sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Para você, qual é o peso da experiência na hora de suas escolhas?!


Para você, qual é o peso da experiência na hora de suas escolhas?!

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A universalização do voto no Brasil foi um processo histórico longo e gradual, consolidado definitivamente apenas com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Ao longo dos séculos, o direito de participar das escolhas políticas do país deixou de ser um privilégio restrito as elites econômicas e masculinas para se tornar um direito garantido a todos os cidadãos, independentemente de renda, gênero ou nível de instrução.

Mas, a pergunta que sempre me faço é se o exercício desse direito está, de fato, respaldado por um entendimento pleno a respeito da força de certos parâmetros para essa escolha. Porque a percepção da realidade se mostra exatamente contrária, dado um histórico de tutela e de controle por parte das elites que não permitiu um amadurecimento real sobre o impacto do voto em relação à completude da cidadania.

E um dos aspectos que me chama bastante atenção deriva do desconhecimento em torno do papel dos 3 Poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário. O que leva a uma flagrante distorção decisória em relação ao Executivo e ao Legislativo, que são poderes constituídos a partir da escolha político-partidária representativa. Uma parcela significativa da sociedade brasileira não compreende a existência da necessidade dialógica entre esses poderes para a satisfação das demandas e anseios populares, por exemplo. Votam em um contexto político-partidário para o Legislativo e outro diametralmente oposto para o executivo.

Não compreendem que nenhum Presidente, Governador ou Prefeito consegue governar sozinho. Para aprovar leis e orçamentos, o Poder Executivo é constitucionalmente obrigado a dialogar e construir maiorias com o Poder Legislativo. Por isso, quando o eleitorado elege um Executivo de uma ideologia e um Legislativo de outra, o governante é forçado a ceder em suas promessas de campanha para conseguir o apoio do parlamento, o que muitas vezes é interpretado pela população como fisiologismo ou traição ideológica.

Infelizmente, no Brasil, o voto frequentemente se baseia na personalidade dos candidatos e não nos programas dos partidos, algo que faz com que o eleitor vote em um candidato à presidência pelo seu discurso e, ao mesmo tempo, escolha deputados de espectros opostos por motivos locais ou clientelistas. E essa desconexão entre o voto para o Poder Executivo (Presidente) e o Poder Legislativo (Deputados e Senadores) gera impactos profundos e, muitas vezes, negativos para a própria estabilidade democrática.

Mas, não bastasse isso, a existência de candidatos oriundos do Legislativo concorrendo a uma vaga no Executivo, também, faz pensar. Ora, muitos indivíduos costumam dedicar anos de sua vida pública ao Legislativo antes de se colocarem a concorrer ao Executivo, acontece que essa experiência não lhes talha exatamente para tal empreitada. Por quê? Bem, é fácil compreender. O Poder Legislativo e o Poder Executivo exigem habilidades, rotinas e mentalidades completamente diferentes.

Enquanto o Legislativo é o ambiente da negociação, do debate e da representação de nichos sociais, comumente conhecidas como “bancadas”, o Executivo é o espaço da gestão pragmática, da tomada de decisão solitária e da responsabilidade direta sobre os serviços públicos e o bem-estar da população.

Além disso, no Legislativo o poder é diluído. Um parlamentar, seja ele (a) Deputado (a) ou Senador (a) é um (a) entre dezenas ou centenas. O sucesso depende da capacidade de articular, ceder, criar consensos e aprovar textos coletivos, de modo que o foco está no processo e na palavra. Enquanto no Executivo o poder é centralizado e hierárquico. O governante, seja ele (a) Prefeito (a), Governador (a) ou Presidente (a), é o (a) único (a) responsável final. Nesse sentido, ele (a) precisa decidir de forma rápida, muitas vezes sem consenso, e arcar sozinho com o ônus político e jurídico da escolha. Portanto, o foco está no resultado prático.

No Legislativo, o trabalho é analítico, retórico e fiscalizador, ou seja, o parlamentar aponta problemas, propõe leis e critica o governo, mas raramente lida com a implementação real de políticas públicas. Já no caso do Executivo, o papel é administrar uma máquina burocrática gigantesca. Isso envolve gerenciar milhares de servidores, gerir orçamentos engessados, lidar com licitações complexas, responder a órgãos de controle, como os Tribunais de Contas, e garantir que hospitais, escolas e demais serviços essenciais funcionem diariamente.

Isso acontece em razão de que no Legislativo, um (a) deputado (a) ou senador (a) pode se destacar e fazer carreira defendendo uma única pauta como, por exemplo, o meio ambiente, a segurança, a educação ou o interesse de uma região específica. De modo que eles (as) respondem apenas às suas bases eleitorais. No Executivo, o governante não pode escolher pautas. Ele precisa governar para todos, equilibrando demandas conflitantes de direitos sociais, de infraestrutura e de economia ao mesmo tempo, mesmo aquelas com as quais não tem afinidade.

E em tempos de crises, enquanto o Legislativo, resolve as questões por meio de debates, comissões de inquérito (CPIs) ou discursos na tribuna, de maneira lenta e gradual, o Executivo é obrigado a lidar com os problemas práticos, imprevisíveis e de impacto imediato, tais como desastres naturais, greves de serviços essenciais, colapsos financeiros, de maneira objetiva e rápida. O governante precisa agir em horas, sob intensa pressão pública, e qualquer erro de execução gera consequências diretas na vida dos cidadãos.

Por isso, a ideia de transição do poder Legislativo para o Executivo falha quando o político tenta governar um Município, um Estado ou um país usando a mesma dinâmica de negociação e discurso que usava nos plenários. A teoria na pratica é bem diferente. Inclusive, se ele (a) tenta disputar contra oponentes que já têm experiência no Executivo isso fica evidente; pois, há uma carência flagrante quanto ao que mostrar de concreto em cada área, tendo em vista que ele (a) não dispõe dessa vivência. Deixando claro que a escolha do eleitor, nesse caso, poderia significar trocar o certo pelo duvidoso.

Ora, quando o assunto é sério e pode implicar em consequências desastrosas ou letais, a experiência fala mais alto. O peso da experiência em uma determinada função significa o impacto direto e o valor que o histórico prático de um (a) político (a) traz para a execução de tarefas e a resolução de problemas. A bagagem de aprendizados, erros superados e maturidade profissional acumulados ao longo desse tempo, representam um diferencial importante.

O (a) político (a) experiente já enfrentou cenários semelhantes antes; por isso, ele (a) consegue prever as consequências de uma escolha e decidir com mais segurança, economizando tempo e recursos. Quando surge um imprevisto, quem tem experiência não entra em pânico. Essa pessoa já desenvolveu uma biblioteca mental de soluções e sabe exatamente qual ferramenta ou estratégia usar para conter danos.

Além disso, a prática constante transforma processos burocráticos em uma espécie de intuição afiada, de modo que o indivíduo consegue antecipar tendências, gargalos ou riscos antes mesmo que eles se materializem em dados. Saber o caminho das pedras elimina o desperdício de energia, fazendo com que o trabalho seja feito com maior foco na qualidade e menor índice para refazer. O que representa a possibilidade de elevar o nível da equipe ao seu redor, pois essa pessoa sabe como orientar os mais jovens e transmitir conhecimento de forma prática.

Por essas e outras é que o peso da experiência não é apenas o tempo de casa ou os anos no currículo, mas sim a sabedoria acumulada para aplicar o conhecimento certo, na hora certa, do jeito mais eficiente. Na gestão de um país complexo como o Brasil, essa relação se manifesta na transição da política tradicional para uma governança de alto impacto, onde a sabedoria prática é o divisor de águas entre o desenvolvimento e a estagnação. para gerir o Brasil, os anos de vida pública só tem valor se transformado em pragmatismo.

Afinal, o sucesso da liderança é saber usar o conhecimento certo, na hora certa, do jeito mais eficiente para proteger o interesse nacional. No Brasil de hoje está claro que a soberania não se grita, se exerce. Contra a ingerência internacional, o melhor escudo não é o confronto direto e barulhento, mas a aplicação cirúrgica, firme e inteligente do peso político e das riquezas que o país possui.