sábado, 18 de junho de 2016

Purgando as calamidades


Purgando as calamidades

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É. Acho que agora chegamos ao fundo do poço. Quando as próprias autoridades conseguem externar a gravidade da situação é porque a impossibilidade de não fazê-la deixou mesmo de existir. Muito embora, o comunicado de hoje tenha assinatura e endereço próprios, ou seja, foi o governador em exercício, Francisco Dornelles, quem admitiu publicamente a situação de calamidade pública do estado do Rio de Janeiro 1; não podemos deixar de enxergar que os maus ventos sopram, na verdade, em todas as direções nacionais. Sim, a tal calamidade se espalhou por cada rincão e é muito fácil ratificar isso, basta acessar qualquer veículo de informação para que uma enxurrada de notícias terríveis nos salte aos olhos.

A severidade com que os direitos sociais 2 previstos na Constituição Federal de 1988 deixam de ser atendidos é algo jamais pensado. Cada vez que o sol se levanta pela manhã o cidadão brasileiro tem a devida consciência do que significa ter que contar com a própria sorte para sobreviver. Depois de tantas promessas, tantos engodos,... A realidade nua e crua se apresenta sem cerimônia, cumprimentando especialmente uma legião de gente que ainda insiste em ser crédula. Como é espantoso esse fenômeno se pensarmos no provérbio, “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.  E por que não desconfiaram?

Nada é de graça. A vida aqui e ali cobra seu preço. E se fôssemos bons observadores saberíamos bem, que não fazemos outra coisa no dia a dia senão desembolsar tostões. É dinheiro para a comida, para a moradia, para o transporte, para água, para a luz, para o telefone etc.etc.etc. Aperta, espreme, contorce até os caraminguás serem suficientes para dar conta do recado, porque ao contrário do que reza o artigo 7º, inciso IV 3, da já citada Constituição Federal de 1988, poucos (muito poucos, mesmo) são providos de salário digno para viver como cidadãos; sobretudo, agora, com mais de 12 milhões de desempregados.

Ah, e se não bastasse olhar apenas para o próprio umbigo, temos que pensar na imensa teia social que nos cerca. Como gerir, então, uma cidade, um estado, um país sem dinheiro? Como nenhum dos entes federativos produz recursos e vive da receita advinda dos impostos e tributos pagos pela população, o tal ‘aperta, espreme, contorce’ se torna a realidade deles também. Concordo que muito distante desse simplismo nas palavras, esconde-se a má gestão do recurso público, especialmente na figura pérfida da corrupção; a qual escoa por esgotos escusos bilhões arrecadados, sem devolver em benefício um vintém à população. Em suma, o cidadão está em franca dificuldade de sobreviver por si mesmo e no que tange às responsabilidades do estado, estas também não podem ser cumpridas.

É uma pena perceber que quinhentos de história nacional não conseguiram o óbvio: pela excessiva repetição desses erros fazer a população enxergar os gravíssimos equívocos que permeiam as nossas relações sociais, a nossa noção de cidadania. Que aplaudimos, reverenciamos, até idolatramos, pessoas cujas promessas para alcançar as esferas do poder se fundamentam naquilo que já é direito do povo e cumpri-las não passa de obrigação constitucional de quem exerce tais cargos públicos de representação social. Infelizmente, o exercício do voto não trouxe o senso de responsabilidade necessário para evitar que ele se transformasse em mera forma de escambo. Inclusive, visando às quirelas de assistência e cumprimento dos direitos sociais, como trabalho, por exemplo.

Esse processo de inconsciência coletiva transmitido de geração a geração lamentavelmente foi muito profícuo para fomentar uma leva de lideranças incapazes sequer de construir uma proposta concreta e inovadora de governança.  Das toneladas de palavras ditas a esmo e sem nexo sobre os palanques, o que se extrai é justamente a repetição daquilo que não é mais do que a obrigação de ser feito; mas, como a grande maioria da população desconhece seus próprios direitos, tudo parece uma maravilha, uma conquista inimaginável, e o voto se transforma em ‘passaporte para a felicidade’.  Felicidade não do eleitor; mas, do seu candidato. Respaldado pela cronicidade das mazelas nacionais, no fundo, os representantes do povo sabem encontrar os pontos fracos e ludibriar mais uma vez, a esperança dos desvalidos e a ganância dos espertos.  

Então, nesse redemoinho de falsidades, entre os que fingem fazer e os que fingem acreditar, é que as calamidades e quaisquer outros quadros abomináveis da sociedade se instalam. Por mais cruel que possa parecer diante do caos desse momento; embora, sinta-se vítima, a sociedade brasileira não pode se furtar da sua parcela gigantesca de irresponsabilidade. Seja por postergação, por ignorância, por oportunismo, por displicência, ou qualquer outra razão, a verdade é uma só e responde pela falta de consciência e omissão cidadã.

E, por favor, não venha atribuir essa ‘deficiência’ só a falta de uma boa educação escolar, porque cidadania se aprende em todos os lugares, a todo instante, a partir do momento que uma boa dose de bom senso nos bate na consciência, uma inspiração edificante oriunda de uma convivência plural nesse mundo de meu Deus. Admitindo ou não, todo ser humano sabe o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau; só de observar, com um bocadinho de atenção, as repercussões que uma dada ação desencadeia no ambiente.

Aliás, porque cidadania não é discurso, mas uma profunda vivência em prol da construção dos direitos humanos, de um lugar bacana para se viver e abrigar a todos sem distinção, sem violência, sem intolerância. Depois, o que fazemos são escolhas e aí, quando eu vejo milhares de pessoas querendo um ‘país melhor’, mas não se dando ao trabalho de refletir sobre as mínimas incongruências da sua compreensão em relação à cidadania, à sua compreensão humanística da coexistência, eu realmente acho que teremos que purgar um pouco mais de calamidade pública para entender e nos transformar.

 



2 Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a Proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados. (CF, cap. II, 1988)
3 IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim. (CF, cap. II, 1988)

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