CIDADANIA. INCLUSÃO.
ESPORTE. ...
Por Alessandra
Leles Rocha
Certas falas precisam ser mais
bem definidas. Dizem, por aí, que o esporte é inclusão; mas, o que isso
realmente quer dizer?! Afinal de contas, incluir significa integrar e acolher
todas as pessoas de um coletivo social, seja ele qual for, sem nenhum tipo de
preconceito ou discriminação.
E aí, prestando um bocadinho de
atenção, aqui e ali, você começa a perceber que no contexto do esporte, o
discurso não anda realmente alinhado com a prática. Daí a necessidade de
dissecar o tema.
De saída, não é difícil perceber
que a desigualdade de renda é o primeiro obstáculo para a consolidação do
esporte inclusivo. Infelizmente, nem todos os componentes da pirâmide social contemporânea
têm, de fato, acesso às práticas desportivas.
A falta de recursos financeiros
não impede apenas a compra de equipamentos, o pagamento de mensalidades de
clubes ou o custeio com transporte. Para milhares de pessoas, ela impede o
acesso à moradia, à saúde, à educação, ao saneamento básico, ou seja, a tudo o que
representa o senso de dignidade humana.
Depois, a carência de uma infraestrutura
desportiva, em muitas cidades, para atender ao conceito de inclusão social. Uma
questão que reflete a falta de planejamento urbano voltado para a
acessibilidade universal desde a concepção dos espaços, o baixo investimento
público na construção, reforma e manutenção de praças e centros esportivos nas
cidades, e a incompatibilidade de equipamentos tradicionais com as necessidades
de atletas paralímpicos ou pessoas com mobilidade reduzida.
Acontece que tudo isso reverbera
no isolamento de certos grupos sociais, que não encontram locais seguros ou
adaptados para a prática de atividades físicas, no aumento da desigualdade em
relação ao acesso à saúde, ao bem-estar e ao desenvolvimento de talentos
esportivos, e na perda de interação e conectividade coletiva, pois o esporte
funciona como ferramenta de uma socialização contra à instrumentalização do
preconceito.
Mas, certamente, um dos aspectos
mais graves da ausência de inclusão no esporte, na contemporaneidade, seja em
relação ao preconceito de gênero, o racismo e a xenofobia. A historicidade desportiva,
infelizmente, é marcada por essas questões. Haja vista que o esporte nasceu
elitista, masculino e eurocêntrico, de modo que essas marcas ainda ecoam nos
estádios, nas quadras e nas instâncias de poder atuais.
Daí tantos exemplos estampados nas
mídias sobre atletas imigrantes ou refugiados que enfrentam vaias, são
excluídos ou sofrem questionamentos sobre sua identidade e direito de
representar um país, tornando-se os primeiros a serem hostilizados de forma
xenófoba quando sua equipe perde.
Ou os casos de insultos racistas
vindos das arquibancadas contra atletas negros de elite em ligas mundiais, os
quais acabam sustentando a narrativa que atribui o sucesso do atleta negro à genética
que lhe fornece força física e o do atleta branco que possui inteligência
tática.
Como se vê, debater a diversidade
e a inclusão é essencial para garantir igualdade no meio esportivo. Grupos minorizados
- mulheres, negros (as), pessoas com deficiência (PCD) e população LGBTQIA+ - vêm
sofrendo a falta de acesso a direitos, poder e espaço também no esporte. Algo
explicitado pelo preconceito, a invisibilidade midiática, a mudança de critérios
para as competições e a desigualdade de investimento financeiro.
O caso mais recente é o da Confederação
Brasileira de Voleibol (CBV), ao aderir à política do Comitê Olímpico
Internacional (COI) que bane mulheres trans. Segundo a CBV esse novo critério
passa a valer a partir da próxima temporada da Superliga e em outras
competições nacionais.
Bem, o fato revela como o debate
contemporâneo sobre a inclusão de atletas transgêneros, por exemplo, muitas
vezes descamba para a marginalização, sem critérios puramente científicos.
Por um lado, entidades esportivas
e defensores das novas regras argumentam que o objetivo é proteger a
integridade e a igualdade de condições na categoria feminina, apontando
vantagens fisiológicas residuais associadas ao desenvolvimento anatômico prévio
Por outro, ativistas, clubes e
atletas afetadas apontam a medida como um retrocesso na inclusão e na garantia
do direito ao trabalho de mulheres trans, defendendo que o esporte deve buscar
formatos de integração baseados em controle hormonal individualizado em vez de
exclusão baseada apenas na genotipagem.
Independentemente de escolher um
dos lados, a questão que se impõe é de que a inclusão no esporte não existe. Se
existem barreiras, obstáculos, condicionantes, sejam de quais naturezas forem,
impedindo que todos os cidadãos sejam incluídos no esporte, essa ideia que
sempre prosperou como artifício de marketing precisa ser mudada.
A desconstrução do mito da
inclusão esportiva plena é, portanto, urgente e necessária. Ainda que ela
represente a admissão pública de todo o retrocesso que sobrevive na carência histórica
de planejamento de políticas públicas e reformas institucionais, as quais possibilitem
transformar o esporte em um espaço genuinamente mais acessível.
Sem a ruptura com as amarras do racismo,
do elitismo, da xenofobia, do capacitismo, da homofobia, o esporte permanecerá
exalando uma visão romantizada e totalmente desconectada da realidade do mundo.
Essa ideia de que o esporte é
neutro, só faz esconder e omitir os próprios preconceitos, enquanto afasta
pessoas dos direitos básicos de inclusão e cidadania. Aliás, não é incomum que
se ouça no meio desportivo a velha frase "vencer pelo próprio
esforço".
Bem, sem inclusão fica difícil!
Por trás dessas palavras esconde-se uma verdade bastante indigesta; visto que, o
ponto de partida dos atletas é totalmente desigual devido às opressões sociais.
Portanto, o esporte só será verdadeiramente democrático quando a inclusão e a segurança de minorias estiver acima das prioridades institucionais, e não apenas em rasos discursos de marketing.
