Gaslighting.
A violência pela manipulação.
Por
Alessandra Leles Rocha
Diante de uma epidemia de violência
no mundo contemporâneo; sobretudo, de gênero, é preciso refletir. O assunto é
sim, extremamente complexo; mas, nem por isso há de se colocá-lo submerso em uma
montanha de desculpas e justificativas insustentáveis.
Sempre existe um comportamento
comum nas manifestações de violência, e observando diferentes episódios que têm
sido divulgados pela imprensa, um deles se destaca. Trata-se do gaslighting,
uma tática de manipulação emocional cujo objetivo é desestabilizar a vítima
psicologicamente.
O termo se difundiu a partir da peça
de teatro britânico " Gas Light " de 1938, escrita por Patrick
Hamilton, cujo enredo fala de um marido que manipula a esposa, conduzindo a
intensidade das luzes ao gás da casa e negando a mudança, fazendo-a duvidar de
sua sanidade e memória.
Pois é, no contexto da violência
de gênero, essa prática tem sido comumente usada como ferramenta de controle, valendo-se
das desigualdades sócio-históricas de poder para silenciar e desestabilizar as mulheres.
Afinal, o gaslighting atua na desconstrução da autonomia e identidade da
vítima.
Tudo começa, quando o agressor
nega os fatos, omite as informações ou inventa eventos para gerar uma confusão
mental, por parte da vítima. Nesse contexto, ele utiliza frases do tipo "você
está louca" ou "está exagerando" para desqualificar
os sentimentos e o senso crítico da mulher.
Assim, o agressor parte da sua
posição, seja ela emocional, social ou financeira, para validar a sua versão
dos fatos como a única verdade, a fim de invalidar sistematicamente a manifestação
da vítima. Por isso, frequentemente, o agressor convence terceiros de que a
vítima é instável ou emocionalmente confusa, usando o poder social para
silenciar qualquer tentativa de denúncia ou busca por ajuda.
De modo que o objetivo final não
é apenas vencer uma discussão, mas manter uma dinâmica de dominação onde a
vítima perde o controle sobre sua própria capacidade cognitiva. No entanto,
muitos não se dão conta dessa dinâmica pelo fato de que ela é capaz de perpetuar
ciclos de abuso sem o uso de força física. Pois, ao criar um ambiente de
confusão mental, o agressor dificulta a percepção dessa violência por parte da
vítima e de outras pessoas.
Daí a importância de não
desqualificar os relatos de violência das mulheres. Esse é o ponto de partida
para romper com estruturas históricas que perpetuam a desigualdade de gênero e
a impunidade, em todo o mundo. Quando um relato é validado, ocorre um
enfrentamento direto aos mecanismos que mantêm os ciclos da violência,
interrompendo a reprodução da opressão.
A desqualificação, seja na forma
do gaslighting ou do julgamento moral da vítima, é sim, uma forma de
violência simbólica, a qual reafirma relações de poder e dominação masculina. Historicamente,
os relatos femininos foram sempre confinados ao âmbito privado e silenciados
para evitar uma eventual desagregação familiar ou social. Por isso, ao não
desqualificar esses relatos permite-se que certos temas, antes considerados particulares,
ganhem relevância e projeção pública e política.
Veja, o medo de não ser
acreditada é um dos principais motivos pelos quais as mulheres não denunciam.
Além disso, paira sobre elas o desconforto da revitimização, na medida em que
ao ser desqualificada a vítima experencia um novo trauma. Contudo, vale ressaltar
que o supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu pela proibição de meios que
desqualifiquem a mulher em processos, reconhecendo que isso fere a dignidade e
a constitucionalidade.
Portanto, os ventos estão
soprando de um modo diferente. Em pleno século XXI, já se dispõe de elementos
suficientes para compreender que o descrédito sistemático das mulheres é um
reflexo de uma sociedade patriarcal e misógina, de modo que não permitir
colocar a fala feminina em posição de inferioridade se torna uma
responsabilidade direta da própria sociedade.
Nesse cenário, então, está posta uma necessidade de escuta empática e de validação discursiva das mulheres, enquanto formas de resistência sistemática e contínua contra a manipulação psicoemocional, a fim de não apenas desafiar; mas, de desconstruir toda essa estrutura social tóxica e nociva, que vem reverberando historicamente.
