domingo, 30 de março de 2025

Entre golpismos e fisiologismos


Entre golpismos e fisiologismos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não é brincadeira! A necessidade de reflexão profunda, nesse momento, no Brasil, é urgente! Aliás, as imagens dantescas do 8 de janeiro de 2023 deveriam ter impactado, de fato, a sociedade brasileira. Pena que não foi bem assim.

Membros, apoiadores e simpatizantes da ultradireita e demais espectros da Direita nacional sequer se constrangeram com aquela barbárie. Pelo contrário, seu desprezo pela Democracia, o Estado de Direito e as Instituições da República foi explícito, na medida que se permitiram distorcer os fatos e criar um discurso vitimista para os vândalos golpistas.

Ao menos, agora, sabemos até onde pode chegar o fisiologismo político, no Brasil. Sim, porque em nome da tecitura das relações de poder político, essa gente não se furta a extrapolar quaisquer limites do decoro para satisfazer seus interesses privados, em detrimento do bem comum. Na historicidade brasileira, essa é a primeira vez em que nos deparamos com a construção de uma maioria parlamentar deplorável, carcomida e apodrecida pelos piores valores e princípios humanos.

Pois é, essa gente é parte da representação popular democraticamente eleita.  De modo que a exibição pública da sua falta de ética e de moral, infelizmente, é consequência da escolha do cidadão. Seja por ingenuidade persuadida através de um discurso ardiloso. Seja pela ignorância arraigada pela insatisfação diante da realidade. Seja pela manifestação de um caráter duvidoso que almeja tirar alguma vantagem através do seu voto.  ... Pouco importa. Dentro desse viés de análise, cada cidadão brasileiro, no silêncio da sua consciência, deveria fazer um exame minucioso das suas decisões.

Recentemente, em sessão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), dois ministros, durante a leitura dos seus votos em uma ação, fizeram a importante observação de que “golpe de Estado mata”. Bem, o voto também! Especialmente, quando o fisiologismo político é feroz. Mata, porque não atende as demandas fundamentais dos eleitores. Porque desvia recursos para fins não prioritários e urgentes. Porque obstaculiza o desenvolvimento e o progresso do país. Porque abandona a população à própria sorte. ... Sem contar que pelo voto se pode criar condições para a realização de um golpe de estado.

Entretanto, em razão da sua própria construção histórica, o cidadão brasileiro encontra dificuldade em entender o que seu voto, implicitamente, pode significar. Como manifestou a filósofa Marilena Chaui, “O pensamento de que uns mandam e outros obedecem é o que forma o povo brasileiro. Que é apresentado como um povo cordato, pacífico, trabalhador. Mal sabem os brasileiros o quanto de violência existe por trás disso. A opressão, a condição servil e o esquecimento de que o natural é ser livre”. Por isso, “A democracia pouco significado tem sem uma igualdade econômica aproximada e sem um sistema educativo que tenda a promover a tolerância e a firmeza de espírito” (George Orwell).

Há pouco mais de 500 anos, o Brasil vive sob a seguinte organização: “As pessoas que, desgostosas e decepcionadas, não querem ouvir falar em política, recusam-se a participar de atividades sociais que possam ter finalidade ou cunho políticos, afastam-se de tudo quanto lembre atividades políticas, mesmo tais pessoas, com seu isolamento e sua recusa, estão fazendo política, pois estão deixando que as coisas fiquem como estão e, portanto, que a política existente continue tal qual é. A apatia social é, pois, uma forma passiva de fazer política” (Marilena Chaui).

Acontece que essa política deformada e equivocada que se constituiu pela apatia, precisa ser rapidamente desconstruída para oportunizar ao país, uma perspectiva de futuro desvencilhado do seu ranço histórico. Caso contrário, o brasileiro permanecerá alimentando o fisiologismo político e fazendo do seu voto um flerte perigoso e, quem sabe, letal, com o golpismo. Lembre-se, “Nossas vidas começam a acabar no dia em que ficamos em silêncio sobre as coisas que importam” (Martin Luther King, Jr.).