domingo, 21 de junho de 2026

Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos


Curaçao e seu futebol feito de valores éticos-cidadãos

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É sempre muito bom, quando a vida nos surpreende! De fato, olhando para o futebol contemporâneo, a impressão que eu tinha era de que ele havia sido sequestrado pela ação da monetização e da mercantilização, impulsionada pelo capitalismo esportivo, e transformado em mero produto mercadológico.

Aí, o 999º jogo das Copas do Mundo aconteceu e descontruiu essa percepção, de maneira incrível.  Por quê? A seleção caribenha de Curaçao faz sua primeira participação nas Copas do Mundo e não somente conquistou o seu primeiro ponto, como se tornou o menor país a disputar partidas e pontuar no torneio. Depois de marcar um gol na partida contra a Alemanha, em seu primeiro jogo em Copas do Mundo, a equipe empatou em 0 a 0 contra o Equador, na noite de ontem, alcançando o seu primeiro ponto.

Mas, tudo isso pode ser considerado como a cereja do bolo. Afinal, o que causou tamanha surpresa foi algo bem mais subjetivo. A equipe de Curaçao vem demonstrando em campo o poder do simbolismo do futebol na reafirmação da sua identidade sociocultural. Cientes da sua incipiente qualidade futebolística, o desejo de se entregar de corpo e alma para a Copa do Mundo FIFA 2026, enfrentando adversários mais bem ranqueados no esporte, consagrou a força imbatível da sua identidade nacional.

A sua torcida, seja ocupando os estádios da Copa ou espalhada por diversos outros lugares do mundo, cria a Blue Wave (Onda Azul) que representa o mar azul do Caribe e os rituais ancestrais de proteção com pó azul na pele. Destacadas em seu uniforme, o azul, o amarelo e as estrelas da bandeira nacional, tem o poder de refletir a diversidade das origens do seu povo, marcado por uma rica mistura de influências indígenas e da colonização espanhola e holandesa, além de um forte elo histórico com o Brasil.

Em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas, Curaçao tornou-se um país independente no Reino dos Países Baixos, o que significa que ele é totalmente autônomo para gerenciar seus próprios assuntos internos; mas, a Holanda ainda é responsável por áreas como a defesa e as relações exteriores.

Talvez, por isso, a importância de enaltecer, de destacar, a sua identidade nacional por meio da oportunidade conquistada de participar de uma Copa do Mundo. Esse momento ímpar da sua história reafirma a soberania e a cultura local, elevando o orgulho pátrio e a união social muito acima da mercantilização, dos patrocínios milionários e da exploração financeira que caracterizam o capitalismo esportivo contemporâneo.

De fato, a ascensão esportiva de Curaçao sinaliza um contraponto à realidade do recorte temporal atual. Porque ao contrário de seguir o fluxo das ligas milionárias, a coesão social e a identidade cultural formam a base de suas equipes, cuja estrutura é essencialmente amadora ou semiprofissional, priorizando o orgulho local sobre a exploração financeira. Além disso, o sucesso da equipe nacional apoia-se na convocação de jogadores com raízes locais, valorizando o sentimento de pertencimento pátrio em vez de contratações de mercado.

O que prova que a essência do futebol ainda existe e resiste. A participação de Curaçao na Copa nos lembra que o sucesso nesse esporte nem sempre está atrelado ao resultado. A comemoração efusiva da equipe pelo seu primeiro gol em Mundiais e a posterior oração coletiva no gramado com os adversários resgataram o lado mais humano, fraterno e apaixonado do esporte.

A grandeza da seleção de Curaçao está na sua capacidade extraordinária de refletir a resiliência e o orgulho de um povo ao ver a sua identidade cultural e a sua soberania reconhecidas no principal palco do esporte mundial. Eles destacaram que a união, a gratidão e a fé são os seus pilares fundamentais, demonstrando que o esporte atua como um canal para uma moral coletiva e a dignidade de sua nação.

Desse modo, com cerca de 158 mil habitantes, a participação inédita e a emoção com o primeiro gol e o primeiro ponto somado na competição não apenas mobilizaram a ilha, como encantaram o mundo. Milhões de pessoas, agora, sabem que “Curaçao é um povo pequeno, com um coração grande”, segundo o lema e o cântico da torcida "Nos ta un pueblo chikí, ku un kurason grandi".  O suficiente para pulsar de orgulho em pertencer a uma ilha no sul do Mar do Caribe.