sexta-feira, 10 de junho de 2016

"É um amor pobre aquele que se pode medir". William Shakespeare


Amor, Amar...

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Amar é sempre uma boa pedida? A pergunta aparentemente sem sentido, no fundo revela uma crise que emerge no dia a dia contemporâneo. São tantas as amostras da selvageria humana a estampar a mídia em todas as suas formas, que o amor tem se relativizado ao invés de ser sentido. É como se houvesse um medo materializado pairando sobre nós, como uma espada pontiaguda. Então fica a pergunta: O que pode se esconder nas entrelinhas da subjetividade das emoções?

Ora, o que passa pela mente e os sentimentos do outro são sempre uma incógnita e isso é o suficiente para nos deixar com os dois pés atrás, numa defensiva inglória e cruel. Afinal, amar como já foi contado em prosa e verso não é algo isento de dor e sofrimento, ao contrário do que anseiam os pobres mortais. O que qualquer ser humano em sã consciência gostaria de viver, ao menos uma vez na vida, é o arrebatamento do amor idealizado e assim, possível de permitir que o corpo e a mente se deixem navegar pelas alterações químicas e biológicas, que repercutem no mais profundo da sua existência, tornando o mundo um lugar mágico e inesquecível para se viver.

Então, nesse sentido, amar deveria ser o mais perfeito alento em tempos de crise, na medida em que nos colocaria passíveis de enxergar a vida por outros ângulos e possibilidades. É esse sentimento que nos devolveria a humanidade; no sentido da fraternidade, da comunhão e da afetividade. Quem ama buscaria tecer os fios das relações com cuidado, com zelo, para não esgarçar nem se perder. Como disse o poeta Luís Vaz de Camões, em seu Soneto 11, É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se perder; É querer estar preso por vontade”.

Mas a efemeridade do mundo tem provocado o desequilíbrio entre a segurança e a liberdade e consumido gradativamente a nossa capacidade de amar e de se permitir ser amado. Como explicado pelo sociólogo polonês, Zigmunt Bauman 1, na obra "Amor Líquido" 2, as relações humanas se misturaram e se condensaram com laços momentâneos, frágeis e volúveis, em um mundo cujas características estão repletas de dinamismo, fluidez e velocidade, seja no campo real ou virtual. Assim, as pessoas foram banalizando aquilo que nada tem de banal, desqualificando e ridicularizando aquilo que nada tem de menor ou de ridículo, subvertendo uma lógica natural e intrínseca ao ser humano.

Então, o que se precisa imediatamente é resgatar o destemor, a ousadia, talvez o arroubo juvenil e partir para o mundo na ânsia de ser capaz de amar completa e plenamente. Nada de máscaras, de subterfúgios, de joguinhos sem razão, apenas amar deixando fluir de si uma sã inquietude de compartilhar o direito e o avesso de si mesmo. Tudo banhado por silêncios que falam, olhares que explicam, gestos que traduzem, comportamentos que sinalizam.

Afinal de contas, amam primeiro as almas depois os corpos.  Essa é a grande verdade, para quem quer amar! É nisso que reside à grandeza e a complexidade de amar entre os solavancos e as pedras do caminho. É o amor que transcende o passar do tempo e suas marcas, como se o contentamento do primeiro encontro fosse o suficiente para alimentar a sua chama. Amam-se os defeitos e as qualidades, a falta de beleza, o jeito desconsertado, a timidez,... porque todo ser é assim incompleto, imperfeito, e porque não dizer até, insensato.

Entretanto, nada disso que falei é suficiente para transformar-se em receita de amor. Pois, nem todo mundo vive um amor para vida inteira. Alguns vivem dois, três, vários, cada um especial o bastante para ter o que contar o que sentir. A verdade é que para amar é preciso se permitir, contrariar a ideia de que se é uma ilha de solitude e começar, abrindo um sorriso para iluminar o dia. Daí distribua o amor na sua forma mais pueril como quem distribui margaridas; começando pelos mais próximos até que se chegue naquele ser especial, diferente, desconhecido até então.  Amar não é um Sprint, mas uma longa maratona, sem data e hora marcadas para acabar, sem medalhas, sem pódio; talvez, coroas de louro e champanhe para brindar. Mas, nunca é cedo demais, nem tarde demais; porque, como dizia Tom Jobim, “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho” 3. 

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