sábado, 12 de novembro de 2016

EXCLUSIVO: Diplomata brasileira foi essencial para menção à igualdade de gênero na Carta da ONU

A inclusão da igualdade de direitos de homens e mulheres na Carta da ONU, documento lançado em 1945 que criou as Nações Unidas, foi fruto da insistência de diplomatas latino-americanas lideradas pela cientista brasileira Bertha Lutz, que enfrentou forte oposição das delegações norte-americana e britânica.
Essa foi a conclusão de pesquisadoras da Universidade de Londres, que tentam “reescrever a história” e dar o devido crédito às diplomatas do Sul, responsáveis pela inserção do tema da igualdade de gênero em um dos mais importantes tratados internacionais do século XX.
Carta da ONU, documento elaborado durante a conferência de San Francisco (Estados Unidos) em 1945 que deu origem às Nações Unidas, foi um dos primeiros tratados internacionais a mencionar em seu texto a necessidade de igualdade de direitos entre homens e mulheres.
Esse feito, por muito tempo atribuído a diplomatas de países desenvolvidos, na verdade foi fruto da insistência de mulheres latino-americanas presentes na conferência, lideradas pela cientista e diplomata brasileira Bertha Lutz. A conclusão vem do trabalho acadêmico de duas pesquisadoras da Universidade de Londres.
Após consulta a documentos da época e às memórias escritas pelas poucas mulheres presentes na conferência, as pesquisadoras Elise Dietrichson e Fatima Sator concluíram que não apenas as latino-americanas foram responsáveis pelas menções à igualdade de gênero na Carta da ONU, como haviam enfrentado forte oposição de diplomatas norte-americanas e britânicas.
Segundo as pesquisadoras, Bertha Lutz — com a ajuda de delegadas de Uruguai, México, República Dominicana e Austrália — reivindicou a inclusão da defesa dos direitos das mulheres na Carta e a criação de um órgão intergovernamental para a promoção da igualdade de gênero, enquanto a norte-americana Virginia Gildersleeve e assessoras britânicas se opuseram, classificando as propostas de “vulgares”.
Assista ao vídeo com imagens de Bertha Lutz e de outras diplomatas latino-americanas:

Para a diplomata dos EUA, as mulheres já estavam “bem estabelecidas” e a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres já era realidade nos EUA. Lutz respondeu durante os debates que “em nenhum lugar do mundo, havia igualdade completa de direitos com os homens”, e que havia sido encarregada pelo então governo Getúlio Vargas de defender justamente esse ponto na Carta da ONU.

Brasileira foi ridicularizada por diplomatas ocidentais

A feminista brasileira relatou em suas memórias que as diplomatas britânicas e norte-americanas chegaram a ridicularizá-la durante a Conferência de San Francisco, apelidando-a de “Lutzwaffe”, em referência à força aérea da Alemanha nazista.
De acordo com as memórias de Lutz, as diplomatas estavam “entediadas e irritadas com os longos e repetitivos discursos feministas” que, para a norte-americana Gildersleeve, eram desnecessários. No entanto, foram justamente esses discursos que garantiram a menção da igualdade de gênero no documento fundador da ONU, disseram as pesquisadoras da Universidade de Londres em seu trabalho.
Apenas quatro mulheres assinaram a Carta da ONU: Bertha Lutz (Brasil), Wu Yi-fang (China), Minerva Bernardino (República Dominicana) e Virginia Gildersleeve (EUA). Contudo, somente duas delas defenderam os direitos das mulheres: Lutz e Bernardino. Apesar disso, os livros de história creditam a todas elas a referência aos direitos das mulheres na Carta da ONU por conta de seu gênero, e não por suas ações.
“As delegadas latino-americanas eram as mais progressistas, suas posições foram determinantes para estabelecer o primeiro acordo internacional a declarar os direitos das mulheres como parte dos direitos humanos fundamentais”, disseram as pesquisadoras no trabalho entregue à Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, na sigla em inglês), da Universidade de Londres.

A história não é algo que podemos só ler e confiar.

É político o que é conhecido e qual parte da história não é.

Em entrevista por telefone ao centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio), a norueguesa Elise Dietrichson afirmou que a intenção da pesquisa foi “reescrever a história” e dar o devido crédito às diplomatas latino-americanas, além de divulgar o trabalho da feminista Bertha Lutz, uma das principais sufragistas brasileiras.
“A ideia de que as mulheres ocidentais lideraram esse processo é totalmente equivocada”, disse Elise. “Isso ocorreu porque, frequentemente, as ideias vindas do Sul não são reconhecidas. (…) As relações internacionais são bastante eurocêntricas”, completou.
A importância das diplomatas latino-americanas é frequentemente negligenciada não somente por historiadores, como pelas próprias Nações Unidas em seus documentos de comunicação sobre a Conferência de San Francisco, de acordo com as pesquisadoras, que têm se comunicado com as equipes de Relações Públicas da ONU para mudar esse cenário. Em fevereiro, elas promoveram uma palestra em Nova York para divulgar o trabalho.
Segundo a pesquisadora norueguesa, a ONU Mulheres também têm dado espaço em suas redes sociais e sites para a divulgação da história e trabalho de Bertha Lutz na elaboração da Carta da ONU. A expectativa é de que seja realizada uma exposição sobre a brasileira este mês na sede da Organização em Nova York.

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