08 de
janeiro ...
Por Alessandra
Leles Rocha
O8 de janeiro de 2026 não diz
respeito apenas ao evento para lembrar os 3 anos da invasão e depredação das
sedes dos poderes, em Brasília/DF; mas, da necessidade de discernimento para
valorizar o que realmente importa, removendo toda e qualquer influência
negativa. Afinal de contas, atos golpistas são ataques diretos à Democracia, ao
Estado de Direito, à Cidadania e à Soberania do país.
E para a surpresa de zero
cidadãos, já se sabe que os respectivos presidentes das casas legislativas
federais, ou seja, da Câmara dos Deputados e do Senado, não irão comparecer. O não
comparecimento deles, ou de quaisquer outros representantes, apoiadores e/ou
simpatizantes da ultradireita e demais vieses direitistas, é tão ou mais revelador
do que se comparecessem.
Ora, essa gente está simplesmente
manifestando a sua coerência ideológica! Não nos esqueçamos de que esse
espectro político-partidário trabalhou árdua e ferrenhamente pela PEC da Anistia,
que se transformou em PEC da Dosimetria.
O que significa que esse Projeto
de Lei (PL 2.162/2023), já aprovado pelo Congresso Nacional; mas, ainda não
sancionado pelo Presidente da República, buscou abrandar as penas para
crimes contra o Estado Democrático de Direito, reduzindo as sentenças de
condenações pelos atos de 8 de janeiro de 2023, como as de tentativa de golpe
de Estado, diminuindo o tempo para progressão de regime.
Sem contar que, alguns deles,
agora, diante do ocorrido na Venezuela, têm se manifestado publicamente a favor
de que algo semelhante aconteça em relação ao Brasil. Deixando claras as suas
crenças, valores, princípios e convicções antidemocráticas, anticidadãs, antipatrióticas,
como se, de maneira subliminar, estivessem hasteando a bandeira de outro país e
jurando sobre a Carta Magna alheia. Algo que mistura o surreal e o abjeto
simultaneamente, sem constrangimentos ou pudores de quaisquer naturezas.
Infelizmente, para muitos setores
da elite, o Brasil é visto apenas como um lugar de exploração, enquanto o seu ideal
de vida e civilização está projetado no exterior, de modo que a colonialidade
permaneceu. Como escreveu Nelson Rodrigues, na década de 50, o Brasil padece de
um Complexo de Vira-Lata, o qual reside na desvalorização sistemática das
conquistas nacionais e na necessidade constante de validação por parte de
estrangeiros, especialmente da Europa e dos EUA.
Só não vamos nos esquecer de que
por trás do vira-latismo houve o interesse gigantesco do imperialismo;
sobretudo, nos áureos tempos da Guerra Fria. O vira-latismo foi historicamente estimulado
por certas elites estrangeiras para manter o país em uma posição de dependência
externa e desvalorizar a produção nacional.
Então, ao se autodesvalorizar é
gerado um descompromisso, por parte da população, com o bem comum. De modo que
esse comportamento se torna um facilitador para a entrega de recursos nacionais
para potências estrangeiras, pois o cidadão não se sente dono ou merecedor das
riquezas de seu país.
Isso explica porque motivo o
Brasil reproduz, com certa frequência, episódios em que mimetiza o olhar
estrangeiro, que nos vê como inferiores, fazendo com que os vira-latas, de
plantão, passem a torcer contra o próprio país e a depreciar a imagem nacional.
É como se o patriotismo fosse substituído pela vergonha da própria identidade,
dificultando a coesão social necessária para projetos de desenvolvimento e de
progresso nacional.
Segundo Milton Santos, renomado
geógrafo brasileiro, “A força da alienação vem dessa fragilidade dos
indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os
une”. Desse modo, a falta de autoestima nacional, ao dificultar a
consolidação de uma identidade coesa que valorize, sob diferentes aspectos, o
próprio país, promove a desagregação que fragmenta o senso de pertencimento, perpetuando
um ciclo de submissão sociocultural, política e econômica no cenário internacional.
Assim, a importância de relembrar
o 08 de janeiro de 2023, que ficou popularmente conhecido como Dia da Infâmia,
está na superação do vira-latismo nacional, a partir do aprimoramento da
identidade nacional fundamentado na ressignificação da memória coletiva, capaz
de transformar dores e traumas em aprendizado e força.
Afinal de contas, é dessa combinação que nasce o senso de pertencimento e autocrítica construtiva, o qual modela uma identidade resiliente e desejosa por corrigir suas falhas e, então, superá-las a fim de construir um futuro mais justo, mais belo e melhor, através da capacidade de se reinventar e não se curvar à uma ideia equivocada de inferioridade.
