega de negligenciar
quaisquer narrativas que fujam do padrão cinematográfico tradicional ou
vigente.
Para isso, não é incomum que o
lobby, muitas vezes, envolva campanhas difamatórias ou desqualificantes contra
concorrentes, modificando a escolha artística em um processo puramente político
e estratégico. Como já aconteceu na história do cinema.
Caro (a) leitor (a), daí a importância
de entender que a manifestação da cultura é, antes de tudo, uma expressão
interna, uma relação direta com seu próprio povo. Só depois, é que ela pode ser
compartilhada com o externo, com o mundo, porque aí ela já está fortalecida,
enriquecida pela própria identidade nacional.
E nesse momento, então, a sua
aclamação ou a sua incompreensão pelo estrangeiro pode ser decodificada de uma maneira
adequada e satisfatória. Por isso, mesmo tensionada, sob a pressão externa, as crises
econômicas ou os conflitos internos, a cultura se adapta e resiste porque não é
algo que se possui, mas algo que se é.
Então, munida dessa
impessoalidade para analisar os acontecimentos, sem precisar dessa ou daquela legitimação
alheia para se sentir confortável, plena e feliz, ela se mantém. Porque a cultura
é capaz de incorporar quaisquer elementos dos eventuais contratempos e se
transformar, mantendo intacto o seu núcleo identitário.
Assim, o maior prêmio para quaisquer manifestações ou expressões culturais é a capacidade de realizar, de dar vida às ideias, aos projetos, gerando uma conexão coletiva inimaginável. Aí, nesse instante, ela deixa de pertencer apenas ao criador e passa a dialogar com a sociedade de maneira plena, inteira e extraordinária.
quinta-feira, 12 de março de 2026
Pesquisas políticas ... bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?
Pesquisas
políticas ... bússola ou oráculo para a
sociedade contemporânea?
Por
Alessandra Leles Rocha
Não há como negar, o tempo todo a
sociedade contemporânea é bombardeada por pesquisas e dados. São tempos da racionalização,
ou seja, da necessidade de medir, calcular e prever o comportamento humano para
que nos sintamos seguros ou informados.
Assim, além da tradicional pesquisa
de opinião, a contemporaneidade é marcada pela valorização da pesquisa baseada
em comportamento, dados reais e experiências. Como se a pesquisa tivesse se
transformado em bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea.
Mas, quando a pesquisa se dedica à
análise do campo político atual, ela assume um caráter predominantemente empírico-analítico
e pós-estruturalista.
Isso significa que a pesquisa
empírico-analítica foca em dados que podem ser observados, medidos e testados,
buscando a objetividade e a neutralidade.
Enquanto a pesquisa
pós-estruturalista questiona a ideia de verdade absoluta ou da objetividade
total, concentrando-se em como a linguagem, o poder e a cultura moldam o que
chamamos de realidade.
Por essas e outras é que nenhum
estudo é puramente neutro ou perfeito. O resultado de uma pesquisa é moldado
por fatores que acontecem tanto dentro quanto fora do controle do pesquisador.
Veja, por exemplo, as escolhas
feitas no desenho do estudo. Se a
amostra for pequena, se as perguntas do questionário forem indutivas ou se
houver falhas na análise dos dados, o resultado será afetado.
Também, as pressões do mundo
real, quem financia, os prazos apertados, os interesses políticos e/ou as mudanças
súbitas no cenário socioeconômico enquanto a pesquisa ocorre, podem enviesar
tendenciosamente o resultado.
Sem contar que a escolha do próprio
pesquisador aponta para o fato de que ele traz consigo crenças e vivências que
podem sim, adicionar influências à interpretação dos fatos, mesmo que ele tente
ser imparcial.
Feitas essas breves considerações
e pensando objetivamente nas pesquisas políticas, não é difícil entender,
então, a dimensão do peso relativo ao momento ou ao recorte temporal em que uma
pesquisa é realizada.
Ora, ele representa o fator
crítico que determina se uma pesquisa eleitoral pode ser considerada um raio-X
preciso da opinião pública ou apenas um registro obsoleto de uma percepção
volátil.
Por isso, pesquisas políticas não
preveem o futuro, elas apenas mapeiam tendências em um tempo e espaço
específicos. Como uma fotografia estática de uma realidade política fluida, dinâmica;
posto que, o momento da coleta define o quanto essa foto poderá, de algum modo,
se assemelhar ao resultado esperado.
E as razões disso são óbvias. A começar
pelo fato de que a vida é instável e uma série de acontecimentos (im)previsíveis
podem mudar o curso da história diariamente.
Desse modo, no caso da política, eventos
de grande impacto, tais como um debate, uma denúncia, um escândalo, uma decisão
judicial, podem mudar drasticamente a opinião do cidadão sobre alguma questão ou
a sua intenção de voto. Uma pesquisa feita 10 dias antes da eleição, por
exemplo, pode não captar uma mudança de tendência de última hora.
A realidade do resultado,
expressa pela opinião do entrevistado, é afetada pela vida útil e o tipo de informação
que foi absorvida pela memória do eleitor. Daí os entrevistados serem voláteis,
estarem sujeitos as mudanças. O que explica, também, a razão da existência de alto
índice de indecisos ou votos em branco ou nulo.
Mas, não se pode negligenciar a existência
de eventos extremos globais, tais como crises climáticas, pandemias, desequilíbrios
econômicos e/ou guerras, que são capazes de gerar o chamado efeito de
transbordamento, afetando a percepção do cidadão.
Quando ocorre um desastre global,
por exemplo, o cidadão tende a projetar o medo do macro no micro. Então, em
pesquisas políticas, isso se traduz em uma busca por figuras de autoridade ou lideranças
que transpirem uma credibilidade capaz de garantir proteção e ordem, mesmo que
o problema local seja diferente do global.
Não é à toa que tais eventos podem
servir tanto como cortina de fumaça quanto bode expiatório, no âmbito das
pesquisas. Afinal, enquanto alguns podem ser mais tolerantes com as falhas do
governo local ao acreditarem que o mundo todo está em crise, outros podem punir
o político local por problemas globais, ignorando a falta de controle dos
gestores externos sobre o evento.
Por isso, um evento extremo pode
sim, mudar o que o cidadão considera importante. Se há uma crise global de
saúde, pautas locais, tais como reforma urbana e inclusão escolar ou cultural,
perdem peso na avaliação política. O cidadão passa a julgar o candidato
exclusivamente pela sua capacidade de gestão de crise.
Desse modo, a percepção do indivíduo
deixa de ser fruto apenas da sua vivência imediata e passa a ser mediada por
eventos distantes, tornando a opinião pública local muito mais volátil e
imprevisível.
Inclusive, ele pode responder a
uma pesquisa baseada em polarizações globais em vez de focar em problemas
específicos do seu bairro, da sua cidade ou do seu estado.
Assim, lembre-se: as pesquisas não
são, e nunca serão, uma bola de cristal, uma ferramenta de futurologia, para
serem utilizadas para monitorar uma sociedade cada vez mais complexa,
fragmentada e volátil.
Uma pesquisa reflete o que o
eleitor pensou ontem, mas não garante o comportamento de amanhã, especialmente
com a rapidez das redes sociais e o visível aumento da polarização e das
mudanças nos hábitos de comunicação que dificultam a criação de amostras sociais
que sejam efetivamente perfeitas.
Além disso, fenômenos como o voto
envergonhado ou a recusa em participar de pesquisas tendem a ampliar a distorção
dos dados, impedindo que eles reflitam a totalidade e a sinceridade do
pensamento das partes interessadas.
segunda-feira, 9 de março de 2026
“A pressa é inimiga da perfeição”
“A pressa
é inimiga da perfeição”
Por
Alessandra Leles Rocha
Quem já não ouviu que “a
pressa é inimiga da perfeição”? Parece que, no Brasil contemporâneo, uns e
outros da política-partidária nacional optaram por negligenciar o tal dito
popular. Pena, porque as consequências podem ser desastrosas!
Não é de hoje que certos
representantes político-partidários brasileiros, ligados à Direita em seu amplo
espectro, defendem a equiparação de facções criminosas a grupos terroristas,
alinhando-se a interesses dos EUA.
E o motivo é fácil de
compreender, ou seja, os EUA pretendem equiparar as facções criminosas a grupos
terroristas para facilitar bloqueios de bens, monitorar movimentações
financeiras e ambientais; mas, principalmente, autorizar o uso de forças
militares estadunidenses em solo brasileiro.
De modo que, não precisa ser
nenhum gênio para entender que toda essa questão afeta diretamente a soberania
nacional, o ano eleitoral, a exacerbação da polarização político-partidária, a violência
política, na medida em que se permitiria a ocorrência de intervenções
estrangeiras, pressões econômicas e o uso de força militar estadunidense no Brasil.
Acontece que, para surpresa de
zero pessoas, a vida é dinâmica, instável e atravessada constantemente pelo
inesperado, pelo insólito. Recentemente, em agosto de 2025, a Receita Federal, juntamente
com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e a Polícia Federal (PF),
realizou a Operação Carbono Oculto que desarticulou uma rede criminosa
bilionária, a qual utilizava postos de combustíveis e fintechs para
lavar dinheiro, com foco em importante organização criminosa da capital paulista.
A grande questão é que a referida
operação atingiu as cúpulas de partidos de direita e do centrão. Com
movimentações de aproximadamente R$ 50 bilhões, a delação de certos
investigados apontou gastos com parlamentares, viagens aéreas em aviões de
elementos da rede criminosa, gerando prejuízos no capital político e divisões
internas nessas legendas, em razão do envolvimento de alguns de seus membros.
Mas, se apenas esses fatos já
seriam ruins, o que dizer quando essa operação se entrelaça com outros recentes
escândalos nacionais, tais como o do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)
e o do Banco Master, hein? É, a Polícia Federal (PF) apura a existência de dados
entre o caso do Banco Master, as fraudes no INSS e a operação Carbono Oculto,
suspeitando de que fundos de investimento usados na
lavagem de dinheiro dos combustíveis também tenham ligação com
lobistas investigados no escândalo do
INSS.
E em meio a esse cenário apocalíptico,
eis que surge uma matéria jornalística 1,
na qual uma fonte do mercado financeiro, que acompanhou as negociações, apresentou
documentos que sustentam uma denúncia de que o Banco Master foi comprado com
dinheiro de narcotraficante espanhol, que já fora condenado por lavagem de
dinheiro e tráfico internacional de drogas.
Assim, em linhas gerais, o que parece
claro é que uma eventual equiparação de facções criminosas a grupos
terroristas, no Brasil, para satisfazer aos interesses dos EUA, tem potencial
concreto de provocar uma exposição inimaginável das personagens envolvidas nessa
trama policial em curso, sobre as quais não há uma lista conclusiva. O modo
como os acontecimentos têm se desenrolado, até aqui, sinaliza que pode haver
muito mais gente do espectro político-partidário da Direita e do Centrão, do
que aqueles já noticiados.
Sem contar que ao mexer nos
interesses das facções criminosas, lucro econômico e controle territorial para
mercados ilícitos, para enquadrá-las em facções terroristas, que visam
objetivos políticos, ideológicos ou religiosos, não se pode cravar qual será o
comportamento dos envolvidos. Portanto, não dá para descartar a possibilidade de
aumentar o uso de delações premiadas para atingir financiadores e líderes, o
que potencialmente incriminaria muito mais indivíduos de alta esfera social.
sábado, 7 de março de 2026
Lembre-se: “Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia Woolf)
Lembre-se:
“Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia
Woolf)
Por Alessandra
Leles Rocha
FORTE. GUERREIRA. DESTEMIDA. DETERMINADA.
RESILIENTE. INTELIGENTE. SÁBIA. LÍDER. VISIONÁRIA. ASSERTIVA. CRIATIVA.
INOVADORA. INSPIRADORA. DEDICADA. AMOROSA. TRABALHADORA. GENTIL. SOLIDÁRIA. CORAJOSA.
COMPREENSIVA. PODEROSA. INCRÍVEL.
MARAVILHOSA. ENCANTADORA. EXTRAORDINÁRIA. FASCINANTE. MANDONA. PASSIONAL.
FRÁGIL. INSEGURA. OUSADA. ...
Esses são apenas alguns adjetivos
comumente atribuídos às mulheres. Acontece que cada uma dessas palavras
representa, na verdade, um rótulo, um estereótipo, uma chancela, para a existência
feminina no mundo. Como se subliminarmente fosse estabelecido que uma mulher
para ser alguém, de fato e de direito, precisa desse tipo de legitimação
social.
Veja, legitimar socialmente uma
mulher significa o processo pelo qual determinados papéis, comportamentos ou
direitos femininos tornam-se aceitáveis, naturais ou corretos aos olhos de uma
comunidade. Daí o papel dos adjetivos. Eles atuam como um código de conduta que
define quais comportamentos são aceitáveis ou
valorizados em determinados espaços.
Por isso, a linguagem não serve apenas
para descrever a realidade. No fundo, o que ela faz é moldar o poder. A forma
como adjetivamos as mulheres, então, está diretamente relacionada à deslegitimação
feminina por meio da estereotipização.
Como se a linguagem instrumentalizasse
o uso de padrões comunicativos para invalidar a autoridade, o intelecto ou o
protagonismo das mulheres, reforçando as posições de poder que elas deveriam ocupar.
Haja vista, por exemplo, quando
uma fala feminina é rotulada como emocional, ou excessiva,
o que se tem é um processo de silenciamento estrutural que exclui as mulheres
de espaços de decisão, poder
e saber.
Essa estereotipização linguística
naturaliza a ideia de submissão e inferioridade, como um carimbo que ignora as
especificidades individuais para manter o grupo feminino em uma posição
subordinada.
Além disso, a desvalorização da
forma como as mulheres se expressam é uma forma de violência moral e
psicológica. Capaz de criar barreiras no mercado de trabalho e na liderança
social, pois a fala feminina é pré-julgada antes mesmo de seu conteúdo ser
avaliado.
Por isso, é tão necessário compreender
que os adjetivos usados historicamente
para
descrever as mulheres raramente são neutros.
A verdade é que eles funcionam como ferramentas de controle social e manutenção de posições de gênero.
Às vezes, servindo para manter o status
quo, onde o homem detém o monopólio da razão e da objetividade. Outras, reduzindo
a mulher à sua função biológica ou estética para o prazer alheio, facilitando a
desumanização e a violência a partir da sua objetificação e/ou sexualização.
Mas, o objetivo final é sempre o mesmo,
ou seja, definir quem pertence ao centro da sociedade e quem deve permanecer na
periferia, na marginalização.
E pensando sobre isso, não pude
deixar de resgatar o fato de que a literatura mundial, por exemplo, durante séculos
de hegemonia masculina, utilizou adjetivos não apenas para descrever as mulheres,
mas para delimitar seus papéis sociais e controlar sua subjetividade.
Que tal relembrar Anna Karenina de
Liev Tolstói, Capitu de Machado de Assis ou Madame Bovary de Gustave Flaubert? Elas
nos permitem visualizar o modo como a escrita masculina frequentemente oscilou
entre dois extremos para simplificar a complexidade feminina, ou seja, a
recatada ou a devassa.
Em outros clássicos, como Helena
de Troia na Ilíada de Homero, Penélope na Odisseia de Homero, Dulcinéia del
Toboso em Dom Quixote de Miguel de Cervantes, a mulher é tratada como um objeto
de troca ou um troféu de status para o homem.
A adjetivação, nesses casos, foca
no que ela provoca no observador masculino, e não no que ela sente ou pensa. Nesse
sentido, ao rotular a mulher como desprovida de lógica, a literatura masculina
legitima a manutenção feminina sob a tutela masculina.
De modo que foi graças à ascensão
da escrita literária feminina, com Virginia Woolf e Elaine Showalter, por
exemplo, é que esses adjetivos passaram a ser vistos como ferramentas de
construção de gênero, e não biológicos.
Esse salto crítico e reflexivo
permitiu que a literatura contemporânea, escrita por mulheres, não somente buscasse
re-adjetivar a experiência feminina, como deslocasse a mulher da posição de objeto,
como era descrita pelo olhar masculino, para a posição de sujeito da sua
própria história.
Assim, a escrita feminina rompe
isso ao apresentar mulheres complexas, contraditórias e reais. Ao assumirem o
protagonismo literário, essas mulheres trazem a experiência do corpo, do gênero
e da classe para moldar a narrativa.
Desse modo, temas antes
silenciados ou negligenciados pelos homens, tais como o trabalho doméstico, a
maternidade real, o prazer feminino e a violência de gênero, ganham status de
literatura séria, forçando uma revisão do que é considerado universal na arte.
Seja no Brasil ou no mundo, então,
o papel revolucionário das mulheres na literatura é que tem impulsionado todo o
processo de desconstrução dos impactos nefastos oriundos da linguagem, oferecendo
novas perspectivas essenciais à compreensão humana e da sociedade.
Elas têm utilizado a escrita,
cada vez mais, para combater preconceitos e subalternidades, criando espaços de
resistência. Diferentemente das fases anteriores, a literatura contemporânea tem
buscado focar na expressão da experiência genuína de ser mulher, sem se
preocupar com o crivo masculino.
A literatura de autoria feminina,
portanto, não apenas tem relatado, mas moldado a identidade da mulher no
cenário contemporâneo, a partir do desafio aos discursos antigos e da ampliação
dos horizontes socioculturais mundo afora.
Territorialidade de Risco
Territorialidade
de Risco
Por Alessandra
Leles Rocha
Ao contrário do que o ser humano
gostaria, o espaço geográfico tem suas próprias regras. É desse contexto que
emerge, portanto, a territorialidade de risco, ou seja, a produção e a vivência
de espaços urbanos marcados pela precariedade, insegurança e exclusão social,
onde populações marginalizadas habitam áreas sem infraestrutura, suscetíveis a
desastres ambientais e/ou a violência.
Em linhas gerais, essa relação
que se estabelece entre o espaço físico e as dinâmicas sociais, econômicas e
políticas expõe a população aos extremos da vulnerabilidade. Segundo matéria jornalística,
publicada há dois dias, “País tem atualmente 1.942 locais na lista dos mais
suscetíveis a ocorrências de deslizamentos e inundações” 1, o que leva de imediato à
necessidade de reflexão em torno da compatibilização entre as demandas habitacionais
e o uso e ocupação do solo.
Primeiro, porque a demanda por
habitação de interesse social (HIS) muitas vezes colide com as regras de uso e
ocupação do solo, que visam a proteção ambiental ou a organização urbana. A
rigidez no zoneamento urbano tende a excluir populações de baixa renda,
empurrando-as para a informalidade.
Assim, a compatibilização exige
que a política de uso do solo, através do Estatuto da Cidade (Lei n.º 10.257,
de 10 de julho de 2001), reconheça o direito à moradia, integrando a
regularização fundiária sustentável. Sobretudo, considerando que a ocupação
desordenada, seja das encostas ou das beiras de rios, gera supressão de
vegetação, assoreamento e erosão, agravando os riscos ambientais para os
próprios moradores.
Segundo, porque o risco ambiental
é uma construção social. Ele resulta da forma como a sociedade organiza o
território, priorizando certas áreas para valorização imobiliária enquanto
negligencia a segurança habitacional de áreas ocupadas por populações
vulneráveis. É nesse contexto que a segregação espacial leva a população de
baixa renda para as franjas urbanas ou terrenos considerados inaproveitáveis
pelo mercado imobiliário, mas que possuem alto valor de uso para quem não tem
alternativas de moradia.
Entretanto, é preciso salientar
também a presença de uma variável contemporânea importante, ou seja, os eventos
extremos do clima. Não se pode negar que há uma relação direta e estrutural entre
a territorialidade de risco e as injustiças climáticas, onde áreas precárias se
tornam locais de impacto desproporcional para populações desprivilegiadas.
A crise climática atua como um multiplicador
de ameaças, agravando tensões sociais, políticas e econômicas em territórios
vulneráveis, onde mulheres e crianças são desproporcionalmente afetadas. Morar
em áreas de risco significa enfrentar diariamente as ameaça de desastres, que
se intensificam com o clima, causando perda de habitação, insegurança alimentar
e migração forçada.
Por isso, tem se tornado cada vez
mais imperiosa a reflexão e a discussão sobre a
lógica do modelo de desenvolvimento atual, que prioriza o lucro e o crescimento
industrial, enquanto gera riscos químicos, ambientais e sociais, os quais não
são distribuídos igualmente, concentrando-se nas áreas periféricas. Além disso,
a falta de investimentos do Estado em infraestrutura, tais como saneamento,
habitação, drenagem, no território cria um cenário onde o risco é intencionalmente
delegado aos moradores, consolidando a exclusão territorial. De modo que o
estigma associado a certas áreas dificulta o acesso dos moradores a serviços
essenciais e oportunidades de emprego, isolando-os socialmente.
Dessa configuração, então, tem-se
uma sociedade de risco, onde a modernização produz perigos que afetam
desproporcionalmente os diferentes grupos populacionais, fazendo com que a territorialidade
passe a representar a expressão de poder, através dos usos e das relações
sociais que definem o sentido de vida, especialmente, nessas áreas de exclusão.
Que fique claro, risco não é
apenas um fenômeno natural, mas uma produção social. A produção da cidade sem
planejamento ambiental e socialmente inclusivo transforma eventos climáticos em
desastres sociais, concentrando o risco nas áreas mais desprovidas de
infraestrutura e proteção. Daí a urgência da integração de Planos Climáticos e de
planos de manejo de riscos com a regularização fundiária e o Direito à Cidade.
domingo, 1 de março de 2026
A Paz e seus relativismos
A Paz e
seus relativismos
Por Alessandra
Leles Rocha
Lamento, mas o ser humano não é
de paz. Ele é de guerra. Está intrínseco na sua essência a beligerância, o
conflito, a discórdia. Portanto, não se deixe enganar pelos discursos que tentam
justificar a guerra por uma tensão nuclear.
Não. Muito antes de 1945, dos bombardeios
atômicos em Hiroshima e Nagasaki, a belicosidade já transitava entre os seres
humanos. As páginas da historicidade não deixam dúvidas a respeito.
Por isso, é preciso analisar,
refletir, camada por camada, sobre esse assunto. Começando pela desigualdade. Esse
é o ponto de partida. Afinal, todo e qualquer conflito é marcado pelo desequilíbrio.
É sempre o mais forte contra
aquele que se considera mais fraco. Os oponentes nunca estão exatamente em pé
de igualdade. Seja em relação aos exércitos, as armas, as estratégias, à
disponibilidade de recursos financeiros, de apoios, ...
O que significa que os custos
humanos e sociais caem desproporcionalmente sobre as populações. Nesse sentido,
as guerras aprofundam, perpetuam a violência estrutural, derrotando o tecido
social e colocando o poder político-econômico acima da vida civil.
Basta olhar para certos conflitos
em curso na contemporaneidade. Mianmar. Síria.
Haiti. Iêmen. Sahel Africano (Mali, Burkina Faso e Níger). Guerra Civil no Sudão. Guerra Israel-Hamas na Faixa
de Gaza. Guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Por todos os lados, o que se vê é a
mais absoluta destruição.
De modo que ela precisa ser
compreendida como um traço do fracasso civilizatório do ser humano, ou seja, uma
ruptura do contrato social e um sintoma de tensão profunda na estrutura da
humanidade.
Quando a guerra se torna o meio
principal de resolução de conflitos, ocorre uma descivilização. O autocontrole
e as normas sociais dão lugar à barbárie, provando que as instituições falharam
em mediar as relações humanas de forma racional.
Além disso, é preciso entender que
a beligerância não decorre da busca por solucionar conflitos. Analisando fria e
pragmaticamente a história, a imensa maioria dos conflitos relatados foram motivados
por interesses estratégicos, econômicos, políticos e/ou disputas de poder, não pela
paz.
E dentro desse contexto, o que se
desdobra e reverbera é comumente os sentimentos de ódio, de destruição, de intolerância
e/ou do acirramento das disputas territoriais, desencadeados muito mais como
uma extensão de políticas ocultas do que um instrumento de resolução pacífica.
Por essas e outras é que o
pretexto da ameaça nuclear não se sustenta, na medida da sua assimetria. Ora, se
alguns países podem possuir arsenais nucleares, porque outros não podem?
Veja, a falta de armas nucleares
coloca muitos países em posição de vulnerabilidade, enquanto o equilíbrio do
terror entre as potências armamentistas impede conflitos diretos entre elas,
mas não resolve as ameaças regionais.
Assim, sem um desarmamento geral
e completo, a desigualdade entre países armados e não armados mantém o risco
nuclear perene. Esse é, portanto, o ponto que reafirma o impasse que atravessa a
resistência das potências globais ao desarmamento nuclear geral e completo.
Enquanto os proponentes do
desarmamento focam nas consequências humanitárias e na moralidade, os Estados
nucleares operam sob a lógica da sobrevivência em um sistema anárquico
internacional, onde as armas nucleares são vistas como o seguro final da sua soberania
estatal, um ato prudente e necessário para a sua autopreservação.
Acontece que, embora as armas
nucleares reduzam a probabilidade de uma guerra direta e total entre grandes
potências, elas tendem a aumentar a probabilidade de conflitos menores ou
indiretos, a partir da lógica de que os Estados se sentem protegidos contra uma
escalada total.
Portanto, os conflitos não
desaparecem. Eles são empurrados para países periféricos ou para o campo
diplomático e econômico, por estratégias como guerras por procuração, ou seja, ao
contrário de as grandes potências lutarem entre si, elas financiam e armam
facções em países menores.
No mesmo viés, eles promovem ataques
cibernéticos para sabotar infraestruturas críticas, roubar dados e causar danos
econômicos, superando eventuais barreiras físicas. Ou apoiam as insurgências, a partir do
financiamento, armamento e/ou treinamento de grupos rebeldes para
desestabilizar governos inimigos sem combate direto.
Diante disso, a geopolítica contemporânea
não deixa dúvidas de como a posse de armas de destruição em massa altera o
comportamento das nações no xadrez global, na medida em que transfere as agressões
dos campos de batalha diretamente para formas mais sutis e fragmentadas de
conflito, na ótica da relação custo-benefício.
Sim, porque considerando que o
custo da guerra nuclear é infinito, logo, as nações buscam o ganho marginal
através de pequenos conflitos. Então, como se vê, a síntese dessa construção é
simples, a humanidade vive, desde 1945, uma paz nuclear.
Trata-se, então, de uma paz
armada e desigual, na qual o medo da aniquilação total não é capaz de eliminar a
agressividade, a incivilidade, seja ela humana ou estatal. A partir de mecanismos
que forçam as nações a encontrarem caminhos menos diretos e mais complexos para
se manifestar.
Por isso, em plena
contemporaneidade, pouco mais de 8 bilhões de seres humanos são obrigados, à
revelia de suas vontades e queres, a permanecer vivendo sob o tempo da desinformação,
da espionagem e da guerra psicológica, explícita ou velada. A viver em um
estado de vigilância e tensão constante, mesmo sem o risco iminente de uma
bomba nuclear.








%20com%20res%C3%ADduos%20s%C3%B3lidos.jpg)





