O Oscar
não nos define!
Por
Alessandra Leles Rocha
É isso mesmo! Por quê precisamos
da legitimação internacional para celebrar a nossa cultura?! Essa é a pergunta
que temos que fazer hoje, amanhã, depois, sempre. Porque romper as bolhas,
expandir as fronteiras, intercambiar pontos de vista, é nisso que reside a
força sociocultural brasileira.
Apesar de estarmos em pleno
século XXI, não podemos fingir que o mundo não vive sob a influência
imperialista, monopolista, egocentrista, ... porque essa é uma verdade fática. E
o cinema faz parte do mundo, por isso, ele também é afetado por essas questões.
Os olhos que acompanham as
atuações, as produções e as exibições públicas, no cenário internacional, de
certa forma ainda estão contaminados por certos vieses ideológicos, os quais
possibilitam a construção de senões aos filmes que estão fora do espectro
dominante da cinematografia mundial.
Desse modo as escolhas não são, então,
pautadas basicamente por questões técnicas. Cada corpo de jurados traz consigo
crenças, valores, convicções, interesses, simpatias, que acabam por esgarçar o
seu processo decisório, afastando-os de um posicionamento mais ético e isento.
Nesse sentido, inclusive, é
importante destacar o papel lobista que atua sobre a dinâmica cinematográfica.
Infelizmente, o lobby do cinema nas premiações não é apenas uma estratégia de
marketing, mas um mecanismo de reprodução de poder e consagração da dominância cultural.
Por isso, não cabe ingenuidade na
análise dos acontecimentos. Quando grandes estúdios investem milhões para
influenciar os votantes, eles transformam o mérito artístico em uma extensão do
capital econômico e social, com o único propósito de garantir que o sucesso se
concentre nos mesmos grupos.
Além disso, o prêmio é uma
ferramenta de marketing que aumenta o valor do filme e a empregabilidade dos
envolvidos, reforçando uma estrutura de classes dentro da indústria
cinematográfica.
Assim, em linhas gerais, o alto
custo das campanhas lobistas atua como uma barreira para filmes independentes
ou de países fora do eixo tradicional; bem como, se encarrega de negligenciar
quaisquer narrativas que fujam do padrão cinematográfico tradicional ou
vigente.
Para isso, não é incomum que o
lobby, muitas vezes, envolva campanhas difamatórias ou desqualificantes contra
concorrentes, modificando a escolha artística em um processo puramente político
e estratégico. Como já aconteceu na história do cinema.
Caro (a) leitor (a), daí a importância
de entender que a manifestação da cultura é, antes de tudo, uma expressão
interna, uma relação direta com seu próprio povo. Só depois, é que ela pode ser
compartilhada com o externo, com o mundo, porque aí ela já está fortalecida,
enriquecida pela própria identidade nacional.
E nesse momento, então, a sua
aclamação ou a sua incompreensão pelo estrangeiro pode ser decodificada de uma maneira
adequada e satisfatória. Por isso, mesmo tensionada, sob a pressão externa, as crises
econômicas ou os conflitos internos, a cultura se adapta e resiste porque não é
algo que se possui, mas algo que se é.
Então, munida dessa
impessoalidade para analisar os acontecimentos, sem precisar dessa ou daquela legitimação
alheia para se sentir confortável, plena e feliz, ela se mantém. Porque a cultura
é capaz de incorporar quaisquer elementos dos eventuais contratempos e se
transformar, mantendo intacto o seu núcleo identitário.
Assim, o maior prêmio para quaisquer manifestações ou expressões culturais é a capacidade de realizar, de dar vida às ideias, aos projetos, gerando uma conexão coletiva inimaginável. Aí, nesse instante, ela deixa de pertencer apenas ao criador e passa a dialogar com a sociedade de maneira plena, inteira e extraordinária.
