1º de
Abril – Dia da Verdade
Por
Alessandra Leles Rocha
Não adianta lançar sob o tapete
da história os nossos malfeitos e mal comportamentos. Tudo o que aconteceu,
nesses pouco mais de 500 anos, não deixa de existir por conta da negação, da invisibilização,
do silenciamento. Tal qual o indivíduo, a sociedade também é um ente em
construção, incompleto, controverso, dual.
De modo que os erros, os equívocos,
as ignorâncias, os absurdos, não são, necessariamente, o cerne do nosso
problema. A grande questão está no modo como lidamos com eles, na nossa disposição
em aprender para evoluir. A opção pela inação ou alienação é sempre a pior das
escolhas, na medida em que não leva nada a lugar algum.
Daí não ser surpresa, o fato de
uma significativa parcela do corpo político-partidário nacional, em conjunto
com seus apoiadores e simpatizantes, estarem tão aflitos por mais um ato de
anistia. O clamor pelo perdão institucional é muito significativo, no sentido
de revelar essa incapacidade de exercer a cidadania, de se responsabilizar pelos
atos e omissões praticados.
A ideia de anistia diz, em alto e
bom tom, o quanto essa gente quer se livrar de uma situação que lhes é totalmente
desconfortável, inoportuna, desagradável. Como quem busca um atalho para sair de
um caminho inconveniente, que tende a trazer reverberações bastante indigestas.
E isso só está em discussão porque já foram abertos precedentes ao longo da história.
Nosso ranço colonial, infelizmente, prestou esse imenso desserviço!
Aliás, essa fuga da realidade busca
contribuir para que não haja uma reflexão profunda sobre o modo como, enquanto
sociedade, permanecemos mantendo a tecitura social por vieses de extrema
desigualdade. Sempre que se falou em golpismo, no Brasil, a ideia foi concebida
e liderada por elementos das elites do poder, no intuito de garantir o seu status
quo.
Razão pela qual, frustrados os
seus planos, a palavra de ordem a ser manifestada foi, sempre, anistia. Afinal,
julgam-se acima do bem e do mal, essas gerações herdeiras diretas das elites
coloniais e, por isso, isentas de receberem quaisquer tipos de punições ou repreendas.
Daí o cenário não se alterar ao longo dos séculos.
Lamentável! O ideário golpista
foi apropriado como estratégia para assegurar os pseudodireitos adquiridos
pelas gerações das elites nacionais. Manter-se no poder, a qualquer preço, então,
significa garantir que seus espaços, recursos capitais e poderes não sejam
ameaçados, pelas camadas inferiores da pirâmide social.
Entretanto, golpes matam. Subjetivamente.
Objetivamente. Lenta e gradualmente. Pela tortura física, mental e moral. Pela asfixia
do pensamento e da construção do conhecimento e da criticidade. Pela alienação
do comportamento. Pelo silenciamento nas relações sociais. Pela individualização
como recurso de sobrevivência. Pela reverberação do sofrimento através do
tempo. Pela impossibilidade de apagar, invisibilizar ou negar a experienciação dos
acontecimentos.
E se não foi permitido à
sociedade elaborar esses processos, em seu momento oportuno, o país abriu possibilidades
para que novas representações dessas velhas práxis fossem gestadas. A trivialização,
a banalização, a normalização, das violências excessivas, cometidas pelo Estado
contra as minorias, permanecem ativas; pois, encontram legitimação de uma parte
da sociedade inerte na sua irreflexão.
A discussão em torno do Golpe
Militar de 1964, por exemplo, retrata isso muito bem. A atemporalidade que
constitui as tramas históricas golpistas abrem a necessidade de desconstruir velhos
paradigmas e se reposicionar diante dos acontecimentos contemporâneos.
No entanto, ao menos em parte, a
sociedade brasileira não se considera apta a enfrentar esse desafio de
construir novas bases sociocomportamentais para o país. Por isso, ela tenta, a
todo custo, manter certos assuntos dentro do baú da história, trancados a sete
chaves.
E o que adianta agir assim? Nada.
As aves de rapina continuam sobrevoando o céu. Por isso, não esquecer a ameaça da
Esfinge de Tebas, “Decifra-me ou te devoro”, aos viajantes que passavam
pela cidade. É preciso dar o nome certo aos acontecimentos da vida; bem como, dar-lhes
a atenção em busca do seu conhecimento.
Não importa se já se passaram 61 anos, desde a instauração dos Anos de Chumbo, no Brasil. As suas cicatrizes ainda sangram. Ainda falam. Ainda estão aqui. É preciso romper com essa abjeta tentativa de construção de um distanciamento geracional, para que o horror adormeça no esquecimento. Ceder à tentação da alienação não só é perigoso, como pode ser fatal.