A
imposição de padrões estéticos inatingíveis e a visão do envelhecimento
Por Alessandra
Leles Rocha
Correndo os olhos pelos veículos de
comunicação, tradicionais ou alternativos, não há um dia sequer em que a vida
ceifada por procedimentos estéticos não apareça em destaque. De repente,
comecei a entender que o tênue limite entre a vida e a morte não está se
estreitando somente em razão das violências já conhecidas; mas, por um outro viés,
não menos perverso e cruel.
Desde que a contemporaneidade transformou
pessoas em coisas, em objetos, reduzindo a essência humana a uma mercadoria com
valor de troca, submetendo a existência à lógica financeira, a corrida pela
eterna juventude expressa através da imagem disparou. O ciclo natural da vida,
no seu nascer, crescer, envelhecer e morrer, agora, não pode mais seguir seu
fluxo natural; porque, envelhecer se tornou fora de questão.
Frequentemente estigmatizado, o
envelhecimento vem se consolidando como um contraponto à produtividade e à
juventude. Ainda que reflita uma tentativa ilógica de negar o processo
biológico em prol de padrões estéticos e mercadológicos inalcançáveis,
resultando na exclusão social e no etarismo. Afinal, o envelhecimento natural passou
a ser visto como uma falha a ser corrigida.
Caso contrário, uma legião decide
bradar, em altos decibéis, que a dignidade e a relevância social de quem se
permite envelhecer numa boa, pode e deve ser questionada. Desse modo todo o
debate sobre os direitos e a valorização da memória e da experiência humana é sumariamente
descartado, para que sejam criadas outras oportunidades de consumo, as quais
exijam que as pessoas se mantenham exaustivamente ativas e financeiramente
capitalizadas nessa fase da vida.
Acontece que, enquanto o mercado
e o imaginário social promovem uma verdadeira cruzada para esconder a
maturidade, a biologia segue seu curso natural, impondo transformações físicas
e cognitivas inevitáveis ao longo do ciclo da vida. A imposição de padrões
estéticos irreais para evitar que o envelhecimento demonstre à sua inevitável decadência,
não consegue impedir aquilo que acontece por dentro, no mais profundo do DNA
humano.
Quando o corpo, a partir de certo
ponto, inicia os processos naturais de senescência, ou seja, da perda gradual
de massa muscular, da diminuição da elasticidade da pele e das alterações bioquímicas
e metabólicas, ainda que se possa desacelerar os impactos dessas mudanças
através de hábitos saudáveis, o relógio biológico continua cumprindo sua
trajetória natural.
Por isso, a busca incessante por
uma juventude eterna e de corpos padronizados tem gerado não só uma pressão
social imensa, como se transformado em uma violência psicológica e física
contra a própria essência humana. Tal obsessão pela juventude e por padrões
corporais inalcançáveis, na contemporaneidade, se
transformou em um gatilho severo para o adoecimento psíquico, o qual além de promover
a exaustão mental, a ansiedade e a insatisfação crônica, alimenta o ciclo de
comparação social que recusa do processo natural de envelhecimento.
Mas não é só isso. Desse
movimento em curso deriva uma tríade terrível que é a invisibilização do
intelecto, da experiência e da singularidade humana. Haja vista que ao reduzir o
valor do indivíduo à sua aparência física, a sociedade ofusca trajetórias
profissionais, talentos artísticos e competências técnicas extraordinárias, marginalizando
inúmeros profissionais experientes no mercado devido ao envelhecimento natural.
Portanto, é necessário reconhecer
que esse cenário restritivo vem oferecendo a sua parcela de contribuição para o
adoecimento populacional contemporâneo ao desencadear doenças mentais crônicas,
transtornos alimentares e isolamento social. Além do dano emocional, essa
cobrança impulsiona riscos físicos severos decorrentes de procedimentos
estéticos invasivos e dietas extremas, caracterizando uma violência que muitas
vezes é velada ou normalizada.
A grande verdade é que tudo isso só tende a levar ao recrudescimento de uma cultura de etarismo e alienação, a qual reduz a dignidade humana a uma mercadoria, onde o valor de uma pessoa passa a ser medido pela sua juventude e aparência, em vez de sua essência, história e capacidade intelectual. Tornando fundamental promover uma mudança sociocultural que valorize a autoaceitação, a diversidade de corpos e o respeito à maturidade. Reconhecer o envelhecimento como um processo natural e digno é um ato de resistência contra a superficialidade.
