De
2010 a 2015, a população de migrantes vivendo no Brasil cresceu 20%, chegando a
713 mil. Desse contingente, 207 mil vêm de outros países da América do Sul.
Volume de sul-americanos que chegaram ao território brasileiro também aumentou
20% no mesmo período. É o que revela o relatório da Organização Internacional
para as Migrações (OIM), World Migration Report 2018, divulgado trienalmente e
publicado no início do mês (1º).
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Texto de Rachel de Queiroz. Revista O Cruzeiro, 11 de janeiro de 1947
Votar
Rachel de Queiroz
Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama govêrno democrático, ou govêrno do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato.
No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: govêrno do povo.
Numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVÊRNO.
Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.
Escolhe-se pelo voto aquêles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.
Escolhemos igualmente pelo voto aquêles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aquêles que irão estipular a quantidade dêsses impostos.
Vejam como é grave a escolha dêsses “cobradores”. Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gôta de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bôlso.
E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhemse não só aquêles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aquêles que vão “fabricar” o dinheiro.
E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhemse não só aquêles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aquêles que vão “fabricar” o dinheiro.
Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos. Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falários.
Êles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.
Não preciso explicar muito êste capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder.Escolhem-se nas eleições aquêles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático.
E, circunstância mais grave e digna de todo o interêsse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de tôdas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.
E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fêz um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a êsses sujeitos um simples emprêgo bem remunerado.Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para êles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo.
Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fôssem.
Entregamos a êsses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a êles prêsa por um juramento de fidelidade.
E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.
E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.
Votem, irmãos, votem.
Mas pensem bem antes.
Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto!
Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher quando é ruim, briga-se com ela, devolve-se ao pai, pede-se desquite.
Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher quando é ruim, briga-se com ela, devolve-se ao pai, pede-se desquite.
E o govêrno, quando é ruim, êle é quem briga conosco, êle é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da bôca dos nossos filhos e nos faz aprodecer na cadeia.
E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.
E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto.
Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar êste ou aquêle candidato, não se preocupe.
Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto.
Se o obrigam a prometer, prometa.
Se tem mêdo de dizer não, diga sim.
O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha.
Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem mêdo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE.
Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem mêdo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE.
Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência.
Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno”.
*Atenção!!! A redação é a da época em que foi publicado.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Leia e reflita!!!
Pense a respeito. Tenha respeito.
Por Alessandra Leles Rocha
Não é
de hoje que envelhecer, no Brasil, é motivo de ofensa. Aliás, a sociedade
brasileira tem por hábito eleger justificativas para descartar seus pares, num gesto
de preconceito e intolerância sem limites. Na última semana, a mídia esportiva deu
voz a um episódio lamentável envolvendo o treinador de futebol Antônio Lopes,
76 anos, no qual o mesmo foi profundamente criticado nas redes sociais em
virtude da sua idade e não da sua competência e qualificação profissional 1.
Bem,
para início de conversa, aos desavisados e desocupados de plantão, a população das Américas
ganhou 16 anos de vida a mais, em média, nos últimos 45 anos, o que
significa viver até 75 anos, quase cinco a mais do que a expectativa global,
segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
E graças ao desenvolvimento da
medicina e das práticas de qualidade de vida, essa longevidade vem agregada de
aspectos muito positivos, tais como, uma participação cada vez mais ativa e
consistente dos idosos na sociedade. Eles dispõem de instrumentos e elementos
que ampliam a sua capacidade, as suas competências e habilidades, de modo que não
precisam ser excluídos sumariamente, nos diferentes contextos sociais.
Esse
ganho na expectativa de vida representa uma conquista de autonomia cidadã muito
importante. Porque, embora, muitas pessoas acreditem que a profissionalização humana
seja sustentada apenas pelo conhecimento técnico-científico; a verdade é que
ele só se traduz efetivamente na maturação garantida pelo tempo, pela vivência
prática, ou seja, a experimentação diária.
Além
disso, as discussões em torno da capacidade fisiológica são absurdas, porque a ciência
aponta estatisticamente em seus estudos o avanço desmedido de diversas doenças
sobre faixas etárias abaixo dos sessenta anos, como por exemplo, infarto, AVC,
diabetes, hipertensão e câncer. As chamadas “doenças da velhice” hoje são compartilhadas
pela sociedade que vive as voltas com o turbilhão da contemporaneidade liderado
pelo estresse; o que significa que ninguém está a salvo, por conta da pouca
idade.
É na
intimidade, na conversa particular consigo mesmo, é que podemos estabelecer os
nossos critérios de vida, as nossas aspirações, o nosso movimento em direção ao
futuro. Na lógica do bom senso, onde a regra é clara, ninguém precisa arbitrar
sobre isso; nem contra nem a favor. Como diz o provérbio, “cada um sabe aonde
lhe apertam os calos”.
O
que acontece é que a maioria das pessoas deposita sobre os jovens uma
expectativa de sucesso, sem que eles muitas vezes não tenham sequer apresentado
algum resultado concreto para isso. Vejo alguns recém-formados, com o diploma
ainda quente nas mãos, e as famílias os apontando como ases da profissão.
Alto
lá! Muita calma nessa hora. Só o tempo dirá. Só o tempo reafirmará a qualidade
do processo, da aquisição de informações e construção do conhecimento. Se as
bases foram verdadeiramente sólidas. Se a aptidão inata, se os talentos também
colaboram para tais expectativas.
Portanto,
quando você olhar para o Sr. Antônio Lopes, para o Sr. Sebastião Salgado, para
o Sr. José Hamilton Ribeiro, para o Sr. Milton Gonçalves, para o Sr. Morgan
Freeman, para a Sra. Fernanda Montenegro, para a Sra. Laura Cardoso, para a
Sra. Betty Faria, e tantos outros seres humanos geniais em suas respectivas profissões,
lembre-se de que o mercado de trabalho continua acreditando e confiando no
potencial dessas pessoas, porque, sem dúvida alguma, elas têm em si mesmas a
certeza de que, “... Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em
encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às
outras pessoas permissão para fazer o mesmo” 2.
É como
diz Jorge Aragão, "Não se discute talento / Mas seu argumento, me faça o favor / Respeite quem pode
chegar / aonde a gente chegou" 3. Vamos parar com essa ignorância, com essa
falta de conhecimento explícita, e deixar de destilar veneno, de exibir a sua frustração
sobre a vida alheia. Pense a respeito. Tenha respeito.
2
Atribuído a Nelson Mandela pelo seu discurso de posse, em
1994, mas escrito por Marianne Williamson.
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