domingo, 21 de fevereiro de 2016

Leia. Reflita. Transforme-se para melhorar o mundo em que vive.


(In) Justiça Social na terra dos Homens
 
Por Alessandra Leles Rocha

Segundo a Organização das Nações Unidas ontem foi comemorado o Dia Mundial da Justiça Social.  Mas será que temos o que celebrar? Ao contrário de uma coexistência harmônica e pacifica entre os seres humanos, cada um parece mais preocupado consigo do que com os demais; fazendo com que a fome e a sede de poder vertam a miséria e a indigência pelos quatro cantos do planeta.

Vejo pouco ou quase nenhum sinal de desenvolvimento e progresso nesse século XXI; na medida em que os responsáveis pela dinâmica desse processo estão cada vez mais abandonados e limitados na sua cidadania e direitos humanos. Estamos em meio às guerras declaradas e conflagradas, que visivelmente expõem o terror e a barbárie aos julgamentos dos homens. Mas, talvez pior do que isso sejam as guerras invisíveis, sutis e perversas que acontecem sob os discursos inconsistentes e demagógicos, imbuídos totalmente do extermínio dos sonhos e da dignidade cidadã; permitindo silenciosamente que a penúria e o desespero se instalem e corroam as entranhas da sociedade.

Sei que em momentos solenes de reflexão profunda é legítimo um minuto de silêncio; mas, em nome da realidade que traduz a mais plena Injustiça Social, omitir as palavras pelo tempo que for pode ser mais danoso. É preciso falar. É preciso cobrar a responsabilidade, a lisura, o comprometimento, a ética, e tudo mais que componha o fardo de quem assume governar. Muitos culpam os modelos econômicos vigentes, como os grandes responsáveis pela ausência de Justiça Social no mundo; mas, sem a coragem e a ousadia dos seres humanos para colocá-los em prática, mesmo sabendo dos terríveis impactos sociais que eles poderiam causar, eles não resistiriam.

Na verdade, ao ser humano cabe bater no peito e acusar a máxima culpa. Há um germe defensor da ‘lei do mais forte’ dentro de cada um. Oprimir, subjugar, condenar, escravizar... parece fazer parte do manual de etiqueta da humanidade. Inclusive, há quem sinta prazer nisso; em sentir-se superior aos demais. O fogo do poder cega e enlouquece alguns, enquanto arde forte sobre o restante. Nada parece conter os avanços dessa práxis absurda; daí, uma sensação terrível de abandono à própria sorte.

Cada dia mais é difícil se deparar com as notícias nem um pouco promissoras. É só violência de toda natureza em exposição pública. A vida sendo colocada no fim da fila das prioridades, valendo bem menos que um vintém. Às vezes, chego a pensar se não estamos diante dos tais ‘cavaleiros do Apocalipse’ 1, tamanho o horror. Como se a Justiça só encontrasse obstáculos para transpor esse caminho de trevas e lágrimas, na tentativa de trazer alento a tantos desafortunados.

É! Porque para alcançar o mínimo dessa Justiça Social almejada e, garantida no papel por tantos governos, o Poder Judiciário tem interferido mais e mais na defesa dos direitos do cidadão. Essa ‘judicialização do poder’ se por um lado é um fiapo de esperança que nos resta; por outro, é a manifestação explícita do fracasso das práticas de governança sejam elas democráticas ou não. Entretanto, também não é adequado que essa conduta permaneça ad eternum; pois, isso significaria legitimar o fomento de uma ‘esperteza’ tóxica que persiste institucionalizada em alguns ramos da sociedade.  

Já dizia Rui Barbosa 2, “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”. Portanto, minguadas as expectativas de júbilo por eventuais conquistas, resta-nos permanecer lutando por um processo metamórfico da sociedade, o qual se traduza na edificação de uma Justiça Social verdadeira, a partir de forças muito mais conjunturais do que propriamente dos indivíduos. Às vezes, a preguiça humana de sair da zona de conforto é tamanha que só mesmo o peso e a gravidade da situação são capazes de demovê-lo da sua inércia repousante. Porém, quando a vida é quem dá as cartas, esteja certo que o nível de exigência é muito maior; e isso, pode até tardar, mas não falha jamais. 



1 A Peste, a Guerra, A fome e a Morte – personagens descritos na terceira visão profética do apóstolo João, no livro do Apocalipse.
2 Rui Barbosa de Oliveira - jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro.

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