Curaçao e
seu futebol feito de valores éticos-cidadãos
Por
Alessandra Leles Rocha
É sempre muito bom, quando a vida
nos surpreende! De fato, olhando para o futebol contemporâneo, a impressão que
eu tinha era de que ele havia sido sequestrado pela ação da monetização e da
mercantilização, impulsionada pelo capitalismo esportivo, e transformado em
mero produto mercadológico.
Aí, o 999º jogo das Copas do
Mundo aconteceu e descontruiu essa percepção, de maneira incrível. Por quê? A seleção caribenha de Curaçao faz
sua primeira participação nas Copas do Mundo e não somente conquistou o seu
primeiro ponto, como se tornou o menor país a disputar partidas e pontuar no
torneio. Depois de marcar um gol na partida contra a Alemanha, em seu primeiro
jogo em Copas do Mundo, a equipe empatou em 0 a 0 contra o Equador, na noite de
ontem, alcançando o seu primeiro ponto.
Mas, tudo isso pode ser
considerado como a cereja do bolo. Afinal, o que causou tamanha surpresa foi
algo bem mais subjetivo. A equipe de Curaçao vem demonstrando em campo o poder
do simbolismo do futebol na reafirmação da sua identidade sociocultural. Cientes
da sua incipiente qualidade futebolística, o desejo de se entregar de corpo e
alma para a Copa do Mundo FIFA 2026, enfrentando adversários mais bem
ranqueados no esporte, consagrou a força imbatível da sua identidade nacional.
A sua torcida, seja ocupando os estádios
da Copa ou espalhada por diversos outros lugares do mundo, cria a Blue Wave
(Onda Azul) que representa o mar azul do Caribe e os rituais ancestrais de
proteção com pó azul na pele. Destacadas em seu uniforme, o azul, o amarelo e
as estrelas da bandeira nacional, tem o poder de refletir a diversidade das
origens do seu povo, marcado por uma rica mistura de influências indígenas e da
colonização espanhola e holandesa, além de um forte elo histórico com o Brasil.
Em 2010, após a dissolução das
Antilhas Holandesas, Curaçao tornou-se um país independente no Reino dos Países
Baixos, o que significa que ele é totalmente autônomo para gerenciar seus
próprios assuntos internos; mas, a Holanda ainda é responsável por áreas como a
defesa e as relações exteriores.
Talvez, por isso, a importância
de enaltecer, de destacar, a sua identidade nacional por meio da oportunidade
conquistada de participar de uma Copa do Mundo. Esse momento ímpar da sua
história reafirma a soberania e a cultura local, elevando o orgulho pátrio e a
união social muito acima da mercantilização, dos patrocínios milionários e da
exploração financeira que caracterizam o capitalismo esportivo contemporâneo.
De fato, a ascensão esportiva de
Curaçao sinaliza um contraponto à realidade do recorte temporal atual. Porque
ao contrário de seguir o fluxo das ligas milionárias, a coesão social e a
identidade cultural formam a base de suas equipes, cuja estrutura é essencialmente
amadora ou semiprofissional, priorizando o orgulho local sobre a exploração
financeira. Além disso, o sucesso da equipe nacional apoia-se na convocação de
jogadores com raízes locais, valorizando o sentimento de pertencimento pátrio
em vez de contratações de mercado.
O que prova que a essência do
futebol ainda existe e resiste. A participação de Curaçao na Copa nos lembra
que o sucesso nesse esporte nem sempre está atrelado ao resultado. A
comemoração efusiva da equipe pelo seu primeiro gol em Mundiais e a posterior
oração coletiva no gramado com os adversários resgataram o lado mais humano,
fraterno e apaixonado do esporte.
A grandeza da seleção de Curaçao
está na sua capacidade extraordinária de refletir a resiliência e o orgulho de
um povo ao ver a sua identidade cultural e a sua soberania reconhecidas no
principal palco do esporte mundial. Eles destacaram que a união, a gratidão e a
fé são os seus pilares fundamentais, demonstrando que o esporte atua como um
canal para uma moral coletiva e a dignidade de sua nação.
Desse modo, com cerca de 158 mil habitantes, a participação inédita e a emoção com o primeiro gol e o primeiro ponto somado na competição não apenas mobilizaram a ilha, como encantaram o mundo. Milhões de pessoas, agora, sabem que “Curaçao é um povo pequeno, com um coração grande”, segundo o lema e o cântico da torcida "Nos ta un pueblo chikí, ku un kurason grandi". O suficiente para pulsar de orgulho em pertencer a uma ilha no sul do Mar do Caribe.
