quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Analfabetismo funcional de alto nível na sociedade contemporânea


Analfabetismo funcional de alto nível na sociedade contemporânea

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

A recente notícia de que mais de 30% dos cursos de Medicina, 107 dos 351 cursos avaliados pelo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) tiveram notas consideradas insatisfatórias e foram reprovados pelo MEC, é grave e exige uma reflexão de toda a sociedade brasileira.

Não há como negar a banalização e a precarização do conhecimento, na contemporaneidade. Estamos sim, diante de um processo no qual o saber vem perdendo a sua profundidade reflexiva, analítica e ética, transformando-se em mercadoria de consumo rápido e fragmentado. De modo que esse não é um problema que se resume apenas aos Cursos de Medicina.  

A contemporaneidade nos confronta diretamente com um esvaziamento do rigor didático-pedagógico e metodológico da educação em geral; mas, principalmente, no que diz respeito aos cursos de formação profissional, resultando em um quadro alarmante de extrema fragilidade das bases intelectuais, tanto dos discentes quanto dos docentes.

E isso vem ocorrendo, principalmente, em razão de uma tecnologização e cientificação contemporânea que promovem a obsoletização do conhecimento, a partir do deslocamento do valor do saber de uma perspectiva de sabedoria para uma pseudoeficiência.

Isso significa que o conhecimento além de ser fragmentado em dados, ele se torna uma mercadoria informativa, ou seja, o que não pode ser traduzido em quantidades computáveis ​​torna-se obsoleto, ultrapassado, antigo ou irrelevante, para o sistema. Portanto, o saber só é validado se gerar a aplicabilidade técnica, tornando o pensamento crítico-reflexivo uma peça de museu diante da urgência operacional.

Não bastasse isso, a cientificação extrema passou a delegar o julgamento humano aos algoritmos. Se uma máquina pode decidir ou calcular os resultados, o esforço humano de compreensão profunda é visto como ineficiente. Em síntese, essa nova forma de conhecimento passa a ter um prazo de validade curto, tendo em vista de que será substituído pela próxima atualização de software ou de uma nova ferramenta tecnológica no mercado.

Esse cenário, então, nos mostra que o impacto da tecnociência no ensino-aprendizagem contemporâneo transita por uma tensão profunda entre a eficiência técnica e a formação humana. Milhares de estudantes estão abdicando do seu papel de sujeito que questiona o porquê das coisas, para se tornarem operadores de sistemas que apenas buscam o como fazer.

Acontece que nessa educação fundamentada pela lógica do algoritmo, ou seja, rápida, superficial e externa para resultados quantificáveis, se estabelece uma crença, extremamente perigosa, de que tudo pode ser ensinado via telas, desconsiderando por completo que isso significa produzir uma atrofia da experiência sensível e do diálogo presencial.

O excesso da mediação tecnológica tende a isolar o indivíduo em bolhas de confirmação, onde o aprendizado não é um encontro com o outro, com diferentes visões de mundo, mas apenas o consumo de conteúdos personalizados pelas tecnologias de última geração. O que muita gente, por aí, se esquece ou prefere não ver, é que esse contexto trabalha a favor de que o ensino desempenhe apenas o papel de engrenagem do mercado de trabalho.

Isso significa que o valor do aprender, com o propósito de construir efetiva e verdadeiramente o conhecimento, é desprezado e anulado se não houver uma aplicação técnica imediata. Acontece que a consequência imediata disso é o analfabetismo funcional de alto nível. Sim, a sociedade passa a produzir indivíduos técnicos, em tese, capazes; mas, eticamente cegos e incapazes de refletir sobre as consequências de suas próprias ações técnicas.

Basta ver que o analfabetismo funcional de alto nível, na sociedade contemporânea, exibe cada vez mais a incapacidade de leitura, de interpretação e de organização de informações complexas, por milhares de alunos, tornando-os promotores de narrativas superficiais em razão da sua inversão de prioridades, quando ao contrário de buscar por conhecimento profundo, se permitem absorver conteúdos rasos e sensacionalistas, comuns nas redes sociais.

Desse modo, o analfabetismo funcional de alto nível torna os estudantes alvos simples para a pós-verdade, mediante a fragilização do seu pensamento crítico e de suas habilidades de interpretação, ao se depararem com notícias falsas e manipulações; posto que, não conseguem discernir fatos de opiniões ou verificar fontes, comprometendo a sua tomada de decisões.

No caso da formação médica brasileira, por exemplo, o analfabetismo funcional de alto nível representa um risco grave, na medida em que impede os futuros profissionais médicos de alcançarem uma compreensão profunda de artigos científicos complexos, de diretrizes clínicas e prontuários; bem como, comprometendo a aplicação de raciocínio crítico e da consolidação de uma atualização contínua.

Assim, todo esse cenário de carências tende a levar a diagnósticos imprecisos, tratamentos inadequados e, consequentemente, impactando a segurança e a qualidade do cuidado ao paciente, devido à dificuldade de gestão das informações e da comunicação eficaz.

Fala-se muito em humanização da Medicina, no Brasil; mas, ela começa na formação médica, enquanto processo essencial que contempla, desde o primeiro dia de aula, o ensino de empatia, de ética e de acolhimento, aprofundando-se na integração de disciplinas humanísticas e atividades extracurriculares.

Portanto, que a notícia veiculada pelos mais diversos meios de comunicação, causando constrangimento e preocupação, ainda que seletiva a alguns segmentos sociais, possa ter despertado uma consciência de urgência coletiva, mais abrangente, no sentido de reumanizar os currículos escolares a fim de se fazer uma oposição consciente e direta a essa expansão da supremacia da tecnociência na formação profissional brasileira.

Afinal de contas, esse processo de atrofia da capacidade de julgamento moral e social, está sim, associada a diversas políticas públicas as quais vêm, ao longo de décadas, invalidando e obstaculizando a possibilidade dos alunos em desenvolver o pensamento crítico, a ética e a compreensão das relações de poder e alteridade. Sendo que esse é o tipo de saber que permite a qualquer indivíduo, em qualquer profissão, se situar como sujeito histórico, parte integrante e integrada a própria realidade.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.


Já dizia Aldous Huxley, “O dinheiro não fala apenas, ele também impõe o silêncio”.

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Em dezembro de 2022, eu escrevi o texto O AVESSO DO MUNDO VIRTUAL, no qual eu compartilhava a seguinte experiência no antigo Twitter: “em 08 de outubro fui pega de surpresa com a suspensão permanente das minhas contas, por uma suposta violação das regras de utilização. Acontece que não só faltaram maiores esclarecimentos a respeito dessa violação, como as minhas manifestações recorrendo da suspensão não foram sequer respondidas. Uma notificação padrão de análise era encaminhada; mas, não passou disso. E diante dessa situação, eu decidi desativar as contas; mas, fui impedida por uma mensagem alegando a suspensão das mesmas. Vejam só que situação absurda!”.

Passados 4 anos, a situação se repete da mesma forma, de maneira ainda mais surpreendente, dessa vez a plataforma foi o Youtube. Acordei, essa manhã, e quando liguei o celular para me inteirar das notícias do dia, descobri que a minha conta havia sido removida ou, segundo eles, “o meu Canal foi removido”. Não houve quaisquer avisos prévios, quaisquer menções de que eu estaria infringindo alguma regra ou política da plataforma. Foi uma decisão sumária. Exatamente como da outra vez.

Acontece que eu não tenho um canal, nunca gravei um vídeo sequer nessa ou em quaisquer outra plataforma, tratando de qualquer assunto. Eu apenas acompanhava as publicações presentes naquele espaço. Seguia assuntos diversos, entre importantes e supérfluos, sérios e engraçados.  Algumas vezes, eu compartilhava assuntos interessantes e importantes. Mas, na maioria do tempo, eu me dedicava a acompanhar a dinâmica do dia.

Então, eu me perguntei: onde está a liberdade de decidir, de escolher? Ela desapareceu. Como fumaça. Como um passe de mágica. Diante da presença dos algoritmos, os quais, por alguma razão, decidiram que as minhas escolhas, a minha decisão em torno da busca por informações, estaria destoando gravemente do que eles consideram certo, do que eles consideram relevante. Os algoritmos interferiram diretamente na construção do meu conhecimento de mundo.

Exatamente, como aconteceu no Brasil, durante a Primeira República ou República Velha, entre 1889 e 1930, com o chamado voto de cabresto, um importante mecanismo utilizado para controlar o comportamento eleitoral da população. Pois é, em pleno século XXI, o controle social vem sendo exercido pelos algoritmos, através da modulação do comportamento e da gestão da informação em larga escala, limitando o debate público e a exposição ao contraditório. Esse uso de metadados permite, então, não apenas influenciar processos democráticos, por exemplo, como estabelecer padrões de consumo e comportamento.

Afinal de contas, os algoritmos de redes sociais e buscadores são projetados para maximizar o engajamento, o que promove as bolhas de filtro, nas quais a exposição ao contraditório é eliminada, restringindo a liberdade intelectual e a capacidade de escolha. O que significa que a falta de transparência sobre como essas decisões são tomadas aliena o direito do cidadão de contestar ou compreender as lógicas que restringem seu acesso a direitos e oportunidades no ambiente virtual.

Portanto, o controle social exercido por algoritmos na contemporaneidade, impacta diretamente a autonomia individual, na medida em que limita o acesso a perspectivas divergentes, reduzindo a base de informações necessárias para uma escolha livre e consciente. De modo que, muitas vezes, esse controle manifestado pelos algoritmos exerce uma ação direta sobre a manutenção ou o cancelamento de contas e/ou perfis. Como se eles atuassem na figura de juízes automatizados, promovendo uma censura silenciosa e impeditiva de recursos e de autodefesa, por parte do cidadão.