A todos
os (as) idosos (as) e aos que ainda irão envelhecer ...
Por
Alessandra Leles Rocha
Pensar no futuro das gerações brasileiras
não é slogan emocional. Nem frase de efeito vazia. Nem falta do que dizer. A todos
que ainda não se deram conta o Brasil está envelhecendo rapidamente devido à
queda na taxa de natalidade e ao aumento da longevidade, segundo dados da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril desse ano.
O que significa que pessoas com 60 anos ou mais já somam cerca de 36 milhões, o
equivalente a 16,6% da população total do país.
E por que refletir sobre essa
situação é tão importante? Bem, a relação entre o envelhecimento populacional e
as reformas trabalhistas recentes no Brasil criou um cenário crítico para a
sustentabilidade da proteção social e a dignidade na velhice. Haja vista que o
país passa por uma transição demográfica acelerada com o aumento de idosos e a redução
de jovens em meio a uma flexibilização do trabalho que reduziu a base de
contribuintes formais a sustentar o sistema de previdência social.
Portanto, está havendo uma quebra
da solidariedade intergeracional. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS),
uma autarquia do governo federal brasileiro, vinculada ao Ministério da
Previdência Social, criada em 1990, funciona no modelo de repartição simples,
ou seja, os trabalhadores ativos formalizados pagam os benefícios de quem já
está aposentado hoje. Desse modo, ao empurrar milhões de trabalhadores para a
informalidade, o cooperativismo de fachada ou o trabalho por aplicativos, a
Previdência perde a sua principal fonte de custeio que é a contribuição
patronal e a carteira assinada.
E quando se pensa na figura ilusória
do Microempreendedor Individual (MEI), ela esconde a subcontribuição. Acontece que
o MEI contribui com apenas 5% do salário-mínimo para a previdência, enquanto um
trabalhador celetista gera uma arrecadação muito maior pelo fato de serem
somadas a parte do empregado e do empregador. Por isso, quem contribui como MEI
tem direito apenas à aposentadoria por idade, com valor de um salário-mínimo, e
não por tempo de contribuição, o que achata a renda futura da população idosa.
Quanto à uberização do trabalho, um
termo que descreve o novo modelo de relação profissional baseado no uso de
plataformas digitais e aplicativos para conectar diretamente prestadores de
serviço e consumidores, ela gerou uma massa de trabalhadores que não contribui
regularmente para o INSS, seja por falta de renda suficiente ou pela burocracia
do pagamento autônomo, como a Guia da Previdência Social - GPS.
O que explica, por exemplo,
porque no curto prazo, esses trabalhadores ficam sem auxílio-doença ou licenças
em caso de acidentes de trabalho. No longo prazo, ao atingirem a idade
avançada, milhões de brasileiros não terão o tempo mínimo de contribuição
necessário para se aposentar pelo INSS. Portanto, a uberização opera uma
desinstalação dos direitos sociais conquistados ao longo do século XX.
Se no curto prazo ela se
manifesta como o desespero de um entregador acidentado sem renda, no longo
prazo ela se converterá em uma crise humanitária e demográfica, onde uma
geração inteira de trabalhadores idosos se verá desprovida tanto de saúde
física quanto de garantias mínimas de sobrevivência.
Entende, agora, por que é tão
importante não permitir que a perda dos direitos sociais, garantidos constitucionalmente,
venha de fato a ocorrer no Brasil, a partir de uma eventual ascensão da
ultradireita?! A radicalização dos cortes de direitos sociais,
que já vem sendo amplamente divulgada pela ultradireita, instrumentaliza
diretamente a chamada necropolítica. Desse modo, o desmantelamento das redes de
proteção social não significa apenas uma métrica de ajuste econômico, mas um
mecanismo político que decide quem tem condições de cooperar e prosperar, e
quem é abandonado à própria sorte.
Aos que ainda não sabem, a Necropolítica
é um conceito filosófico e político criado pelo filósofo camaronês Achille
Mbembe que define o poder do Estado de decidir quem pode viver e quem deve
morrer. Ao contrário de gerir e proteger a vida dos cidadãos, a necropolítica
atua por meio da destruição de corpos, da negligência estatal e da criação de zonas
de morte ou populações descartáveis.
Tal conceito se conecta à lógica
da escravidão e do colonialismo, onde certas populações eram tratadas como
subumanas e passíveis de eliminação. Nesse sentido, então, o racismo estrutural
funciona como o principal instrumento que legitima a exposição de determinados
grupos a condições precárias de existência ou à violência letal. Assim, a
omissão do Estado em garantir saúde, saneamento básico, moradia e dignidade a
grupos vulneráveis se traduz nesse conceito de "deixar morrer".
Portanto, não há como dissociar a
manutenção dos direitos sociais e a escalada do envelhecimento populacional no
Brasil. Como, também, não há como dissociá-los das claras intenções de
implantação e recrudescimento da necropolítica no país. As transformações
demográficas impõem desafios que, dependendo das escolhas governamentais, podem
resultar na exclusão deliberada de parcelas vulneráveis da população.
Diante da realidade em que a população idosa e de baixa renda depende exclusivamente do Estado, quaisquer perdas de direitos sociais impacta diretamente a sua expectativa e qualidade de vida. É por essas e outras que debater o envelhecimento no Brasil atual vai muito além da matemática previdenciária das contas públicas; trata-se de uma disputa civilizatória sobre quais vidas o Estado brasileiro escolherá proteger e quais ele escolherá negligenciar.
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