sexta-feira, 31 de julho de 2026

A personalização da raiva


A personalização da raiva

 

Por Alessandra Leles Rocha

 

Quem assistiu ao filme COMER, REZAR, AMAR (2010), a protagonista Liz Gilbert faz uma comparação com a atriz Ingrid Bergman, dentro de uma reflexão sobre a pressão da perfeição, aceitando sua própria imperfeição e reconhecendo o sagrado em si mesma.

Ela diz: “A verdade da aventura aqui na Índia está em uma fala: Deus reside dentro de você, como você. Ele não quer ver uma performance de como alguém espiritualizado se veste e se comporta. A garota quieta que passeia com um sorriso etéreo e gentil. Quem é essa pessoa? É Ingrid Bergman, em ‘Os sinos de Santa Maria’. Essa não sou eu. Deus reside dentro de mim, como eu”.

E por que me lembrei disso? Bem, o discurso contemporâneo sobre a liberdade esconde aspectos bastante importantes para ficarem obscuros ou serem negligenciados. A começar pelo fato de que incide sobre as emoções e os sentimentos uma questão de gênero, que ao longo de séculos e séculos têm causado efeitos extremamente nocivos ao equilíbrio social.

Sim. A divisão social que atribuiu racionalidade aos homens e emotividade às mulheres é uma construção histórica. E essa imposição de papéis limitou a expressão humana legítima e gerou um abismo de desigualdades. Razão pela qual é tão importante questionar e analisar essa questão para que se torne possível romper com esses estereótipos e humanizar o direito ao sentimento, como um passo fundamental para uma sociedade mais justa e saudável.

Quantas vezes você já não ouviu, por aí, alguém rotular uma mulher como “histérica”, “descompensada”, “briguenta”, “barraqueira”, ..., quando ela estava expressando a sua raiva?! Por trás desses e outros adjetivos pejorativos o que se esconde é a existência de uma imposição social que pune as mulheres, desde crianças, a não manifestarem suas emoções e sentimentos a fim de não ferir os padrões sociocomportamentais preestabelecidos para elas. E quais são eles? Bem, a partir dos adjetivos você descobre. Submissa. Dócil. Delicada. Abnegada. Recatada. Protetora. Prendada. Zelosa. Maternal. ...

Mas, se um homem fala mais alto, ou xinga, ou bate a mão na mesa, ou discute, ninguém diz absolutamente nada. Porque, segundo as históricas convenções do patriarcado, o sistema social em que o homem detém o poder principal, tal comportamento está alinhado à sua liberdade de expressão. Isso significa que ele foi historicamente legitimado pela sociedade, diga-se os seus próprios pares, para se comportar dessa forma.

Acontece que é parte da natureza humana a manifestação das emoções e sentimentos. Isso não tem nada a ver com gênero. Reprimir o que sentimos, o que pensamos, vai contra a nossa própria biologia. Emoções e sentimentos funcionam como bússolas internas que auxiliam no modo como o ser humano se coloca diante do mundo e reafirma o seu papel social como cidadão.

E pensando à luz da contemporaneidade, esses são tempos em que o volume cotidiano de tensões desnecessárias é tão grande, que por mais que se deseje manter uma aura zen budista, quando o indivíduo se dá conta ele (a) já explodiu. Aliás, eu trago um pouco desses estopins na crônica “A desumanização nossa de cada dia” 1, apontando como esse é um assunto muito sério.

Afinal, grande parte da raiva sentida nasce justamente do processo de desumanização. O que no caso das mulheres é acrescido pela arbitrariedade de uma repressão protocolar das emoções e dos sentimentos. Como se ela fosse obrigada a passar pelos episódios de desumanização e não tivesse o direito de expressar suas emoções e sentimentos, porque é mulher. Desse modo, em termos de dor, de sofrimento, de violência, as mulheres são obrigadas a aceitar a revitimização das desumanizações sofridas para não fugir aos protocolos e etiquetas sociais historicamente definidos para elas.

Mas, a pergunta que não quer calar é: até quando? Ora, as mulheres têm total direito de sentir e expressar suas emoções, seus sentimentos, incluindo a raiva. Estamos falando de algo que traduz uma resposta natural do corpo humano diante de injustiças ou limites violados. Portanto, a raiva não deve ser negada a ninguém por causa do gênero.

Reconhecer e expressar a raiva evita o adoecimento emocional decorrente do acúmulo de emoções e sentimentos reprimidos. Por isso, ela impede o esgotamento emocional e ajuda a impor limites necessários. Sim, ela avisa quando um limite pessoal foi violado ou quando alguém sofre uma injustiça, fornecendo a energia necessária para mudar situações abusivas ou desconfortáveis.

Não se esqueça de que a raiva guardada se transforma em tensão muscular, dores de cabeça, problemas digestivos e baixa imunidade. O que em longo prazo faz emergir o adoecimento mental, que significa um acúmulo contínuo de raiva e outros sentimentos negativos capazes de gerar quadros de ansiedade, de ressentimento periódico e de depressão.

Razão pela qual reprimir a raiva funciona como uma panela de pressão, ou seja, o resultado final costuma ser uma explosão desproporcional.

Assim, a chave para a saúde mental não é evitar a raiva, mas buscar alternativas e caminhos para lidar com ela. Começando pela validação dos próprios sentimentos e emoções, como algo legítimo e humano. Ainda que estejamos falando de raiva.

Depois, canalizando a expressão, a partir de uma forma mais assertiva ou descarregando toda a fúria energética de forma segura através de exercícios físicos ou de escrita terapêutica, por exemplo.

O fundamental é não esquecer de que essas sugestões não são um manual infalível. Às vezes vai dar certo. Outras não. Afinal, a vida é assim, na sua dinâmica de altos e baixos, de idas e vindas, porque todo ser humano é um ser em franca construção.