quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Crônica

 
Em busca do heroísmo humano

Por Alessandra Leles Rocha

            Ainda que encontre dificuldade em admitir que toda a sua autossuficiência adulta seja uma questão de ponto de vista, os seres humanos inconscientemente estão “baixando a guarda” e deixando transparecer silenciosos pedidos de socorro.
         De fato pensar que a fase adulta representa uma blindagem e um controle da vida é um tanto quanto equivocado. Por mais habilidades e domínio da capacidade reflexiva que o passar dos anos nos oferece, o individuo por si só é incapaz de resolver tudo e vencer todos os perigos e adversidades que apontam diariamente no seu cotidiano. Quase sempre é na união de esforços, de pensamentos e de ações que se encontra a força necessária para o êxito.
         Frente à conturbada realidade contemporânea, cuja atmosfera pesada e asfixiante insiste em usurpar da perseverança, do otimismo e da fé em dias melhores, o ser humano mesmo que alheia a sua vontade começa a desenvolver um comportamento inseguro, impotente à dimensão dos desafios. Certamente que nem tudo está ao alcance de sua própria realização, mas a força descomunal do que acontece parece realmente impactá-lo a tal ponto que a paralisia seja inevitável.
         Neste contexto torna-se fácil compreender porque a sétima arte tem investido maciçamente nas produções inspiradas nos sucessos das histórias em quadrinhos. Quarteto Fantástico1, o incrível Hulk2, X-Men3, Capitão América4 são alguns dos que foram novamente trazidos para as grandes telas e feito a alegria de milhões de pessoas, de todas as idades, em todo o mundo. A tradução artística das mazelas que afrontam a humanidade significa um auxílio poderoso na assimilação e organização do que acontece na realidade. Ainda que a ficção se beneficie da existência de um herói (ou heróis) que surge para tomar conta da situação e colocar tudo no seu devido lugar, os enredos que se constituem na base épica da luta entre o Bem e o Mal são um modelo importante de análise que nos distancia e nos retira da posição de personagens da vida real para a posição de meros espectadores. Perspectivas diferentes, compreensões diferentes!
         Ali, sentados na poltrona, dedicados ao prazer do “ócio cultural”, não nos cabe à exigência de decidir, de escolher caminhos, de resolver tudo da forma correta; o peso do mundo não está sobre nossas costas. Alguém já decidiu, já escolheu, já resolveu perfeitamente as situações e dessa forma, nos presenteou com infinitas possibilidades de raciocínio que poderão ser de grande valia no cotidiano real da nossa própria existência. Por isso, costumamos sair do cinema após esse tipo de filme com a sensação de alma lavada; mais seguros e decididos, inspirados verdadeiramente para buscar dentro da alma a nossa coragem, a nossa fortaleza secreta.
         Assim como nas histórias em quadrinhos, em que os heróis não têm sossego e os vilões não se cansam de surpreender, a realidade é essa montanha russa de acontecimentos que também não temos como frear. A vontade de possuir super poderes, ou ferramentas especiais, surge dentro de cada um de nós a todo instante para que pudéssemos por fim aos espinhos da vida que nos ferem e incomodam. Mas o heroísmo que tanto nos encanta na ficção no fundo está guardado mesmo na subjetividade desses seres, na sua incansável luta pelo justo, pelo correto, pela liberdade; custe o que custar, demore o tempo que for, com ou sem aliados, o importante é jamais perder o foco desses valores. Talvez, embalados na fantasia infantil, onde tudo é possível e realizável, milhares de adultos são instigados a libertar da própria alma a chama de seu heroísmo humano, ainda que pequeno, rudimentar, e encontrar novamente o sentido de viver nesse mundo. 


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