terça-feira, 1 de abril de 2025

1º de Abril – Dia da Verdade


1º de Abril – Dia da Verdade

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não adianta lançar sob o tapete da história os nossos malfeitos e mal comportamentos. Tudo o que aconteceu, nesses pouco mais de 500 anos, não deixa de existir por conta da negação, da invisibilização, do silenciamento. Tal qual o indivíduo, a sociedade também é um ente em construção, incompleto, controverso, dual.

De modo que os erros, os equívocos, as ignorâncias, os absurdos, não são, necessariamente, o cerne do nosso problema. A grande questão está no modo como lidamos com eles, na nossa disposição em aprender para evoluir. A opção pela inação ou alienação é sempre a pior das escolhas, na medida em que não leva nada a lugar algum.

Daí não ser surpresa, o fato de uma significativa parcela do corpo político-partidário nacional, em conjunto com seus apoiadores e simpatizantes, estarem tão aflitos por mais um ato de anistia. O clamor pelo perdão institucional é muito significativo, no sentido de revelar essa incapacidade de exercer a cidadania, de se responsabilizar pelos atos e omissões praticados.

A ideia de anistia diz, em alto e bom tom, o quanto essa gente quer se livrar de uma situação que lhes é totalmente desconfortável, inoportuna, desagradável. Como quem busca um atalho para sair de um caminho inconveniente, que tende a trazer reverberações bastante indigestas. E isso só está em discussão porque já foram abertos precedentes ao longo da história. Nosso ranço colonial, infelizmente, prestou esse imenso desserviço!

Aliás, essa fuga da realidade busca contribuir para que não haja uma reflexão profunda sobre o modo como, enquanto sociedade, permanecemos mantendo a tecitura social por vieses de extrema desigualdade. Sempre que se falou em golpismo, no Brasil, a ideia foi concebida e liderada por elementos das elites do poder, no intuito de garantir o seu status quo.

Razão pela qual, frustrados os seus planos, a palavra de ordem a ser manifestada foi, sempre, anistia. Afinal, julgam-se acima do bem e do mal, essas gerações herdeiras diretas das elites coloniais e, por isso, isentas de receberem quaisquer tipos de punições ou repreendas. Daí o cenário não se alterar ao longo dos séculos.

Lamentável! O ideário golpista foi apropriado como estratégia para assegurar os pseudodireitos adquiridos pelas gerações das elites nacionais. Manter-se no poder, a qualquer preço, então, significa garantir que seus espaços, recursos capitais e poderes não sejam ameaçados, pelas camadas inferiores da pirâmide social.

Entretanto, golpes matam. Subjetivamente. Objetivamente. Lenta e gradualmente. Pela tortura física, mental e moral. Pela asfixia do pensamento e da construção do conhecimento e da criticidade. Pela alienação do comportamento. Pelo silenciamento nas relações sociais. Pela individualização como recurso de sobrevivência. Pela reverberação do sofrimento através do tempo. Pela impossibilidade de apagar, invisibilizar ou negar a experienciação dos acontecimentos.

E se não foi permitido à sociedade elaborar esses processos, em seu momento oportuno, o país abriu possibilidades para que novas representações dessas velhas práxis fossem gestadas. A trivialização, a banalização, a normalização, das violências excessivas, cometidas pelo Estado contra as minorias, permanecem ativas; pois, encontram legitimação de uma parte da sociedade inerte na sua irreflexão.

A discussão em torno do Golpe Militar de 1964, por exemplo, retrata isso muito bem. A atemporalidade que constitui as tramas históricas golpistas abrem a necessidade de desconstruir velhos paradigmas e se reposicionar diante dos acontecimentos contemporâneos.

No entanto, ao menos em parte, a sociedade brasileira não se considera apta a enfrentar esse desafio de construir novas bases sociocomportamentais para o país. Por isso, ela tenta, a todo custo, manter certos assuntos dentro do baú da história, trancados a sete chaves.

E o que adianta agir assim? Nada. As aves de rapina continuam sobrevoando o céu. Por isso, não esquecer a ameaça da Esfinge de Tebas, “Decifra-me ou te devoro”, aos viajantes que passavam pela cidade. É preciso dar o nome certo aos acontecimentos da vida; bem como, dar-lhes a atenção em busca do seu conhecimento.

Não importa se já se passaram 61 anos, desde a instauração dos Anos de Chumbo, no Brasil. As suas cicatrizes ainda sangram. Ainda falam. Ainda estão aqui. É preciso romper com essa abjeta tentativa de construção de um distanciamento geracional, para que o horror adormeça no esquecimento. Ceder à tentação da alienação não só é perigoso, como pode ser fatal.