sábado, 7 de maio de 2016

Para todas as mães


Para todas as mães

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

É sempre assim, chega o segundo domingo de maio, e por toda a parte surgem mensagens para as mães. Palavras de todo tipo: sentimentais, engraçadas, criativas,... com o intuito de descrever, ou de definir a maternidade, como se isso fosse realmente possível.

Pois bem, decidi fugir a essa regra e trazer um jeito próprio de reflexão sobre o tema. Respeito o modo de cada um tratar do assunto; mas, devo confessar certo incômodo em relação a se fazer da maternidade um sacerdócio ou dar as mães um ar de santidade, despojando-as da sua natureza simplesmente humana.

Sinto que esse tratamento tão 'sublime' esconde um fardo difícil de carregar. Não, não há nada de sacerdócio nessa história. Para início de conversa, ser mãe é um papel biológico, o qual a natureza humana dispõe à maioria das mulheres a possibilidade de gestar durante nove meses uma ou mais vidas dentro de seu ventre. Se elas irão ou não desfrutar desse privilégio natural, aí entra a possibilidade da escolha, seja voluntária ou involuntária, dada às inúmeras circunstâncias do cotidiano, especialmente na pós-modernidade.

É nesse ponto, que a tal ideia de ‘sacerdócio’ se esvai. Quando pensamos apenas sob o prisma de uma abnegação que transcende os limites da própria alma, de uma devoção desmedida em relação à prole, comparamos à maternidade ao mesmo discurso relacionado aos representantes religiosos.  Porém, o vínculo materno que constrói um elo muito forte e especial, não cria uma obrigação de funcionar dessa forma, de negar as demandas de uma vida em detrimento da outra. O cuidado maternal se estrutura muito mais pelo instinto de perpetuação e preservação da própria espécie do que por quaisquer outras razões, porque se fosse uma regra imutável não haveria por aí tantos casos de abandono de crianças, inclusive recém-nascidas. 

Completando esse raciocínio houve quem, então, transformasse a partir da simbologia cristã a figura da mãe como uma santa, Pietá 1. A mãe que nasceu para padecer no paraíso, que é um poço de fortaleza, de resignação, de superação,... Não, mães não são santas. Por mais angelical que lhes seja a face, elas são sim, gente de carne e osso. Equilibram-se pelos dualismos da vida, tentando (é claro) acertar mais do que errar. Sofrem, desesperam-se, xingam, gritam, manifestam sua humanidade como qualquer um; porque são, além de mães, mulheres com uma vida, uma história, milhões de aventuras e desventuras.

Toda essa constatação é muito importante, porque já passou da hora da sociedade parar de usar esses conceitos para justificar todos os absurdos que se cometem contra as mães. É por conta desses discursos, os quais aparentemente parecem elevá-las e reverenciá-las, que muita gente pensa poder sugar delas até a última gota. Transformam mães em empregadas, governantas, babás e justificam que elas ‘gostam de ajudar’, ‘de ser útil’. Não se incomodam em se reunir na casa da mãe para um dia festivo e serem incapazes de ajudar a lavar a louça, ou fazer a comida, ou organizar a bagunça, porque isso é papel dela. Nem se constrangem em tomar posse dos recursos financeiros e bens materiais da mãe e deixa-la à mingua, por conta da própria sorte.  E por aí vai.

Infelizmente, ao contrário do que tenta impingir o senso comum, o que a grande maioria das mães gostaria de receber sempre é respeito. Respeito da família, do Estado, da sociedade em geral. Respeito que se traduz em enxerga-las como pessoas, com suas virtudes e defeitos, sonhos e angústias. Pena, que muita gente só entenda tudo isso, quando não é mais possível fazer diferente, ser diferente; afinal, a imortalidade é só mais uma pretensão.

Reclamamos tanto do mundo, tanto da vida, talvez seja porque negligenciamos o fato de que as lições mais grandiosas estão ao alcance de nossas mãos. Aprender a ser humano, a respeitar, a amar, a dialogar, a... Deixamos de perceber quem está tão perto para ensinar. Não importa, de maneira alguma, que seja uma mãe pelo ventre ou pelo coração; porque o fundamental é aprendermos a fiar essa relação de altos e baixos,  de calmarias e tempestades, desenvolvendo a habilidade de coexistir com os outros de maneira mais plena, mais harmônica, mais fraterna. 



1 A Pietà' de Michelangelo é talvez a pietà mais conhecida e uma das mais famosas esculturas feitas pelo artista. Representa Jesus morto nos braços da Virgem Maria. Está disponível para visitação na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

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