Dia
Mundial de Combate ao Câncer (04/02)
Por Alessandra
Leles Rocha
O objetivo da data é aumentar a conscientização e a educação
mundial sobre a doença, além de influenciar governos e indivíduos para que se
mobilizem pelo controle do câncer.
Pois se
trata de “um
conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de
células, que invadem tecidos e órgãos. Dividindo-se rapidamente, estas células
tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de
tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo” 1.
Segundo dados do Instituto
Nacional de Câncer (INCA), o “Brasil deve registrar 781 mil novos casos da
doença por ano até 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma (de
alta incidência, mas baixa letalidade), a projeção é de aproximadamente 518 mil
casos anuais. As previsões confirmam que o câncer vem se consolidando como uma
das principais causas de adoecimento e morte no Brasil, aproximando-se das
doenças cardiovasculares.” 2.
E para compreender a dinâmica desse
avanço do câncer, seja a nível brasileiro quanto global, é preciso ter em mente
que os principais fatores de sua incidência na população contemporânea incluem o
tabagismo, o consumo de álcool, a obesidade, a dieta excessiva, o sedentarismo
e a exposição à poluição, incluindo os agrotóxicos.
Em relação ao tabagismo, ele atua
na promoção do câncer a partir da inalação de mais de 7 mil substâncias, sendo
cerca de 70 delas carcinogênicas. Portanto, elas causam danos físicos ao DNA,
mutações genéticas e inflamação celular. Assim, tais alterações sobrecarregam o
reparo celular e aceleram a divisão de células, favorecendo o surgimento de
tumores malignos, especialmente na boca e no esôfago.
Quanto ao consumo de álcool, ele
promove o desenvolvimento do câncer através da metabolização do etanol em acetaldeído,
um composto tóxico que danifica o DNA das células e causa alterações, as quais
produzem lesões. Além disso, ele aumenta os níveis de estrogênio, provocando uma
inflamação crônica que gera estresse oxidativo e facilita a penetração de
carcinógenos nos tecidos, elevando os riscos de tumores na boca, mama, fígado,
esôfago e cólon.
A obesidade promove o
desenvolvimento do câncer, principalmente, por induzir um estado de inflamação
crônica, o qual aumenta os níveis de hormônios, tais como o estrogênio e a insulina.
A produção excessiva de hormônios atua principalmente como um estimulante para
a divisão celular acelerada, o que aumenta as chances de erros genéticos e o
crescimento de tumores em tecidos sensíveis.
E nesse contexto, a dieta
excessiva e a má nutrição são consideradas a segunda principal causa de câncer
que pode ser prevenida. Por isso, recomenda-se priorizar alimentos de origem
vegetal, como frutas e grãos integrais, e evitar o consumo de bebidas adoçadas
e embutidos. Afinal, alimentos que promovem a inflamação crônica, tais como salsicha,
bacon, presunto e linguiça, açúcar, farinha branca, gorduras saturadas e trans,
e bebidas alcoólicas, criam um ambiente propício para o desenvolvimento e
progressão de tumores.
O que somado ao sedentarismo vem
promovendo a expansão do câncer na população contemporânea. Sim, porque a ausência
de atividade física regular pode levar o indivíduo a obesidade, a inflamação
crônica e a redução da eficiência imunológica, permitindo o surgimento de um
ambiente celular favorável ao crescimento tumoral. Razão pela qual, o
sedentarismo tem sido associado diretamente a certos tumores, tais como o de mama,
de cólon, de endométrio e renal.
Por fim, a exposição aos
agrotóxicos e poluentes no ambiente, seja no ar, na água e/ou nos alimentos,
aumenta o risco de câncer dada a contaminação crônica. Trabalhadores rurais e
residentes próximos a áreas de plantio intensivo estão mais expostos, com maior
incidência de internações e óbitos por câncer.
O que ocorre devido ao contato
e/ou a ingestão contínua, ainda que em baixas doses, via alimentos, ar e água
contaminada, que leva ao acúmulo de tóxicos no organismo ao longo do tempo. Inclusive,
estudos relacionados aos agrotóxicos e aos poluentes ambientais apontam para
uma maior incidência de câncer no cérebro, na próstata, no rim, no fígado, no pulmão,
além de leucemia e linfoma.
Daí a importância em destacar que
esses contaminantes têm a capacidade de iniciar, promover e acelerar mutações,
sendo muitos deles classificados como genotóxicos, ou seja, aptos a danificar o
DNA, resultando no desenvolvimento de tumores. Bem como, interferem no sistema
hormonal, provocando doenças, mesmo em níveis muito baixos de exposição.
Como se vê, então, enfrentar o
avanço do câncer na sociedade contemporânea exige uma abordagem multifatorial,
pois se trata de uma doença que não é apenas de natureza biológica, mas também
um reflexo de nossos hábitos, ambiente e estruturas socioeconômicas.
Por isso, um dos maiores
obstáculos no combate ao câncer está na desigualdade socioeconômica. As
populações mais vulneráveis enfrentam maiores riscos de exposição
a certos fatores, tais como alimentação precária, tabagismo, alcoolismo e poluição ambiental, e sofrimentos com diagnósticos tardios, elevando a mortalidade.
Nesse sentido, é preciso entender
que a desigualdade, nesse cenário, é uma questão estrutural. A falta de
políticas públicas eficientes e o investimento insuficiente na prevenção
aumentam a carga da doença entre os menos favorecidos, impactando diretamente o
IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).
Ocorre que apesar de os países de
alto IDH terem maior número absoluto de casos, a incidência e a mortalidade
aumentam proporcionalmente e mais rapidamente em países de baixo e médio IDH.
O que tende a explicar, por exemplo,
porque em contextos de baixa renda, com menor IDH, o câncer é mais letal; pois,
o combate se dá de maneira desigual. Esses países sofrem com a falta de
infraestrutura e investimento para diagnóstico precoce e tratamento, condenando
milhares de pessoas à morte prematura, fato que torna o câncer uma doença
diretamente ligada à desigualdade social e ao nível de desenvolvimento.
2 https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2026/inca-estima-781-mil-novos-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-entre-2026-e-2028#:~:text=Mundial%20do%20C%C3%A2ncer-,INCA%20estima%20781%20mil%20novos%20casos%20de%20c%C3%A2ncer%20por,Brasil%20entre%202026%20e%202028&text=O%20Brasil%20deve%20registrar%20781,aproximadamente%20518%20mil%20casos%20anuais
