sexta-feira, 20 de março de 2026

A marcha rumo à escassez hídrica global


A marcha rumo à escassez hídrica global

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Com uma população mundial estimada em aproximadamente 8,3 bilhões de pessoas, vivendo sob a dinâmica e as consequências do desenvolvimento urbanoindustrial, certas questões precisam ser pensadas e analisadas com bastante critério.

Então, diante da proximidade com o Dia Mundial da Água, a ser celebrado em 22 de março, decidi tomar essa questão como o ponto de partida para essa reflexão.

O desenvolvimento urbano e industrial tem levado ao esgotamento e à contaminação das reservas de água limpa por meio da superexploração de aquíferos, da impermeabilização do solo que impede a recarga natural, e do descarte de efluentes sem tratamento.

Esse cenário gera escassez hídrica ao inviabilizar o uso da água, afetando mais de 4 bilhões de pessoas ao redor do mundo.

Veja, a falta de água potável segura já afeta mais de 1,2 bilhão de pessoas, principalmente no Sul Asiático e na África Subsaariana.

Países como o Afeganistão, o Paquistão, o Irã, a Síria, o Iêmen, a Etiópia e a Somália, além de áreas na Índia, China e outras partes do Oriente Médio, enfrentam dificuldades extremas, diante das crises hídricas e/ou pela contaminação de diversas fontes, limitando o acesso a água limpa para seu público.

A contaminação da água no mundo, portanto, impacta a sobrevivência humana de forma crítica, direta e desigual, sendo um dos maiores desafios do século XXI.

O que significa que ela não é apenas um problema ambiental ou biológico, mas um reflexo da desigualdade social, da negligência institucional e da injustiça ambiental, onde as populações vulneráveis ​​pagam o preço mais alto.

Não é sem razão que milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças veiculadas pela água tais como a cólera, as diarreias, a hepatite A e a febre tifóide.

A contaminação por agrotóxicos e metais pesados ​​causa doenças crônicas como câncer, disfunções hormonais e problemas neurológicos.

Isso acontece devido ao fato de que os processos convencionais das Estações de Tratamento de Água (ETA) e Esgoto (ETE) foram projetados majoritariamente para remover matéria orgânica, sólidos suspensos e coliformes fecais (bactérias), não sendo eficazes para toxinas complexas ou contaminantes emergentes.

Desse modo, alguns patógenos são resistentes aos processos biológicos e à cloração convencional, podendo sobreviver ao tratamento e serem lançadas em corpos hídricos.

Em relação aos agrotóxicos, pesticidas e/ou herbicidas, dada a sua composição complexa, eles passam direto pelos tratamentos biológicos e físicos de decantação e filtração convencionais.

Mas, talvez, o pior seja em relação aos metais pesados, tais como Chumbo, Cádmio, Mercúrio, que não são biodegradáveis.

Eles se acumulam no lodo da ETE ou passam pela ETA. A remoção exige processos físico-químicos específicos como a precipitação e a troca iônica, que nem todas as estações possuem.

Além disso, não se pode esquecer que além dos itens já apontados, os processos se mostram falhos em relação aos resíduos de medicamentos, ou seja, antibióticos, antidepressivos, anticoncepcionais, lançados inadvertidamente na rede pluvial e de esgoto, e os produtos de higiene pessoal como microplásticos e os filtros solares.

Portanto, apenas o tratamento primário, que é físico, e o secundário, que é biológico, não basta. É necessário investir em filtração por membranas, ou seja, ultrafiltração, osmose reversa, ozonização e/ou Processos Oxidativos Avançados (POAs) para degradar agrotóxicos e eliminar os vírus.

Mas não bastasse esse cenário, a oferta de água limpa no planeta está ameaçada também pela captação intensiva de água subterrânea para abastecer indústrias e populações urbanas, causando o rebaixamento do lençol freático e fazendo com que os poços sequem e os reservatórios naturais demorem séculos para se recuperar.

Ao se considerar que a industrialização na perspectiva do avanço tecnológico e da inteligência artificial (IA) afeta radicalmente a já precarizada oferta de água limpa no mundo contemporâneo, tem-se um catalisador imediato para a consolidação da crise de escassez hídrica ainda no século XXI.

Talvez, muitos não saibam, mas a IA facilita a transformação da água em um ativo financeiro ultra precioso.

Softwares de monitoramento permitem que empresas privatizem a gestão hídrica com precisão matemática, transformando o que deveria ser um direito humano em uma mercadoria algorítmica.

Isso retira o controle da gestão da água da esfera pública e entrega a algoritmos focados em lucro.

E a razão disso está no fato de que a IA exige uma infraestrutura física massiva, com grandes Data Centers, os quais consomem milhões de litros de água potável diariamente para resfriar os servidores.

Estima-se que os grandes centros podem consumir até 5 milhões de galões, cerca de 19 milhões de litros/dia, o equivalente ao uso de uma cidade de 10.000 a 50.000 pessoas, porque a água é essencial para o resfriamento evaporativo, sendo o método mais barato do que o uso de eletricidade para dissipar o calor gerado pelos servidores.

Isso cria um conflito distributivo, a água que abastece as comunidades locais é desviada para manter a nuvem cibernética.

De modo que tudo isso representa, então, a priorização do capital digital sobre as necessidades biológicas básicas, ou seja, um fator de transformação nas relações de poder e cidadania.

A instalação de data centers em regiões de escassez hídrica gera uma competição direta com o abastecimento público e a agricultura.

Assim, o esgotamento de fontes locais aumenta o risco de doenças em comunidades com acesso já precário à água.

Dizia o médico e escritor João Guimarães Rosa, “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba”.

Então, se quiser ter uma dimensão do que pode acontecer à humanidade por conta desse movimento de escassez hídrica em curso, basta disposição para parar, pensar e refletir.

Se precisar de auxílio, assista aos seguintes filmes: Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que mostra um futuro pós-apocalíptico onde a água é controlada por tiranos, Wall-E (2008), uma animação que retrata uma terra coberta de lixo e sem recursos naturais, incluindo água, 007 - Quantum of Solace (2008), que aborda a privatização e o controle da água como tema central de um golpe político, e Waterworld - O Segredo das Águas (1995), que retrata a escassez de água doce potável,  A Lei da Água (2015), documentário que foca no Código Florestal Brasileiro e sua relação direta com a crise hídrica no Brasil, O Futuro das Águas: Desafio do Século (2022), documentário que trata da competição global pela água potável e os riscos de conflitos.