quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

08 de janeiro ...


08 de janeiro ...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

O8 de janeiro de 2026 não diz respeito apenas ao evento para lembrar os 3 anos da invasão e depredação das sedes dos poderes, em Brasília/DF; mas, da necessidade de discernimento para valorizar o que realmente importa, removendo toda e qualquer influência negativa. Afinal de contas, atos golpistas são ataques diretos à Democracia, ao Estado de Direito, à Cidadania e à Soberania do país.

E para a surpresa de zero cidadãos, já se sabe que os respectivos presidentes das casas legislativas federais, ou seja, da Câmara dos Deputados e do Senado, não irão comparecer. O não comparecimento deles, ou de quaisquer outros representantes, apoiadores e/ou simpatizantes da ultradireita e demais vieses direitistas, é tão ou mais revelador do que se comparecessem.

Ora, essa gente está simplesmente manifestando a sua coerência ideológica! Não nos esqueçamos de que esse espectro político-partidário trabalhou árdua e ferrenhamente pela PEC da Anistia, que se transformou em PEC da Dosimetria.

O que significa que esse Projeto de Lei (PL 2.162/2023), já aprovado pelo Congresso Nacional; mas, ainda não sancionado pelo Presidente da República, buscou abrandar as penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito, reduzindo as sentenças de condenações pelos atos de 8 de janeiro de 2023, como as de tentativa de golpe de Estado, diminuindo o tempo para progressão de regime.

Sem contar que, alguns deles, agora, diante do ocorrido na Venezuela, têm se manifestado publicamente a favor de que algo semelhante aconteça em relação ao Brasil. Deixando claras as suas crenças, valores, princípios e convicções antidemocráticas, anticidadãs, antipatrióticas, como se, de maneira subliminar, estivessem hasteando a bandeira de outro país e jurando sobre a Carta Magna alheia. Algo que mistura o surreal e o abjeto simultaneamente, sem constrangimentos ou pudores de quaisquer naturezas.

Infelizmente, para muitos setores da elite, o Brasil é visto apenas como um lugar de exploração, enquanto o seu ideal de vida e civilização está projetado no exterior, de modo que a colonialidade permaneceu. Como escreveu Nelson Rodrigues, na década de 50, o Brasil padece de um Complexo de Vira-Lata, o qual reside na desvalorização sistemática das conquistas nacionais e na necessidade constante de validação por parte de estrangeiros, especialmente da Europa e dos EUA.

Só não vamos nos esquecer de que por trás do vira-latismo houve o interesse gigantesco do imperialismo; sobretudo, nos áureos tempos da Guerra Fria.  O vira-latismo foi historicamente estimulado por certas elites estrangeiras para manter o país em uma posição de dependência externa e desvalorizar a produção nacional.

Então, ao se autodesvalorizar é gerado um descompromisso, por parte da população, com o bem comum. De modo que esse comportamento se torna um facilitador para a entrega de recursos nacionais para potências estrangeiras, pois o cidadão não se sente dono ou merecedor das riquezas de seu país.

Isso explica porque motivo o Brasil reproduz, com certa frequência, episódios em que mimetiza o olhar estrangeiro, que nos vê como inferiores, fazendo com que os vira-latas, de plantão, passem a torcer contra o próprio país e a depreciar a imagem nacional. É como se o patriotismo fosse substituído pela vergonha da própria identidade, dificultando a coesão social necessária para projetos de desenvolvimento e de progresso nacional.

Segundo Milton Santos, renomado geógrafo brasileiro, “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Desse modo, a falta de autoestima nacional, ao dificultar a consolidação de uma identidade coesa que valorize, sob diferentes aspectos, o próprio país, promove a desagregação que fragmenta o senso de pertencimento, perpetuando um ciclo de submissão sociocultural, política e econômica no cenário internacional.

Assim, a importância de relembrar o 08 de janeiro de 2023, que ficou popularmente conhecido como Dia da Infâmia, está na superação do vira-latismo nacional, a partir do aprimoramento da identidade nacional fundamentado na ressignificação da memória coletiva, capaz de transformar dores e traumas em aprendizado e força.

Afinal de contas, é dessa combinação que nasce o senso de pertencimento e autocrítica construtiva, o qual modela uma identidade resiliente e desejosa por corrigir suas falhas e, então, superá-las a fim de construir um futuro mais justo, mais belo e melhor, através da capacidade de se reinventar e não se curvar à uma ideia equivocada de inferioridade.