sexta-feira, 20 de março de 2026

A marcha rumo à escassez hídrica global


A marcha rumo à escassez hídrica global

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Com uma população mundial estimada em aproximadamente 8,3 bilhões de pessoas, vivendo sob a dinâmica e as consequências do desenvolvimento urbanoindustrial, certas questões precisam ser pensadas e analisadas com bastante critério.

Então, diante da proximidade com o Dia Mundial da Água, a ser celebrado em 22 de março, decidi tomar essa questão como o ponto de partida para essa reflexão.

O desenvolvimento urbano e industrial tem levado ao esgotamento e à contaminação das reservas de água limpa por meio da superexploração de aquíferos, da impermeabilização do solo que impede a recarga natural, e do descarte de efluentes sem tratamento.

Esse cenário gera escassez hídrica ao inviabilizar o uso da água, afetando mais de 4 bilhões de pessoas ao redor do mundo.

Veja, a falta de água potável segura já afeta mais de 1,2 bilhão de pessoas, principalmente no Sul Asiático e na África Subsaariana.

Países como o Afeganistão, o Paquistão, o Irã, a Síria, o Iêmen, a Etiópia e a Somália, além de áreas na Índia, China e outras partes do Oriente Médio, enfrentam dificuldades extremas, diante das crises hídricas e/ou pela contaminação de diversas fontes, limitando o acesso a água limpa para seu público.

A contaminação da água no mundo, portanto, impacta a sobrevivência humana de forma crítica, direta e desigual, sendo um dos maiores desafios do século XXI.

O que significa que ela não é apenas um problema ambiental ou biológico, mas um reflexo da desigualdade social, da negligência institucional e da injustiça ambiental, onde as populações vulneráveis ​​pagam o preço mais alto.

Não é sem razão que milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças veiculadas pela água tais como a cólera, as diarreias, a hepatite A e a febre tifóide.

A contaminação por agrotóxicos e metais pesados ​​causa doenças crônicas como câncer, disfunções hormonais e problemas neurológicos.

Isso acontece devido ao fato de que os processos convencionais das Estações de Tratamento de Água (ETA) e Esgoto (ETE) foram projetados majoritariamente para remover matéria orgânica, sólidos suspensos e coliformes fecais (bactérias), não sendo eficazes para toxinas complexas ou contaminantes emergentes.

Desse modo, alguns patógenos são resistentes aos processos biológicos e à cloração convencional, podendo sobreviver ao tratamento e serem lançadas em corpos hídricos.

Em relação aos agrotóxicos, pesticidas e/ou herbicidas, dada a sua composição complexa, eles passam direto pelos tratamentos biológicos e físicos de decantação e filtração convencionais.

Mas, talvez, o pior seja em relação aos metais pesados, tais como Chumbo, Cádmio, Mercúrio, que não são biodegradáveis.

Eles se acumulam no lodo da ETE ou passam pela ETA. A remoção exige processos físico-químicos específicos como a precipitação e a troca iônica, que nem todas as estações possuem.

Além disso, não se pode esquecer que além dos itens já apontados, os processos se mostram falhos em relação aos resíduos de medicamentos, ou seja, antibióticos, antidepressivos, anticoncepcionais, lançados inadvertidamente na rede pluvial e de esgoto, e os produtos de higiene pessoal como microplásticos e os filtros solares.

Portanto, apenas o tratamento primário, que é físico, e o secundário, que é biológico, não basta. É necessário investir em filtração por membranas, ou seja, ultrafiltração, osmose reversa, ozonização e/ou Processos Oxidativos Avançados (POAs) para degradar agrotóxicos e eliminar os vírus.

Mas não bastasse esse cenário, a oferta de água limpa no planeta está ameaçada também pela captação intensiva de água subterrânea para abastecer indústrias e populações urbanas, causando o rebaixamento do lençol freático e fazendo com que os poços sequem e os reservatórios naturais demorem séculos para se recuperar.

Ao se considerar que a industrialização na perspectiva do avanço tecnológico e da inteligência artificial (IA) afeta radicalmente a já precarizada oferta de água limpa no mundo contemporâneo, tem-se um catalisador imediato para a consolidação da crise de escassez hídrica ainda no século XXI.

Talvez, muitos não saibam, mas a IA facilita a transformação da água em um ativo financeiro ultra precioso.

Softwares de monitoramento permitem que empresas privatizem a gestão hídrica com precisão matemática, transformando o que deveria ser um direito humano em uma mercadoria algorítmica.

Isso retira o controle da gestão da água da esfera pública e entrega a algoritmos focados em lucro.

E a razão disso está no fato de que a IA exige uma infraestrutura física massiva, com grandes Data Centers, os quais consomem milhões de litros de água potável diariamente para resfriar os servidores.

Estima-se que os grandes centros podem consumir até 5 milhões de galões, cerca de 19 milhões de litros/dia, o equivalente ao uso de uma cidade de 10.000 a 50.000 pessoas, porque a água é essencial para o resfriamento evaporativo, sendo o método mais barato do que o uso de eletricidade para dissipar o calor gerado pelos servidores.

Isso cria um conflito distributivo, a água que abastece as comunidades locais é desviada para manter a nuvem cibernética.

De modo que tudo isso representa, então, a priorização do capital digital sobre as necessidades biológicas básicas, ou seja, um fator de transformação nas relações de poder e cidadania.

A instalação de data centers em regiões de escassez hídrica gera uma competição direta com o abastecimento público e a agricultura.

Assim, o esgotamento de fontes locais aumenta o risco de doenças em comunidades com acesso já precário à água.

Dizia o médico e escritor João Guimarães Rosa, “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba”.

Então, se quiser ter uma dimensão do que pode acontecer à humanidade por conta desse movimento de escassez hídrica em curso, basta disposição para parar, pensar e refletir.

Se precisar de auxílio, assista aos seguintes filmes: Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que mostra um futuro pós-apocalíptico onde a água é controlada por tiranos, Wall-E (2008), uma animação que retrata uma terra coberta de lixo e sem recursos naturais, incluindo água, 007 - Quantum of Solace (2008), que aborda a privatização e o controle da água como tema central de um golpe político, e Waterworld - O Segredo das Águas (1995), que retrata a escassez de água doce potável,  A Lei da Água (2015), documentário que foca no Código Florestal Brasileiro e sua relação direta com a crise hídrica no Brasil, O Futuro das Águas: Desafio do Século (2022), documentário que trata da competição global pela água potável e os riscos de conflitos.

quarta-feira, 18 de março de 2026

O petróleo ... Sempre o petróleo


O petróleo ... Sempre o petróleo

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Segundo o dito popular, “Recordar é viver”! Então, mãos à obra.

A relação entre a humanidade e o petróleo se inicia entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, com a Segunda Revolução Industrial. A princípio o papel dele era produzir querosene em substituição ao óleo de baleia e o carvão para iluminação. Somente a partir da invenção do motor a combustão interna e o desenvolvimento da indústria automobilística é que o petróleo passou a ser refinado para obter gasolina e diesel, tornando-se a principal fonte de energia para transportes.

Então, a partir do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o petróleo se tornou a principal fonte de energia e matéria-prima do mundo. O que significa que a economia mundial passa a ser refém do preço do barril de petróleo. Por consequência, a cada alta dos preços dos barris há um arrepio global pelo risco do descontrole da inflação; posto que, aumentam o custo de produção e transporte de quase tudo. Além disso, a disputa pelo controle das reservas de petróleo molda os humores da geopolítica do planeta.

Aí, na década de 1970, o mundo assiste estarrecido à grande crise do petróleo. Na verdade, dois grandes eventos, um em 1973 e outro em 1979, colocaram fim à era de crescimento acelerado do pós-guerra no Ocidente.

Em outubro de 1973, Egito e Síria atacaram Israel, fato que levou os países árabes membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a impor um embargo de petróleo aos EUA, Holanda e outros aliados de Israel. Tal atitude da OPEP afetou drástica e intencionalmente a produção, resultando em escassez global e quadruplicando o preço do barril, naquela ocasião.

Depois, em 1979, com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão do aiatolá Khomeini, no Irã, um dos maiores produtores globais de petróleo, houve pânico no mercado e uma nova paralisação na produção. Mas, não bastasse isso, em 1980, a guerra entre o Irã e o Iraque manteve a oferta baixa e os preços altos durante o início daquela década.

De modo que foi dessa maneira que o planeta descobriu a face difícil do petróleo. A combinação inédita de alta inflação, devido ao aumento de preços, e a estagnação econômica com recessão e desemprego, atingiu os países. Tudo muito bem acompanhado por longas filas em postos de combustível, devido ao racionamento e ao aumento vertiginoso do preço da gasolina.

Era o ponto de mutação para a indústria automobilística, com o fim da era dos carros grandes e gastadores, produzidos pelos americanos. A indústria passou a fabricar carros menores, mais leves e econômicos, popularizando os motores de 4 cilindros.

Mas, certamente, o grande impacto decorrente dessa grande crise foi a busca por alternativas energéticas. Sim, diante da fragilidade exposta pela dependência de uma única fonte, houve um grande incentivo ao uso de energia nuclear, hidrelétrica e pesquisas em fontes renováveis como a solar e a eólica.

Fato que, no Brasil, resultou no surgimento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975, incentivando carros movidos a etanol para reduzir a dependência da gasolina. Sobretudo, porque os países em desenvolvimento, no qual se enquadra o Brasil, viram sua dívida externa disparar. Afinal, eles pagaram mais caro pelo petróleo e o capital ficou mais caro internacionalmente, gerando uma década perdida, marcada pela estagnação econômica, a hiperinflação e a crise da dívida externa.

Contudo, o mundo parece não ter aprendido com a história. A recente escalada militar entre EUA e Israel contra o Irã, com bombardeios e ameaças de bloqueio no Estreito de Ormuz pelos iranianos, considerando que esse é o local por onde passa 20% do petróleo mundial, está gerando uma nova crise energética severa. A disparada nos preços dos barris já está em curso. A alta no petróleo ameaça frear a economia mundial, com forte pressão inflacionária nos EUA e outros países, incluindo o Brasil.

O choque no preço da energia encarece os combustíveis, o transporte e os produtos fabricados. Isso pressiona, então, os bancos centrais a manterem as taxas de juros elevadas por mais tempo para fortalecer a inflação, prejudicando o crescimento econômico e aumentando o risco de estagflação, ou seja, estagnação econômica, com baixo ou nulo crescimento do PIB e alto desemprego, com inflação elevada.

Sem contar que a instabilidade geopolítica gera uma fuga de recursos de mercados emergentes para ativos seguros. Então, no Brasil, ocorre a valorização do dólar, encarecendo importações e repassando o aumento do petróleo para o preço final dos combustíveis na bomba. Além disso, apesar de o Brasil ser exportador líquido de petróleo, o impacto negativo é sentido nos custos da cadeia produtiva a partir do frete, dos insumos, dos fertilizantes.

Portanto, qualquer crise relativa ao petróleo é uma crise global. O mundo sofre as consequências. O que significa que vivemos em uma sociedade de risco. A economia mundial é um sistema integrado e, diante do fato de que o petróleo é a base da matriz energética e do transporte, uma crise na sua oferta não é um evento isolado, mas um efeito dominó que afeta desde o preço da comida até a estabilidade política de nações distantes.

Sim, vivemos em uma era onde os riscos econômicos, ambientais e energéticos não respeitam fronteiras. Uma decisão ou conflito em um ponto do globo gera consequências inevitáveis ​​e incontroláveis ​​para todos, evidenciando a dimensão dos impactos sobre as instituições nacionais frente aos fluxos globais.

Por isso, é preciso equilíbrio e discernimento para transpor qualquer crise relativa ao petróleo. Em momentos de instabilidade no setor petrolífero, o equilíbrio emocional e técnico é o que separa uma gestão de danos eficiente de um desequilíbrio generalizado. É dessa forma que o discernimento entra para filtrar o que é oscilação real de mercado do que é meramente especulação financeira ou alarmismo midiático. Veja, sem essa clareza, o pânico se torna um combustível muito mais perigoso do que a própria falta de óleo, gerando corridas aos postos, inflação preventiva e paralisia econômica.

Daí a importância fundamental da comunicação transparente e proativa pelas autoridades para conter especulações e o pânico socioeconômico durante crises no setor de petróleo. A transparência não significa esconder ou minimizar a realidade, mas sim mostrar que as autoridades estão agindo com fatos, competência e planejamento para proteger o consumidor final. Não se pode esquecer de que a confiança do cidadão é o ativo mais importante em qualquer crise.

terça-feira, 17 de março de 2026

Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos


Territorialidade de risco: O aterramento de áreas urbanas (ou não) com resíduos sólidos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Há alguns dias eu escrevi um texto falando sobre a territorialidade de risco; mas, a fim de não o tornar muito extenso, optei por desmembrar uma parte muito importante, a qual diz respeito à prática do aterramento de áreas de fundo de vale ou de erosão com resíduos sólidos, presentes em zonas urbanas ou não.

Bem, até o início do século XX, essa era uma prática esporádica, que acontecia em pequenas erosões rurais ou periurbanas. No entanto, entre as décadas de 1950 e 1970, com o crescimento da urbanização no Brasil, a falta de saneamento básico e a precariedade da gestão de lixo, as voçorocas urbanas foram usadas como lixões ou aterros informais para lixo doméstico e entulho.

Acontece que essa dinâmica persistiu e, apesar da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) tê-la tornado ilegal, infelizmente, ela ainda ocorre, especialmente em áreas periféricas, devido ao fato de muitos gestores públicos acreditarem que o baixo custo dessa prática é mais vantajoso, do ponto de vista orçamentário, do que a realização do tratamento da erosão pela engenharia geotécnica.

Só que não. Primeiro, porque esse tipo de preenchimento representa uma intervenção profunda na geografia e na geologia do local. Veja, as voçorocas ou áreas de erosão são formadas por água subterrânea e superficial, ou seja, pelo lençol freático exposto, decorrente da perda da cobertura vegetal, principalmente, por desmatamento e queimadas. Desse modo, os resíduos preenchem o espaço; mas, são incapazes de conter a água. Como resultado tem-se o entupimento do fluxo natural, criando uma represa subsuperficial assustadora.

Segundo, porque o uso de entulho de construção civil, de resíduos industriais ou do próprio lixo doméstico para o preenchimento traz riscos seríssimos. Começando pelos metais pesados, tintas e solventes que se infiltram diretamente no lençol freático, já que a voçoroca é uma exposição profunda do solo. Depois, a presença de materiais orgânicos que leva a um processo de decomposição desses, gerando vazios internos, os quais podem causar a desestabilização do terreno aterrado. Por fim, esse descarte inadequado impede uma drenagem correta da água, criando outras frentes de erosão nas bordas do aterro.

Isso significa que esse tipo de material comumente usado não possui coesão. Então, sendo exposto ao peso de eventuais edificações, o solo cede, causando rachaduras e colapsos. Assim, ao ignorar a dinâmica hídrica e geológica, o que deveria ser uma solução urbanística se transforma em uma área de risco iminente.

Um episódio clássico foi o conjunto habitacional Cingapura Zaki Narchi, na Zona Norte de São Paulo, construído na década de 1990, com o propósito de substituir as habitações precárias por edifícios verticalizados, atendendo cerca de 700 famílias. Porém, não se levou em conta que ele foi construído em área de antigo lixão, gerando a percolação do metano pelo solo até a superfície e, portanto, os riscos de explosão devido ao acúmulo de gás no subsolo.

A concentração de metano no subsolo dos 140 apartamentos térreos atingiu níveis extremamente perigosos, incluindo explosão, de modo que a Prefeitura de SP instalou 20 drenos para aliviar a pressão do gás e evitar uma evacuação dos moradores, afirmando ter resolvido o problema em novembro de 2011. No entanto, embora tenha sido relatado a mitigação do risco imediato com os drenos, a situação no local permanece sob observação devido à natureza do subsolo.

E esse não é o único caso, embora não exista um levantamento nacional estatístico exato para contabilizar o número de ocorrências de instabilidade em áreas urbanas, decorrentes do aterramento de voçorocas com resíduos sólidos no Brasil. Além disso, é preciso lembrar de que a situação é muitas vezes agravada pela combinação de terrenos acidentados, alta intensidade de chuvas e o lançamento irregular de diferentes resíduos, comprometendo a estabilidade das áreas aterradas.

Haja vista a situação das áreas aterradas com resíduos sólidos e entulho na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), as quais apresentam riscos geológicos elevados, especialmente durante o período chuvoso. A combinação de solo instável, acúmulo de lixo e infraestrutura de drenagem insuficiente causa desmoronamentos e erosões graves que ameaçam a segurança da população.

Seja como for, o fato é que essas áreas quando ocupadas ou urbanizadas tornam-se, portanto, zonas de alto risco de acidentes e contaminação. Porque além da instabilidade física do terreno, esse aterramento causa poluição hídrica e do solo, gerando sérios riscos à saúde pública. Não só pelo acúmulo de lixo atrai animais como ratos, baratas, escorpiões e mosquitos, elevando casos de dengue e outras zoonoses; mas, pelo fato de que a decomposição de certos resíduos, nesses locais, pode liberar gases e partículas tóxicas, causadoras de doenças graves.

Daí a importância da discussão crítico-reflexiva sobre esse assunto, pela população brasileira, na medida em que sob a ótica da territorialidade de risco, essa prática consolida vulnerabilidades diversas. Portanto, essa prática transforma áreas erosivas em territórios de risco habitacional e sanitário, onde uma população local, muitas vezes de baixa renda, vive em ambiente degradado e insalubre, intensificando a desigualdade socioambiental no país.

É fundamental ter em mente que a insalubridade de uma área de risco, seja ela urbana ou não, compromete a salubridade de toda a região afetada. Porque o ambiente daquele espaço geográfico funciona como um sistema interconectado, onde problemas localizados em regiões vulneráveis geram impactos que se propagam por todo o território através de vetores biológicos, ambientais e sociais. 

O Oscar não nos define!


O Oscar não nos define!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É isso mesmo! Por quê precisamos da legitimação internacional para celebrar a nossa cultura?! Essa é a pergunta que temos que fazer hoje, amanhã, depois, sempre. Porque romper as bolhas, expandir as fronteiras, intercambiar pontos de vista, é nisso que reside a força sociocultural brasileira.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, não podemos fingir que o mundo não vive sob a influência imperialista, monopolista, egocentrista, ... porque essa é uma verdade fática. E o cinema faz parte do mundo, por isso, ele também é afetado por essas questões.

Os olhos que acompanham as atuações, as produções e as exibições públicas, no cenário internacional, de certa forma ainda estão contaminados por certos vieses ideológicos, os quais possibilitam a construção de senões aos filmes que estão fora do espectro dominante da cinematografia mundial.

Desse modo as escolhas não são, então, pautadas basicamente por questões técnicas. Cada corpo de jurados traz consigo crenças, valores, convicções, interesses, simpatias, que acabam por esgarçar o seu processo decisório, afastando-os de um posicionamento mais ético e isento.

Nesse sentido, inclusive, é importante destacar o papel lobista que atua sobre a dinâmica cinematográfica. Infelizmente, o lobby do cinema nas premiações não é apenas uma estratégia de marketing, mas um mecanismo de reprodução de poder e consagração da dominância cultural.

Por isso, não cabe ingenuidade na análise dos acontecimentos. Quando grandes estúdios investem milhões para influenciar os votantes, eles transformam o mérito artístico em uma extensão do capital econômico e social, com o único propósito de garantir que o sucesso se concentre nos mesmos grupos.

Além disso, o prêmio é uma ferramenta de marketing que aumenta o valor do filme e a empregabilidade dos envolvidos, reforçando uma estrutura de classes dentro da indústria cinematográfica.

Assim, em linhas gerais, o alto custo das campanhas lobistas atua como uma barreira para filmes independentes ou de países fora do eixo tradicional; bem como, se encarrega de negligenciar quaisquer narrativas que fujam do padrão cinematográfico tradicional ou vigente.

Para isso, não é incomum que o lobby, muitas vezes, envolva campanhas difamatórias ou desqualificantes contra concorrentes, modificando a escolha artística em um processo puramente político e estratégico. Como já aconteceu na história do cinema.

Caro (a) leitor (a), daí a importância de entender que a manifestação da cultura é, antes de tudo, uma expressão interna, uma relação direta com seu próprio povo. Só depois, é que ela pode ser compartilhada com o externo, com o mundo, porque aí ela já está fortalecida, enriquecida pela própria identidade nacional.   

E nesse momento, então, a sua aclamação ou a sua incompreensão pelo estrangeiro pode ser decodificada de uma maneira adequada e satisfatória. Por isso, mesmo tensionada, sob a pressão externa, as crises econômicas ou os conflitos internos, a cultura se adapta e resiste porque não é algo que se possui, mas algo que se é.

Então, munida dessa impessoalidade para analisar os acontecimentos, sem precisar dessa ou daquela legitimação alheia para se sentir confortável, plena e feliz, ela se mantém. Porque a cultura é capaz de incorporar quaisquer elementos dos eventuais contratempos e se transformar, mantendo intacto o seu núcleo identitário.

Assim, o maior prêmio para quaisquer manifestações ou expressões culturais é a capacidade de realizar, de dar vida às ideias, aos projetos, gerando uma conexão coletiva inimaginável. Aí, nesse instante, ela deixa de pertencer apenas ao criador e passa a dialogar com a sociedade de maneira plena, inteira e extraordinária. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Pesquisas políticas ... bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?


Pesquisas políticas ...  bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea?

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não há como negar, o tempo todo a sociedade contemporânea é bombardeada por pesquisas e dados. São tempos da racionalização, ou seja, da necessidade de medir, calcular e prever o comportamento humano para que nos sintamos seguros ou informados.

Assim, além da tradicional pesquisa de opinião, a contemporaneidade é marcada pela valorização da pesquisa baseada em comportamento, dados reais e experiências. Como se a pesquisa tivesse se transformado em bússola ou oráculo para a sociedade contemporânea.

Mas, quando a pesquisa se dedica à análise do campo político atual, ela assume um caráter predominantemente empírico-analítico e pós-estruturalista.

Isso significa que a pesquisa empírico-analítica foca em dados que podem ser observados, medidos e testados, buscando a objetividade e a neutralidade.

Enquanto a pesquisa pós-estruturalista questiona a ideia de verdade absoluta ou da objetividade total, concentrando-se em como a linguagem, o poder e a cultura moldam o que chamamos de realidade.

Por essas e outras é que nenhum estudo é puramente neutro ou perfeito. O resultado de uma pesquisa é moldado por fatores que acontecem tanto dentro quanto fora do controle do pesquisador.

Veja, por exemplo, as escolhas feitas no desenho do estudo.  Se a amostra for pequena, se as perguntas do questionário forem indutivas ou se houver falhas na análise dos dados, o resultado será afetado.

Também, as pressões do mundo real, quem financia, os prazos apertados, os interesses políticos e/ou as mudanças súbitas no cenário socioeconômico enquanto a pesquisa ocorre, podem enviesar tendenciosamente o resultado.   

Sem contar que a escolha do próprio pesquisador aponta para o fato de que ele traz consigo crenças e vivências que podem sim, adicionar influências à interpretação dos fatos, mesmo que ele tente ser imparcial.

Feitas essas breves considerações e pensando objetivamente nas pesquisas políticas, não é difícil entender, então, a dimensão do peso relativo ao momento ou ao recorte temporal em que uma pesquisa é realizada.

Ora, ele representa o fator crítico que determina se uma pesquisa eleitoral pode ser considerada um raio-X preciso da opinião pública ou apenas um registro obsoleto de uma percepção volátil.

Por isso, pesquisas políticas não preveem o futuro, elas apenas mapeiam tendências em um tempo e espaço específicos. Como uma fotografia estática de uma realidade política fluida, dinâmica; posto que, o momento da coleta define o quanto essa foto poderá, de algum modo, se assemelhar ao resultado esperado.

E as razões disso são óbvias. A começar pelo fato de que a vida é instável e uma série de acontecimentos (im)previsíveis podem mudar o curso da história diariamente.

Desse modo, no caso da política, eventos de grande impacto, tais como um debate, uma denúncia, um escândalo, uma decisão judicial, podem mudar drasticamente a opinião do cidadão sobre alguma questão ou a sua intenção de voto. Uma pesquisa feita 10 dias antes da eleição, por exemplo, pode não captar uma mudança de tendência de última hora.

A realidade do resultado, expressa pela opinião do entrevistado, é afetada pela vida útil e o tipo de informação que foi absorvida pela memória do eleitor. Daí os entrevistados serem voláteis, estarem sujeitos as mudanças. O que explica, também, a razão da existência de alto índice de indecisos ou votos em branco ou nulo.

Mas, não se pode negligenciar a existência de eventos extremos globais, tais como crises climáticas, pandemias, desequilíbrios econômicos e/ou guerras, que são capazes de gerar o chamado efeito de transbordamento, afetando a percepção do cidadão.

Quando ocorre um desastre global, por exemplo, o cidadão tende a projetar o medo do macro no micro. Então, em pesquisas políticas, isso se traduz em uma busca por figuras de autoridade ou lideranças que transpirem uma credibilidade capaz de garantir proteção e ordem, mesmo que o problema local seja diferente do global.

Não é à toa que tais eventos podem servir tanto como cortina de fumaça quanto bode expiatório, no âmbito das pesquisas. Afinal, enquanto alguns podem ser mais tolerantes com as falhas do governo local ao acreditarem que o mundo todo está em crise, outros podem punir o político local por problemas globais, ignorando a falta de controle dos gestores externos sobre o evento.  

Por isso, um evento extremo pode sim, mudar o que o cidadão considera importante. Se há uma crise global de saúde, pautas locais, tais como reforma urbana e inclusão escolar ou cultural, perdem peso na avaliação política. O cidadão passa a julgar o candidato exclusivamente pela sua capacidade de gestão de crise.

Desse modo, a percepção do indivíduo deixa de ser fruto apenas da sua vivência imediata e passa a ser mediada por eventos distantes, tornando a opinião pública local muito mais volátil e imprevisível.

Inclusive, ele pode responder a uma pesquisa baseada em polarizações globais em vez de focar em problemas específicos do seu bairro, da sua cidade ou do seu estado.

Assim, lembre-se: as pesquisas não são, e nunca serão, uma bola de cristal, uma ferramenta de futurologia, para serem utilizadas para monitorar uma sociedade cada vez mais complexa, fragmentada e volátil.

Uma pesquisa reflete o que o eleitor pensou ontem, mas não garante o comportamento de amanhã, especialmente com a rapidez das redes sociais e o visível aumento da polarização e das mudanças nos hábitos de comunicação que dificultam a criação de amostras sociais que sejam efetivamente perfeitas.

Além disso, fenômenos como o voto envergonhado ou a recusa em participar de pesquisas tendem a ampliar a distorção dos dados, impedindo que eles reflitam a totalidade e a sinceridade do pensamento das partes interessadas.


segunda-feira, 9 de março de 2026

“A pressa é inimiga da perfeição”


“A pressa é inimiga da perfeição”

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quem já não ouviu que “a pressa é inimiga da perfeição”? Parece que, no Brasil contemporâneo, uns e outros da política-partidária nacional optaram por negligenciar o tal dito popular. Pena, porque as consequências podem ser desastrosas!

Não é de hoje que certos representantes político-partidários brasileiros, ligados à Direita em seu amplo espectro, defendem a equiparação de facções criminosas a grupos terroristas, alinhando-se a interesses dos EUA.

E o motivo é fácil de compreender, ou seja, os EUA pretendem equiparar as facções criminosas a grupos terroristas para facilitar bloqueios de bens, monitorar movimentações financeiras e ambientais; mas, principalmente, autorizar o uso de forças militares estadunidenses em solo brasileiro.

De modo que, não precisa ser nenhum gênio para entender que toda essa questão afeta diretamente a soberania nacional, o ano eleitoral, a exacerbação da polarização político-partidária, a violência política, na medida em que se permitiria a ocorrência de intervenções estrangeiras, pressões econômicas e o uso de força militar estadunidense no Brasil.

Acontece que, para surpresa de zero pessoas, a vida é dinâmica, instável e atravessada constantemente pelo inesperado, pelo insólito. Recentemente, em agosto de 2025, a Receita Federal, juntamente com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e a Polícia Federal (PF), realizou a Operação Carbono Oculto que desarticulou uma rede criminosa bilionária, a qual utilizava postos de combustíveis e fintechs para lavar dinheiro, com foco em importante organização criminosa da capital paulista.

A grande questão é que a referida operação atingiu as cúpulas de partidos de direita e do centrão. Com movimentações de aproximadamente R$ 50 bilhões, a delação de certos investigados apontou gastos com parlamentares, viagens aéreas em aviões de elementos da rede criminosa, gerando prejuízos no capital político e divisões internas nessas legendas, em razão do envolvimento de alguns de seus membros.

Mas, se apenas esses fatos já seriam ruins, o que dizer quando essa operação se entrelaça com outros recentes escândalos nacionais, tais como o do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o do Banco Master, hein? É, a Polícia Federal (PF) apura a existência de dados entre o caso do Banco Master, as fraudes no INSS e a operação Carbono Oculto, suspeitando de que fundos de investimento usados ​​na lavagem de dinheiro dos combustíveis também tenham ligação com lobistas investigados no escândalo do INSS.

E em meio a esse cenário apocalíptico, eis que surge uma matéria jornalística 1, na qual uma fonte do mercado financeiro, que acompanhou as negociações, apresentou documentos que sustentam uma denúncia de que o Banco Master foi comprado com dinheiro de narcotraficante espanhol, que já fora condenado por lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas.

Assim, em linhas gerais, o que parece claro é que uma eventual equiparação de facções criminosas a grupos terroristas, no Brasil, para satisfazer aos interesses dos EUA, tem potencial concreto de provocar uma exposição inimaginável das personagens envolvidas nessa trama policial em curso, sobre as quais não há uma lista conclusiva. O modo como os acontecimentos têm se desenrolado, até aqui, sinaliza que pode haver muito mais gente do espectro político-partidário da Direita e do Centrão, do que aqueles já noticiados.

Sem contar que ao mexer nos interesses das facções criminosas, lucro econômico e controle territorial para mercados ilícitos, para enquadrá-las em facções terroristas, que visam objetivos políticos, ideológicos ou religiosos, não se pode cravar qual será o comportamento dos envolvidos. Portanto, não dá para descartar a possibilidade de aumentar o uso de delações premiadas para atingir financiadores e líderes, o que potencialmente incriminaria muito mais indivíduos de alta esfera social.

sábado, 7 de março de 2026

Lembre-se: “Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia Woolf)


Lembre-se: “Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. (Virginia Woolf)

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

FORTE. GUERREIRA. DESTEMIDA. DETERMINADA. RESILIENTE. INTELIGENTE. SÁBIA. LÍDER. VISIONÁRIA. ASSERTIVA. CRIATIVA. INOVADORA. INSPIRADORA. DEDICADA. AMOROSA. TRABALHADORA. GENTIL. SOLIDÁRIA. CORAJOSA. COMPREENSIVA.  PODEROSA. INCRÍVEL. MARAVILHOSA. ENCANTADORA. EXTRAORDINÁRIA. FASCINANTE. MANDONA. PASSIONAL. FRÁGIL. INSEGURA. OUSADA. ...

Esses são apenas alguns adjetivos comumente atribuídos às mulheres. Acontece que cada uma dessas palavras representa, na verdade, um rótulo, um estereótipo, uma chancela, para a existência feminina no mundo. Como se subliminarmente fosse estabelecido que uma mulher para ser alguém, de fato e de direito, precisa desse tipo de legitimação social.

Veja, legitimar socialmente uma mulher significa o processo pelo qual determinados papéis, comportamentos ou direitos femininos tornam-se aceitáveis, naturais ou corretos aos olhos de uma comunidade. Daí o papel dos adjetivos. Eles atuam como um código de conduta que define quais comportamentos são aceitáveis ​​ou valorizados em determinados espaços.

Por isso, a linguagem não serve apenas para descrever a realidade. No fundo, o que ela faz é moldar o poder. A forma como adjetivamos as mulheres, então, está diretamente relacionada à deslegitimação feminina por meio da estereotipização.

Como se a linguagem instrumentalizasse o uso de padrões comunicativos para invalidar a autoridade, o intelecto ou o protagonismo das mulheres, reforçando as posições de poder que elas deveriam ocupar.

Haja vista, por exemplo, quando uma fala feminina é rotulada como emocional, ​​ou excessiva, o que se tem é um processo de silenciamento estrutural que exclui as mulheres de espaços de decisão, poder e saber.

Essa estereotipização linguística naturaliza a ideia de submissão e inferioridade, como um carimbo que ignora as especificidades individuais para manter o grupo feminino em uma posição subordinada.

Além disso, a desvalorização da forma como as mulheres se expressam é uma forma de violência moral e psicológica. Capaz de criar barreiras no mercado de trabalho e na liderança social, pois a fala feminina é pré-julgada antes mesmo de seu conteúdo ser avaliado.

Por isso, é tão necessário compreender que os adjetivos usados ​​historicamente para descrever as mulheres raramente são neutros. A verdade é que eles funcionam como ferramentas de controle social e manutenção de posições de gênero.

Às vezes, servindo para manter o status quo, onde o homem detém o monopólio da razão e da objetividade. Outras, reduzindo a mulher à sua função biológica ou estética para o prazer alheio, facilitando a desumanização e a violência a partir da sua objetificação e/ou sexualização.

Mas, o objetivo final é sempre o mesmo, ou seja, definir quem pertence ao centro da sociedade e quem deve permanecer na periferia, na marginalização.

E pensando sobre isso, não pude deixar de resgatar o fato de que a literatura mundial, por exemplo, durante séculos de hegemonia masculina, utilizou adjetivos não apenas para descrever as mulheres, mas para delimitar seus papéis sociais e controlar sua subjetividade.

Que tal relembrar Anna Karenina de Liev Tolstói, Capitu de Machado de Assis ou Madame Bovary de Gustave Flaubert? Elas nos permitem visualizar o modo como a escrita masculina frequentemente oscilou entre dois extremos para simplificar a complexidade feminina, ou seja, a recatada ou a devassa.

Em outros clássicos, como Helena de Troia na Ilíada de Homero, Penélope na Odisseia de Homero, Dulcinéia del Toboso em Dom Quixote de Miguel de Cervantes, a mulher é tratada como um objeto de troca ou um troféu de status para o homem.

A adjetivação, nesses casos, foca no que ela provoca no observador masculino, e não no que ela sente ou pensa. Nesse sentido, ao rotular a mulher como desprovida de lógica, a literatura masculina legitima a manutenção feminina sob a tutela masculina.

De modo que foi graças à ascensão da escrita literária feminina, com Virginia Woolf e Elaine Showalter, por exemplo, é que esses adjetivos passaram a ser vistos como ferramentas de construção de gênero, e não biológicos.

Esse salto crítico e reflexivo permitiu que a literatura contemporânea, escrita por mulheres, não somente buscasse re-adjetivar a experiência feminina, como deslocasse a mulher da posição de objeto, como era descrita pelo olhar masculino, para a posição de sujeito da sua própria história.

Assim, a escrita feminina rompe isso ao apresentar mulheres complexas, contraditórias e reais. Ao assumirem o protagonismo literário, essas mulheres trazem a experiência do corpo, do gênero e da classe para moldar a narrativa.

Desse modo, temas antes silenciados ou negligenciados pelos homens, tais como o trabalho doméstico, a maternidade real, o prazer feminino e a violência de gênero, ganham status de literatura séria, forçando uma revisão do que é considerado universal na arte.

Seja no Brasil ou no mundo, então, o papel revolucionário das mulheres na literatura é que tem impulsionado todo o processo de desconstrução dos impactos nefastos oriundos da linguagem, oferecendo novas perspectivas essenciais à compreensão humana e da sociedade.

Elas têm utilizado a escrita, cada vez mais, para combater preconceitos e subalternidades, criando espaços de resistência. Diferentemente das fases anteriores, a literatura contemporânea tem buscado focar na expressão da experiência genuína de ser mulher, sem se preocupar com o crivo masculino.

A literatura de autoria feminina, portanto, não apenas tem relatado, mas moldado a identidade da mulher no cenário contemporâneo, a partir do desafio aos discursos antigos e da ampliação dos horizontes socioculturais mundo afora.


Territorialidade de Risco


Territorialidade de Risco

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Ao contrário do que o ser humano gostaria, o espaço geográfico tem suas próprias regras. É desse contexto que emerge, portanto, a territorialidade de risco, ou seja, a produção e a vivência de espaços urbanos marcados pela precariedade, insegurança e exclusão social, onde populações marginalizadas habitam áreas sem infraestrutura, suscetíveis a desastres ambientais e/ou a violência.

Em linhas gerais, essa relação que se estabelece entre o espaço físico e as dinâmicas sociais, econômicas e políticas expõe a população aos extremos da vulnerabilidade. Segundo matéria jornalística, publicada há dois dias, “País tem atualmente 1.942 locais na lista dos mais suscetíveis a ocorrências de deslizamentos e inundações” 1, o que leva de imediato à necessidade de reflexão em torno da compatibilização entre as demandas habitacionais e o uso e ocupação do solo.

Primeiro, porque a demanda por habitação de interesse social (HIS) muitas vezes colide com as regras de uso e ocupação do solo, que visam a proteção ambiental ou a organização urbana. A rigidez no zoneamento urbano tende a excluir populações de baixa renda, empurrando-as para a informalidade.

Assim, a compatibilização exige que a política de uso do solo, através do Estatuto da Cidade (Lei n.º 10.257, de 10 de julho de 2001), reconheça o direito à moradia, integrando a regularização fundiária sustentável. Sobretudo, considerando que a ocupação desordenada, seja das encostas ou das beiras de rios, gera supressão de vegetação, assoreamento e erosão, agravando os riscos ambientais para os próprios moradores.

Segundo, porque o risco ambiental é uma construção social. Ele resulta da forma como a sociedade organiza o território, priorizando certas áreas para valorização imobiliária enquanto negligencia a segurança habitacional de áreas ocupadas por populações vulneráveis. É nesse contexto que a segregação espacial leva a população de baixa renda para as franjas urbanas ou terrenos considerados inaproveitáveis pelo mercado imobiliário, mas que possuem alto valor de uso para quem não tem alternativas de moradia.

Entretanto, é preciso salientar também a presença de uma variável contemporânea importante, ou seja, os eventos extremos do clima. Não se pode negar que há uma relação direta e estrutural entre a territorialidade de risco e as injustiças climáticas, onde áreas precárias se tornam locais de impacto desproporcional para populações desprivilegiadas.

A crise climática atua como um multiplicador de ameaças, agravando tensões sociais, políticas e econômicas em territórios vulneráveis, onde mulheres e crianças são desproporcionalmente afetadas. Morar em áreas de risco significa enfrentar diariamente as ameaça de desastres, que se intensificam com o clima, causando perda de habitação, insegurança alimentar e migração forçada.

Por isso, tem se tornado cada vez mais imperiosa a reflexão e a discussão sobre   a lógica do modelo de desenvolvimento atual, que prioriza o lucro e o crescimento industrial, enquanto gera riscos químicos, ambientais e sociais, os quais não são distribuídos igualmente, concentrando-se nas áreas periféricas. Além disso, a falta de investimentos do Estado em infraestrutura, tais como saneamento, habitação, drenagem, no território cria um cenário onde o risco é intencionalmente delegado aos moradores, consolidando a exclusão territorial. De modo que o estigma associado a certas áreas dificulta o acesso dos moradores a serviços essenciais e oportunidades de emprego, isolando-os socialmente.

Dessa configuração, então, tem-se uma sociedade de risco, onde a modernização produz perigos que afetam desproporcionalmente os diferentes grupos populacionais, fazendo com que a territorialidade passe a representar a expressão de poder, através dos usos e das relações sociais que definem o sentido de vida, especialmente, nessas áreas de exclusão.

Que fique claro, risco não é apenas um fenômeno natural, mas uma produção social. A produção da cidade sem planejamento ambiental e socialmente inclusivo transforma eventos climáticos em desastres sociais, concentrando o risco nas áreas mais desprovidas de infraestrutura e proteção. Daí a urgência da integração de Planos Climáticos e de planos de manejo de riscos com a regularização fundiária e o Direito à Cidade.

domingo, 1 de março de 2026

A Paz e seus relativismos


A Paz e seus relativismos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Lamento, mas o ser humano não é de paz. Ele é de guerra. Está intrínseco na sua essência a beligerância, o conflito, a discórdia. Portanto, não se deixe enganar pelos discursos que tentam justificar a guerra por uma tensão nuclear.

Não. Muito antes de 1945, dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki, a belicosidade já transitava entre os seres humanos. As páginas da historicidade não deixam dúvidas a respeito.  

Por isso, é preciso analisar, refletir, camada por camada, sobre esse assunto. Começando pela desigualdade. Esse é o ponto de partida. Afinal, todo e qualquer conflito é marcado pelo desequilíbrio.

É sempre o mais forte contra aquele que se considera mais fraco. Os oponentes nunca estão exatamente em pé de igualdade. Seja em relação aos exércitos, as armas, as estratégias, à disponibilidade de recursos financeiros, de apoios, ...

O que significa que os custos humanos e sociais caem desproporcionalmente sobre as populações. Nesse sentido, as guerras aprofundam, perpetuam a violência estrutural, derrotando o tecido social e colocando o poder político-econômico acima da vida civil.

Basta olhar para certos conflitos em curso na contemporaneidade.  Mianmar. Síria. Haiti. Iêmen. Sahel Africano (Mali, Burkina Faso e Níger).  Guerra Civil no Sudão. Guerra Israel-Hamas na Faixa de Gaza. Guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Por todos os lados, o que se vê é a mais absoluta destruição.

De modo que ela precisa ser compreendida como um traço do fracasso civilizatório do ser humano, ou seja, uma ruptura do contrato social e um sintoma de tensão profunda na estrutura da humanidade.

Quando a guerra se torna o meio principal de resolução de conflitos, ocorre uma descivilização. O autocontrole e as normas sociais dão lugar à barbárie, provando que as instituições falharam em mediar as relações humanas de forma racional.

Além disso, é preciso entender que a beligerância não decorre da busca por solucionar conflitos. Analisando fria e pragmaticamente a história, a imensa maioria dos conflitos relatados foram motivados por interesses estratégicos, econômicos, políticos e/ou disputas de poder, não pela paz.

E dentro desse contexto, o que se desdobra e reverbera é comumente os sentimentos de ódio, de destruição, de intolerância e/ou do acirramento das disputas territoriais, desencadeados muito mais como uma extensão de políticas ocultas do que um instrumento de resolução pacífica.

Por essas e outras é que o pretexto da ameaça nuclear não se sustenta, na medida da sua assimetria. Ora, se alguns países podem possuir arsenais nucleares, porque outros não podem?

Veja, a falta de armas nucleares coloca muitos países em posição de vulnerabilidade, enquanto o equilíbrio do terror entre as potências armamentistas impede conflitos diretos entre elas, mas não resolve as ameaças regionais.

Assim, sem um desarmamento geral e completo, a desigualdade entre países armados e não armados mantém o risco nuclear perene. Esse é, portanto, o ponto que reafirma o impasse que atravessa a resistência das potências globais ao desarmamento nuclear geral e completo.

Enquanto os proponentes do desarmamento focam nas consequências humanitárias e na moralidade, os Estados nucleares operam sob a lógica da sobrevivência em um sistema anárquico internacional, onde as armas nucleares são vistas como o seguro final da sua soberania estatal, um ato prudente e necessário para a sua autopreservação.

Acontece que, embora as armas nucleares reduzam a probabilidade de uma guerra direta e total entre grandes potências, elas tendem a aumentar a probabilidade de conflitos menores ou indiretos, a partir da lógica de que os Estados se sentem protegidos contra uma escalada total.

Portanto, os conflitos não desaparecem. Eles são empurrados para países periféricos ou para o campo diplomático e econômico, por estratégias como guerras por procuração, ou seja, ao contrário de as grandes potências lutarem entre si, elas financiam e armam facções em países menores.

No mesmo viés, eles promovem ataques cibernéticos para sabotar infraestruturas críticas, roubar dados e causar danos econômicos, superando eventuais barreiras físicas.  Ou apoiam as insurgências, a partir do financiamento, armamento e/ou treinamento de grupos rebeldes para desestabilizar governos inimigos sem combate direto.

Diante disso, a geopolítica contemporânea não deixa dúvidas de como a posse de armas de destruição em massa altera o comportamento das nações no xadrez global, na medida em que transfere as agressões dos campos de batalha diretamente para formas mais sutis e fragmentadas de conflito, na ótica da relação custo-benefício.

Sim, porque considerando que o custo da guerra nuclear é infinito, logo, as nações buscam o ganho marginal através de pequenos conflitos. Então, como se vê, a síntese dessa construção é simples, a humanidade vive, desde 1945, uma paz nuclear.

Trata-se, então, de uma paz armada e desigual, na qual o medo da aniquilação total não é capaz de eliminar a agressividade, a incivilidade, seja ela humana ou estatal. A partir de mecanismos que forçam as nações a encontrarem caminhos menos diretos e mais complexos para se manifestar.

Por isso, em plena contemporaneidade, pouco mais de 8 bilhões de seres humanos são obrigados, à revelia de suas vontades e queres, a permanecer vivendo sob o tempo da desinformação, da espionagem e da guerra psicológica, explícita ou velada. A viver em um estado de vigilância e tensão constante, mesmo sem o risco iminente de uma bomba nuclear.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Reflexões geradas por uma revolução atemporal


Reflexões geradas por uma revolução atemporal

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Não, não dá para tratar certos assuntos sem olhar para a historicidade humana; sobretudo, recapitulando o evento mais importante de todos os tempos, a Revolução Francesa.

Ao derrubar o absolutismo e os privilégios feudais, ela remodelou a estrutura social, transformando os privilégios dos cidadãos e estabelecendo as bases dos direitos humanos universais, o processo histórico e gradual onde instituições, comportamentos e normas sociais perderam a influência religiosa, tornando-se mais racionais, seculares e laicas, e os ideais democráticos passaram a definir o mundo contemporâneo.

O referido levante popular francês, então, declarou a capacidade de mobilização das classes desfavorecidas, gerando pânico à aristocracia e desestabilizando a ordem social tradicional. Isso significa que estamos falando de um fator crucial de exigência de novas formas de entender a organização da sociedade, minando a base de regalias hereditárias.

De modo que apesar de todos os esforços das elites dominantes, ao longo dos séculos que sucederam à Revolução Francesa, a força da ação coletiva popular permaneceu reverberando.

Desde o século XVIII, o mundo assiste ao desconforto e ao temor das elites em razão de uma possível nova radicalização desses ideais, podendo ameaçar seus interesses, poderes, regalias e privilégios dentro da ordem capitalista e da propriedade privada vigente.

Acontece que focadas na manutenção da riqueza como seu objetivo principal, em detrimento do projeto de nação ou bem-estar coletivo, as elites dominantes também tiveram que utilizar mecanismos institucionais e ideológicos para conter as mudanças que pudessem ameaçar a hegemonia do seu status quo.

E esse é um dilema complexo. Pois, a ambição de poder supera a função social de liderança e, por consequência, passa a servir mais aos interesses econômicos das minorias do que às demandas da maioria, gerando descrédito e descontentamento em relação ao sistema democrático.

Ao priorizar o enriquecimento e a contenção social, a elite fragmenta o tecido social. Isso abre espaço para o surgimento do populismo, onde líderes prometem romper essa barreira entre o povo e a elite egoísta, degradando ainda mais as instituições políticas. Algo que se vê claramente nos períodos eleitorais.

A teoria das elites, em períodos eleitorais contemporâneos, manifesta-se através da disputa entre grupos organizados pela manutenção ou conquista do poder, evidenciando o modo como uma pequena elite se torna protagonista, possibilitando que os partidos e as lideranças se profissionalizem, criando uma classe dirigente que busca perpetuar o seu padrão social.

Daí o que se consegue extrair desse comportamento é bastante significativo. Afinal, essas elites contemporâneas tendem a se desconectar da realidade das camadas populares, focando na preservação de privilégios e na reprodução de seus próprios poderes. Sobretudo, porque elas interpretam os avanços populares como riscos diretos à manutenção do seu espaço de poder.

Por isso, elas frequentemente utilizam narrativas distorcidas e enviesadas para explicar porque devem permanecer onde estão, tentando convencer as camadas populares de que seus ideários são impraticáveis ​​e/ou extremamente perigosos.

A ideia dessas elites é reafirmar que elas sempre serão organizadas enquanto a massa popular será sempre desorganizada. Para tal, contam com as mídias sociais contemporâneas para consolidar a deslegitimação das camadas populares nos processos eleitorais.

As práxis utilizadas são muitas. Amplificam a desinformação por meio de fake News. Destroem reputações de possíveis adversários. Criam bolhas algorítmicas que limitam a exposição a propostas estruturais. Facilitam o uso de microtargeting, ou seja, a estratégia de personalizar anúncios para decisões de consumo e/ou políticas. Enfim...

Tudo com o propósito de propagar notícias falsas a fim de afligir a democracia; pois, ao perverter os fatos e não dar tempo para o contraditório, prejudicam os cidadãos com um menor acesso à educação política formal.

Algo que reforça crenças pré-existentes, isolando seus grupos sociais em bolhas capazes de impedir o acesso as informações diversificadas, fragilizando o consenso democrático.

Basta um pouco atenção para perceber como certos candidatos usam dados pessoais para segmentar mensagens personalizadas, muitas vezes direcionando conteúdos superficiais ou apelativos para camadas populares, em vez de discutir políticas públicas estruturais.

Sem contar, o uso de perfis falsos, os quais simulam apoio popular artificial a pautas extremistas, transparecendo a existência de uma voz popular que, na realidade, é manipulada para servir aos interesses de certas elites políticas.

Desse modo, essas dinâmicas tecnológicas contemporâneas, ao invés de democratizar, têm frequentemente submetido as camadas populares a um ambiente de pós-verdade.

Nesse contexto, a verdade factual se torna secundária ou irrelevante diante do que o indivíduo percebe como sendo verdade ou que o faz reforçar sua própria visão de mundo.

Em síntese, o debate de propostas acaba substituído por emoções acaloradas e insanas, nutridas de muitas desinformação e engano. Daí a necessidade de um exercício reflexivo, a partir dessas breves considerações.  

Ainda que seja penoso admitir, já que estamos em pleno século XXI, o ranço histórico advindo da Revolução Francesa permanece instrumentalizando as elites em sua busca por fechar as portas para novos grupos sociais, ou seja, evitar que as camadas populares ascendam e ameacem suas prerrogativas.

E para alcançar seus propósitos, a elite precisa de mecanismos de controle que vão além da força física. Assim, olhando para a contemporaneidade, a pós-verdade funciona como essa nova fórmula.

Afinal, se não há consenso sobre o que é verdade, as camadas populares não conseguem se unir em torno de uma pauta comum. Tornando-se fácil pautar o debate público com questões emocionais, morais e/ou conspiratórias, possibilitando às elites desviarem a atenção de temas estruturais como, por exemplo, a desigualdade de renda, as reformas institucionais – política, administrativa e tributária - e a concentração de terras.

Assim, ao colocar a massa popular ocupada combatendo pseudoinimigos invisíveis, criados por narrativas de pós-verdade, as regalias fiscais, os subsídios e o poder político das elites permanecem intocados e fora do radar do debate público sério e efetivamente cidadão.